26 de fevereiro de 2015

Perdas e mudanças

Prefiro-morrer-a-ver-quem-eu-amo-partir

Eu perdi várias coisas e várias pessoas na minha vida, mas isso nunca me derrubou, meu mecanismo de funcionamento sempre me permitiu sobreviver e superar, e eu me orgulho disso, mas cada perda trouxe uma cicatriz, uma marca que ficou em mim e eu acho que não sumirá jamais. Todo mundo diz que com o tempo a dor da perda passa, e eu acho que passa mesmo, mas não sei se a saudade que fica é um sentiento mais acalentador.

A saudade não é uma dor atroz que rasga a alma, mas é uma dorzinha que incomoda de tempos em tempos. Para falar a verdade eu nunca senti aquela dor arrebatadora da perda na hora que ela acontece, sempre passei pelo luto como quem está em uma bolha, meio distante de tudo, meio inerte, mas cumprindo o papel que esperavam de mim, consolar os outros, ser forte pelos outros, ajudar os outros. Eu não me importo. A minha dor eu gosto de sentir sozinha, jogar no papel para me desafogar e nunca esquecer, mas sozinha, só eu e ela. E mesmo que para todo sempre pareça que eu sou forte e não sinto tanta dor quando ela vem ela dói, parece que é maior que eu, me deixa incapaz de imaginar como vai ser meu futuro sem aquilo, ou aquele(a).

É claro que eu tenho medo dessa dor, medo do futuro depois da perda, fico a imaginando antes dela vir e me escondo na minha bolha de responsabilidáde e resiliência. Cada viz que ela se aproxima me vem um frio na espinha, uma vontade de me deixar ser vulnerável dessa vez, uma certeza de que eu não vou ser capaz de aguentar a dor quando ela vier e pior, não irei aguentar a saudade. Então eu olho para os lados, engulo o nó na minha garganta, não deixo nenhuma lágrima cair e me levanto e vou viver minha vida ignorando aquela possibilidade, não importa o quão perto ela esteja, sempre me forçando a pensar apenas no presente, um dia de cada vez, com o futuro, com a dor, eu lido quando ela chegar e eu não puder mais fugir. 

18 de fevereiro de 2015

Olhos persistentes

Eu entro no ônibus e procuro seu olhar. No começo procurava por você, seu corpo trabalhado na academia e que tanto agradava a mim. Mas com o tempo comecei a me dar conta que não era só meu olhar que procurava você, você procurava a mim e, mesmo consciente da sua indisponibilidade, eu continuei a te olhar e a me deixar ser olhada. Sempre muito mais tímida do que eu gostaria, desviando meus olhos dos seus, fingindo que você era apenas mais um passageiro ali e não alguém que eu esperava ansiosamente para encontrar a cada manhã, alguém que fazia minha barriga gelar. Com o tempo eu me permiti te olhar e me deixar ser olhada sem tanta vergonha, mas a consciência do seu status me barrava de fazer qualquer coisa, claro que era isso que eu me dizia, na verdade eu só sou tímida e sonhadora.

Te coloquei em um pedestal tão alto que fica difícil me convencer de que se eu te disser "oi" você vai me escutar. Não que você seja incrível, na verdade não sei se você é, mas você é de longe o cara mais gostoso que me olhou e eu percebi e você não parece um babaca. Você sabe como é difícil encontrar isso? Essas férias eu cresci um pouco, mas eu sempre acho isso então é difícil ter certeza, mas nesse crescimento eu comecei a desmistificar você e da última vez que te vi nem fiquei tão imóvel. Tudo que preciso fazer é dizer "oi" e talvez nós viremos amigos, ou colegas, ou você me ignore, mas eu preciso tentar e logo, para me deixar com a consciência limpa. Eu sei que o peso não está todo em mim, mas eu não posso deixar de lembrar que sou sempre eu que fico atrás da porta e se eu não tentar nada pessoalmente vou ficar para sempre com a sensação de que mais uma vez fiquei atrás da porta.

Então eu entrei no ônibus, olhei para frente e vi você parado perto da catraca, logo depois dela. Eu fui até lá, passei o bilhete único e parei do seu lado, mesmo que o final do ônibus estivesse vazio e eu odiasse ficar daquele jeito impedindo a passagem. Você já tinha me visto e desviou o olhar como sempre, meio tímido, sem saber o que fazer ou talvez esperando eu fazer alguma coisa. Então eu fiz, respirei fundo, olhei para o lado, na sua direção, e disse:
- Oi, tudo bem? Caio, né?

Obrigada por ser você

É muito importante para mim esse contato com você. É importante que você tenha feito parte da minha vida, que eu tenha tido contato com esse seu vasto conhecimento. É importante porque eu vou para sempre sentir vontade de saber mais, conhecer mais, crescer sempre para um dia chegar a altura em que eu te coloco. Eu admiro você, muito, e isso me faz bem. 
O que era confundido com uma paixonite platônica se mostrou uma boa amizade, um exemplo a ser seguido e que vai ser difícil ser alcançado por outros. Eu sei que você não se vê com toda essa pompa e talvez até seja eu que te engrandeço demais, mas nesse caso isso me faz bem.
Obrigada por ser quem você é, ter me dado a oportunidade de ser parte, ainda que pequena, da sua vida e principalmente por me fazer querer ser mais de mim mesma.

8 de fevereiro de 2015

Pseudointelectual revoltado

 

Ele admira um país que nunca visitou, porque tem um ótimo IDH. Ele não reconhece nenhum mérito do próprio país e passa longe de tudo o que diga a respeito das maravilhas de sua terra natal. Ele detesta o calor, odeia quando chove e vive reclamando da política, da economia e da sociedade. Ele lê Dostoievski e Tolstói, posta reclamações pomposas no Facebook e se dá ao trabalho de comentar notícias toscas com recados constatando a tosquice da notícia. Ele age como se fosse muito mais inteligente do que o resto, acho que ele realmente se acha assim. E muita coisa do que ele fala faz sentido, suas críticas são bastante pertinentes e até enriquecedoras. Mas o problema é que são sempre apenas críticas.

Ele nunca está feliz e por tabela acaba deixando todos nós miseráveis. Ele se acha mais inteligente por sempre fazer essas críticas, mas a verdade é que ele é simplesmente mais infeliz. Ele está tão acostumado a apontar as coisas ruins que esqueceu com o que se parecem as coisas boas. Ele é uma boa pessoa, pode ser uma pessoa bastante doce até, conquanto que não mexam em sua imagem de perfeição, se não…

Ele é o pseudointelectual revoltado. Pseudo porque se fosse intelectual de verdade saberia onde peca, seria capaz de reconhecer suas frustrações emocionais descontadas em um alvo fácil como esse país que tem sempre e tantas coisas a serem melhoradas. E eu gosto dele, acho que sim, mas também me frustro com ele, provavelmente não o mesmo tanto que ele deve estar frustrado com si mesmo. Eu o entendo, eu o respeito, só gostaria que ele fizesse o mesmo.