19 de julho de 2015

Auto encontro no papel

Eu nunca assisti a uma retrospectiva de final de ano na globo, mas vira e mexe faço uma retrospectiva da minha vida. Não necessariamente do ano que passou, mas dos últimos tempos, dos últimos aprendizados, acontecimentos. Eu gosto de tirar alguns minutos e fazer um balanço da minha vida, parar e avaliar onde estou indo, se estou indo à algum lugar. E ultimamente tenho sentido necessidade de fazer isso, seja porque acho que minha vida, como está, está prestes a mudar, seja porque não faço essa retrospectiva a algum tempo.

Teve um tempo em que eu sempre podia ver claramente como estava evoluindo, seja como pessoa, seja na vida (que a sociedade estipula como crescimento na vida). Eu entrei na faculdade, comecei a estudar francês, fazer estágio, fazia natação, terapia e passeava com o cachorro da minha avó, ia na padaria... meus dias eram cheios e ocupados e eu me sentia caminhando para um futuro sólido e brilhante. O tempo passou, eu mudei de estágio, saí da natação, dei um tempo na terapia e fui indo na faculdade. Viajei para o Peru e para o Canadá, passei ano novo em NY e carnavais no nordeste. Voltei para a terapia, continuei no mesmo estágio, continuei indo na faculdade, troquei o francês pelo alemão e deixei de passear com o cachorro da minha avó, as vezes nem na padaria eu vou. Agora quero mudar de estágio, penso sobre a OAB e o pós faculdade, sobre pós, estudar teatro, morar fora, lidar com a família e os amigos...

E com toda incerteza do futuro eu me lembrei do ensino fundamental e das aulas de história, quando todo começo de ano nós escutávamos que estudamos a história porque precisamos saber do passado para entender o presente e construir o futuro.

A verdade é que eu entrei na faculdade de direito querendo fazer justiça, querendo mudar a vida das pessoas, eu pensava em mudar o mundo, mas com o tempo, e cumprindo a profecia do meu pai, eu fui ficando cínica e percebi que o direito não serve à justiça ou a mudança social, mas ao dinheiro. E vendo as pessoas ao meu redor terem dinheiro fez com que eu quisesse ser uma delas. Cansa ter que fazer cálculos matemáticos antes de cada compra, cansa o peso na consciência depois de passar o cartão, eu só queria ter dinheiro para deixar de me preocupar com isso. E talvez isso me trouxesse felicidade, mas ser um agente da mudança, ainda que no microcosmo, também me trás. E quando eu entrei na faculdade eu queria escrever um livro, ler muito, sonhava em ser escritora, como os grandes escritores brasileiros que se formaram em direito, mas viviam da escrita. Com o tempo isso foi se perdendo, eu fui deixando de acreditar em mim mesma, fui me perdendo. Esse fim de semana eu me achei. Eu quero sim escrever, quero escrever um livro, uma novela e um filme, quero viver da escrita sem abandonar o direito porque ambos me fazem feliz.


Eu tenho um plano. Eu vou passar na OAB, me formar, fazer um curso de escrita criativa, outro de escrita de roteiro, enquanto faço teatro e junto dinheiro para morar fora. Não sei o que vou estudar lá fora. Não sei se uma nova graduação, não sei se uma pós ou mesmo se vou realmente fazer isso, mas nestes planos estão estudar jornalismo ou letras também. Um amigo me disse que eu estou indo à todos os lugares e a lugar nenhum. Ele tem razão. A verdade é que eu não tenho ideia do meu futuro a longo prazo, eu quero ser feliz, ter dinheiro e qualidade de vida e sei que não vou conseguir ter tudo isso, com ou sem um plano a longo prazo. Eu tenho medo do meu futuro, mas não de passar fome, por alguma razão eu tenho uma certeza infundamentada que nunca vou ficar tão mal, mas tenho medo de não ser feliz. Eu não quero que no meu trabalho tudo tenha a ver com dinheiro e esse seja meu único objetivo de vida, mas me desespera que mesmo que não seja, vai acabar sendo.

E eu vou seguindo, sabendo que vou precisar dar um jeito de ser advogada e escritora, com a ajuda da internet talvez nem seja tão difícil. Vou seguindo percebendo que no plano profissional as coisas se perderam, mas já se acharam e que no plano pessoal eu estou começando a me entender só agora, aliás, entender eu já me entendia, mas agora estou começando a me aceitar e, quem sabe, isso seja tudo o que eu preciso fazer.

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