13 de fevereiro de 2014

Ana & Murillo (Janeiro de 2014)

tempo-de-amar

- Eles não fazem um casal lindo, Val?

Eu escutei isso e fiquei roxa, eu sempre corei por tudo, e nesse dia foi por isso. Naquele momento eu não tinha certeza se era porque eu queria que nós fôssemos um casal ou porque eu sabia que ele queria isso também. Ele também ficou sem graça e aí minha mãe concordou com a mãe dele e nós dois evitamos nos olhar por alguns momentos.

Nós éramos crianças, estávamos brincando na praia como sempre fazíamos, estava sol e era começo da tarde de um sábado. Naquela época, pré adolescência, gostar de uma pessoa desse jeito deixava a gente sem graça, meio sem saber como agir, meio com medo da reação do outro se ele soubesse, meio com medo de arruinar a amizade.

Não sei se ele foi meu primeiro amigo, mas não lembro da minha infância sem ele ali para nós brincarmos juntos, só nós dois, ou com outros amigos também... Pega-pega, polícia-e-ladrão, esconde-esconde, pranchão, ping-pong... Eu odiava ping pong porque era ruim e ele sempre tentava me convencer, me ensinava a jogar com a m aior paciência. Ele sempre foi muito paciente comigo. Quando eu não queria nadar, nem ficar no sol, porque estava menstruada e tinha vergonha de contar para ele e ele ficava horas tentando me convencer, até que eu falava a verdade, ele simplesmente pedia para brincar de outra coisa.

E então o tempo corre e sete anos depois eu me vejo na frente do computador, no facebook, e resolvo entrar na página dele, ver suas fotos, geralmente fotos divertidas, ele sempre brincando, ele com os amigos, ele com alguma menina. Os recados em sua página, fotos em que os amigos marcaram ele, festas, um recado de alguma menina, uma piada interna. As informações pessoais dele, a formação, ele fez engenharia na mesma faculdade que eu, estudamos na mesma faculdade por dois anos e eu nunca o vi no campus, fomos as mesmas festas e eu não o encontrei e algumas vezes até o procurei com o olhar... E no fim da página de informações pessoais a informação que eu checo de tempos em tempos, estado civil: solteiro. E ele parece adorar isso.

Ele foi um amor platônico por um longo tempo, ainda que não tenha sido meu primeiro amor platônico, e de tempos em tempos eu tenho uma recaída idealizando cenas de nós dois juntos...

- Esse livro?

- É, eu gosto desse autor

- Tem algum autor que você não gosta? - um beijo, alguns sorrisos, mãos dadas e nós saímos da livraria, na porta nós paramos, mais alguns beijos e sorrisos

- Cha? - me viro, são minhas amigas. Fico sem graça, não falei nada de nós dois para elas ainda, mas não tem importância, ele se sai bem, faz graça, dá risada e fica tudo bem, porque estamos todos felizes.

Mas a vida não é assim, não é um conto de fadas onde tudo sempre fica bem. Na realidade ele apenas ronda meu pensamento de tempos em tempos, porque nossos caminhos quase se cruzaram, mais de uma vez, depois de perdermos o contato e eu vejo algumas postagens dele e lembro daquele tempo em que ele era minha utopia.

E independente de ele ter sido meu primeiro amigo ou não, de ele ser ou ter sido uma paixão platônica, ele foi meu primeiro amor. Chega uma hora que é inevitável aceitar e reconhecer isso. Ele era mimado, mais baixo do que eu e meio pão duro, qualidades que minha mãe lembra sempre que eu tenho uma das minhas recaídas, mas foi meu primeiro amor e talvez o único.

Eu fiquei com medo, fugi, parei de gostar ainda gostando, quando percebi que era recíproco. Eu sempre tive medo dos outros gostarem de mim, ele não foi o único. Eu sempre fugi quando percebi que outra pessoa começava a contar comigo e minha fuga sempre causou dor no outro. Eu ainda faço isso e talvez, se nós nos reencontrássemos eu fizesse de novo. Naquela época, uns sete anos atrás, ou mais, eu era adolescente eu não sabia que era assim, que tinha esse medo que só agora começo a admitir para mim mesma. Eu acho que machuquei ele, e acho que talvez por isso nós tenhamos perdido o contato, ou talvez seja o curso natural das coisas e esteja na hora de eu aceitar.

E nós nunca realmente tivemos nada, mas a cada postagem nova dele que eu vejo, ainda que sem querer, cada vez que o nome dele surge em uma conversa, ou quando, em uma revista de horóscopo, eu leio que "no próximo ano um amor do passado vai voltar a tona e mexer comigo", eu lembro dele e me pergunto como teria sido se eu tivesse sabido aceitar o amor que me davam, se eu vou ter uma segunda chance de experimentar isso com ele.

Às vezes penso que não era nossa hora, que nossa hora ainda está para chegar, em um reencontro talvez, em um encontro de amores passados que estejam agora na mesma página, prontos para dar certo e começarem uma nova história juntos. Talvez em uma festa ele me veja e venha falar comigo, talvez eu vá falar com ele, e nós nos divertiremos e sairemos mais vezes e seremos felizes para sempre e no casamento eu lembre, na hora do discurso, aquela cena lá na praia, naquele sábado.

É que eu tenho essa sensação boba de que nossos caminhos ainda vão se cruzar e que alguma coisa pode se passar. Ele é uma coisa inacabada para mim, uma história na qual eu ainda não coloquei um ponto final e eu espero esse reencontro para colocar esse ponto ali, ainda que com a esperança de depois escrever uma nova história junto com ele.

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