10 de dezembro de 2017

O tempo é curto

É engraçado parar para pensar no tanto de coisa que mudou e não mudou entre o ano passado e esse. Eu sinto como se tudo tivesse acontecido em um segundo e ao mesmo tempo como se eras tivessem passado.

Eu não vi, não percebi que o tempo não parou, sempre tão focada no futuro que deixo o presente passar sem perceber. Eu vivo o presente, mas não percebo ele passando por mim. Talvez por isso que eu queira tocar o foda-se, me experimentar livre uma única vez. Nada definitivo, pelo menos não se eu não gostar. Porque o tempo vai passando e a vida escorrendo entre nossos dedos e nós sempre tão focados em ganhar dinheiro, nos preparar para o futuro, e para que exatamente? Não seria melhor apenas viver a vida? Eu entendo a racionalização de tudo, a filosofia e a realidade que se conflitam, mas talvez elas não precisem conflitar tanto.

Eu percebo pequenas mudanças em mim, mudanças que se acumularam ao longo dessas eras pelas quais passei. Uma maior vontade de aproveitar o que a vida tem a me dar, um medo menor da opinião do outros, ele ainda é grande, mas está diminuindo, um senso mais forte das minhas vontades... ainda que saber quem a gente é é algo muito complicado. Mas acho que o que eu mais tenho sentido é uma vontade maior de experimentar as coisas, não sei se é o câncer ou só as mudanças da vida mesmo, mas tenho sentido vontade de viver coisas novas, de aproveitar oportunidades diferentes, de me jogar um pouco mais. Eu tenho sentido que a vida é curta demais para gente desperdiçar sendo infeliz.


7 de dezembro de 2017

O que é dar um passo atrás?

Na névoa do meu pós operatório, entre a anestesia e a consciência, meu irmão me deu conselhos de carreira. Obviamente não me recordo de nada com clareza, apenas de eu lhe dizer que estava pensando em trabalhar em navio e que dependendo do cargo era um salário bom, puxado, mas ganharia mais do que como advogada em terra firme. A resposta dele me vem em flashes, flashes dele me perguntando se eu estava doida, que não era bem assim, que se eu não quero ficar onde estou preciso trabalhar em caminhar para frente e não em dar passos atrás. Disse que não era um passo atrás, era um meio para um fim, juntar dinheiro para ir para o exterior estudar algo que me interesse mais e ele repetiu que não era bem assim, que morar fora é difícil, que eu nem sei se vai dar certo. Lembro de eu responder que se não desse certo tudo bem, que eu tinha que tentar e aí minha memória embaça de vez e não me lembro de mais nenhum flash com claridade.

Eu queria o apoio dele para viver essa aventura, mas ele não me deu e isso me deixa mais insegura quanto aos meus planos. Ele já morou fora, ele sabe como é difícil, ele é mais velho e tem mais experiência. Mas ele não tem experiência no meu campo de trabalho, ele não sente nele essa vontade que eu sinto em mim de sair, de abrir as asas e voar um tempo. Eu sei tudo que eu tenho a perder. Eu sei que se quiser voltar não vai ser nada fácil, que encontrar um emprego vai ser muito difícil, que estarei atrás dos colegas na disputa por ter tentado algo diferente. Sei que posso dar errado lá fora, viver uma vida medíocre e em cinquenta anos morrer cheia de arrependimento da vida que vivi. E eu tenho medo dessas possibilidades, medo de dar um passo errado aqui e agora e nunca mais ser feliz, tenho medo disso todos os dias.

Mas se eu não tentar sempre vou me perguntar o que poderia ter sido. Eu não tenho problemas em dar passos atrás, de dar meia volta e mudar de caminho, chegar onde quer que seja atrasada porque a ideia inicial era ir para outro lugar. Desde que isso parta de mim. Eu odeio mudança de planos no meio do caminho, mas essa conversa fez eu perceber que odeio isso quando parte dos outros, se o plano mudar porque eu quis, porque achei necessário, tudo bem. Certos planos simplesmente não foram feitos para dar certo.

E, sinceramente, o que é dar um passo atrás na vida? Mudar de ideia? Ganhar menos? Fazer um trabalho mais braçal? Eu entendo que para ser feliz é preciso dinheiro, entendo que é necessário ter um certo plano a longo prazo e que a vida não é feita só de experiências sem destinação, mas dar uma pausa, dar "um passo atrás" não vai arruinar uma vida inteira. Vidas são coisas em constante mudança e para que elas sejam arruinadas é preciso uma série de eventos dos quais uma pessoa não é capaz de se recuperar. Eu não tenho vícios, tenho força de vontade, uma cabeça boa e um plano mais ou menos delimitado a longo prazo que nem é tão difícil assim de conquistar... entre os tropeços e erros de caminho é nisso que preciso me focar, em saber levantar e continuar andando mesmo com os socos que a vida me der.

3 de dezembro de 2017

Trabalho

Sinto que não posso cometer nenhum erro, não porque serei demitida ou algo assim, mas porque erros custam caro. Errar significa ter que dar satisfações ao cliente, significa a possibilidade de perder o cliente. Você comete um erro e o cliente perde a confiança, acha que você não tomou o devido cuidado com o dinheiro dele, com a causa dele. Essa necessidade de perfeição me causa ansiedade, me deixa distraída. Como a pressão me causa ansiedade acabo querendo sair daquela situação desconfortável o mais rápido possível e daí vem a pressa de acabar a tarefa e a pressa me leva aos erros.

