27 de julho de 2015

A brisa da mudança em um coração afundado na saudade


A pouco tempo meus planos se esfacelaram e eu fui obrigada a me confrontar com uma realidade que eu vinha adiando a algum tempo. Eu não tentei adiar mais porque sabia que não deveria, mas a cada currículo enviado meu coração afundava um pouco. Ao mesmo tempo eu sentia uma brisa revigorante a cada vez que eu pensava nas novas possibilidades que o dinheiro e a mudança me trariam. Eu sentia a brisa com o coração afundado. Fui chamada para uma entrevista, fiz uma redação sincera e senti que disse coisas demais, mas quando achei que não tinha sido chamada fiquei brava, minha redação estava ótima! Hoje recebi a ligação, fui contratada. Senti a brisa com o coração afundado mais do que nunca. Eu queria sorrir, mas não sentia minhas pernas e naquele momento isso era excludente.

Eu quero essa mudança, é o melhor para mim, se eu não tivesse essa mudança ficaria frustradíssima, mas sinto que para que ela aconteça eu preciso abandonar algo incrível que eu preferia que fosse eterno. Aquele lugar me ensinou tudo o que eu sei, meu chefe me ensinou tudo o que eu sei. A paciência dele, o humor dele, o senso crítico... o bom humor de todos ali, as piadas, as conversas, debates, o aprendizado que eu tive com cada um deles... Se no que nós somos está nossa bagagem de vida e o que nós éramos, eu posso dizer com orgulho que na advogada que vou ser está um pouco de cada advogado do DJ2/DJ1. E eu sinceramente não imaginava o quão importante seria esse estágio na minha vida, o quão incríveis seriam os meus superiores, os advogados e as meninas do administrativo.

E, por mais que eu não tenha certeza do que eu acredito, eu acho que tudo acontece por um motivo, e trabalhar lá serviu não só para me construir profissionalmente, mas pessoalmente, trazendo leveza aos meus dias e agregando conhecimento de mundo, do mundo vivido pelas pessoas ali. Seu meu próximo trabalho for metade do que foi esse eu já vou ser vitoriosa. Eu acredito que se eu estou indo para esse outro escritório também há uma razão e isso me traz uma tranquilidade boa, não me dá vontade de me enfiar em baixo da cama chamando pela minha mãe como mudanças geralmente fazem comigo. Eu acho que vou gostar, se for muito ruim eu saio e busco outro, até nisso haveria aprendizado e eu também estaria tranquila, porque agora eu sei que em algum lugar existem advogados incríveis em quem eu vou me espelhar a vida toda.

E o coração afundado continua ali, morrendo de saudade desde já, mas feliz por sentir essa brisa de mudança no ar.

19 de julho de 2015

Auto encontro no papel

Eu nunca assisti a uma retrospectiva de final de ano na globo, mas vira e mexe faço uma retrospectiva da minha vida. Não necessariamente do ano que passou, mas dos últimos tempos, dos últimos aprendizados, acontecimentos. Eu gosto de tirar alguns minutos e fazer um balanço da minha vida, parar e avaliar onde estou indo, se estou indo à algum lugar. E ultimamente tenho sentido necessidade de fazer isso, seja porque acho que minha vida, como está, está prestes a mudar, seja porque não faço essa retrospectiva a algum tempo.

Teve um tempo em que eu sempre podia ver claramente como estava evoluindo, seja como pessoa, seja na vida (que a sociedade estipula como crescimento na vida). Eu entrei na faculdade, comecei a estudar francês, fazer estágio, fazia natação, terapia e passeava com o cachorro da minha avó, ia na padaria... meus dias eram cheios e ocupados e eu me sentia caminhando para um futuro sólido e brilhante. O tempo passou, eu mudei de estágio, saí da natação, dei um tempo na terapia e fui indo na faculdade. Viajei para o Peru e para o Canadá, passei ano novo em NY e carnavais no nordeste. Voltei para a terapia, continuei no mesmo estágio, continuei indo na faculdade, troquei o francês pelo alemão e deixei de passear com o cachorro da minha avó, as vezes nem na padaria eu vou. Agora quero mudar de estágio, penso sobre a OAB e o pós faculdade, sobre pós, estudar teatro, morar fora, lidar com a família e os amigos...

E com toda incerteza do futuro eu me lembrei do ensino fundamental e das aulas de história, quando todo começo de ano nós escutávamos que estudamos a história porque precisamos saber do passado para entender o presente e construir o futuro.

