16 de abril de 2012

Carta (2)

8800712608

  E eu estava bem feliz com nossa reaproximação, com a idéia de fazer parte da sua família, porque, como eu disse, eu quero ser sua irmã. Só que aí, seu filho foi operado, a mamãe foi até o hospital, ficou com você, a Bia e a Baby e achou que talvez esse fosse o início de uma reaproximação, eu achei que fosse e até o Nikolas achou, mas pelo visto você não. Depois que o Henrique saiu do hospital e eu, o Nikolas e a mamãe fomos visitar vocês, você não deixou ela entrar e eu juro que isso me machucou mais do que se você tivesse ME proibido de ver ele. Foi tão insuportável ver ela essa humilhação que eu quase fui embora com ela, acho que só não fui porque queria ver meu sobrinho, ela sofreu com isso e até agora eu não consegui engolir. Depois o papai ficou doente e morreu e você não foi ao enterro e isso simplesmente foi a gota d’água. Eu realmente não esperava que você fosse, você tinha dito uma vez que seu pai morreu quando você saiu de casa e que quando ele de fato morresse você não iria no enterro. Na época que ouvi isso entendi seu lado, achei justo até. Mas depois, quando eu estava lá vi como o Nikolas e a mamãe esperavam que você fosse e também como todo mundo que eu conhecia estava lá ou se não estava era porque não conseguiu estar (uma porque tem síndrome do pânico e ficou com medo de ir, mas me ligou, me escreveu e mandou recado pelo irmão e a outra porque estava no interior e não conseguiu ônibus, mas me ligou e veio dois dias depois) e aí eu percebi que ninguém estava lá pelo papai, eles estavam lá por mim! Pelo Nikolas! Pela mamãe! E foi por isso que eu me irritei por você não ir, porque você não foi capaz de estar lá pelos seus irmãos quando nós mais precisamos e ainda tentou justificar, mas tudo que eu sentia era que você não estava sendo capaz de enfrentar seus fantasmas do passado por mim. Isso simplesmente foi demais para mim. Talvez você ache que eu seja forte e resistente e a verdade é que agora eu sou assim, mas naquela época, naquele dia… Aqueles foram os piores quatro dias da minha vida: o sábado em que eu vi ele e percebi que ele ia morrer e chorei a despedida, o domingo em que eu ouvi isso da boca da mamãe e ainda descobri que não passei na Fuvest (depois de dois anos de cursinho) e chorei por não passar,  a segunda em que ele morreu e você não foi e aí eu chorei de raiva de você e a terça em que ele foi cremado e eu chorei de luto. E aí nós ficamos esse tempo todo sem se falar e eu enrolando para escrever essa carta, juntando forças para me abrir de um jeito que eu não me abri para ninguém antes e juntando forças para lidar com as consequências dessa carta, sejam elas quais forem.

  E agora vem a parte que você não vai gostar, que eu acho que você não vê e não vai concordar comigo, mas que para mim parece bem claro e que eu sinto ser necessário dizer, sinto ser decisivo dizer. De novo, eu quero ser sua irmã, mas eu sinto que não vou conseguir fazer isso enquanto você não lidar com seus fantasmas, porque para mim só fantasmas é que podem ter te impedido de ir ao enterro do papai apoiar eu e o Nikolas, só fantasmas podem ter feito com que você decidisse que a mamãe não devia ver o Henrique depois de ela ter ido até o hospital passar o dia com você. E eu não posso saber o que se passa na sua cabeça, como você realmente se sente em relação a mamãe e a vovó e a todo mundo, mas a verdade é que por mais que elas sejam loucas, por mais que elas digam que vão cortar relações com você porque você brigou com o papai e blá blá blá elas gostariam de ter você por perto. Poxa, toda vez que você vinha ver eu e o Nikolas a mamãe ia falar com você, falar pra você pedir perdão pro papai e blá blá blá, ela não fazia isso só por ele, fazia isso porque do jeito maluco dela ela te ama e queria ter você por perto, queria conhecer o neto dela e agora a neta também. E a vovó toda vez que sabia que a gente saia junto perguntava de você, as tias também, e eu sei que nossas tias são complicadas, algumas são chatas e completamente loucas, mas elas também perguntavam. Talvez eu esteja querendo demais, mas eu sinto que só vou ser capaz de ser sua irmã quando você perder essa resistência que você parece ter contra a nossa família e eu sei que você deve ter seus motivos, mas seja quais forem a distância não vale a pena, vale?

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