28 de outubro de 2014

Nua

mulher_nua_na_janelaQuando todos seus segredos estão abertos ao mundo você se sente nua com a mera possibilidade de que eles se tornem conhecidos por quem te conhece. Porque se alguém sabe os seus sentimentos mais secretos, o que resta mais? Quem conhece seus sentimentos sobre os pontos mais importantes da sua história tem todas as armas que precisa para te ferir sem nunca te tocar.

A simples idéia me apavora, me enche de uma vergonha da qual eu fugiria com a maior infantilidade do mundo. Porque eu me dispo de todos meus sentimentos e fico nua, roupas jogadas ao chão, junto com essas palavras que eu creio perder ao vento. Cada palavra é uma peça, cada peça um sentimento, cada sentimento uma arma fatal. E uma vez aqui essas palavras não me dão o direito ao esquecimento, me ameaçam com a publicidade e me atormentam com a vulnerabilidade a que me exponho. Eu sei que preciso dessa nudez, preciso jogar essas palavras ao vento, só assim consigo me conhecer, me compreender, me ajudar. No entanto, essa minha necessidade de ficar nua não quer dizer que eu não tenha vergonha de exibir meu corpo nu.

Eu até tento me cobrir com alguma coisa, um véu que seja, sempre no meio fio entre a publicidade e o anonimato, entre o medo e a coragem. Cada texto é uma peça que vai ao chão, uma luz que acende em algum lugar. Cada palavra é uma vulnerabilidade maior a que me exponho. E talvez um dia eu jogue tudo no ventilador, espalhe pro mundo ou suma de vez… por enquanto vou deixando as peças jogadas no chão e as palavras soltas ao vento.

26 de outubro de 2014

Dejá-vu

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Meu tio está doente, está internado no hospital. Acompanhei minha mãe até lá um dia, fiquei apenas na recepção, mas em algum momento, antes de todos os outros da família chegarem, minha mãe me ligou da enfermaria e disse o estado dele. Eu desliguei o telefone e fui lá fora, o vento frio batendo no meu rosto e meu peito apertado, um aperto que me subiu pela garganta e saiu pelo olhos e pela boca.

Era como se eu tivesse 19 anos de novo, como se meu pai estivesse lá dentro e eu sentisse novamente tudo aquilo que senti antes. Eu sei que sou um dos portos seguros, ninguém realmente se preocupa como eu me sinto e espera que eu ofereça apoio aos outros. Eu não me importo, gosto de ser assim, faz com que eu me sinta forte. Mas ali, sozinha, eu lembrei tanto do meu pai, foi um dejá-vu tão forte, um momento assustadoramente semelhante aquele outro sábado em que quem estava internado era meu pai…

Fico flutuando entre as lembranças e a preocupação, cada uma pesando mais que a outra e só piora quando bate a saudade do meu pai e o medo de que meu tio também morra. Eu sei que fui construída para saber lidar com esses sentimento, e eu sei, mas isso não quer dizer que não doa. Engraçado pensar que semana passada lembrava do meu pai no sentido mais freudiano possível, quase num complexo edipiano.

Uma semana muda tudo, sempre. Não é um dia, uma hora ou um mês, minha vida sempre muda de uma semana para a outra, meus sentimentos tem esse ciclo. E esse aperto provocado pelo dejá-vu vai passar logo, alguma distração me leva pra longe dele num instante, a saudade é que não vai passar nunca.

23 de outubro de 2014

Ah! As memórias!

E de uma hora para outra acabou. Sem motivo, sem culpa e nem perdão. Fim. Só restaram as memórias, insistentes, dolorosas e repletas de amor.
É por isso que machuca, cada memória me espeta o coração como o espinho de uma rosa espeta o dedo de quem a segura. As lembranças se acumulam no meu peito, o seu sorriso, sua doçura, suas palavras me consolando quando eu precisei, me fazendo rir quando eu estava brava. Eu acho que nunca fiquei realmente triste perto de você, porque só de sentir seu cheiro meu mundo parava de cair.
Ah, seu perfume!
E foi tão abrupto, tão inesperado... semana passada mesmo nós estávamos fazendo planos para janeiro: Nova York, neve, compras... Sabe aquela música que a gente gosta? "I wanna know, have you ever seen the rain, coming down in a sunny day?" Não me sai da cabeça que ela realmente é nossa música. E todos os nossos momentos bons ficam reprisando em loop na minha cabeça com o refrão dessa música como trilha sonora. Todas as vezes que nós tivemos discussões acaloradas sobre política, cinema, música e sociedade, todos achavam que nós estávamos prestes a nos matar, mas tão logo a euforia passava nós concordávamos em discordar e depois não conseguíamos tirar as mãos um do outro.
E cada momento é um espinho novo, mais um momento que me confunde, que em algum lugar oculta a razão do nosso fim. E eu não sei se é pior não saber a razão de fim tão inesperado ou saber que nunca mais teremos esses dias incríveis. Porque acabou de uma hora para a outra, sem motivo algum, por culpa de ninguém e sem ter que perdoar qualquer um, só restaram as memórias.

