12 de agosto de 2017

Obrigada.

É estranho como todo mundo ficou muito preocupado comigo, com meu câncer. Eu mesma não me preocupei tanto, não sei se foi meu senso prático, ou minha racionalidade, mas não fiquei com medo de morrer. Tudo bem, confesso que em um dia da TPM chorei e pedi à Deusa para me ajudar, mas foi só. De resto eu estava muito bem, muito confiante e tranquila.

O resto do mundo não. Minha mãe estava chorando por qualquer coisa, minha avó só ficou sabendo depois da cirurgia para não se preocupar e a palavra câncer não foi mencionada, uma tia tem feito minhas comidas favoritas o tempo todo, a outra pediu para os guias espirituais da religião dela acompanharem minha cirurgia e me mandou mensagens diárias para saber como eu estava, assim como a filha dela, minha prima. Ainda tem mais uma prima que mandou mensagem tentando tranquilizar minha mãe, a mãe dela veio de Itu para passar o dia comigo e minha mãe no hospital, uma outra tia (sim, tenho muitas) passou a manhã toda ao lado da minha mãe enquanto eu operava e no outro dia estava lá cedinho de novo para acompanhar minha alta e ter certeza que nós teríamos carona para voltar. No trabalho que eu entrei há dois meses me fizeram um cartão com votos de boa cirurgia e dizendo que sentiriam saudade nessa semana que ficarei fora. Minhas amigas também mandaram mensagem, meu amigo vem em casa me visitar semana que vem... Meu irmão marcou uma consulta em uma hora com um cirurgião, foi nas consultas, acompanhou a cirurgia e visitou no hospital de noite...

Foi uma enxurrada de amor. Desde que todo mundo ficou sabendo recebi uma enxurrada de amor por algo que nem me preocupava tanto, mas que tendo esse amor todo ao meu redor ficou muito mais fácil de lidar. É estranho porque não estou acostumada com todo esse amor, toda essa demonstração, eu só sei agradecer a cada mensagem e também acho que isso é tudo que posso fazer, porque acima de tudo eu sou grata de ter tanta gente ao meu redor que se preocupa comigo... na verdade, todo mundo que está ao meu redor demonstrou preocupação então, o que mais posso fazer?

4 de agosto de 2017

Covarde

"Não seja covarde, ainda mais na sua idade, é muito feito" - meu chefe.

Ele me disse isso porque eu disse que não sabia se conseguiria escrever sobre determinado tema, a resposta dele foi essa. E eu nem fiquei chateada, brava ou nada. Eu simplesmente dei uma risadinha enquanto pensava silenciosamente sobre como essa frase se aplica a outros pontos da minha vida. Chega a ser ridícula a velocidade com a qual pensei que essa "reprimenda" se aplicava também a minha escrita de forma geral e não apenas àquele artigo que ele me pediu.

Eu vivo com medo de não escrever uma boa história totalmente minha e por isso nem começo. Covardia. Nem se quer tentar é pura covardia. E eu sei que tem muita gente aí pior que eu, e na verdade nem sei porque exijo tanto dos meus escritos. Meus escritos deveriam ser colocados no papel por mim, para me agradar, e não para agradar os outros. Mas mesmo assim não escrevo por medo da opinião dos outros e acabo fazendo autocríticas severas demais. No fundo não passa de covardia.

Medo do que os outros vão achar, de não dar certo aquela história, de desistir, de terminar e não dar em nada, de perder tempo, de me jogar de cabeça em uma história que não vai me levar ou ser levada a lugar algum. De não ser tão boa quanto eu penso.

E as páginas vão ficando em branco enquanto choro minhas pitangas por aqui. Covarde.

2 de agosto de 2017

História de bairro

Eu sou capaz de criar uma história completa na minha cabeça com apenas um olhar para alguém. A pessoa não precisa me olhar, basta um olhar meu para ela e não necessariamente eu farei parte dessa história.

Eu crio uma história de vida para a velhinha que eu encontro pelas ruas do meu bairro, a pobre viúva cujo filho único só vem visita-la nos fins de semana. Ele é casado, a mulher está tentando engravidar e eles moram fora da cidade, em cotia, então não dá para ir sempre ver a mãe. Eles já tentaram leva-la para casa deles, mas ela não quer deixar o apartamento onde viveu a vida toda com o marido... tantas lembranças. Então ela vai ficando ali, andando sozinha pelo bairro enquanto ainda pode andar, se perdendo frequentemente e cada vez mais voltando para casa sem saber porque saiu em primeiro lugar. A memória não é mais uma boa amiga para ela, mas os ouvidos dos passantes ainda ocupam seu tempo e ajudam a acalmar sua solidão.

Passantes como aquela jovem loira que eu encontrava sempre no ponto de ônibus. Ela trabalhava em uma escola na vila mariana, era professora primária. Veio de uma família boa e adora crianças, nunca ligou muito para dinheiro, mas sua mãe quase enfartou quando soube que ela seria professora. Que futuro tem professora no Brasil? Mas a moça terminou a faculdade, arranjou emprego em uma escola particular perto de casa e adora seus alunos. O salário é ingrato, as vezes o arrependimento bate, normalmente junto com o cansaço, mas ela não desiste não, vai começar a pós graduação... sabe que não conseguiria viver sem aqueles mini-sorrisos na sua vida.

