27 de fevereiro de 2014

Hora de voltar

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Todo mundo precisa de ajuda, porque como diz o ditado popular “nenhum homem é uma ilha”, então quem sou eu para fingir que sou capaz? Não tenho vergonha de admitir que preciso de ajuda, não só para lidar com a minha mãe, e os ataques à bomba em minha auto estima, mas na minha vida amorosa também.

É hora de admitir: tenho problemas em me relacionar romanticamente com as pessoas. Eu escolho demais, quando percebo que alguém se interessa por mim eu me afasto, não confio nos sentimentos dos outros por mim e eu não sei porque demorei tanto tempo para admitir isso, ou para perceber isso. Porque a verdade é que eu acho que não havia percebido isso. Quando, três anos atrás, a Samantha me perguntou se eu tive namorado, se estava tudo bem nessa área eu disse que sim e não falamos mais disso, acho que ela deve ter percebido que eu não queria falar disse e que havia um problema mais iminente a ser tratado. Na época disse que tinha tido um namorado, o João Pedro, e ficado com mais alguns meninos, fiquei com vergonha de falar a verdade e confusa e desconfortável, talvez em assumir minha deficiência. Depois, dois anos trás, ela me perguntou se havia algum problema em minha vida que eu queria discutir, que eu precisava de ajuda, e eu nem se quer lembrei disso, eu estava descobrindo uma época nova em minha vida, pensava que a partir dali tudo iria mudar, era uma nova fase da minha vida que estava começando e eu estava ansiosa por dar início a ela.

Semana passada quando minha mãe bombardeou minha auto estima e eu decidi, por bem, voltar a me consultar com a Samantha, eu percebi que não era só a minha mãe. Esfriei minha cabeça e me dei conta de que talvez eu realmente tivesse um problema, que eu quero me relacionar melhor e que ela pode me ajudar nisso como já me ajudou em outras coisas. Percebi que eu deveria falar com ela com total sincerida sobre esse lado da minha vida. Às vezes vemos nos filmes as pessoas dizendo que não estão prontas para falar sobre alguma coisa, eu acho que eu não estava pronta na época para falar sobre minha falta de vida amorosa, mas agora eu me sinto pronta.

Não tenho vergonha de dizer que é hora de voltar a me consultar com uma psicóloga, pedir ajuda para me libertar de mim mesma, eu quero melhorar, eu quero me sentir plena. Não é que eu não esteja feliz, mas sinto que falta uma partezinha de mim mesma e acho que agora estou pronta para encontrá-la, ou construí-la.

25 de fevereiro de 2014

Depois do fim

7799lagrima1 Nossos olhares se cruzaram, foi apenas por um momento, um segundo longo o suficiente para que ele desviasse o olhar constrangido, desconfortável. Eu sei porque eu me senti assim também. É engraçado, e um pouco triste, talvez seja uma daquelas coisas que são engraçadas e trágicas ao mesmo tempo, como um filme francês daqueles que nós costumávamos assistir juntos. Então ele voltou toda a sua atenção a mulher ao seu lado, tirou o cabelo de seu rosto e lhe fez carinho. Em um acordo tácito nós decidimos fingir que não nos notamos e eu passei reto, fingi que não o vi naquela mesa, com aqueles amigos que um dia foram nossos e com aquela mulher que agora talvez fosse dele.

Não consegui evitar, fiquei imaginando se ela era ciumenta, se ela faria uma cena se visse a nossa troca de olhares. Se daria certo entre eles, se ele estava feliz, se ela o fazia feliz como eu fiz um dia. Eu queria saber se ela sabia aproveitar as pequenas surpresas que ele preparava para ela, se ela agradecia aos bombons que ele deixava em sua bolsa pela manhã, ou pela vitamina de mamão na geladeira. E se ela sabia que ele adora bolo de cenoura com cobertura de chocolate e se faz de vez em quando só para vê-lo lambusado e parecendo uma criança arteira.

Eu sei que tive minha chance e que perdi. Eu lembro do nosso fim e de tudo o que nos levou a ele, lembro de suas imperfeições e das minhas também, e principalmente, lembro de tudo o que vivemos juntos. E por lembrar de tudo isso, das coisas boas e ruins, eu gostaria de odiá-lo, ou de ser totalmente indiferente, mas não consego. Durante um longo tempo nós caminhamos juntos e eu não consigo fingir que nós não nos conhecemos. Não consigo deixar de desejar que ele seja feliz com quem quer que seja, porque eu sei que, apesar de tudo, ele merece. Eu mereço.

