27 de abril de 2012

Olhos suspeitos

Sombra-da-minha-sombra

  Seu olhar me intriga. Sempre que estou por perto ele se levanta e com atenção me observa. É quase como se alguém lhe avisasse quando eu estou chegando, você para o que está fazendo, levanta o olhar, me observa passar, e aí volta a fazer o que fazia antes. Não leve a mal, gosto do seu olhar, gosto de ser observada por você, faz com que eu me sinta bem comigo mesmo, faz com que eu sinta como se no passado eu tivesse razão… sempre achei que lá você me olhava também. O que me intriga é que apesar de sua memória ter lhe gritado quem eu era você não fez a mínima questão de ser simpático. Odeio ser simpática sem correspondência. Prefiro guardar essa unilateralidade para minhas paixões platônicas, para o que você já foi. E então seu olhar se levanta cada vez que minha sombra passa, mas seu sorriso se esconde… Parece apenas curiosidade, mas o jeito que seu olhar se demora… Eu devo estar ficando louca! Com vontade de me apaixonar novamente, sendo psicológicamente empurrada para isso. Você é curioso. Se fosse interessado seria mais simpático… Quem sabe? 

16 de abril de 2012

Carta (2)

8800712608

  E eu estava bem feliz com nossa reaproximação, com a idéia de fazer parte da sua família, porque, como eu disse, eu quero ser sua irmã. Só que aí, seu filho foi operado, a mamãe foi até o hospital, ficou com você, a Bia e a Baby e achou que talvez esse fosse o início de uma reaproximação, eu achei que fosse e até o Nikolas achou, mas pelo visto você não. Depois que o Henrique saiu do hospital e eu, o Nikolas e a mamãe fomos visitar vocês, você não deixou ela entrar e eu juro que isso me machucou mais do que se você tivesse ME proibido de ver ele. Foi tão insuportável ver ela essa humilhação que eu quase fui embora com ela, acho que só não fui porque queria ver meu sobrinho, ela sofreu com isso e até agora eu não consegui engolir. Depois o papai ficou doente e morreu e você não foi ao enterro e isso simplesmente foi a gota d’água. Eu realmente não esperava que você fosse, você tinha dito uma vez que seu pai morreu quando você saiu de casa e que quando ele de fato morresse você não iria no enterro. Na época que ouvi isso entendi seu lado, achei justo até. Mas depois, quando eu estava lá vi como o Nikolas e a mamãe esperavam que você fosse e também como todo mundo que eu conhecia estava lá ou se não estava era porque não conseguiu estar (uma porque tem síndrome do pânico e ficou com medo de ir, mas me ligou, me escreveu e mandou recado pelo irmão e a outra porque estava no interior e não conseguiu ônibus, mas me ligou e veio dois dias depois) e aí eu percebi que ninguém estava lá pelo papai, eles estavam lá por mim! Pelo Nikolas! Pela mamãe! E foi por isso que eu me irritei por você não ir, porque você não foi capaz de estar lá pelos seus irmãos quando nós mais precisamos e ainda tentou justificar, mas tudo que eu sentia era que você não estava sendo capaz de enfrentar seus fantasmas do passado por mim. Isso simplesmente foi demais para mim. Talvez você ache que eu seja forte e resistente e a verdade é que agora eu sou assim, mas naquela época, naquele dia… Aqueles foram os piores quatro dias da minha vida: o sábado em que eu vi ele e percebi que ele ia morrer e chorei a despedida, o domingo em que eu ouvi isso da boca da mamãe e ainda descobri que não passei na Fuvest (depois de dois anos de cursinho) e chorei por não passar,  a segunda em que ele morreu e você não foi e aí eu chorei de raiva de você e a terça em que ele foi cremado e eu chorei de luto. E aí nós ficamos esse tempo todo sem se falar e eu enrolando para escrever essa carta, juntando forças para me abrir de um jeito que eu não me abri para ninguém antes e juntando forças para lidar com as consequências dessa carta, sejam elas quais forem.

  E agora vem a parte que você não vai gostar, que eu acho que você não vê e não vai concordar comigo, mas que para mim parece bem claro e que eu sinto ser necessário dizer, sinto ser decisivo dizer. De novo, eu quero ser sua irmã, mas eu sinto que não vou conseguir fazer isso enquanto você não lidar com seus fantasmas, porque para mim só fantasmas é que podem ter te impedido de ir ao enterro do papai apoiar eu e o Nikolas, só fantasmas podem ter feito com que você decidisse que a mamãe não devia ver o Henrique depois de ela ter ido até o hospital passar o dia com você. E eu não posso saber o que se passa na sua cabeça, como você realmente se sente em relação a mamãe e a vovó e a todo mundo, mas a verdade é que por mais que elas sejam loucas, por mais que elas digam que vão cortar relações com você porque você brigou com o papai e blá blá blá elas gostariam de ter você por perto. Poxa, toda vez que você vinha ver eu e o Nikolas a mamãe ia falar com você, falar pra você pedir perdão pro papai e blá blá blá, ela não fazia isso só por ele, fazia isso porque do jeito maluco dela ela te ama e queria ter você por perto, queria conhecer o neto dela e agora a neta também. E a vovó toda vez que sabia que a gente saia junto perguntava de você, as tias também, e eu sei que nossas tias são complicadas, algumas são chatas e completamente loucas, mas elas também perguntavam. Talvez eu esteja querendo demais, mas eu sinto que só vou ser capaz de ser sua irmã quando você perder essa resistência que você parece ter contra a nossa família e eu sei que você deve ter seus motivos, mas seja quais forem a distância não vale a pena, vale?

