9 de janeiro de 2018

Escreve qualquer coisa

Uma das coisas que me propus a fazer esse ano é escrever mais, qualquer coisa que seja, mas mais. Eu gosto de escrever, gosto de pensar em histórias e mergulhar nelas, mas sempre acabo me perdendo em algum lugar entre o mergulho na criação e as batidas nas teclas do computador, que acabam por nunca sair. Eu quero colocar no papel todas essas histórias que tenho em mim, umas mais fantasiosas, outras realistas... minha imaginação viaja entre o possível e o impossível com facilidade, mas meus dedos travam.

Já fazem anos desde que escrevi minha última história completa, acho que uns sete anos. É muito tempo. Desde então tenho escrito meus pensamentos e sentimentos aqui e em alguns caderninhos, tenho feito diários de viagem, tenho escrito peças jurídicas no trabalho e tentado uma ou outra vez começar uma nova história. Mas nunca sai. Eu já falei disso aqui. Eu complico demais a história, eu fico sem um clímax, não consigo pensar no final, então nem começo... e as vezes fico com preguiça de colocar colocar no papel aquilo que está na minha mente, afinal, qual o propósito? Ninguém vai ler; é apenas mais uma história batida; tem tantas outras coisas para fazer;....eu nem vou terminar mesmo.

Esse é o pensamento que vem me assombrando ultimamente: eu nem vou terminar mesmo, vou acabar desistindo em algum lugar próximo a página vinte e ficar ´para sempre apenas imaginando o que poderia ter sido, que deveria ter insistido. Vou até tentar prosseguir algumas vezes, mas a essência da história já vai ter se perdido em mim, então vou desistir de novo, e de novo e... 

Então me propus que esse ano vou escrever mais. Eu quero escolher uma entra as histórias que rodeiam minha mente e tentar colocar essa no papel, não para alguém ver, mas para expulsar de mim essa história, tirar esses personagens e a vida deles da minha mente, deixar ela mais leve. São tantas histórias para contar, presas aqui dentro, me assombrando, pedindo para ser organizadas no papel que eu preciso fazer isso, preciso expulsar essas histórias de mim, umazinha que seja já vai me aliviar espaço. E de quebra eu ainda posso dizer para aqueles que me cobram que sim, escrevi alguma coisa.

2 de janeiro de 2018

Viver


A verdade é que 2017 começou de um jeito e terminou de outro completamente inesperado.

Provavelmente muito disso tem a ver com o câncer, que acabou sendo um acontecimento inesperado na minha vida. Ele não me obrigou a mexer nos meus planos, mas mexeu muito comigo, a preparação para a radioiodo (ficar sem o hormônio), fazer duas cirurgias... isso alterou muito meu psicológico. Não apenas o que eu quero chamar de episódio depressivo resultado da abstinência de hormônio, do qual eu sinto que só agora estou me recuperando, mas também o estresse de saber que precisaria operar de novo, cuidar de novo da cicatriz, me preparar de novo para a radioiodo. O prognóstico é bom, não morrerei disso, mas ainda assim, saber que a doença foi tirada e cresceu em dois meses em outro lugar é assustador.

