11 de abril de 2018

Talvez já tenha falado sobre isso...

... mas as vezes, com a minha família, sinto que estou gritando em silêncio. Como se berrasse e ninguém escutasse uma palavra do que digo.


Hoje tive uma discussão com a minha mãe. Informei a ela sobre um processo e repeti o que o advogado falou sobre o caso, sou da mesma opinião que ele, mas o fato de eu ser filha dela e advogada deveria ser uma razão a mais para ela acreditar em mim, considerar minha opinião. Não. Ela não se conformou com a notícia e depois de tentar explicar algumas vezes o que significava ela simplesmente me fechou, parou de escutar e disse que não queria mais discutir, que iria falar com o advogado amanhã. Ela sempre faz isso quando brigamos, tento mostrar outro lado da questão para ela, propor outro ponto de vista e em um misto de não querer ver, porque não é a visão dela e porque quem está falando sou eu, ela encerra a discussão fechando os ouvidos.

Até hoje não tinha percebido como ter minha opinião ignorada me feria. Isso me deixa tão puta! Não é escutar uma opinião e depois se decidir por outra coisa, é simplesmente nunca levar nem em consideração essa opinião.

Me dar conta disso me fez pensar. Pensar em como me sinto desconfortável ao dar minha opinião em público ou para "autoridades", em fazer perguntas na frente da sala ou apresentar minhas ideias. Fiquei pensando se esse medo de parecer idiota na frente de pessoas que respeito e admiro não tem a ver com meus pais terem feito eu me sentir assim ao longo do meu crescimento. Eles sempre desmereceram minhas opiniões, principalmente quando não concordavam, eles diziam que eu era muito criança e não sabia de nada... minha mãe até hoje faz isso, de certa forma.

E não ter voz me incomoda, incomoda muito, eu nunca tinha percebido quanto. 

25 de março de 2018

The other shoe

Agora que a iodoterapia já passou não tem mais nada no meu caminho, nenhuma grande preocupação e eu fico inquieta com isso. Fico achando que quando eu menos esperar vai aparecer alguma coisa para me surpreender negativamente, como se as coisas nunca pudessem ficar bem na minha vida. É fato que não importa meus planos, a vida acontece como ela quer e ela sempre me surpreende de uma forma um pouco negativa, então fico com medo de qual vai ser o próximo desafio.

Eu ainda estou esperando o resultado dos exames pós tratamento, ainda estou tomando o cálcio e tentando acertar a dosagem do hormônio, meu paladar está esquisito desde que tomei o iodo e eu meu trabalho é algo que nunca tomo por garantido, porque o temperamento do meu chefe me impede de me sentir confortável. E ao mesmo tempo em que essas coisas não me impedem em nada em seguir em frente, sinto como se esses resultados dos exames e o meu chefe fossem impeditivos de desfrutar a vida.

É verdade que eu ainda não me recuperei totalmente da falta de hormônios, acho que ainda vai levar mais um mês para eu me sentir eu mesma de novo, mas ao mesmo tempo acho que a falta de hormônios dessa vez foi mais suportável e que ser feliz é possível. Estou com medo do resultado dos exames, não vou mentir. Medo de ainda não estar curada, de precisar fazer mais algum tratamento. Tenho medo de nunca mais ter meu paladar normal de volta também. E tenho medo do futuro. Agora não tem mais nada no caminho do meu futuro, nada me segurando, estou empregada, estou saudável (espero), estou pronta para fazer mais do que apenas juntar dinheiro. O IELTS está chegando, dá medo de não tirar uma nota boa, mas tenho esperanças de ir bem e depois poder estudar francês, me dedicar mais ao alemão, me inscrever nas faculdades... partir.

Esse futuro que por tanto tempo me pareceu tão inatingível está chegando e mesmo já tendo um plano traçado eu estou me sentindo um pouco perdida, meio que esperando a próxima notícia ruim que vai me impedir de seguir nessa viagem.

18 de março de 2018

Finitude


Meu tio morreu essa semana. Ele não era meu tio de sangue, era marido da minha tia, mas era meu tio. Aliás, era mais que isso, era pai dos meus primos e foi essa a primeira coisa que eu pensei quando soube que ele morreu. O pai dos meus primos morreu, o marido da minha tia... eu já estive nesse lugar. E, de repente, me veio à memória o dia que meu pai morreu, o velório, o enterro e como nós passamos por aquilo tudo em um misto de reconhecimento e suspensão, como se você estivesse vivendo aquilo, mas não realmente absorvendo tudo. Lembro das pessoas me falando para ser forte pela minha mãe, lembro de dormir e esperar que quando acordasse estivesse tudo bem de novo e lembro de como apenas realmente senti o que aconteceu dois dias depois quando sentei no computador e escrevi sobre aquilo.