É difícil deixar de amar alguém por completo, eu sempre vou amar um pouquinho ele, mesmo estando completamente apaixonada por outro. E acho que ele sente o mesmo, acho que ele se pergunta o mesmo e é por isso que nossas trocas de olhares ao acaso nunca mais vão ser confortáveis.

21 de fevereiro de 2014

Ao meu redor

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  Eu não sei como faço isso. Não sei se é só impressão minha, afinal, que nem diz a Nati, eu tenho síndrome de perseguição, acho que tudo é comigo. No meu grupo de amigos da faculdade já não é tanto assim, no quarteto não dá para falar disso há um bom tempo, mas mesmo nestes grupos, assim como nos dois trabalhos, no cursinho, no colégio, isso acontecia. Mas eu, que apesar de muito convencida, tenho uma modéstia bem trabalhada, sempre achei que fosse coisa da minha cabeça. Eu não posso ser o centro do grupo, ele existiria sem mim. Mas será mesmo? Será que eu não sou o centro do grupo? Que sem mim o grupo teria se formado?

  No começo eu ficava brava, no colégio, reclamava que se não fosse eu a chamar ninguém sairia, mas depois me acostumei, até hoje é assim, na minha família ou em qualquer outro grupo de que eu faça parte. Eu sou muito tímida, mas uma vez vencida essa barreira tenho a tendência a liderar, a chamar as pessoas para sair, entro em conversas que não me dizem respeito e dou atenção as pessoas. No meu antigo trabalho eu era a estagiária central, pelo menos até que o Zocca chegasse, mas mesmo depois que ele chegou, ele era o preferido, mas eu era a preferida dele. E hoje no trabalho…

  Eu entrei faz quase três meses, mas converso com todos, brinco com todos, tiro sarro e deixo que tirem sarro de mim. Três dos advogados, entre eles meu chefe, que são os mais inteligentes e cultos dali, adoram conversar comigo, estão sempre tirando sarro de mim, mas coisas legais, nada ofensivo. Eu brinco, faço drama, digo que é bullying, mas na verdade dou risada, retruco. Hoje, eu contei que minha prima disse que não me respeitam no trabalho, aí eu disse que mudei de trabalho… mas continuo sem ser respeitada. Falei brincando, dei risada, mas um dos advogados, o mais velho do grupo, que não tem nem 40 anos ainda me respondeu em tom sério: “Não, isso é interesse. Nós brincamos com você porque você é interessante, se você não fosse interessante nós nem íamos ligar, íamos deixar você em um canto e nem conversar”. Foi o ponto alto da minha semana.

  Foi uma coisa que eu sempre pensei se mim mesma, mas por modéstia, não me permitia afirmar em voz alta. Não é à toa que, tirando o quarteto, algumas outras meninas no colégio me odiassem, eu era o centro, eu era uma das meninas populares sem saber. Sem saber, sem ser convencional, eu acabei me tornando aquela garota que eu sempre achei que nunca seria, com a diferença de que ela atrai a atenção de pessoas comuns e eu tenho ao meu redor pessoas realmente inteligentes, cultas, legais em muitos sentidos diferentes. Eu sou interessante, isso explica tantas coisas, como tantas conversas se desenrolam ao meu redor, o porquê do meu ex-chefe ficar uma hora falando comigo quando eu achava ele inteligente demais para me dar ao luxo de bater papo, o porque nesse trabalho eu estou no meio da conversa entre os advogados mais legais, porque um deles as vezes parece entrar ali só para falar comigo…

  O crédito não é todo meu, eu sei que minha formação cultural e intelectual se deve aos meus pais e meus irmãos, inteiramente, mas mesmo assim, deu certo… eu sou interessante.

20 de fevereiro de 2014

Campo Minado

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Mas na verdade é a minha casa.

Todo dia eu tenho que ouvir que estou gorda, preciso emagrecer, uso roupa de velha, que é melhor guardar o vestido, vai que eu consigo emagrecer? Todo dia pego algo para comer escondido, porque se reparar vai dizer que “a essa hora você vai comer isso?”, “não é à toa que está deste tamanho”, “onde você quer parar desse jeito?”. Sem contar as indicações diárias de que eu deveria ter namorado, de que logo tenho que arrumar um namorado, de que é por isso ou aquilo que eu não tenho namorado. E quem lê isso ainda pode pensar que eu estou falando com algum tipo de inimigo, com um colega da faculdade que faz bullying comigo, mas a verdade é que quem mina a minha auto estima desse jeito é a minha própria mãe. É ela que insiste para que eu faça uma cirurgia completamente estética que eu não tenho interesse em fazer, que nunca solta uma palavra de aprovação sobre minha aparência física e sobre minha personalidade só se cavando muito, mas nada se compara a quantidade de críticas diárias que eu recebo.

Eu já tenho problemas de auto estima e insegurança e eu sei que é por causa dela, meu ano de tratamento com psicólogo não foi para superar a perda do meu pai, ou me conhecer melhor, foi para resolver meus problemas com ela, os problemas que ela cria em mim. Vai fazer exatamente dois anos que parei e eu vou tentar ligar para ela amanhã, vou tentar de todos os modos entrar em contato com ela porquê se eu não fizer isso vou surtar. Vou tentar me matar, vou me deixar morrer, vou me fuder mentalmente de um jeito que eu não mereço e que não quero deixar acontecer! Vou voltar a me tratar com um psicólogo porque minha mãe se recusa a se tratar. E eu não tenho vergonha disso, pior, tenho pena de mim mesma por ter uma mãe que não se toca do efeito devastador que tem na vida da prórpria filha.

Não sei até que ponto vou ser sincera com a minha psicóloga, se eu conseguir voltar a me consultar com ela, mas vou ser o mais sincera possível, falar dos meus problemas de relacionamento com o sexo oposto, e mencionar que só tive um namorado, coisa bem adolescente e depois só fiquei com mais um cara, mas já faz tempo demais para ser saudável. Eu quero ajuda e estou disposta a me expor, como talvez nunca tenha feito, para conseguir.

19 de fevereiro de 2014

O que ficou foi seu sorriso

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Um dia abri meus olhos e lá esta va ele, sorrindo. Um sorriso sincero, não uma gargalhada, nem meio sorriso, mas um sorriso mostrando os dentes, que mostrava sua alegria. E ele não sorria só com os lábios, mas com os olhos também. Aqueles olhos castanhos, cor de mel, um pouco mais escuros que os meus, que tinham algumas pintinhas pretas e que quando ele sorria ganhavam um brilho incomparável. Era uma expressão acima de tudo sincera, com um toque de inocência e um ar de infantilidade. O sorriso dele me lembrava um sorriso de menino e isso derretia meu coração de uma forma que me deixava desarmada. Cada vez que ele fazia uma brincadeira boba, que eu me irritava, ou mesmo quando eu estava chateada por alguma coisa do dia a dia, ele aparecia, fazia graça e sorria. Então como num passe de mágica as nuvens se afastavam e eu sorria também, porque com ele eu não conseguia ficar brava, porque com ele o sol raiava.

Eu sei que nunca foi a intenção dele, que ele nunca desejou meu coração, e eu nunca dei para ele, mas em algum momento, sem que eu percebesse, meu coração acabou nas mãos dele. É uma pena que ele não tenha cuidado bem, aliás é uma pena que ele tenha sido uma parte tão importante da minha aprendizagem emocional e que ele também tenha se machucado nesse nosso caminho. Se eu pudesse mudar alguma coisa mudaria, voltar no tempo e reparar meus erros... Mas eu não me impediria de deixar meu coração escorregar para as mãos dele, porque em meio toda a dor de não ser correspondida tinha aquele sorriso. Em meio a nossa relação conturbada tinha aquele sorriso e tinha também uma bondade enorme, as vezes eu sentia que ele me daria o mundo se eu quisesse, mas em outras...

No fim, do que restou de nós dois, se essa história realmente já acabou, foi a memória da minha má conduta, uma culpa que me incomoda de tempos em tempos, como um alfinete que se perde na roupa, mas que dependendo do movimento te espeta. E é claro, a memória mais forte é a do seu sorriso, um sorriso que eu busco em outras faces e corações com tanta avidez quanto medo de encontrar.

17 de fevereiro de 2014

Amor à distância (16/02/14)

namoro a distancia, pensamentos de cristãos

Eu sei que falei mil vezes que ia te esquecer, desapegar e partir para outra. Eu não acredito em namoro à distância, você lá e eu aqui, isso não funciona comigo. Eu sou uma menina mimada, você sempre dizia isso e é verdade, quando eu quero alguma coisa eu quero aqui e agora e em um namoro à distância isso não pode acontecer. Depois, essa história de que a saudade é o alimento do amor é balela, a saudade é o primeiro passo para o esquecimento... Talvez seja por isso que eu sinto saudades suas.

Talvez namoro à distância não funcione comigo, mas meu coração continua te amando, ele acredita fielmente em amor à distância. E minha memória me trai cada vez que estou assim, sem fazer nada, e me lembro do dia em que você chegou de surpresa. Eu estava péssima, tendo um dia de cão, minhas amigas namorando, eu recém solteira, problemas no trabalho e chego em casa e você estava lá, justo no momento em que meu maior desejo era abrir a porta e te encontrar, você estava lá.

Não sei se existe uma alma gêmea para cada pessoa, não acredito nisso também, mas você se esforça, deve ter decorado meu manual de instrução e sincronizado seu relógio com meu coração. Você sempre soube a medida certa de me irritar, para depois dizer que era brincadeira, sempre soube o dia certo de me levar chocolates para acalmar minha TPM e nunca se esqueceu do dia do meu rodízio. E se existe uma razão para tudo, então você entrou no meu caminho para me mostrar o que era amor de verdade, amor regado de paixão, mas enraizado no carinho.

E eu sei que falei mil vezes que ia te esquecer, mas hoje faz um mês desde aquele dia em que você me surpreendeu e desde então, e mesmo antes, todos os dias eu penso em ligar para você, todos os dias eu me lembro de nós dois e fico pensando em que seu meu coração ainda insiste em ser seu, quem sou eu para desistir do nosso amor só por causa de alguns quilômetros?

13 de fevereiro de 2014

Ana & Murillo (Janeiro de 2014)

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- Eles não fazem um casal lindo, Val?

Eu escutei isso e fiquei roxa, eu sempre corei por tudo, e nesse dia foi por isso. Naquele momento eu não tinha certeza se era porque eu queria que nós fôssemos um casal ou porque eu sabia que ele queria isso também. Ele também ficou sem graça e aí minha mãe concordou com a mãe dele e nós dois evitamos nos olhar por alguns momentos.

Nós éramos crianças, estávamos brincando na praia como sempre fazíamos, estava sol e era começo da tarde de um sábado. Naquela época, pré adolescência, gostar de uma pessoa desse jeito deixava a gente sem graça, meio sem saber como agir, meio com medo da reação do outro se ele soubesse, meio com medo de arruinar a amizade.

Não sei se ele foi meu primeiro amigo, mas não lembro da minha infância sem ele ali para nós brincarmos juntos, só nós dois, ou com outros amigos também... Pega-pega, polícia-e-ladrão, esconde-esconde, pranchão, ping-pong... Eu odiava ping pong porque era ruim e ele sempre tentava me convencer, me ensinava a jogar com a m aior paciência. Ele sempre foi muito paciente comigo. Quando eu não queria nadar, nem ficar no sol, porque estava menstruada e tinha vergonha de contar para ele e ele ficava horas tentando me convencer, até que eu falava a verdade, ele simplesmente pedia para brincar de outra coisa.

E então o tempo corre e sete anos depois eu me vejo na frente do computador, no facebook, e resolvo entrar na página dele, ver suas fotos, geralmente fotos divertidas, ele sempre brincando, ele com os amigos, ele com alguma menina. Os recados em sua página, fotos em que os amigos marcaram ele, festas, um recado de alguma menina, uma piada interna. As informações pessoais dele, a formação, ele fez engenharia na mesma faculdade que eu, estudamos na mesma faculdade por dois anos e eu nunca o vi no campus, fomos as mesmas festas e eu não o encontrei e algumas vezes até o procurei com o olhar... E no fim da página de informações pessoais a informação que eu checo de tempos em tempos, estado civil: solteiro. E ele parece adorar isso.

Ele foi um amor platônico por um longo tempo, ainda que não tenha sido meu primeiro amor platônico, e de tempos em tempos eu tenho uma recaída idealizando cenas de nós dois juntos...

- Esse livro?

- É, eu gosto desse autor

- Tem algum autor que você não gosta? - um beijo, alguns sorrisos, mãos dadas e nós saímos da livraria, na porta nós paramos, mais alguns beijos e sorrisos

- Cha? - me viro, são minhas amigas. Fico sem graça, não falei nada de nós dois para elas ainda, mas não tem importância, ele se sai bem, faz graça, dá risada e fica tudo bem, porque estamos todos felizes.

Mas a vida não é assim, não é um conto de fadas onde tudo sempre fica bem. Na realidade ele apenas ronda meu pensamento de tempos em tempos, porque nossos caminhos quase se cruzaram, mais de uma vez, depois de perdermos o contato e eu vejo algumas postagens dele e lembro daquele tempo em que ele era minha utopia.

E independente de ele ter sido meu primeiro amigo ou não, de ele ser ou ter sido uma paixão platônica, ele foi meu primeiro amor. Chega uma hora que é inevitável aceitar e reconhecer isso. Ele era mimado, mais baixo do que eu e meio pão duro, qualidades que minha mãe lembra sempre que eu tenho uma das minhas recaídas, mas foi meu primeiro amor e talvez o único.

Eu fiquei com medo, fugi, parei de gostar ainda gostando, quando percebi que era recíproco. Eu sempre tive medo dos outros gostarem de mim, ele não foi o único. Eu sempre fugi quando percebi que outra pessoa começava a contar comigo e minha fuga sempre causou dor no outro. Eu ainda faço isso e talvez, se nós nos reencontrássemos eu fizesse de novo. Naquela época, uns sete anos atrás, ou mais, eu era adolescente eu não sabia que era assim, que tinha esse medo que só agora começo a admitir para mim mesma. Eu acho que machuquei ele, e acho que talvez por isso nós tenhamos perdido o contato, ou talvez seja o curso natural das coisas e esteja na hora de eu aceitar.

E nós nunca realmente tivemos nada, mas a cada postagem nova dele que eu vejo, ainda que sem querer, cada vez que o nome dele surge em uma conversa, ou quando, em uma revista de horóscopo, eu leio que "no próximo ano um amor do passado vai voltar a tona e mexer comigo", eu lembro dele e me pergunto como teria sido se eu tivesse sabido aceitar o amor que me davam, se eu vou ter uma segunda chance de experimentar isso com ele.

Às vezes penso que não era nossa hora, que nossa hora ainda está para chegar, em um reencontro talvez, em um encontro de amores passados que estejam agora na mesma página, prontos para dar certo e começarem uma nova história juntos. Talvez em uma festa ele me veja e venha falar comigo, talvez eu vá falar com ele, e nós nos divertiremos e sairemos mais vezes e seremos felizes para sempre e no casamento eu lembre, na hora do discurso, aquela cena lá na praia, naquele sábado.

É que eu tenho essa sensação boba de que nossos caminhos ainda vão se cruzar e que alguma coisa pode se passar. Ele é uma coisa inacabada para mim, uma história na qual eu ainda não coloquei um ponto final e eu espero esse reencontro para colocar esse ponto ali, ainda que com a esperança de depois escrever uma nova história junto com ele.

Ana & Murillo (Novembro/2013)

 

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Ana dançava do jeito que queria, nem bem nem mal, mas solta, leve, acima de tudo se divertindo. Suas amigas também dançavam assim, nenhuma querendo nada com nada, apenas aproveitando a música, dando risada e fugindo de alguns abraços e puxões indesejados. Quando a música acabou todas elas caíram na risada, todas fantasiadas, cada uma de uma coisa diferente, de policiais a princesas e Ana de abelha. Enquanto ainda dava risada uma mão segurou em seu braço e no mesmo instante ela tentou se soltar, sem nem olhar, mas ele segurava forte e ela não foi bem sucedida, então virou o rosto para encarar o dono da mão e reclamar/rejeitar ele. O que ela não esperava era ver ele, sabia que ele estaria na festa, ouviu dizer, mas achou que era rumor, ou que eles não iriam se ver, ainda que ela tivesse esperanças de vê-lo ali.

E agora ali estava ele, segurando seu braço e olhando em seus olhos, também um pouco surpreso, mas sua surpresa se transformou logo em um sorriso, e Ana sentiu o coração acelerar e seu estômago ficou gelado e lentamente virou o corpo na direção dele, também começando a sorrir. O aperto dele se afrouxou e ela soltou o braço, deu um passo para frente e o abraçou, ele correspondeu e nos segundos que se passaram Ana lembrou de como gostava dele, de como sentiu sua falta. Lembrou-se de quando eram crianças e brincavam juntos, depois da pré adolescência quando ela se apaixonou por ele, mas nunca teve coragem de se declarar, depois quando deixou de gostar dele e ele começou a gostar dela e ela se irritava com ele por isso, porque agora ela não gostava mais dele e sim de seu amigo, que não ficaria com ela sem autorização prévia. E não ficou. Depois eles não se viram mais... Agora ela tinha 22 anos e não o via desde os 15, eram sete anos de distância, de olhar o facebook dele sem dizer nada, de pensar em como ele estava bonito, que ficar mais velho foi bom pra ele e principalmente imaginando o que poderia ter acontecido se ela tivesse cedido, dado uma chance a ele, seu melhor amigo durante toda sua infância e parte de sua adolescência.

- Quanto tempo! - exclamou ela soltando ele

- - -

Ana entrou no banheiro como um furacão, ele estava vazio, mas mesmo assim ela se escondeu em uma das cinco cabines vazias, ela nem se quer olhou qual estava mais limpa, simplesmente entrou e fechou a porta virando-se de costas e apoiando nela em seguida. Parecia uma fugitiva se escondendo da polícia, mas no fundo era isso que ela estava fazendo, fugindo e se escondendo dele. E ele ainda estava com aquela menina, aquela amiga que ela detestava porque ela era feliz demais, simpática demais e tocava demais nele. Ela provavelmente estava com ele agora, Ana havia se retirado de seu caminho então ela podia dar em cima dele livremente e ele provavelmente iria corresponder... Babaca.

Ana ouviu a porta do banheiro abrir e pensou que podia ser ele, mas logo desistiu dessa ideia, ele provavelmente não a viu e ela entrou no banheiro a tempo e logo iria sair e ir embora daquele shopping sem que ele a visse. Parte dela queria que ele tivesse visto, como queria responder suas ligações no último mês, porque ela queria colocar tudo em pratos limpos, terminar de verdade, mas tinha medo de fraquejar, porque cada vez que o via seu coração disparava como se ela tivesse 11 anos de novo. Aquela situação onde ele havia dito o que queria e ela também disse o que bem entendia, mas não resolve nada lhe dava nos nervos, mas ainda não tinha coragem. Ela suspirou juntando forças para sair do banheiro, ainda encostada na porta da cabine.

- Ana eu sei que você está aqui - era a voz dele. Ana gelou - nós precisamos conversar, sai daí e a gente conversa lá fora - Ana não respondeu - vai Ana, eu te vi entrar, daqui a pouco vão entrar aqui e eu posso ser preso - silêncio - Ana você não pode me ignorar pra sempre, eu não vou parar de tentar falar com você, não vou parar de te ligar, deixar recado com a sua mãe, mandar mensagem no seu facebook e nesse exato momento eu não vou a lugar algum sem falar com você, então sai e vamos resolver logo isso? - o tom dele era de cansaço, mas ele parecia decidido. O celular dele tocou - a Isabela ta na porta dizendo para todo mundo que o banheiro está interditado, então tenho todo o tempo do mundo agora.

Ana suspirou de novo. Desencostou-se da porta e sentou-se sobre o vaso

- Eu não vou deixar você fazer isso de novo. Não vou deixar você se afastar de mim sem motivo algum quando eu já estou completamente dependente de você. É isso que você fez da ultima vez, quando viu que estava gostando de você, você arranjou uma paixonite pelo meu amigo, que reunia todas as qualidades que você detesta em uma pessoa! Você nunca teve um namoro sério e é a pessoas mais difícil que eu conheço, você sempre foi! Uma hora você quer uma coisa e fala com todas as letras, na outra você finge não querer uma coisa quando a quer mais que tudo! E a verdade é que ficar sem você é fácil, eu fiquei bem até aqui, mas parece que é só com você do meu lado que eu me sinto completo. Você sabe que só eu vou conseguir te aguentar por um longo prazo, todo mundo sabe disso, todo mundo diz isso, então esquece, eu não vou deixar você fazer isso de novo, não vou deixar você fugir de mim, nem que isso signifique que eu vá passar minha vida toda tentando te entender.

Ana não sabia o que dizer, talvez ele tivesse razão, ele provavelmente tinha razão, ela não conseguia explicar ao certo porque tinha terminado com ele, mas e se ele estivesse errado? E se eles não tivessem sido feitos um para o outro?

- E se eu estiver errado, se não for sua fobia de amor que te afasta de mim, então tudo bem, mas você vai ter que me dar motivos concretos e se não me der, eu juro que não vou mais largar o seu pé... Você tem uma semana para pensar no que eu te disse, e aí você me diz.

Lola!

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A Lola talvez seja meu Alter ego mais forte.

A Princesa de Sal era oprimida pelos pais, estava aprendendo a lutar suas próprias lutas, aprendendo a não ter sempre razão e era de longe a mais imatura e dramática, até porque ela era a mais insegura, a que tinha a auto estima mais baixa. Mas tudo bem ela ser assim, ela escreveu aqui dos 16 aos 18 anos, mais precisamente de maio de 2007 até novembro de 2009. A Princesa ainda existe, aqui num cantinho de mim, aparece quando eu brigo com a minha mãe, quando eu me arrependo de algo que eu disse ou fiz, quando meu irmão tenta ser grandioso para cima de mim. Mas já não me domina, ela soube a hora de se retirar do palco como uma verdadeira Lady e dar lugar a outra pessoa…

A Cinderela Complexada escreveu no blog de novembro de 2009 até não sei quando virei a Neëh!, no fundo acho que uma faz parte da outra, porque a Cinderela é apenas uma a parte romântica da Neëh!, na verdade ela ainda é a parte romântica da Lola também. A Neëh! esteve aqui até agora, ela é o meu alter ego mais interior, que mais se descobriu e evoluiu. A Neëh! veio aqui escrever em um tempo em que eu estava descobrindo meu lugar no mundo, se a Princesa de Sal tinha que lidar com os dramas adolescentes e a conviver com o meu pai aqui a cada dia, uma coisa então inédita na minha vida, a Neëh! teve que aprender a lidar com a ausência do meu pai, com a dor da maior perda da sua vida. Na verdade a Neëh! foi a que viveu todos meus momentos mais marcantes, a perda do meu pai, o cursinho, a desistencia de Franca, a terapia, a desistência da cirurgia, a entrada na faculdade, os novos amigos… Foi a Neëh! que construiu em mim a força que eu nunca tive, que me ensinou a me amar, que criou e trabalhou minha auto estima, que mais testou a minha resiliência e que me mostrou que eu posso sim ser forte, sou capaz de lutar pelo que eu quero e não apenas fazer limonadas com os limões que a vida me dá. A Neëh! me ensinou que eu tenho voz, que eu sou plenamente capaz e posso e devo realizar minhas vontades, superar meus medos e ganhar minhas batalhas, ainda que eu as escolha a dedo. A Neëh! foi para o Peru, começou a ler blogs e me tirar um pouco da Cinderela, que ainda vive em mim, ela percebeu que é feminista e que gostamos de debater atualidades com os amigos da faculdade, da escola, do trabalho, com a família… Ela fez uma tatuagem e criou em mim a coragem necessária para que eu me tornasse Lola.

A Lola deve ter mais variedade, ela quer escrever mais romances e crônicas que meus outros alter egos, a Lola se prepara para fazer intercâmbio e tudo que ela conquistar ela deve a Neëh!, pois foi ela que construiu as bases, a Lola voa com as asas da Neëh!, o coração da Cinderela e a intensidade da Princesa. A Lola não se importa tanto com o futuro quanto com o agora e como todas as outras ela tem fome de mundo, ela deseja tudo! E graças a Neëh! ela já não tem medo de ir buscar.