Eu quero um trabalho sem essa pressão por perfeição, mas será que ele existe? Em todas as profissões você precisa lidar com pessoas, com as expectativas e exigências do cliente/paciente e a possibilidade de desapontá-lo. Como eu aprendo a lidar com essa pressão? Com a intolerância à erros?
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Talvez se trate de se responsabilizar pelos interesses dos outros. Como advogada eu sou responsável por determinados negócios do meu cliente que se derem errado e ele perder dinheiro a culpa será minha. Eu acho que estou meio cansada de ser responsável sempre, responsável por mim e pelos outros. Eu sempre fui a responsável e agora esse é meu trabalho, mas agora eu também estou mudando e ser a responsável já não é algo que me causa tanto prazer. Eu já não Quero mais me responsabilizar pelos problemas dos outros. Eu posso até ajudar a resolver, mas não resolver só.

Talvez isso tudo não faça sentido algum... São apenas desabafos de quem tenta se encontrar, mas ainda anda perdida, como poderia fazer sentido?

28 de novembro de 2017

Meter o louco


Meu irmão disse uma coisa outro dia que ficou grudada na minha cabeça: "as vezes a gente tem que meter o louco, se não não vai". O que ele quis dizer é que quando a gente teoriza demais, pensa demais nas consequências, acaba dando tempo pro medo chegar e uma vez que ele bate na porta você acaba por desistir daquilo. No contexto esse pensamento me pareceu um pouco exagerado e um pouco certo, ele disse isso para o meu tio que acabara de explicar que queria ter filhos, mas casou tarde, não se planejaram, ficaram velhos e agora acham que estão velhos demais e que não dá. Meu irmão, por outro lado, engravidou a namorada por acidente e agora está com uma família bonita há quase três anos, vida corrida, stress e no fim do dia feliz.

Mas não preciso radicalizar e aplicar o pensamento à ter filhos, posso pensar em coisas menores, como empregos, amores, rotinas. Eu sempre penso tanto no futuro, me planejo, quero fazer tudo certinho, vivo com o pensamento lá na frente e acabo não aproveitando tanto a vida. Eu fico tão presa a minha cabeça, ao que os outros vão pensar, ao certo e errado, ao melhor jeito de fazer tudo e acabou dando tempo para o medo entrar e me travar. As vezes a gente precisa meter o louco... as vezes eu preciso meter o louco.

Hoje fiquei pensando nisso e fiquei pensando se não é essa minha lição de vida com o câncer, todo mundo tira uma dessas lições de períodos difíceis, né? Como se ter uma doença grave fosse sinônimo de reflexão filosófica e principiológica da vida. Talvez a minha seja que de tanto querer me planejar e fazer as coisas do jeito certo e pensar no futuro acabo por ficar bitolada demais. Eu nunca faço nada do que eu quero porque fico pensando nos reflexos que aquilo pode ter no meu futuro, mas a vida é curta demais para se viver em função do amanhã, principalmente porque eu posso não estar aqui. Eu tirava notas boas para entrar em uma faculdade boa; eu fiz três anos de cursinho querendo usp porque sabia que o mercado de trabalho lá na frente seria mais fácil assim; eu estudei na faculdade e não peguei dp porque assim tinha mais chances de ter empregos melhores no futuro; eu comecei a estagiar cedo porque queria dinheiro e guardar dinheiro para o futuro e ter melhores experiências para quando me formasse conseguisse melhores empregos; eu estudei línguas porque gosto, mas também porque sabia que poderia ser um diferencial no meu currículo lá na frente; eu comecei a pós porque quem sabe eu lá na frente desista de morar fora e queria voltar ao Brasil e advogar, precisava da vantagem competitiva... e por aí vai.

Agora estou numa fixação por trabalhar em navio cruzeiro e disse para mim mesma que é porque é uma forma de ganhar muito dinheiro em pouco tempo, mas no meu coração o que eu quero mesmo é meter o louco, conhecer outros lugares, juntar uma grana e viver uma experiência diferente.

Claro que meter o louco de vez em quando é diferente de ser irresponsável toda vida, mas é a consciência de que um erro aqui e agora não vai arruinar minha vida nos próximos 50 anos... vai ficar tudo bem.   

7 de novembro de 2017

Coragem de que?

Outro dia li um texto sobre como a música Evidências é amada por ser exatamente o oposto das músicas de hoje. As músicas de hoje negam o amor, pregam amores, paixões, independência e autossuficiência. Evidências é uma declaração de amor, é o grito daquilo que te sufoca o peito, é o não ter medo de ser ridículo por amar demais, a glorificação da declaração de amor piegas e sincera, sem medo de ser feliz. Pelo menos a conclusão do texto era algo nesse sentido.

Fiquei pensando que o autor tem razão, hoje temos vergonha de amar e não ser amado de volta, medo da rejeição e um orgulho maior do que antigamente. É quase como se tivéssemos medo de nos jogar de cabeça e nos machucar. Eu entendo. Sou a encarnação viva desse presente. Medrosa desde sempre e de tudo. Mas esse medo de se machucar priva a gente de tanta coisa boa, né? Se eu não me jogar de cabeça nunca vou ter histórias para contar, nunca vou vou viver coisas boas por medo das ruins.

Para viver a vida é preciso dar a cara a tapa e se jogar. Demonstrar amor não é sinal de fraqueza, mas sim de força, de saber o que se quer da vida. Quem acha o contrário que está errado. Afinal, outra pílula de sabedoria que vi na internet cai bem aqui: "se você tem medo do amor, tem coragem de que?".

Claro que vai doer quando não der certo, quando nos frustrarmos, mas dói mais não tentar né? Passar a vida sonhando e não realizando, imaginando como é, como seria. É preciso dar a cara a tapa, enfrentar de peito aberto e não ter medo de se frustrar, de entristecer. A dor é passageira e na vida, os momentos tristes vão acontecer quer a gente queira quer não, por isso precisamos fazer todos os momentos felizes possíveis acontecer.