No meio disso tudo teve meu trabalho, que conquistei um pouquinho antes de descobrir o nódulo na tireoide e no começo parecia ótimo, perfeito: perto de casa, ambiente agradável, cumpre com os horários e paga uma média salarial boa. O que mais eu poderia desejar? Bom, com o tempo descobri que um chefe com mais habilidade para a posição e alguma empatia seria de bom grado. No turbilhão da falta de hormônio acabei voltando a ter episódios de ansiedade, como quando trabalhava no último escritório, cometi erros bobos de falta de atenção que resultaram em chamadas de atenção e isso até parece justo, mas deixa de ser quando observamos como e quando foi feita essa chamada. Desconsiderar meus hormônios e dizer que mudei desde que entrei no escritório não parece justo se você considerar que desde que entrei descobri um câncer e passei por duas cirurgias. Eu sei que vida pessoal não deveria impactar na qualidade do meu trabalho, mas a verdade é que certas coisas não estão no nosso controle. Além da minha situação de saúde eu estava me sentindo extremamente pressionada porque a reação do meu chefe à qualquer erro meu, ou à coisas que não são erros meus e não estão na minha esfera de poder, mas que "dão errado" é gritar, exigir resultados sem querer saber dos meios, é ameaçar, como quando eu voltei depois da segunda cirurgia, na qual faltei apenas 3 dias e voltei ao trabalho porque sabia que ele precisava de mim. Ele me chamou na sala dele e chamou a atenção para um erro meu, uma data errada em um documento, o cliente notou e questionou se estava certo. Eu errei a data e ele me disse que mudei desde que entrei, que se reusava culpar os hormônios, porque se não teria que me mandar para casa e me chamar de volta apenas quando "isso tudo" já tivesse terminado, o escritório tem vinte anos e não pode perder a reputação, eu deveria repensar meu comportamento no trabalho e decidir o que quero da vida.

Por outro lado, isso foi bom, serviu para me tirar da bolha da ansiedade, fez eu ver que não importa o meu esforço, ele vai criticar quando algo der errado, minha culpa ou não. Então eu vou apenas fazer meu melhor, ficar em stand by quando ele falar e priorizar minha saúde. Eu não vou mais me sentir culpada de faltar, não vou mais me sentir culpada por perder duas horas e meia de trabalho em um dia porque preciso ir ao médico e não tinha um horário melhor e não vou mais me sentir culpada de não alcançar as expectativas dele, porque 1) elas são surreais e 2) a única pessoa a quem eu devo satisfazer aqui é a mim mesma. Acho que eu sempre busco a aprovação externa porque não encontro ela em casa (eu já falei sobre isso com a Flora? Deveria) e isso acaba me colocando em um looping de buscar a aprovação de quem eu não preciso, não devo querer, e depois fico me sentindo mal de não ter. Chega.

Então nesse fim de ciclo e início de ano percebo que 2017 não trouxe muitas conquistas pessoais, mas me trouxe provas pelas quais eu ainda estou passando. Todo mundo me fala que fui forte, que enfrentei a doença com um força invejável... eu não me sinto forte. Eu sinto que fiz o que tinha que fazer para sobreviver. Acho que é isso que faço, sobrevivo. Eu sempre fui boa nisso. Sobrevivo ao câncer, sobrevivo ao meu mau chefe, sobrevivo. As vezes vem uma recompensa e eu fico sem entender de onde ela veio, qual seu mérito.

Talvez por isso o que eu quero de 2018 é simples: conquistas. Conquistas que estejam nos meus planos, conquistas que sejam mais que sobreviver, que sejam viver. Eu quero arriscar e aproveitar a vida porque se 2017 me mostrou alguma coisa é que a vida é curta demais para eu me perder em medos e sobrevivência, a vida foi feita para ser aproveitada, vivida. 

31 de dezembro de 2017

10 de dezembro de 2017

O tempo é curto

É engraçado parar para pensar no tanto de coisa que mudou e não mudou entre o ano passado e esse. Eu sinto como se tudo tivesse acontecido em um segundo e ao mesmo tempo como se eras tivessem passado.

Eu não vi, não percebi que o tempo não parou, sempre tão focada no futuro que deixo o presente passar sem perceber. Eu vivo o presente, mas não percebo ele passando por mim. Talvez por isso que eu queira tocar o foda-se, me experimentar livre uma única vez. Nada definitivo, pelo menos não se eu não gostar. Porque o tempo vai passando e a vida escorrendo entre nossos dedos e nós sempre tão focados em ganhar dinheiro, nos preparar para o futuro, e para que exatamente? Não seria melhor apenas viver a vida? Eu entendo a racionalização de tudo, a filosofia e a realidade que se conflitam, mas talvez elas não precisem conflitar tanto.