12 de outubro de 2014

Tanta mudança que tudo fica igual

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Sábio era Bob Marley! Eu nunca escutei uma música sua, mas me deparei um dia com essa frase e desde então acho que ele é um sábio. Sábio por respeitar o coração de uma mulher, ainda que separar homens e mulheres seja algo que me incomode, então digamos apenas que “a maior covardia de uma pessoa é despertar o amor de outra sem ter a intenção de amá-la”. Assim é melhor.

E eu trago essa frase porque logo depois de escrever um texto sobre mudanças que estão por vir e sobre como eu mudei levei um soco no estômago. Um soco porque percebi que a mudança não foi tão grande, e porque o que escutei me doeu como um soco.

O que escutei foi que foi algo bobo, foi um cara dizendo que conhece certo personagem porque a namorada dele comprou um presente para sobrinha que era daquele desenho. E o que doeu foi uma palavra como qualquer outra: namorada. Depois nem consegui conversar mais com ele, por sorte estávamos em grupo. Namorada? Para mim que está tentando decidir até que ponto eu gosto dele, que está tentando descobrir se eu acho que ele gosta de mim porque gosto dele, ou se eu acho que gosto dele porque acho que ele está afim de mim. Namorada? Eu não esperava por aquilo, foi um soco no estômago que veio sem nenhum aviso prévio e doeu mais do que eu esperava. Aliás, doeu. Acho que doeu porque eu coloquei muitas esperanças nisso, porque eu tinha mais certeza do que pensava que você tinha algum interesse em mim, doeu porque me tirou das alturas, eu subi tão alto, sozinha, que quando escutei aquela palavra caí de mil metros. E doeu. Fiquei triste o resto do dia, depois fui tomada por uma determinação doida de sair com outros caras, de demonstrar mais meu interesse, de me fazer valer, de me fazer tentar, de me fazer falar. E aí eu tive um plim, daqueles que vem de lugar nenhum, mas fazem algum sentido, sabe?

Eu percebi que meu problema não era chamar os caras para sair e sim o medo de eles aceitarem, porque se eles disserem não eu vou estar na minha zona de conforto, mas se eles disserem sim… Se eles disserem sim eu vou estar tentando me ligar a alguém que não deve ter nada haver comigo, porque eu sempre tive para mim que eu sou diferente. Eu estabelesci isso muito cedo, porque eu era timida e insegura, e eu me dizia que era assim porque era diferente e me fiz diferente para alimentar essa minha timidez. E nunca achei que pertencia a grupo algum, mas nesse plim percebi que pertenço e que não tenho que ter medo de que as pessoas não vão gostar de mim por eu não ser igual a todo mundo. Eu não sou igual a todo mundo e ao mesmo tempo que eu tenho muito orgulho disso eu percebi que também tenho insegurança, medo das pessoas não gostarem de mim por eu não ser como todo mundo. Nesse plim eu me dei conta de que é exatamente por isso que eu não falo com o bonitinho, por medo de ele não gostar de mim, já que eu sou diferente. Mas sabe?´Eu gosto de ser diferente, tenho orgulho disso e preciso enfrentar isso, preciso ser um pouco mais como todo mundo agora, sair com alguém, gostar de alguém, me decepcionar, passar vergonha, experimentar. Essa diferença entre eu e o resto do mundo até existe, mas não é tão grande quanto eu pensava e eu não preciso ter vergonha dela.

E eu espero que esse plim seja o plim que me ajude a sair de trás da porta. Que me perceber um pouco como todo mundo e me dispor a ser do jeito que eu sou me dê a coragem que eu preciso para colocar minha cara no mundo, para fazer a mudança e aceitar a mudança.

