30 de setembro de 2011

Take me away

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  Três anos atrás meu vizinho se matou deixando a mulher e duas filhas pequenas sem nenhum tipo de amparo. Ele não deu explicações, apenas dirigiu o carro até o meio do nada e tomou veneno de rato. A polícia só o encontrou dois dias depois. Quando meu vizinho se matou fiquei em dúvida, não sabia se o chamava de covarde, por não ter coragem de enfrentar a vida, ou de corajoso, por ter coragem de tirar a própria vida. Sempre tive essa dúvida, mas agora começo a entender um pouco da covardia e da coragem e, e isso me assusta.

  Sempre fui do tipo que acha ridículo um suicídio, para que eu iria me matar? Mais lógico seria matar a pessoa que me faz mal. Mas desde o começo do ano comecei a ter lances de vontade de tirar minha própria vida, o pensamento durava cinco minutos e geralmente ocorria durante uma briga com minha mãe, mas aí eu lembrava de como minha avó iria sofrer e de como minhas amigas iriam ficar tristes, e também em como minha mãe iria sofrer e a idéia sumia. Mas hoje não pensei em nada disso. Não, eu não tentei suicídio, mas pensei no assunto, logo após meu irmão jogar algumas verdades e outras mentiras na minha cara, me bateu uma vontade louca de me enforcar, de tomar uma caixa de calmentes, ou colocar balas no revólver do meu pai e me dar um tiro na cabeça. Quando pensei que minha mãe iria sentir minha falta dei os ombros e lembrei que meu irmão a ajudaria passar pela situação, no fundo ela sempre amou mais a ele. Depois pensei nas minha melhores amigas e percebi que elas não iriam sentir tanto a minha falta porque eu quase já não falo com elas. Todos os outros iriam ao enterro, ficariam tristes por um mês ou outro, mas passaria, eles iriam superar e continuar a viver a vida deles como se nada tivesse acontecido, até minha vó.

  Talvez eu esteja errada em pensar deste modo, em pensar que minha vida é tão dispensável, talvez minha avó, que já tem 80 anos não resista, talvez minha tia que já é meio maluca enlouqueça, talvez meu irmão jamais se perdoe e vire um alcólatra, talvez minha mãe se renda a depresão. Eu não tenho como saber o que vai acontecer se eu me matar, não tenho como saber quem vai sofrer, quem nem vai perceber, mas no fundo não importa, eu não vou mais estar aqui. Eu não vou mais sofrer. Não que eu esteja deprimida e em dor, mas não vou ter mais que aturar meu irmão me humiliar, tentado me vencer em uma competição que só acontece na cabeça dele, não vou ter mais que ouvir minha mãe me reprovando quando tudo o que eu quero é que ela sinta orgulho de mim, não vou mais ter que ceder a todos por medo da opinião que a sociedade pode ter de mim.

  Hoje essa saída covarde me pareceu interessante, me assuta ver que eu estou sendo capaz de pensar algo do tipo, algo que eu sempre achei que nunca iria pensar. Me assusta perceber que se meu pensamento mudou, será que minhas atitudes não podem acabar me surpreendendo? Eu tenho medo desse pensamento porque tenho medo de ser capaz de me render a ele.

25 de setembro de 2011

Tempestade

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  Parece que esse ano foi uma grande tempestade, aconteceram muitas coisas, mas ele não começou em janeiro, começou em novembro.

  Primeiro meu pai foi internado, eu prestei os vestibulares, eu não passei na Usp, meu pai morreu. Prestei mais vestibular, veio o natal, ano novo eu viajei e me encontrei um pouquinho. Depois não passei na Unesp e tive uma crise de confiança, me perdendo de novo. Decidi fazer cursinho, viajei no carnaval, começaram as aulas, foi meu aniversário e poucos dias depois passei na Unesp. Viajei para Franca e lá conheci duas pessoas maravilhosas, mas não fiquei, voltei para São Paulo, briguei com minha mãe e meu irmão, causei com isso uma grande crise familiar, que no fim se resolveu, ao mesmo tempo em que eu comecei a ir para a psicóloga. Na psicóloga eu me encontrei um pouquinho, ganhei um pouco de confiança, fiz mais alguns vestibulares e passei, mas preferi continuar no cursinho e tentar a Usp no fim do ano. Comecei a fazer auto escola e o tempo foi passando sem grandes mudanças e este mês veio a coisa da cirurgia, da qual eu desisti causando mais uma leve crise com minha mãe, mas foi leve porque depois do rolo da Unesp ela passou a ser um pouco mais razoável comigo e também fiz a prova para tirar a carta. Eu comprei a carta, me corrompi, achei que não me corromperia, ou talvez preferisse pensar assim, mas me corrompi e não me sinto mal com isso e isso me assuta, mas me conforta saber que não sou tão podre a ponto de me corromper e não me sentir nada. Por enquanto é só, mas mais vestibulares estão chegando e provavelmente mais um integrante na minha grande família assim sendo ainda vão haver mais mudanças em minha vida.