A verdade é que eu entrei na faculdade de direito querendo fazer justiça, querendo mudar a vida das pessoas, eu pensava em mudar o mundo, mas com o tempo, e cumprindo a profecia do meu pai, eu fui ficando cínica e percebi que o direito não serve à justiça ou a mudança social, mas ao dinheiro. E vendo as pessoas ao meu redor terem dinheiro fez com que eu quisesse ser uma delas. Cansa ter que fazer cálculos matemáticos antes de cada compra, cansa o peso na consciência depois de passar o cartão, eu só queria ter dinheiro para deixar de me preocupar com isso. E talvez isso me trouxesse felicidade, mas ser um agente da mudança, ainda que no microcosmo, também me trás. E quando eu entrei na faculdade eu queria escrever um livro, ler muito, sonhava em ser escritora, como os grandes escritores brasileiros que se formaram em direito, mas viviam da escrita. Com o tempo isso foi se perdendo, eu fui deixando de acreditar em mim mesma, fui me perdendo. Esse fim de semana eu me achei. Eu quero sim escrever, quero escrever um livro, uma novela e um filme, quero viver da escrita sem abandonar o direito porque ambos me fazem feliz.


Eu tenho um plano. Eu vou passar na OAB, me formar, fazer um curso de escrita criativa, outro de escrita de roteiro, enquanto faço teatro e junto dinheiro para morar fora. Não sei o que vou estudar lá fora. Não sei se uma nova graduação, não sei se uma pós ou mesmo se vou realmente fazer isso, mas nestes planos estão estudar jornalismo ou letras também. Um amigo me disse que eu estou indo à todos os lugares e a lugar nenhum. Ele tem razão. A verdade é que eu não tenho ideia do meu futuro a longo prazo, eu quero ser feliz, ter dinheiro e qualidade de vida e sei que não vou conseguir ter tudo isso, com ou sem um plano a longo prazo. Eu tenho medo do meu futuro, mas não de passar fome, por alguma razão eu tenho uma certeza infundamentada que nunca vou ficar tão mal, mas tenho medo de não ser feliz. Eu não quero que no meu trabalho tudo tenha a ver com dinheiro e esse seja meu único objetivo de vida, mas me desespera que mesmo que não seja, vai acabar sendo.

E eu vou seguindo, sabendo que vou precisar dar um jeito de ser advogada e escritora, com a ajuda da internet talvez nem seja tão difícil. Vou seguindo percebendo que no plano profissional as coisas se perderam, mas já se acharam e que no plano pessoal eu estou começando a me entender só agora, aliás, entender eu já me entendia, mas agora estou começando a me aceitar e, quem sabe, isso seja tudo o que eu preciso fazer.

16 de julho de 2015

O futuro te prende


Me dê liberdade, vivo por ser livre.

Carinho, paixão, risadas, isso tudo a gente sempre encontra em um amor, qualquer forma de amor, mas a liberdade, essa só o amor de verdade dá. Liberdade para estar com, ou sem, o outro, para desapegar porque a gente sabe que sempre volta. É uma raiz que nos prende ao chão, onde está nossa origem, nossa razão, nosso ombro amigo e o nosso maior porto seguro. É o amor que nos permite voar para longe e por muito tempo até, porque nós sabemos que quando quisermos voltar ele estará lá pronto para nos receber, porque quem ama de longe ama de perto também.

É difícil viver esse amor de longe, deixar a família, os amigos e até o bichinho de estimação para morar fora, viver longe, passear por muito tempo, mergulhar rumo ao desconhecido... Nós não sabemos o que será de nós quando voltarmos, se vamos voltar, o que será dos outros então? Mas tem alguma coisa maior que te impulsa, que pulsa dentro de você com cada vez mais força, que te impele para o desconhecido, uma voz que sussurra o tempo todo ao seu ouvido, que te suplica para que você abra suas asas, voe. Você não sabe de onde vem essa vontade, se é desejo de fugir de tudo, se é gana de conhecer o mundo, se é querer se libertar das amarras da vida burguesa que te cerca (e que só não te corrompe por na verdade você já toda ela)...

Por que não aproveitar essas raízes sólidas de amor, os frutos da sua vida burguesa ($$$) e sua vontade quase cega? Por que não seguir seu coração? O que te prende? 

O futuro prende.

Porque não basta ter uma família, amigos e um cachorro, nós temos que ter estabilidade financeira, um plano de vida, uma carreira, trabalho, não dá pra viver de brisa! E mais uma vez as amarras da sociedade (capitalista) te seguram, destroem seus sonhos aos poucos sob a fantasia de que é só um adiamento, até sua vida estar mais estável, depois até você ter mais tempo, estar mais disposto... Quando você vê passou a vida inteira se conformando com a sua realidade. O mal do mundo é esse: esse vício em estabilidade, o medo da aventura, a fixação por dinheiro... O dinheiro passa de instrumento da vida para objetivo de vida. Por que acumular? Por que ter tudo do bom e do melhor? Por que ter o que os outros tem?

