2 de fevereiro de 2018

Rascunho

Todo mundo sabe quem eu sou. Não que eu seja a Beyoncé ou a Angelina Jolie, mas as pessoas sabem quem sou eu, pelo menos as do meu país. Vira e mexe eu apareço em revistas, as vezes uma matéria, as vezes uma foto no editorial de moda, as vezes um paparazzi e de vez em quando uma capa, mas essa última só de vez em quando, não fica bem para mim sair sempre em capas de revistas, pode parecer exibicionismo.  Deus livre Dellávia de uma princesa exibicionista. Palavras da minha mãe.

E eu não estou reclamando, gosto de quem eu sou, de ser princesa e de saber que um dia serei a rainha de Dellávia, como é minha mãe, como foi minha avó e tantas outras mulheres antes dela. Gosto de saber que eu posso fazer a diferença no mundo e na vida de tantas pessoas e desde criança tenho sido preparada para isso, para ser uma boa rainha. Morro de medo de não conseguir, mas mal posso esperar para tentar.

Até lá, eu sou uma princesa. E quando digo que não sou a Beyoncé ou a Angelina Jolie, quero dizer que não canto, danço ou atuo, não desfilo, não escrevi nenhum livro (ainda, toda rainha aposentada acaba escrevendo um livro, quem sabe?), ou abri uma empresa e não governo ainda. Minha vida se resume a ser uma princesa e tudo que uma princesa tem é o futuro, até lá precisamos resguardar nossa imagem e garantir que ela não atrapalhe ou ofusque nosso futuro governo.  O problema é que com a realeza vem a notoriedade, como eu disse, todo mundo sabe quem eu sou, e todo mundo tem uma opinião sobre quem eu deveria ser e se eles decidirem que não gostam de mim pode ser que eles não gostem de me ter como rainha, pode ser que eles nem queiram tentar, ou que logo no início do meu reinado eles já decidam que sou uma má rainha. E eu sou filha única, então se eles, meu povo, não gostarem de mim, eu preciso renunciar e quem assume como rei é meu tio.

Meu tio é um babaca.

Então, sem pressão, mas eu não posso sair da linha, nunca pude, sério, meus dois seguranças tem autorização para me segurar fisicamente caso eu vá fazer alguma coisa estúpida. E agora eu estou indo para a faculdade. Adivinha quem não vai aproveitar nada? Isso mesmo. Eu.  

1 de fevereiro de 2018

Espelho, espelho meu

É muito difícil observar alguém sofrendo como você já sofreu, pelas mesmas coisas. Cada momento de aflição para a pessoa é um momento em que você relembra seu próprio sofrimento. Você tenta aconselhar, tenta ajudar, deixar a pessoa mais calma, que ela pelo menos saiba que não está sozinha, mas ao mesmo tempo você sabe que ela não vai escutar, porque você não escutou, porque você achou que não iria acontecer com você, que aquela era a realidade da pessoa que te falava e então... então você vive essa realidade e não percebe que tentaram te avisar. Pelo menos até que a ficha caia e você perceba que está no mesmo barco que aqueles que tentaram te ajudar.

A menina nova do meu trabalho tem sofrido com o chefe, as reclamações dela são tão familiares aos meus ouvidos que me fazem suspirar de pena e contenção. A vontade de levantar do meu lugar e ir falar tudo o que penso é grande, mas respiro fundo, digo para ela fazer o mesmo, que ele não vai mudar, que as reclamações dele não querem dizer que você seja ruim no seu trabalho, é só que ele é controlador, porque é inseguro. Diz que quer que sejamos autônomos, mas monitora até a fonte dos nossos e-mails. Diz que quer pró-atividade, mas tudo deve passar pelo crivo dele antes de acontecer. Não é algo que nós possamos entender, temos apenas que aceitar e fazer como ele quer, porque ele que paga o salário. E racionalmente falando parece bem simples, não é mesmo?

Mas ela está no escritório há duas semanas e teve crises de choro, noites em claro e até estômago ruim por causa da pressão dele nela, das revisões, das críticas e "padronização". E eu? Eu estou com os hormônios regulados, tendo duas semanas mais calmas, enquanto o foco está nela, e sofrendo por antecipação por saber que dia 05/02 paro com os hormônios de novo, e ficarei mal de novo e levarei o que ele diz para o pessoal, e sofrerei e não sei como vou lidar com isso agora. 

31 de janeiro de 2018

Histórias para contar

Eu quero escrever um romance real, nada de mocinha hiperfragilizada, quero uma heroína forte e vulnerável como qualquer mulher por aí. Quero personagens diversos e empoderados, negros, gays, bissexuais, mulheres... E Deus me livre de clichês! Quero uma história bem contada que faça as pessoas se identificarem e rirem, e chorarem e pensarem que aquela história elas gostariam de viver, aquela história elas poderiam viver.

