19 de setembro de 2015

Crise do Quarto Ano

Não se trata de uma crise exclusiva do quarto ano de faculdade, algumas pessoas a sentem logo no primeiro, outras no terceiro, outras só depois de formadas, de modo que a época varia bastante e os sintomas também. Tem gente que sente essa crise quando o escritório em que trabalha é abalado pela crise econômica, outros simplesmente enjoam de onde estão, alguns se deparam com ela ao encontrar mais uma vez um escritório que não agrada, e outros ainda podem estar absolutamente felizes, mas simplesmente não se dão por satisfeitos. O que é a crise do quarto ano? Você não entendeu ainda?

A crise do quarto ano é quando você começa a questionar suas escolhas, repensar seu futuro, suas certezas caem por terra e você fica absolutamente perdido e sem saber como será seu mundo após a formatura, não importa o quão certo você estava dele a alguns meses atrás. A crise do quarto é você começar a se questionar se o que você quer para sua vida é o que você se preparou para fazer até agora, é você olhar ao seu redor e não ter certeza de que você decidiu certo quando preencheu a ficha de inscrição da faculdade. No meu caso ela se manifestou quando eu mudei de trabalho e vi que aquele dia a dia não era o que eu queria para minha vida, pelo menos não agora que eu estava vivenciando ele e aí bate um desespero porque você já cursou mais da metade da faculdade, não pode abandonar agora, e muitas vezes nem quer, então entra em crise sobre seu futuro. Essa crise é bem semelhante a do terceiro ano do colegial, quando você faz a escolha, é o futuro batendo a sua porta e você não ter certeza se quer abrir porque não sabe o que quer que ele seja.

Eu escolhi cursar Direito principalmente porque depois de formada eu teria um leque de opções para trabalhar. Eu posso ser juíza, promotora, procuradora dos mais variados órgãos, professora de faculdade, advogada nas mais diversas áreas, delegada, analista ou mesmo técnica em algum concurso, além exercer funções não diretamente ligadas ao direito, como assessoria à administração de empresas, trabalhar em ONGs e algumas outras opções. É realmente um leque invejável, mas hoje já não tenho certeza se é necessariamente bom isso, porque é exatamente esse leque que me desespera. Por um lado, é bom que ao ter essa crise no Direito posso me deslocar dentro da minha área, fazendo assim valer a faculdade, mas por outro lado não conheço todas as áreas, não tenho como saber sem tentar e tentar diversas áreas agora é um pouco arriscado, porque se eu quiser ser efetivada preciso ficar um tempo em algum lugar. E atualmente fico com medo da semelhança entre as diversas áreas, as coisas semelhantes são exatamente as que eu não gosto e eu começo a me questionar se o que eu realmente quero está na área do Direito.

É assustador e não sou só eu que tenho sentido essa incerteza com o futuro, alguns colegas meus também, por diferentes razões, como eu disse acima, mas é algo que é muito mais recorrente do que eu esperava. Um amigo disse que o melhor é a gente parar de pensar no futuro, no pós formado, dedicar nossos pensamentos ao hoje e ao agora, ver o que nos desagrada no presente e tentar mudar isso para fazer com que ele fique mais agradável. O futuro? O pós formatura? Isso a gente vê quando chegar a hora, com essas coisas foram o presente. Talvez ele tenha razão, e não é como se eu fosse desistir da faculdade e fazer outro curso a essa altura do campeonato, até porque eu gosto do direito, mas é difícil esse viver um dia de cada vez, muito difícil.

18 de setembro de 2015

O verão está chegando

O verão está chegando, mas parece que o inverno vai ser longo.

Eu queria estar feliz, queria estar sentindo aquele clima bom de caminhar na Av. Paulista no fim da tarde e sentir uma paz inenarrável no meu peito, sentir vontade de sorrir para os prédios e me imaginar em um filme, caminhando livre, leve e solta pelo maior ponto turístico da minha cidade. Essa Avenida é um lugar no qual eu sempre me senti em casa, que às vezes me enjoava a paisagem, mas no qual eu nunca me senti acuada.

Bom... as coisas mudaram.

Eu não me sinto acuada, mas se no meu tempo livre eu puder ir para outro lugar, ou pelo menos para um ponto mais distante do meu trabalho eu agradeceria, só para não ter que lembrar dele quando eu não quero. Outro dia eu fui visitar meu antigo trabalho e cada canto daquele centrão me dava tristeza e saudade, eu nunca pensei que fosse sentir falta daquele lugar que muitas vezes me deu nos nervos e o qual eu nunca realmente apreciei até trabalhar ali. Ah! Que saudade do centro!

De novo, eu vivo repetindo isso para mim mesma e para os outros: não é que eu não goste do meu novo trabalho, é só que... é só que não é o meu antigo. Eu acho as pessoas ali legais, elas são simpáticas, educadas, boas pessoas, o trabalho não é algo que eu deteste ou que eu não entenda e as horas são absolutamente normais, nunca fiz hora extra e nem nunca precisei me matar para dar conta. Eles não exigem nada demais de mim, nunca me destrataram ou deram motivos para não gostar deles, aliás comparando a algumas experiências de alguns amigos eu até acho que tive muita sorte e que estou reclamando de barriga cheia.

Mas por outro lado eles não entendem muito bem meu senso de humor, não há muito espaço para piadas ou amizades, é como se fossem todos colegas e só, simpáticos e educados, mas sem grande interesse na sua vida, pelo menos não mais do que o necessário. São todos muito focados no trabalho, até porque tem bastante trabalho e as conversas e brincadeiras não podem atrapalhar isso, ou algo poderia dar errado, o escritório poderia perder clientes, dinheiro e você certamente perderia seu emprego. