27 de novembro de 2012

Troféu de que?

 

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  De melhor filho? De mais inteligente? De mais engraçado? De mais carismático? De que? Não é a primeira vez que venho aqui falar do meu irmão e da nossa competição, mas agora começo a ter a impressão de que a competição não é nossa, é dele comigo. Até que faz sentido, quer dizer, ele era o caçulinha preferido, até que quando ele tinha seis anos eu cheguei. Roubei a atenção do pai dele por completo e ainda virei exemplo: quando eu era pequena era exemplo de boas notas, quando cresci virei exemplo de comportamento. Quando fiquei de recuperação fui comparada a ele, como se ele fosse o mau exemplo. Eu não bebo, não fumo, não me drogo e ajudo minha avó, minhas tias e minha mãe sempre, ainda que contra minha vontade. Ele bebe, ele fuma e ela já deixou bem claro que ajudar os outros, que sim, são folgados, não é com ele. Então tá, entendo que ele tenha certa necessidade de competir comigo. Mas será que ele não percebe que ele já ganhou? Ele fez medicina que era o sonho da minha mãe, passou com só dois anos de cursinho em uma faculdade pública, fez intercâmbio em Harvard, teve a coragem de ir pra PQP no Amazonas ajudar os outros no exército e eu… Eu fugi de Franca, eu fiz três anos de cursinho e estou cursando uma faculdade privada, estou fazendo Direito que é um curso que minha mãe quase me proibiu de fazer e acho bem possível que eu não consiga fazer intercâmbio pela faculdade. Então é, eu sou modelo de comportamento, talvez até de esforço, mas de que vale isso se todos os resultados incríveis vão pra ele? Taí uma coisa que me cega de raiva fraterna: parece que tudo vem fácil para ele, enquanto eu luto com unhas e dentes pelo que quero e nem sempre consigo tendo que trabalhar e desenvolver ao máximo minha resiliência. Eu sou modelo de tentativa e ele de sucesso. Aí eu te pergunto: qual a graça de competir?

  Eu amo meu irmão, deus sabe que sim, amo a ponto de o defender quando sei que ele está errado, de sentir ciúmes quando uma amiga acha ele bonito, de pensar duas vezes e considerar, talvez demais, as coisas que ele diz, mas eu também sinto um pouco de inveja dele. Um pouco de inveja dessas conquistas que ele tem e eu não, dessa coragem que ele parece ter eu eu não, do fato de que ele nem tenta muito mas conquista as pessoas e as coisas que ele quer e eu tento e as vezes conquisto as pessoas, mas as coisas… Morro na praia.

  Isso veio a tona porque esse fim de semana ele fez FUVEST, ele fez 72 na prova, eu, no meu melhor ano, fiz 68. Depois de três anos de cursinho fiz 68 e ele, depois de três semanas de cursinho, fez 72. E ele veio me contar, feliz da vida e eu fico feliz por ele, mas… Mas eu morri na praia e não tenho certeza de como me sinto sobre isso hoje. Gosto do Mackenzie, fiz bons amigos ali, gosto do estágio, do francês, da maioria dos professores e do lugar em si. Acho que fazer Mackenzie é o melhor para mim, para que eu trilhe meu próprio caminho, acho que me encaixo melhor com as pessoas do Mackenzie do que me encaixaria com os da USP devido ao ego deles, acho que simplesmente estou feliz onde estou. Mas aí vem aquela parte de mim, doutrinada para achar a USP melhor do que tudo, que me diz que não estou na USP porque fui burra demais e não passei na prova. E mesmo achando que eu tenho plena capacidade e inteligencia para estar na USP tenho que concordar, eu reprovei na FUVEST… E meu irmão passou, de novo. Eu sei que é mais do que capacidade, é o destino e o universo agindo, mas o sentimento de inferioridade é inevitável e eu me pergunto: será que ele não podia ter previsto isso? Será que ele não tem o mínimo de sensibilidade para lembrar que me falar isso é quase cruel? Ou, sei lá, espera eu perguntar ao invés de sair me mandando adivinhar sua nota!

  Eu amo meu irmão, deu sabe que sim, mas que as vezes ele força, ahh isso sim!

24 de novembro de 2012

De que adianta?