10 de outubro de 2014

Winter is coming

Verdade seja dita: não sei se será o inverno metafórico, mas o real está chegando, pelo menos no Canadá e é para lá que eu vou em algumas semanas.
Em geral não sou o tipo de pessoa que sente quando a mudança está chegando, ela sempre me pegou desprevenida e me forçou a me adaptar as novas condições, resiliência.  Agora não,  agora eu estou sentindo ela chegar há algum tempo e isso me apavora um pouco, nunca lidei bem com mudanças. Ontem essa sensação de que a mudança estava chegando me encheu o peito na saída do trabalho, eu olhei a paisagem, os prédios do centro da cidade à meia luz do por do sol, aquele povo de todas as etinias passando por mim e a brisa batendo no meu rosto de leve, não sei o que nessa paisagem me fez sentir, mas eu senti: a mudança está chegando.
Logo eu vou para o Canadá passar as férias, depois eu volto e vou estar no quarto ano da faculdade, sair do francês e fazer outro curso, voltar à natação, quem sabe? Vou mudar de emprego, buscar um escritório e conviver com outras pessoas. Isso assusta, mas eu vou fazer isso, preciso dessa mudança e eu sei que ela vem para me fazer crescer, mas assusta.
E pela manhã eu já senti esse ar de mudança, passando pela Paulista, a caminho da faculdade, a meia luz do nascer do sol me lembrou do fim do ano de 2012, quando eu ainda trabalhava no TRF e no fim da tarde sempre caminhava pela Paulista, e lembrando disso eu percebi o quanto mudou desde então. Eu fui para Cusco, para Salvador e Aracaju, conheci Brasília, Joinville e Paraty. Mudei de emprego e comecei a conhecer minha área mais na prática. Percebi que causo muito mais efeito nas pessoas do que eu ummdia sonhei. Perdi um pouco a timidez, voltei a fazer terapia, ganhei amigos, minha casa começou a ser reformada e logo vai terminar, talvez quando eu estiver no Canadá. Então talvez a mudança esteja acontecendo, e eu nem percebi, desde de 2012. Mas mais importante do que essas mudanças de rotina eu percebi naquela manhã o quanto eu mudei.
Hoje eu me sinto mais capaz, mais dona da minha vida, me sinto um pouco menos ingênua e um pouco mais mulher. Talvez minha esperança no mundo esteja um pouco abalada, a minha esperança e achismo em ser diferente dos outros é certamente menor. Eu estou menos hipócrita, menos preconceituosa, judgemental, um pouco mais livre, coerente e feminista. Minha idéia sobre relacionamentos amadureceu também, já não tenho aquela idéia romântica das coisas, mas um pouco mais real, cotidiana. Ontem eu ainda me via muito como uma menininha, uma adolescente tentando se achar e descobrir a si mesma, hoje já me sinto mais mulher, tenho mais certeza de mim mesma e coragem para enfrentar a vida, coragem que antes nunca tive, porque antes eu tinha coragem de fazer dar certo, hoje tenho coragem de quebrar a cara, me arriscar mesmo sabendo que tudo vai dar errado.
Ontem pela manhã eu percebi que as coisas mudaram na minha vida, que eu mudei. Ontem de tarde me dei conta de que mais mudança vem aí. Hoje eu descobri que eu estou absolutamente pronta para abraçar essa mudança.

9 de outubro de 2014

Ele falou comigo!

Não, não foi aquele cara lindo por quem eu arrasto um bonde. Também não foi aquele cara fofo por quem eu me derreto. Foi um cara que eu nunca tinha visto na vida. Ele carregava um carrinho de recolher lixo e eu o vi agradecendo alguma coisa às pessoas que saiam da igreja no fim do culto. Eu estava com a Tuka, passeando, e parei no farol para atravessar a rua, ele estava parado ali.
- Desculpa, senhora, esse cachorro é de que raça? 
Eu disse que era vira lata e ele começou a falar de que os animais são coisas maravilhosas, que ele não gosta de ver as pessoas maltratando a eles, perguntou qual a diferença de um cachorro de raça para um vira lata, eu disse que não tinha diferença, que o temperamento do cão depende do dono. Ele perguntou do pitbull, eu disse que tinha conhecido uns bonzinhos, que a Tuka mesmo era agressiva com estranhos, com os outros cachorros e ele disse que era porque ela quer me proteger. O que me chamou a atenção mesmo foi quando ele pediu desculpas ao contar um caso:
- A senhora me desculpa que eu trabalho assim catando...
- Magina, é digno, é um trabalho digno - eu disse, então ele contou o que viu na televisão, que se passou na Inglaterra, um cachorro que salvou a dona pulando em cima dela depois de ela ter um infarto.
Foi um pouco como o Flávio, ele tinha pleno conhecimento da sua posição social, uma humildade que é quase que derivada da constante humilhação que ele deve ter sofrido mundo a fora. E ele só queria conversar, falar um pouco, então eu fiquei ali, conversando um pouco com ele, a Tuka estava tranquila e fiquei fazendo carinho na cabeça dela até ele dar uma parada e eu achar que já estava na hora de seguir em frente.
Ele falou comigo, conversamos um pouco e eu descobri que esse estranho que eu provavelmente nunca mais vou encontrar é um cara simpático, com conhecimento de mundo e algumas  histórias interessantes para contar.