  E eu não sei quando esse ano vai acabar, mas sinto que foi um ano que valeu a pena. Deve ter sido um dos anos que eu mais chorei, mas não me arrependo de nenhuma lágrima, de nenhuma decisão. Sinto que cresci esse ano, amadureci, e faz tempo que eu não sentia isso ao fim de um ano. Mesmo não tendo realizado quase nada, eu sinto que foi um ano de realizações e sinto também que estou pronta para mais mudanças e para o próximo ano também, o que é estranho porque nunca aceitei muito bem as mudanças.

  Esse ano foi uma grande tempestade na minha vida e fazia tempo que eu não passava por uma tempestade, fez com que eu me lembrasse como é bom o cheiro de chuva.

Grito interior

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  É um grito abafado que eu ignoro o tempo todo, vem de dentro e acoa no meu peito, ás vezes até confunde minha razão. É um grito por liberdade, por independência, por paz… É uma vontade sem explicação de fugir, deixar tudo para trás, me reinventar e recomeçar do zero.

  Ela sempre esteve ali, essa vontade de fuga, desde pequena eu tive essa propenção, me lembro de sair andando a pé, ou de bicicleta, pela cidade e sentir a brisa do mar no meu rosto e aquela sensação de liberdade, aquele silêncio exterior, que me dava paz… Talvez por isso eu goste tanto de andar, até hoje quando ando sinto essa liberdade, essa paz, essa independência… Eu gosto dessas sensações.

  Essa vontade de fugir pode ser uma forma que meu medo achou para que eu não tenha que lidar com o dia a dia, fugir é o melhor jeito de deixar o medo ganhar e talvez eu nunca tenha fugido por isso, sou orgulhosa demais para deixar o medo ganhar. Não que essa fuga fosse ser permanete, nesse meu anseio existe a idéia do retorno, mas só depois de um tempo, talvez depois de aprender algo existencial, ou amadurecer e perder o medo dos problemas.

  Mas ao mesmo tempo que essa vontade de fugir pode representar meu medo da vida, pode também ser uma vontade de sair da minha zona de conforto, porque fugir e não poder contar mais com aquilo e/ou aqueles que eu conheço é uma jogada arriscada, um desafio para alguém que como eu tem uma zona de conforto bem delimitada e vive calculadamente dentro dela.

  Eu sou engraçada, meio paradoxal, ao mesmo tempo que eu morro de medo de viver, arriscar e me expor sinto uma vontade desesperada de fazer tudo isso, de experimentar tudo o que o mundo tem para me oferecer, de enlouquecer, fazer coisas erradas e me perder. Mas eu sei que a sociedade não gosta e não aceita regenerados, a vida fica muito difícil para eles, nessa sociedade se você se perde uma vez, mesmo depois de se achar, não consegue seguir seu caminho, pelo menos não sem se esforçar muito mais.

Meu grito interior não pede só liberdade, paz, independência, fuga e vida, pede que eu seja diferente, que eu pense sozinha, que eu não me importe com os outros e esteja pronta para lutar pelo que eu quero… E esse ano eu escutei um pouquinho mais minha voz interior, só um pouquinho, mas o suficiente para sentir vontade de mais.

10 de setembro de 2011

Independência & Consequências

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  Sinto que só esse ano acordei para a adolescência, aquele período conturbado, cheio de decisões a serem tomadas, contestações a serem feitas e independência a ser conquistada. Talvez o fato de meu pai ter morado comigo nestes anos tão decisivos tenha atrasado essa minha fase, talvez ela tenha sido atrasada simplesmente porque antes não foi necessária. O fato é que agora ela se faz necessária, agora essa rebeldia adolescente se faz acontecer sem nem pedir permissão, e assim, sem mais nem menos, meu coração sente necessidade de independência e coragem para enfrentar as consequências.

