21 de novembro de 2014

O outro lado da vida

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Você passa por eles todos os dias e não nota, ou prefere fingir não notar. A segunda opção é melhor, acredite, pelo menos ela diz que você não está totalmente perdido, que você ainda tem dentro de si um pouco de compaixão pelo próximo, você finge não notar para não se sentir mal por eles. Você está mentindo para si mesmo, você é um hipócrita por isso, sente pena, mas não faz absolutamente nada para mudar a realidade do outro, ou torná-la menos terrível. Mas se você fosse parte do primeiro grupo seria pior ainda, porque quer dizer que você perdeu a capacidade de sentir pena, que você não os percebe e que você não se importa. Não se importar é horrível da sua parte.

Você pode estar no segundo grupo, pode estar em um terceiro grupo, daqueles que fazem alguma coisa, por menor que seja, para aliviar sua culpa e a pena que sente do outro. Pode ser que você não se importe, mas faça alguma coisa, o que te torna um hipócrita também e é horrível porque você não se importa, ainda que você ajude, se você não se importa isso é ruim. Para ele pode ser bom receber sua ajuda, mas a maior parte precisa de mais que ajuda, precisa de alguém que se importe. Todos precisamos de alguém que se importe.

E ele, aquele ali dormindo na rua, poderia ser você. Um dia li em um livro uma moradora de rua que disse que quem mora na rua está o outro lado da vida. Ela não quis dizer nada espiritual, só que é um outro tipo de vida muito diferente dessa que a maior parte das pessoas vive e que existe uma fronteira muito tênue entre os dois lados, uma fronteira que pode ser ultrapassada por diversos motivos, mas que depois é muito difícil de voltar, quase impossível. E cada vez que tudo está impossível no lado de cá é necessário que nós paremos para lembrar que aqui pode ser bem ruim, mas no outro lado da vida  a luta diária é bem mais difícil e os monstros muito mais implacáveis.

Por isso não se importar é o pior sentimento, porque aquele poderia ser você, poderia ser sua mãe, seu irmão, sua namorada, seu amigo, poderia ser qualquer um, basta um golpe da vida, as vezes um golpe nem tão certeiro assim, e pronto: você está do outro lado da vida. No livro eu aprendi que na maior parte das vezes é um processo, mais lento ou mais rápido, mas um processo e qualquer coisa pode desencadeá-lo, qualquer pessoa pode sofrê-lo. Por isso você deve se importar, porque quando você não se importa você esquece o fator humano, eles são todos humanos, seus semelhantes, a sua empatia é o que te torna humano e se você não possui essa empatia com eles você deixa de ser humano.

Tem muita gente por aí que já deixou de ser humano, as vezes isso também é um processo, as vezes isso é patológico, pode acontecer com qualquer um e nesse caso pode nem ser notável. Mas eles, aqueles que estão desse outro lado da vida, eles são humanos, eles precisam de ajuda, as vezes não do jeito que eles pedem e as vezes eles nem vão saber receber a ajuda, mas o principal é você não esquecer: eles são humanos. Não deixe que eles esqueçam também.

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