Quero escrever uma história que faça as pessoas se sentirem como eu quando leio um livro que amo, o problema é que leio tantos livros, cada um de um contando uma história e me trazendo sentimentos diferentes dos outros. As vezes acho que quero juntar tudo de uma vez... Mas não da, o livro explode.

Preciso começar simples. Uma menina e um menino. E entre tantos personagens da minha cabeça não consigo escolher um deles. A princesa ou a advogada? O professor ou o engenheiro? Eles ficam juntos no final? Eles se separam? Quem são os amigos? Quem é a família? Como se conheceram? Desde quando se amam? Porque não ficam logo juntos?

Preciso sentar um dia, colocar todas as minhas histórias no papel, personagens principais e resumo, e escolher uma para escrever. Assim, tudo esses personagens de mim, deparo suas histórias e crio um fio da meada para cada história. O problema é que quando sai da minha cabeça e vira trabalho fica chato e eu enjoo.

28 de janeiro de 2018

Paciência

Eu acho que esse ano será um longo exercício de paciência. Eu programei uma linha do tempo para ele que já não está sendo seguida... é aquela história, a gente planeja as coisas, então vem a vida e faz o que quer. Mas sinto que apesar de ter meus planos bagunçados alguma coisa vai acontecer, sabe quando você tem aquele pressentimento de alguma coisa vai acontecer? Eu estou sentindo isso. As vezes esses pressentimentos não são nada, mas as vezes eles têm uma razão de ser, ainda não aprendi a distinguir eles. Em todo caso, é começo de ano e até o fim tanta coisa pode acontecer, ano passado foi assim, o inesperado atravessando meus planos e ainda assim a vida dando certo, sinto que esse ano vai ser assim. Sinto que esse ano vai ser bom, mesmo já tendo que replanejar algumas coisas. Eu quero aproveitar mais esse ano, aproveitar mais a vida, sabe? A alegria do dia a dia, ir mais ao museu, ao teatro, passear ao ar livre, aprender alguma coisa nova e acho que vou conseguir, em um ritmo lento, com paciência e tentando manter o equilíbrio, acho que consigo.

Mas isso eu digo agora, com os hormônios regulados e o psicológico em paz. Quero ver em 20 ou 30 dias quando estiver sem o hormônio a um tempo... paciência. No momento quero muitas coisas, mas para os próximos dois meses meu objetivo imediato é sobreviver.

9 de janeiro de 2018

Escreve qualquer coisa

Uma das coisas que me propus a fazer esse ano é escrever mais, qualquer coisa que seja, mas mais. Eu gosto de escrever, gosto de pensar em histórias e mergulhar nelas, mas sempre acabo me perdendo em algum lugar entre o mergulho na criação e as batidas nas teclas do computador, que acabam por nunca sair. Eu quero colocar no papel todas essas histórias que tenho em mim, umas mais fantasiosas, outras realistas... minha imaginação viaja entre o possível e o impossível com facilidade, mas meus dedos travam.

Já fazem anos desde que escrevi minha última história completa, acho que uns sete anos. É muito tempo. Desde então tenho escrito meus pensamentos e sentimentos aqui e em alguns caderninhos, tenho feito diários de viagem, tenho escrito peças jurídicas no trabalho e tentado uma ou outra vez começar uma nova história. Mas nunca sai. Eu já falei disso aqui. Eu complico demais a história, eu fico sem um clímax, não consigo pensar no final, então nem começo... e as vezes fico com preguiça de colocar colocar no papel aquilo que está na minha mente, afinal, qual o propósito? Ninguém vai ler; é apenas mais uma história batida; tem tantas outras coisas para fazer;....eu nem vou terminar mesmo.

Esse é o pensamento que vem me assombrando ultimamente: eu nem vou terminar mesmo, vou acabar desistindo em algum lugar próximo a página vinte e ficar ´para sempre apenas imaginando o que poderia ter sido, que deveria ter insistido. Vou até tentar prosseguir algumas vezes, mas a essência da história já vai ter se perdido em mim, então vou desistir de novo, e de novo e... 

Então me propus que esse ano vou escrever mais. Eu quero escolher uma entra as histórias que rodeiam minha mente e tentar colocar essa no papel, não para alguém ver, mas para expulsar de mim essa história, tirar esses personagens e a vida deles da minha mente, deixar ela mais leve. São tantas histórias para contar, presas aqui dentro, me assombrando, pedindo para ser organizadas no papel que eu preciso fazer isso, preciso expulsar essas histórias de mim, umazinha que seja já vai me aliviar espaço. E de quebra eu ainda posso dizer para aqueles que me cobram que sim, escrevi alguma coisa.