Eu percebo pequenas mudanças em mim, mudanças que se acumularam ao longo dessas eras pelas quais passei. Uma maior vontade de aproveitar o que a vida tem a me dar, um medo menor da opinião do outros, ele ainda é grande, mas está diminuindo, um senso mais forte das minhas vontades... ainda que saber quem a gente é é algo muito complicado. Mas acho que o que eu mais tenho sentido é uma vontade maior de experimentar as coisas, não sei se é o câncer ou só as mudanças da vida mesmo, mas tenho sentido vontade de viver coisas novas, de aproveitar oportunidades diferentes, de me jogar um pouco mais. Eu tenho sentido que a vida é curta demais para gente desperdiçar sendo infeliz.


7 de dezembro de 2017

O que é dar um passo atrás?

Na névoa do meu pós operatório, entre a anestesia e a consciência, meu irmão me deu conselhos de carreira. Obviamente não me recordo de nada com clareza, apenas de eu lhe dizer que estava pensando em trabalhar em navio e que dependendo do cargo era um salário bom, puxado, mas ganharia mais do que como advogada em terra firme. A resposta dele me vem em flashes, flashes dele me perguntando se eu estava doida, que não era bem assim, que se eu não quero ficar onde estou preciso trabalhar em caminhar para frente e não em dar passos atrás. Disse que não era um passo atrás, era um meio para um fim, juntar dinheiro para ir para o exterior estudar algo que me interesse mais e ele repetiu que não era bem assim, que morar fora é difícil, que eu nem sei se vai dar certo. Lembro de eu responder que se não desse certo tudo bem, que eu tinha que tentar e aí minha memória embaça de vez e não me lembro de mais nenhum flash com claridade.

Eu queria o apoio dele para viver essa aventura, mas ele não me deu e isso me deixa mais insegura quanto aos meus planos. Ele já morou fora, ele sabe como é difícil, ele é mais velho e tem mais experiência. Mas ele não tem experiência no meu campo de trabalho, ele não sente nele essa vontade que eu sinto em mim de sair, de abrir as asas e voar um tempo. Eu sei tudo que eu tenho a perder. Eu sei que se quiser voltar não vai ser nada fácil, que encontrar um emprego vai ser muito difícil, que estarei atrás dos colegas na disputa por ter tentado algo diferente. Sei que posso dar errado lá fora, viver uma vida medíocre e em cinquenta anos morrer cheia de arrependimento da vida que vivi. E eu tenho medo dessas possibilidades, medo de dar um passo errado aqui e agora e nunca mais ser feliz, tenho medo disso todos os dias.

Mas se eu não tentar sempre vou me perguntar o que poderia ter sido. Eu não tenho problemas em dar passos atrás, de dar meia volta e mudar de caminho, chegar onde quer que seja atrasada porque a ideia inicial era ir para outro lugar. Desde que isso parta de mim. Eu odeio mudança de planos no meio do caminho, mas essa conversa fez eu perceber que odeio isso quando parte dos outros, se o plano mudar porque eu quis, porque achei necessário, tudo bem. Certos planos simplesmente não foram feitos para dar certo.

E, sinceramente, o que é dar um passo atrás na vida? Mudar de ideia? Ganhar menos? Fazer um trabalho mais braçal? Eu entendo que para ser feliz é preciso dinheiro, entendo que é necessário ter um certo plano a longo prazo e que a vida não é feita só de experiências sem destinação, mas dar uma pausa, dar "um passo atrás" não vai arruinar uma vida inteira. Vidas são coisas em constante mudança e para que elas sejam arruinadas é preciso uma série de eventos dos quais uma pessoa não é capaz de se recuperar. Eu não tenho vícios, tenho força de vontade, uma cabeça boa e um plano mais ou menos delimitado a longo prazo que nem é tão difícil assim de conquistar... entre os tropeços e erros de caminho é nisso que preciso me focar, em saber levantar e continuar andando mesmo com os socos que a vida me der.