  No início deste ano fui contra tudo e todos quando decidi rejeitar uma faculdade pública só por ela ser em outra cidade. Me decidi por mais um ano de cursinho e, ao contrário do que todos disseram, eu não me arrependo. Sim, neste caso minha mãe ajudou, me colocou em uma psicóloga, pagou cursinho e aceitou a idéia de uma faculdade particular em São Paulo, mas foi minha decisão e quando a tomei minha mãe não estava ao meu lado, ela estava do lado oposto. Agora tomo outra decisão: não fazer uma cirurgia plástica. Ela seria feita no rosto para arrumar uma assimetria que eu tenho, assimetria essa que sempre me deu nos nervos, mas que hoje em dia não me incomoda mais, pelo menos não o suficiente para que eu faça uma cirurgia. Meu irmão é contra, acha que vou querer fazer mais tarde, minha mãe não diz nada, mas eu sei que ela quer que eu faça, o que me leva a achar que essa minha assimetria incomoda mais a eles do que a mim, ou qualquer outra pessoa. Meu irmão falou que a impressão que dá é que eu não vou fazer a cirurgia por capricho, o que me lembrou que ele falou algo semelhante em relação a eu não cursar a Unesp e então eu notei que as duas situações são bem parecidas. Nos dois casos eu estou tomando uma decisão sozinha, sem que ninguém possa me forçar a nada e com a minha decisão indo contra o que os outros querem ou esperam que eu faça. É, nas duas situações eu estou tomando uma decisão como que por capricho e depois mascarando com argumentos lógicos, é meu M.O.(modo de operar) e uma amiga minha disse, na época da Unesp, que talvez eu devesse fazer isso mais vezes, escutar meu sentimento e não minha razão, ou melhor conciliar os dois. Talvez eu esteja me precipitando e mal interpretando as palavras dela, mas eu sinto que é isto que eu estou fazendo, logicamente falando eu deveria fazer a cirurgia, mas… Eu não quero.

  É estranho começar a tomar decisões sozinha, cada decisão que eu tomo eu lembro que vou ter que lidar com as consequências, sejam elas leves ou pesadas, e que não vou poder culpar ninguém, porque eu fiz o que eu queria. O mais estranho é que mesmo sabendo disso eu não estou com medo de afirmar e impor minha vontade, eu sinto um pouco de ansiedade e alguma adrenalina pulsando pelo meu corpo, sinto um leve orgulho de mim mesma por estar crescendo e no fundo uma certa sensação de realização, de estar fazendo a coisa certa. As mesmas coisas que eu sentia quando decidi abandonar a Unesp. A mesma sensação de independência e vontade de encarar as consequências.

2 de setembro de 2011

Corroendo as bases?

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  Estou tirando carta de motorista e surge a dúvida: comprar ou não comprar?

  É um dilema importante, talvez essa decisão me influencie o resto da minha vida. Eu, que quero lutar contra o sistema, que quero espalhar o bem e fazer a diferença ajudando quem precisa, eu que critico a corrupção e desprezo os corruptos, eu não percebi que se optasse por comprar seria uma grande hipócrita. O aviso veio do meu tio, em tom de brincadeira, mas para mim isso é assunto sério. Será que se eu me corromper desta vez daqui pra frente vai ser mais fácil ser desonesta? Será que se eu escolher, desta vez, o caminho mais fácil eu vou estar fadada a escolher sempre o caminho mais fácil? No começo do ano meu irmão disse que eu deveria fazer cursinho novamente porque se eu desistisse desse meu primeiro grande sonho nunca mais teria coragem de perseguir outro sonho. Eu sei que tenho a tendencia a transformar o que meu irmão diz em verdade absoluta, mas e se ele realmente estiver certo? E se isso servir para a corrupção?

  No começo das aulas eu achava que não precisaria comprar, mas agora já estou pensando seriamente no assunto. Talvez seja o nervosismo de saber que estou perto do fim das aulas práticas, mas sinto que em geral as coisas no carro já não são tão simples, pode ser também o fato de o instrutor já não me ajudar tanto e pode ser os dois juntos. Minha pisicóloga colocou certa pressão nessa decisão, fazendo com que ela se tornasse mais importante e difícil, colocando em jogo a questão ética e o que eu quero ser. De um lado eu senti que essa pressão era boa, ela estava me pressionando para tomar a decisão de não comprar, que é a decisão certa, e eu senti que pela primeira vez alguém acreditava que eu posso ser quem eu quero ser, foi uma sensação boa. De outro lado, agora que eu não me sinto tão confiante quanto a prova me sinto suja só de pensar na possibilidade de comprar, que não devia ser, mas é, um direito meu.

  Acho que para mim tudo se resume a uma questão de coragem, coragem de dar a cara a tapa e enfrentar a reprovação, caso ela venha. Optando por fazer este terceiro ano de cursinho, optando por não comprar a carta, optando por ser a pessoa corajosa que eu quero ser. Não é uma sensação boa, ser corajosa mas fracassada, mas pior deve ser ter sucesso e se sentir suja, não conseguir dizer a todos de boca cheia o que eu conquistei. Eu sei o que eu tenho que escolher, sei que vou escolher isso porque é o certo a se fazer, e eu sempre faço o certo, mas é difícil não se corromper, é difícil seguir o caminho das pedras a pé quando eu poderia pegar uma carona.