 

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  Me sentir gostosa e poderosa se só eu acho isso? Ou melhor, se quem acha isso eu só quero amizade? Não tem ninguém em especial de quem eu quero atenção, bom tem ele, mas ele é casado e é uma paixãozinha dessas platônicas minhas e talvez por ele mesmo seja tão necessário que eu tivesse outra pessoa me achando gostosa e poderosa. Distração. Eu acho que já superei o Complexo de Cinderela, também já não sou a Cinderela Complexada, mas ainda quero alguém do meu lado, algum companheiro, sabe? Sei que esse companheiro não vai me salvar de meus problemas, até porque, graças a Deus meu maior problema no momento é uma quase DP e com isso só eu mesma posso me ajudar, mas se esse companhero estivesse aqui eu poderia falar, dar risada, compartilhar…´

  É tudo culpa desses filmes, desses livros e dessas séries idiotas. Tudo tem romance! Como se romance fosse o objetivo maior da nossa vida! Maldito Darwin. Maldita necessidade de reprodução. Maldita menina que trabalhava comigo e colocou a semente dessa necessidade na minha cabeça. Eu não tinha esse sonho, essa vontade de namorar, casar, ter filhos e criar meus filhos na santa paz de deus. Eu quero o mundo! Eu quero trabalhar na ONU, ou ser defensora pública, ou trabalhar nos médicos sem froteiras, ou então ser promotora… Eu quero ser grande! Fazer a diferença! Escrever um livro e fazer sucesso! Mas queria também ter alguém do meu lado durante tudo isso, queria ter uma família para ter orgulho de mim, viver um romance e escrever sobre ele, ter um filho e fazer diferença na vida dele.

  É tudo tão contraditório e quase excludente, paradoxal, acho que essa é a palavra que melhor define meus sentimentos… Por quê eu não sou ser uma daquelas pessoas ignorantes que pensam o mundo em preto e branco e se contentam com pouco? Talvez se eu fosse assim seria mais feliz….aliás, feliz não, eu sou muito feliz assim, mas seria mais realizada, teria desejos mediocres e mais fáceis de satisfazer ao invés de ficar sonhando com os olhos abertos e vidrados na imagem sem rosto nem forma de um principe encantado e uma vida utópica de fazer mudanças no mundo.

2 de novembro de 2012

Visão de mundo

 

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Ás vezes eu acho que a visão de mundo do meu irmão é completamente deturpada. Poluída com o ego dele, com essa necessidade de sempre ser superior e melhor, que ele não percebe que tem, mas que ele tem e é gritante. Ele disse hoje que eu ainda compito com ele, e muito. Mas eu já não acho isso. Acho que há alguns meses atrás eu desejava ser tudo o que ele era, mas que a terapia tirou muito disso de mim, hoje, mais do que viver as experiências boas que ele viveu, eu quero viver minhas próprias experiências, criar minhas próprias impressões no mundo, viver minha vida do meu jeito. Eu sei que ainda não tenho muita certeza do que quero ou de qual é meu jeito, mas quero que seja uma decisão minha, um objetivo que parta do meu coração. Essa necessidade de originalidade pode ser meu ascendente em aquario, mas acho mesmo que é simplesmente resultado de 20 anos de comparação com meu irmão, 3 anos perseguindo o sonho dele de fazer USP, 3 anos me preparando para realizar a vontade dele e da minha mãe de uma cirurgia plástica… Eu quero deixar isso para trás, quero trocar experiências com ele, saber como foram as dele e que ele saiba como foram as minhas e me deixa louca essa coisa de ele interpretar todos os fatos, pensamentos e atos do mundo de acordo com a visão de mundo dele. Acho que ele é fisicamente impossibilitado de entender outro modo de vida, outra visão de mundo, outra visão dos acontecimento. E isso se torna algo bastante irônico já que ele acabou de voltar de um ano com contato direto com tribos indígenas.

Aí já acho que é neura minha, mas as vezes me parece também que ele compete mais comigo do que eu com ele. Existem diversas coisas que eu queria ter/fazer e ele foi lá e fez/conquistou, coisas que ele sabia que eu queria, mas eu não consigo descobrir se são coisas que ele conquistou por necessidade de conquista para ser o melhor, ou se erma coisas que ele mesmo queria, mas nunca havia falado, coisas que ele queria como eu pelo simples fato de sermos muito parecidos, pelo simples fato de sermos irmãos.

E por mais que a visão de mundo dele me deixe maluca, eu não consigo me permitir ficar com raiva dele muito tempo, porque ele é meu irmão, e agora é o único irmão que eu tenho, a única referência próxima de homem na minha vida e eu não só preciso dele como também o amo, ainda que ele force bastante a barra desse amor.