Eu não chorei com a morte do meu tio, soltei uma lágrima ou outra, mas também não pude ir ao velório, por causa do trabalho. Fiz questão de falar com cada primo e com a minha tia, dizer a cada um deles algo único e que eu gostaria de ter escutado ao invés de ouvir que eu tenho que ser forte. Falei do cansaço físico que a gente sente, falei que a dor passa, que tudo bem se apoiar nos outros, que ele está bem e quem sofre somos nós, mas a vida continua e a gente sobrevive. A relação deles com o pai era diferente da minha, mas eu falei mesmo assim e acho que em alguma coisa consegui ajudar.

É engraçado né? Como as vezes a vida nos choca com a sua finitude, no último ano fui chocada duas vezes, com a morte inesperada do meu tio e ficando doente... acho que ainda estou com medo dessa finitude, medo dos resultados finais dos meus exames... E o ser humano consegue ser tão complexo: chocada com a finitude da vida e ansiosa com o trabalho ao mesmo tempo. Medo de um chefe babaca ocupando o mesmo espaço de preocupação de ainda ter câncer. Talvez seja porque meu câncer é meio café com leite, mas que é paradoxal, isso não posso negar.

12 de março de 2018

A gente dá um jeito.

Talvez a depressão só venha bem no finalzinho mesmo, quando já acabou e eu já estou voltando a tomar meus remédios, porque no momento é isso que tenho sentido.

Uma vontade imensa de chorar, uma sensação de querer fazer alguma coisa e ao mesmo tempo não querer sair da cama, um sentimento de desolação cada vez que penso em voltar ao trabalho ou em enfrentar a vida de forma geral. Vontade de chorar. Só chorar. Eu nem sei dizer de onde vem essa vontade, mas de repente ela enche meu peito e transborda para meus olhos, minha voz. E não tem um padrão, é só uma onda que vem e me domina, com um filme, uma frase no livro que estou lendo, uma mensagem, uma lembrança....

Hoje me deu uma saudade do meu pai, uma vontade de ter ele aqui comigo e eu sei que a simples presença dele não ia mudar nada, mas eu queria ele aqui e o simples lembrar dele de repente me dá uma saudade, uma vontade de chorar, uma sensação de que se ele estivesse aqui estaria tudo bem, que ele saberia me apoiar e me confortar de um jeito que minha mãe nunca soube. Ele nunca teve problema em me dar razão e as vezes tudo que eu quero é ter razão, mesmo quando não tenho. Minha tia disse que ele olha por mim e se preocupa e eu queria dizer que não precisa, que eu sou forte e vou ficar bem e geralmente é exatamente o que eu faria, mas esses dias... esses dias não sei se vou ficar bem, não sei se sou forte. Tenho medo de que esse ciclo que estou vivendo no trabalho nunca acabe, que eu nunca possa me sentir de novo plenamente feliz... e se eu for uma dessas pessoas que nunca é realmente feliz?

Deve ser essa depressão falando. O tal demônio do meio dia que chegou de novo, mas que com sorte e meus hormônios regulados irá embora. Eu só preciso focar, preciso respirar fundo e achar minha força, ela está ali, eu sou uma das pessoas mais fortes que a gente conhece, eu só preciso lembrar disso e continuar a andar. Só andar. O resto a gente dá um jeito.

4 de março de 2018

R.E.S.P.E.I.T.O. - Parte 2

Eu comecei falando do meu primeiro trabalho ruim porque quando saí de lá achei que estaria preparada para o próximo ruim, afinal, eu havia vivido uma experiência com um chefe ruim e sobrevivi. Mas acontece que a vida nunca é tão simples, né amigos?

Depois eu tive/estou tendo uma experiência pior, mais frustrante e desgastante. Por isso disse que acredito que na vida vivemos experiências até aprendermos com elas. Eu precisava aprender algumas coisas e viver essas experiências me ajudaram a enxergar a necessidade desses aprendizados. Eu sou muito dependente da opinião dos outros e passar por chefes que não se importam minimamente comigo e sempre diminuem meu trabalho me ajudou a perceber isso. Me ajudou a perceber que preciso mudar e me deu um empurrão. Só o tempo irá dizer o quanto realmente aprendi e mudei, mas pelo menos agora vi o problema e com esse chefe mudei de postura. Parei de tentar agradá-lo e decidi me impor um pouco mais, em que pese o risco dessa decisão (ser mandada embora) me sinto satisfeita, pois estou respeitando o meu limite e tentando não aceitar ser tratada de modo inferior ao que acho digno, mesmo que isso o desagrade.

Tenho medo de não conseguir enxergar a situação de novo caso ela se repita, ou de que não conseguiria seguir com essa determinação se não contasse com o apoio da minha mãe. Além disso, quando saí do meu primeiro trabalho ruim achei que houvesse aprendido a não querer agradar chefe e depois me encontrei sofrendo por não agradá-lo. É muito difícil me desvincular, muito difícil mudar, é uma característica minha e agir assim é natural... mas também é dolorido e por isso estou tentando mudar, vamos ver o que o tempo vai me mostrar sobre o sucesso dessa empreitada.