7 de novembro de 2008

Troca de olhares


O corredor como sempre estava com dois grupos distintos conversando. Um perto de cada ponta e haviam, é claro certos passantes. Ela conversava com duas amigas, perto de um dos grupos, na ponta do corredor oposta a sala dele. Ela já esperava que ele passasse por ali. Claro que já não era aquela criança com uma paixonite viciada, ela já estava desintoxicada e não estava no corredor para esperar ele passar. Não, ela estava no corredor porque sua sala estava muito gelada, então resolveu ficar na frente dela conversando com suas duas amigas. Apesar da circunstancia não ter sido favorecida para ela ver ele ela não conseguiu evitar o olhar rápido que lançou a outra ponta do corredor quando sua amigas disse:
- O Marcus – a amiga olhava para a sala dele.
Ela não pode evitar, lançou um rápido olhar de confirmação e resolveu se sentar na ponta do banco que havia ao seu lado. Sentou de frente para a sala dele. Ele vinha na direção dela, ela sabia disso, era sua rotina, ele passaria por ela nesta segunda vez.
Ela já havia visto ele naquela manha, um pouco mais cedo ela o viu entrar na sala antes da dela, observou que ele estava com a barba por fazer e reclamou, mas na verdade ela gostava. Viu também que ele estava de avental, mesmo que não estivesse ela podia ter adivinhado, era parte da rotina dele também. O avental de mangas compridas que lhe cobria quase todo o corpo, ele ficava bem naquele avental.
Enquanto ele caminhava pelo corredor ela fez alguma pergunta boba a sua outra amiga, apenas para disfarçar um pouco, mas quando ela terminou de responder foi que ele chegou perto o suficiente para reparar nela. Ela o mediu dos pés a cabeça, já não tinha aquela vergonha de menina, e quando chegou ao seu rosto o observou durante algum tempo, percebeu que ele a encarava e o encarou também, sustentando o olhar dele com coragem e agradecendo a deus por ter se maquiado melhor naquela manhã. A medida que ele chegou mais perto ele desviou o olhar e olhou para frente. Ela também desviou o olhar, mas não dele, subiu e desceu seus olhos pelo corpo dele mais uma vez e quando chegou ao rosto fixou seu olhar nos olhos dele, aqueles olhos negros e brilhantes, cheios de mistério, que ele tinha. Ele sustentou o olhar, seu olhar era divertido, e só parou de olhar para ela quando passou reto por ela. Mesmo que quisesse não poderia parar, além do mais parar para que?
Seu coração batia ligeiramente mais rápido, ou mais lento, havia alguma coisa nele, ela não queria sentir aquilo, no entanto... Ela acompanhou a passagem dele com a cabeça e depois se virou para as amigas dizendo:
- Desculpa não consegui disfarçar – as amigas riram – ok, não quis disfarçar – completou ela.
A amiga que lhe avisou da passagem dele lançou um olhar furtivo por cima da cabeça dela, com esse olhar ela teve certeza que ele ouviu o que ela disse em voz alta propositalmente, mesmo que ele já tivesse virado o corredor, ela sabia que ele ouviu.
Mas foi só quando entrou em sua sala e se sentou a sua mesa que ela começou a pensar. Ele tinha um sorriso nos lábios quando passou por ela, aquele sorriso que ele sempre tinha, mas desta vez não foi só uma suspeita, ele de fato olhou para ela com aquele discreto sorriso nos lábios e aquele olhar divertido. Ela não soube dizer se era um sorriso e um olhar de quem se diverte em ser observado daquela maneira, ou se era um sorriso e um olhar de deboche, mas para ela aquilo era a expressão de quem gosta de ser observado daquela maneira por aquela pessoa.