15 de abril de 2012

Carta (1)

ah!

  Eu recebi sua mensagem, fiquei paralisada, senti uma confusão tão absurda que dei até risada. Meu pensamento? “Justo agora que a psicóloga me deu alta?!”. É, eu estava vendo uma psicóloga, é uma longa história, acontece que eu não sou tão lúcida quanto pareço, tenho vários problemas e agora eles estavam em ordem, eu estava equilibrada, mas sabendo que havia dois casos não resolvidos na minha vida. Não sei você, mas eu gosto de sempre deixar tudo em pratos limpos, para o bem e para o mal, e esses dois casos não estavam, não estão claros. Um deles é você. Eu estou há algum tempo protelando para escrever essa carta, e eu preferi escrever porque sei que se nós conversássemos um iria interromper o outro e no fim, nem eu, nem você, diria tudo o que quer, e eu quero falar tudo, preciso disso. Preciso me resolver com você antes de poder seguir com a minha vida, estou em uma fase tão diferente de todas as outras, uma fase tão ativa, uma fase que eu sinto ser uma preparação para todas as outras que virão, por isso é tão importante para mim que eu me resolva com você agora. E acho importante para você também, saber como eu me sinto, o que eu penso, talvez isso te ajude a entender minha ações em relação a você daqui para a frente e acredite eu não tenho idéia de quais vão ser, só que elas dependerão mais de você do que de mim.

  Para começo de conversa eu tenho que admitir que não tenho muita certeza de como me sinto em relação a você, acho que não te conheço o suficiente para ter uma opinião formada a seu respeito. Na minha primeira lembrança sua eu devia ter uns cinco ou seis anos, você foi até o hotel no fim da tarde e me deu um bambolê roxo, deu algum outro presente para o Nikolas e nós ficamos ali na praia brincando. Depois, quando você foi embora e eu fui pro quarto o papai me perguntou com quem eu estava lá na praia e eu, por alguma razão que me foge a memória agora, não quis falar, até que ele disse que tudo bem, que você era meu irmão e que mesmo que vocês estivessem brigados eu podia brincar com você. Essa meio que foi a atitude dele sempre, e se eu perguntasse para a mamãe ela mandava eu falar com ele, que se ele deixasse tudo bem. E mesmo sabendo que você era meu irmão essa ficha só realmente caiu para mim quando eu estava com dez anos. Foi em uma tarde que o Nikolas e o papai tinham ido para São Paulo, o Nikolas ia prestar o enem, ou a fuvest, como treineiro, e você ligou lá no hotel, quam atendeu foi a Elaine e ela me passou o telefone dizendo: “é seu irmão”. Eu atendi com um xingamento qualquer achando que era o Nikolas, mas aí você começou a falar e eu fiquei sem saber onde enfiar minha cabeça. Depois perguntei porque ela não disse que ela você e ela me respondeu que disse que era meu irmão. Foi aí que a ficha realmente caiu. O engraçado é que isso aconteceu no fim do ano em que eu morei em Ilhabela e eu passei o ano inteiro indo de bicicleta para a Vila e tomando sorvete na frente da loja da Baby na esperança de te ver por ali, porque uma vez eu tinha visto a Bia ali. Eu acho que sempre foi meio assim, eu ficava esperando você entrar em contato e aí você demorava, mas entrava em contato e a gente saia e depois eu ficava mais um tempão sem te ver, esperando te encontrar por acaso, ou você entrar em contato novamente. E eu digo isso tudo porque acho que você deve pensar que eu não tenho interesse em ser sua irmã, mas eu tenho, eu só… Eu só nunca tive a atitude e acho que na verdade nem tinha como, pelo menos não até uns três ou quatro anos atrás, quando nós realmente começamos a nos encontrar, o que eu acho que foi uma iniciativa sua e talvez mal correspondida por mim e pelo Nikolas. E a verdade é que eu não sei quanto a ele, mas da minha parte foi mal correspondida porque eu não cresci com você, eu tive pouco contato, eu tive que assimilar nosso parentesco, mesmo sempre sabendo claramente dele. Para mim família era aquela que estava sempre por perto porque eu estava acostumada com isso, com meus tios todo domingo na minha avó, com dividir o quarto com o Nikolas, ou ver ele todo dia, com brincar com meus primos e ver eles comentando de viagens que fizeram juntos, mas que eu não pude ir porque fui para Ilhabela ver o papai. Eu ainda me sinto meio tímida na sua presença, meio intimidada e sem saber como agir, o que falar e pisando em ovos em relação a tudo o que diz respeito família e passado, aquele passado inexistente para mim porque eu era pequena ou mesmo não nascida e com vontade de te dizer isso tudo e ao mesmo tempo te impressionar, porque você é meu irmão mais velho.