24 de junho de 2012

Selo para o além, por favor.

 

mao-mami

  Sabe pai, parece que em pouco tempo muita coisa mudou. Meu irmão se formou, passou na prova de residencia para psiquiatria, mas resolvou trancar e ir fazer um ano no exército, lá onde judas perdeu as meias. Eu acho que com isso ele vai ficar um pouco mais cínico, como vc dizia, lá ele já teve algumas frustrações e até perdeu paciente por bobagem, então acho que isso vai fazer dele mais cínico e talvez mais arrogante, mas espero que ele não perca o idealismo, gosto de ter com quem compartilhar meu idealismo.

  Aliás, não sei se ainda sou tão idealista. Eu passei na Unesp e não quis ir, parte de mim achava que você me apoiaria como sempre, mas parte de mim concordava com minha mãe quando ela dizia que você me chamaria de burra por recusar uma oportunidade como aquela. Depois disso voltei para o cursinho, fiz mais uma ano, fiz terapia também e por mais que eu lembre de você falando que terapia é besteira, me ajudou bastante. No fim do ano eu não passei na USP, só na PUC e no Mackenzie e me decidi pelo Mack, além de ser mais barato o campus era melhor. No começo foi difícil e de vez enquanto, quando vejo gente da USP ainda me sinto inferior, acho que uma hora essa sensação passa… Eu até consigo te ouvir falando que eu não deveria me sentir assim, que vestibular também é sorte e que eu sou muito inteligente. Talvez eu seja, eu fui bem em todas as matérias esse semestre e até no francês que eu resolvi começar e em uma matéria onde todos vão mal. Eu também comecei a estagiar, faz só um dia, mas já é um progresso, não? Assim tenho um diferencial no curriculum quando for procurar no terceiro ano, e também quero fazer os intercambios que eu vivo sonhando, então acho que se minha vida seguir meus planos eu vou dar certo na vida. Só me resta saber o que eu quero da vida. Eu gosto da minha área, mas não sei se ainda quero ser a advogada de direito internacional e direitos humanos que eu queria, sei lá, agora a idéia de ser rica e ter toda aquela tranquilidade que a gente nunca teve não me parece tão ruim. O problema é que não sei se conseguiria viver comigo mesma se não fizer algo para ajudar aos outros… Talvez eu seja rica e tenha uma ONG, ou realize trabalho voluntário, a segunda hipótese é mais provável. Acho que se minha mãe souber dessa mudanças vai ficar mais tranquila hahahaha.

  Minha mãe não vende nada há um bom tempo, mas agora vai vir a segunda aposentadoria dela e tem meu estágio, então talvez as coisas melhorem. Não me leve a mal, mas o que eu queria mesmo era que ela encontrasse alguém, uma pessoa que a fizesse feliz, por quem ela pudesse se apaixonar e compartilhar a velhisse. Ela já está velha, já tem mais de 60 anos, mas eu queria muito isso para ela, mesmo que para mim fosse difícil de lidar e eu sei que seria. É que eu não sabia o quanto ela te amava até que a gente te perdeu, ela sofreu muito e acho que ainda sofre, então eu queria que ela pudesse preencher esse vazio dela. Engraçado, eu sempre disse que se eu fosse qualquer um dos dois pediria separação, mas agora eu meio que entendo que vocês se completavam. Não sei se você a amava tanto quanto ela te amava, mas acho que você precisava dela, da força materna dela, acho que no mínimo você sentia gratidão por ela, mas também acho que nunca vou saber ao certo, né?

  Com meu outro irmão eu cortei relações. Ele agora tem um casal de filhos, mas ele não consegue superar as coisas que aconteceram no passado e eu até perdoaria as coisas erradas que ele fez se ele me dissesse que estava procurando ajuda, mas ele preferiu rejeitar minha proposta, então achei por bem que seria melhor deixar ele tão enterrado quanto você. O único assunto inacabado meu é o da Elaine. Eu ainda tenho aquela vontade de ir falar com ela, ouvir a defesa dela agora que eu já sei todos os fatos, mas acho que é melhor eu esperara estar bem afiada em Direito antes de dar qualquer passo.

Não sei exatamente o que eu busco com essa carta, mas ela chegou ao fim. No fundo acho que estou chovendo no molhado ao dizer todos esses fatos que você já deve saber. Eu ainda fico meio confusa quanto ao que acreditar em termos de religião, mas prefiro acreditar que você está são e salvo no céu olhando por todos nós e guiando nossos passos para que nós, quase como um Deus, mas só da nossa família. Espero que te escrevendo esta carta, ou pensando em você de vez em quando, eu não esteja te prendendo a terra nem nada do tipo, eu odiaria ser causa de dor para você após sua morte. Espero que você esteja orgulhoso dos seus filhos, cada um deles está indo bem do jeito que dá e cada um deles te amou do jeito que pôde. Eu sinto saudades e tenho muito medo de te esquecer e me arrependo de nunca ter dito que te amava. Tenho a impressão que disse isso antes de sair do hospital quando você já estava na UTI, mas eu sou uma ridícula que ficou com vergonha de dizer em voz alta, então não sei se você ouviu. De qualquer modo eu digo agora: “Pai, te amo. Não se preocupe conosco, é só você ficar bem e nós estaremos ótimos”.

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