Eu tenho planos, tenho muitos planos! Eu quero morar fora, quero voltar, quero escrever um livro, ou um roteiro, ou os dois! Fazer teatro, estrelar uma peça! Quero produzir um filme! Advogar, ter filhos, casar, viajar sempre! Quero brigar, dar risada... viu? Muitos planos. Mas eu não tenho um objetivo e eu me recuso a ter um objetivo de vida, porque ele vai postergar todos meus planos, vai se resumir a dinheiro, vai dar um jeito de ser a estabilidade e a minha vida mesmo vai acabar ficando de lado.

Eu queria poder abortar isso tudo, ser capaz de viver de brisa, queria que o meu conforto não dependesse de dinheiro, que para ganhar dinheiro eu não tivesse que perder qualidade de vida, queria dar um jeito de conciliar meus planos, meus sonhos, minhas aptidões e o dinheiro, mas eles parecem inconciliáveis.

Eu queria voar, mas o futuro me prende.       

14 de julho de 2015

Que nem menina


Fragilidade não é fraqueza. Fragilidade pode até ser uma arma, a depender da maneira que for usada. 

É engraçado que eu tenha demorado tanto tempo para perceber isso, perceber que as armas femininas também são armas, que não é jogo baixo usá-las. Eu, que bem gosto de uma briga, sempre achei que tinha que brigar de frente, que nem homem, que brigar como mulher fazia de mim uma oponente fraca.

A força da mulher pode se mostrar de diversos modos e não deve ser vergonha quando ela aparece, em qualquer dos modos que apareça. Choro, vulnerabilidade, pouca força física, gritos... Sempre vi essas coisas como fraqueza, sinal de histeria, de cara isso me faria perder qualquer briga. E logo eu, tão feminista que sou. 

Ser mulher não é, nem deve ser algo para se ter vergonha. Por que eu tenho que brigar como um homem para ganhar? Para merecer respeito? Eu sou mulher, eu gosto de ser mulher, eu tenho é que ter muito orgulho de ser desse "sexo frágil". 

Eu que choro no meio de uma briga e fico arrazada, eu que sempre escondi meu amor pelas flores e corações, que nunca gostei de ser chamada de menininha... Ahh está impregnado na sociedade, debaixo da minha pele, escancarado bem na frente dos meus olhos e eu só percebi agora, com outra pessoa falando, que mesmo comprando brigas diárias sobre o feminismo eu ainda sou uma das vítimas do machismo.

Mudar minha visão de mundo e aceitar essa feminilidade como algo bom não vai ser fácil, o feminismo sempre foi um caminho de pedras, mas eu quero ver essa outra versão de mim. Quero ver essa versão descontaminada e natural. Eu sou mulher, brigo que nem menininha e não tem absolutamente nada de errado com isso.

1 de julho de 2015

Mas é amor?

Qual a diferença entre o amor de amigos e o de namorados? Qual a linha que divide esses sentimentos? Quando eu sei que "ahh o que eu sinto é amor e não amizade"? Como eu sei? Como eu noto a diferença? E isso sem falar da admiração que eu também confundo com facilidade com o amor e com esses meus amores inventados.

Tenho um amigo que é muito meu amigo, é um passeio no parque, cavalheiro, educado, memória boa, ambicioso, não é feio, é engraçado, ainda que não hilário, dividimos a maior parte de nossos gostos e convicções e volta e meia eu paro e me pergunto se ele não quer nada a mais de mim, se eu quero algo a mais dele e, verdade seja dita, nunca realmente consegui responder essa pergunta. Eu acabo virando a página, afastando a possibilidade porque nós somos amigos, estou viajando, não sinto atração por ele, ele nem é bonito e por aí vai. Todos nossos amigos acham que ou somos um casal, ou deveríamos ser e quando eu penso em um relacionamento ideal sempre me vem à cabeça algo parecido com o que nós temos quando estamos juntos, o que não é tão frequente. 

Hoje eu o vi e passou pela minha cabeça, mais de uma vez, beijá-lo. Me vi tocando-o mais vezes do que costumo tocar meus conhecidos e amigos e fiquei procurando coisas no comportamento dele que indicassem se poderíamos ser algo a mais. Talvez seja algo que eu criei por carência, talvez seja genuíno, talvez seja confusão minha, e é provável que se ele quisesse algo comigo eu fugisse como sempre, mas parte de mim queria muito descobrir, a outra me diz que é mais um daqueles momentos de questionamentos e que devo ignorar, mas sempre fica essa partezinha que eu nunca ouço e que me diz para experimentar.

Eu não sei qual a linha divisória de sentimentos. Racionalmente falando eu estou perdida e emocionalmente eu sou um turbilhão, com muitos sentimento aparecendo ao mesmo tempo, por pessoas diferentes e com forças e questionamentos próprios. Eu só queria ser capaz de clarear tudo e me decidir.