30 de novembro de 2010

Um mês

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Foi todo o tempo que demorou. E um dia acabou, mas não acabou só o mês, acabaram 19 anos de uma vida, 25 de outra e mais 60 de outra. Em uma mês se acabaram 70 anos e 11 meses de uma vida que muitos diriam ser bem vivida, mas que ninguém ousa dizer que não foi doída.

De repente todo mundo estava perguntando como eu estava, me dizendo para ser forte porque ainda teria que cuidar da minha mãe, me dizendo para chorar, me dizendo para ir até lá e ver o rosto dele. Eu não fui até lá, vi o rosto dele de relance; eu só estou sentindo vontade de chorar agora e não pretendo segurar; eu estou tentando ser forte, mas a verdade é que não sei direito o que fazer porque é a primeira vez que eu tenho que cuidar dela; e por último mas não menos importante eu não sinto raiva, alegria, alívio, saudade ou tristeza, só sinto um aperto no peito que às vezes até dificulta a respiração e agora também estou sentindo um nó na garganta. O nó chegou agora ouvindo Legião Urbana, uma música chamada vento no litoral, e esse nó incomodo e doloroso só chegou porque percebi que não sinto falta dele no presente, sinto falta dele no meu futuro e aí vem batando aquela saudade dos momentos bons que nós tivemos, porque os ruins nós fazemos questão de esquecer.

Eu não sei direito como devo me sentir, como devo reagir. Sei que deveria doer mais do que está doendo, que eu deveria estar mais desesperada do que estou, mas a verdade é que eu estou assustada e com um pouco de medo, como sempre. Mas dessa vez meu medo é pela minha mãe e como ela vai reagir(ela está sofrendo tanto!), e também medo de como vai ser nossa vida daqui para frente.

Foi tão rápido. Em um dia ele estava com uma dorzinha na barriga e no fim do mês morto. E justamente no pior mês do mundo! No mês das minhas provas de vestibulares, do auge do stress. E ele morreu justamente no dia seguinte ao da fuvest, como se estivesse esperando a prova passar! Nas 36 horas seguintes a morte dele eu não chorei, só estou chorando agora, escrevendo isso. Porque ouvindo a música cai a ficha, porque escrvendo os sentimentos se liberam, porque sentada no escuro do meu quarto com ninguém me olhando, meu irmão fora e minha mãe dormindo, eu posso curtir minha dor em paz, sem incomodar ninguém, sem preocupar ninguém. Aqui eu posso ter medo do futuro, saudade do passado, posso me afogar em memórias boas e ruins porque a última coisa que eu quero é glorificar ele. Eu quero que ele permaneça na minha memória do jeito que era: Bom, ruim, irritante, carinhoso, preocupado, grosso…Quero que ele permaneça na minha memória sendo o pai que foi para mim. Um pai diferente do que foi para meus irmãos e de qualquer outro pai que eu conheço.

Acho que parte de mim,  quando eu estava no carro indo com ele para o hospital, sabia que ele não ia voltar e para falar a verdade eu acho que parte dele também. E acho que ele estava assustado e fico feliz que tenha sido rápido porque ele iria odiar ficar ir e vir do hospital o tempo todo, e talvez tenha sido melhor para ele assim, por mais que eu o amasse acho que ele estava deprimido e já não se sentia útil, ele chegou até a dizer que não tinha mais vontade de viver. Acho que o que o prendia aqui era o nosso amor, o amor dele por nós e se ele pudesse me ver agora estaria se sentindo culpado por me fazer chorar e pedindo desculpas como ele fez tantas vezes e eu iria acabar me sentindo culpada por fazê-lo se sentir culpado como eu sempre me sentia.

A verdade é que ele não foi um mau pai para mim, ele foi um bom pai. Tinha os arrombos dele, as injustiças, mas ele foi bom. Não teve nenhum exemplo a seguir, mas me criou bem, eu me saí bem. E eu o amava muito, talvez mais do que pensasse, afinal nós nunca sabemos o que temos até que perdemos. E eu vou sentir falta dele, e ainda vou chorar de saudade várias vezes, e lembrar dele bastante, porque ele é meu pai, ele foi meu pai e, por mais que ele esteja bem agora, eu talvez demore um pouco para ficar bem de novo.

8 de novembro de 2010

Não foi em vão.

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  No começo deste ano achei 2009 havia sido um ano em branco na minha vida. Não me esforcei para conquistar nada, percebi que fazer 18 anos não havia feito a mínima diferença na minha vida e ainda descobri que alguns dos meus melhores amigos simplesmente não valiam a pena e quando chegou o fim do ano achei que havia sido um ano perdido. Perdido porque eu amava aos amigos perdidos e me descobri não amada por eles; perdido porque não passei no vestibular e ainda consegui ir pior que no ano anterior e perdido porque não passar no vestibular significava, e ainda, significa não ter a vida de adolescente normal com baladas, namorados e diversão.

  Agora 2010 está chegando ao fim e o que eu percebi é que nada foi em vão.

  Os amigos que perdi não valiam a pena, os que valiam e ainda valem a pena ainda estão na minha vida e cada vez que falo com um deles percebo o quão bom é ter amigos verdadeiros como os meus, que não importando a distancia ou a correria do dia a dia ainda se oferecem para te ajudar, ou te mandar uma mensagem antes da prova, ou entender que sua vida não é igual a deles e não te culpar pelas coisas que você não pode fazer, nem pressionar para que você faça coisas que não são seu estilo. Em 2009 eu perdi alguns amigos, mas me aproximei de outros. E eu não estudei, em 2009 fui pior no vestibular do que no ano anterior, em consequência não saí para lugar nenhum, não festejei nada com ninguém. Mas eu não tinha idéia do que eu queria para meu futuro, ou de quem eu queria ser, eu só pude descobrir isso ao longo de 2010 e talvez não tivesse descoberto se tivesse passado. Em 2010 eu me tornei menos insegura em relação a opinião dos outros, me aproximei da minha família e me descobri. Hoje sei quem sou, quem quero ser, o que quero fazer.

  2010 está chegando ao fim e não foi em vão. 2009 veio e foi para dar lugar aos conhecimentos que eu só iria obter em 2010. Nada foi em vão.