4 de outubro de 2014

O peso do racismo

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Ele anda curvado, como se levasse o peso do mundo nas costas, olhando para o chão, cuidando de sua própria vida, não faz barulho, come o que tiver e não briga com ninguém. Usa um boné, quase que se escondendo, roupas largas provavelmente doadas dadas as condições delas, seu único problema é a cachaça, mas nem ela faz com que ele saia de sua concha, pelo contrário, bêbado, ele se esconde ainda mais. Ele poderia ser o Amarildo, poderia ser confundido com um mendigo ou com um bandido.

Ele chama Flávio, é pedreiro, alcólatra, negro, pobre e trabalha na minha casa. As vezes ele me parece um bicho acuado e isso me lembra que deve ter sofrido muito preconceito na vida. Esse preconceito que está tão arraigado na nossa sociedade, mas que aos olhos de todos não existe, o fez perceber desde cedo seu lugar no mundo, na sociedade, e volta e meia ele sofre mais uma enquadrada da polícia para não esquecer.

Ele trabalha de dia e vira e mexe dorme aqui, já faz uns 5 meses que ele é figurinha carimbada na minha vila, mas tem gente que o acha um “homem estranho à vizinhança”. Hoje a polícia entrou aqui, um vizinho chamou, pois esse “homem estranho” entrou junto com o carro do amigo dele. Minha mãe viu os policiais, entrou com eles na vila, e veio para casa enquanto os policiais olhavam debaixo dos carros. A construção que está acontecendo na minha casa é na casa da frente, e ao passar por ali minha mãe encontrou o Flávio, no escuro, em um canto da casa, bêbado e no chão sujo e frio. Ela, logo que o viu, percebeu que ele era o “homem estranho”, aquele homem que praticamente mora aqui há cinco meses. Os policiais o viram, identificaram a roupa dele, que batia com a do homem denunciado, minha mãe explicou que ele não era estranho, ele mostrou os documentos, o vizinho que fez a denúncia mostrou os dele. O vizinho explicou porque fez a denuncia, disse que não conhecia o Flávio e que ele tinha entrado junto com o carro, ele ficou preocupado e chamou a polícia… Ele não pediu desculpas.

Em um primeiro momento, ao escutar o que se passou, achei comum, depois tive um estalo. Será que o vizinho teria chamado a polícia se o homem que tivesse entrado com o carro fosse meu irmão? Ele não conhece meu irmão, mas acho que ele não teria chamado. Será que ele teria chamado a polícia se fosse uma tia minha? Ele não conhece minhas tias, mas acho que não. Ele nunca chamou a polícia para a minha ajudante ou os filhos dela, que nunca carregam a chave da vila e sempre aproveitam o portão dos carros. Não. Ele chamou a polícia para o Flávio porque o Flávio é negro e é pobre, é o esteriótipo do bandido. Meu irmão é branco, minha tia é branca, a Dona Cida e seus filhos são brancos… O Flávio é negro. Eu não pude deixar de pensar que talvez se ele fosse branco a polícia não teria sido chamada. Também passou pela minha cabeça que eu poderia estar tão fixada nesse assunto de Direitos Humanos e minoriais que estou treinada a ver maldade onde não tem. Mas como eu posso não ver o racismo aí? Ele foi confundido com um bandido sem ter feito nada! Foi chamado de “homem estranho” sendo que já mora aqui há cinco meses! Não consigo não achar que isso foi, ainda que inconcientemente, racismo do meu vizinho. E fiquei mortificada, morrendo de vergonha da atitude dele e com vontade de pedir desculpas ao Flávio em nome dele, porque o Flávio, com todos os seus defeitos, não merecia NUNCA ter que dar seus documentos a polícia sem motivo algum, ser confundido com um possível bandido!

Ele anda curvado como se sentisse o peso do mundo nos ombros, e sente. É o peso desse preconceito, preconceito por ser pobre e por ser negro, preconceito por ele ter um vício. E ele nem se quer ficou bravo, demonstrou ofensa, não, ele deu os documentos como sempre faz e minha mãe ficou pensando o que poderia ter acontecido se ela não estivesse presente.  O nome dele é Flávio e ele as vezes me lembra um bicho acuado, porque a vida inteira ele foi tratado assim.

 

*Não tive oportunidade de conversar com ele, minha mãe achou melhor ele ir para casa essa noite e descançar lá, mas segunda feira vou pedir desculpas em nome do meu vizinho, é o mínimo que eu posso fazer, já que não tenho coragem de fazer o vizinho pedir desculpas.