20 de janeiro de 2011

A ficha caiu.

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  Caiu como uma bomba, bem em cima da minha cabeça.

  Eu havia me esquecido de como era minha vida, em casa, antes do meu pai vir morar conosco. Havia me esquecido de como minha mãe mandava eu fazer tudo pelo meu irmão e esqueci de como achava isso absurdo, porque quando meu pai veio morar com a gente ele me defendia, mandava que meu irmão fizesse suas próprias coisas. Nunca foi segredo para mim nem ninguém que minha mão preferia meu irmão, mas estava tudo bem, afinal também não era segredo que meu pai preferia a mim. Mas meu pai não está mais aqui, ele não pode mais interferir, não pode mais me defender e minha mãe voltou a agir como se fosse meu dever fazer tarefas e favores para meu irmão, que é seis anos mais velho do que eu.

  Fico parecendo uma menininha de 13 anos cada vez que ela me manda fazer algo por ele, me defendo, me nego, e ela fica brava comigo. Hoje ele foi grosso comigo e ela o defendeu, mas eu sei que eu não fiz nada para ,merecer o xingamento dele, e talvez até tenha sido brincadeira, mas quando ela tomou o lado dele deixou de ser brincadeira. Eu gritei, fui grossa, mandei ela se ferrar, ela ficou puta da vida, eu saí de casa, estava a caminho da casa da minha avó, ela ia vir atrás de mim, mas como já estava na calçada de casa ela não teve coragem de vir me bater, eu ainda ameacei: “Que foi? Vai me bater?”, ela bateu a porta de casa e eu ainda xinguei: “PQP”. Senti o nó na minha garganta e não queria ir para a casa da minha avó, não gosto de chorar na frente das pessoas que eu connheço, então fui até o parque, estava tento uma gravação, mas eu me escondi em um parquinho. Chorei. Na frente da gravação, a caminho do parquinho eu chorei, depois quando cheguei do parquinho chorei mais. Estava com raiva, mas não estava arrependida, não estou arrependida. Das outras vezes em que briguei com ela me controlava, depois chorava no quarto e repassava mentalmente todas as coisas que deveria ter dito, mas dessa vez não, não havia nada mais a ser dito. Ainda não a vi, estou com medo da reação dela, acho que vai me dar um gelo, é o que meus pais fazem quando estão realmente bravos com os filho: Dão um gelo. Mas minha mãe não costuma ficar muito tempo guardando rancor. Não tenho medo.

O pior nem é o fato de que pareço uma menininha de 13 anos, quando tenho 20, o pior é que cada vez que brigo com ela sobre isso me lembro do meu pai e sinto saudade dele me defendendo e aí choro mais: de ciúmes por ela preferir a ele e não ter mais ninguém para preferir a mim, de saudade dele me defendendo, de injustiça pela preferência porque sou sempre eu que faço tudo por ela, de injustiça por ela brigar comigo dizendo que não faço nada por ele quando eu vivo fazendo coisas por ele. E aí vem aquele sentimento que há algum tempo eu não sentia, aquele desejo pré-adolescente de querer sair de casa, morar sozinha e mais uma vez eu fico parecendo uma menininha

  E eu que achei que não chorava de tristeza não consigo para de chorar, cada vez que penso no meu pai me vem aquele nó na garganta e nem tempo de segurar as lágrimas eu tenho. A ficha caiu: ele não está mais aqui, não vai voltar, eu não soube apreciá-lo quando ele estava aqui e agora não tenho como refazer as coisas. E mais uma vez me sinto com 13 anos, sem saber lidar com o mundo achando que seu único refúgio é chorar e escrevendo para desabafar.