Sorriso aberto que nem o do velho. Ele trabalha meio sem trabalhar, passeia e adestra cachorros, é um amor pelos bichinhos que dá até gosto de ver, são seus companheiros. Tem uns amigos pelo bairro, mas mora só com seu fiel escudeiro, recém adotado, ainda não é muito educado, mas está aprendendo. E o velho te conta todas as suas peripécias quando cruza com você na rua, as dele e as do cachorro, sempre com um sorriso orgulhoso no rosto, que nem pai quando vê o filho aprender algo novo. É cheio de vida e alegria, sempre andando bem acompanhado, falante e nada solitário.

São histórias que eu possivelmente nunca vou saber se são verdadeiras, mas que me ajudam a passar o tempo, exercer a imaginação. É como se pensando as histórias dos outros ficasse mais fácil escrever a minha... as minhas.

25 de julho de 2017

Aqui e agora.

Eu estou acostumada a viver em função do futuro, é o que eu sempre fiz, o que eu sei fazer melhor. Quando criança vivia esperando meu aniversário, as férias, o fim de semana... conforme fui crescendo passei a ter desejos mais concretos e vivia esperando por coisas mais específicas, como a aprovação na escola, que aquele garoto me notasse, que eu ganhasse algo específico de presente... até que comecei a sonhar com o futuro se verdade. O futuro lá adiante, onde eu seria uma adulta, dona de mim e vivendo coisas incríveis. Eu fazia histórias sobre isso, contava para as minhas amigas que diziam que eu era sonhadora, como se fosse ruim, mas secretamente elas sonhavam junto comigo.

O tempo foi passando e eu virei adulta. Eu sou uma advogada recém-formada, cursando pós-graduação e trabalhando em um pequeno escritório no centro da cidade. Eu estou vivendo coisas legais, mas não estou vivendo aqueles sonhos que tinha. Estou muito mais em um esquema metrô-boulot-dodo, transporte-trabalho-cama. Acho que no fundo é isso que acontece com todo mundo que trabalha em horário fixo, ou com todo mundo que trabalha at all, mas sinto que estou fazendo nada da minha vida.

Meu grande sonho no momento é conseguir ir morar em outro país, mas é um plano a longo prazo, para o qual preciso juntar dinheiro. Ele está em ação, estou juntando dinheiro, trabalhando no meu inglês, no meu alemão, depois de operar a garganta vou fazer um coaching ou orientação vocacional e não tem muito mais o que fazer nesse sentido. Eu agora precisava fazer aquilo que minha psicóloga vive dizendo: aproveitar o caminho.

É um desafio para mim. Viver no presente. Uma coisa bastante nova, mas acho que agora é a hora. E nesse meio tempo vou aproveitando para descobrir hobbies novos, me descobrir um pouco.

9 de julho de 2017

O medo da palavra

É engraçado, quando você tem uma doença séria e conta para os outros, seus amigos, família, pessoas próximas, você imediatamente precisa emendar com um "Mas é só operar" ou "O tratamento é simples", para pessoa mudar a expressão de pena e/ou preocupação dela. O nódulo que eu tenho na tireóide é câncer, um tipo comum e de tratamento simples, mas essa palavra, "câncer", quando pronunciada faz as pessoas se assustarem, pensarem no pior e aí eu emendo falando que vou fazer a cirurgia para tirar e vai ficar tudo bem.

Na minha família só minha mãe e meu irmão sabem, não contei para mais ninguém porque não queria assustar eles. Mas como já vinha contando para as meninas sobre o assunto, precisei contar para elas o resultado do exame, fui estratégica, contei o nome científico da coisa, carcinoma papilífero. Elas ficaram achando que era algo simples e sem seriedade, como eu queria, não quero elas preocupadas. Mas ao mesmo tempo... Eu estou preocupada.

Eu falo com tranquilidade do assunto e o médico disse que ninguém morre desse câncer, mas é aquela coisa, né? A palavra... já estou fazendo os exames pré operatórios e vou tirar a tireóide, vou precisar fazer radioiodoterapia (tomar um comprimido de iodo no hospital), depois vou precisar tomar hormônio pelo resto da vida. Não é esse lado prático das coisas que me assusta, esse lado eu entendo e não tenho medo. Me assusta saber que meu corpo me traiu, não que eu o trate bem, mas ele cresceu um negócio ruim para mim, será que eu não deveria tomar isso como um sinal para mudar alguns hábitos? Até porque, se eu vou tirar a tireóide, a tendência é que minha pré disposição para engordar piore, logo agora que eu estava tão feliz com meu corpo, vou precisar me alimentar melhor, fazer exercício, tomar cuidado com meu corpo para sempre, algo que eu nunca realmente fiz direito.

Minha psicóloga falou para eu pensar sobre esse nódulo, sentir um pouco. Eu não queria fazer isso porque tenho tendência de surtar com besteiras, mas como ela pediu... Eu estou com medo de fazer a laringoscopia e descobrir que o câncer invadiu minhas cordas vocais, ou de na cirurgia ter minhas cordas vocais danificadas, mesmo sabendo que a chance é muito pequena para ambos os casos, estou com medo de depois engordar e nunca mais me sentir feliz com meu corpo, estou com medo de ficar dois ou três dias no hospital para tomar o iodo e não ter absolutamente nada para fazer, estou com medo de que de alguma forma eu tenha causado isso em mim mesma, mesmo sabendo que cientificamente no há razão para esse câncer e lá no fundo, sem razão nenhuma de existir, escondido e quase sufocado, tem um medinho de que os exames estejam errados e tudo seja mais sério do que parece e possa morrer.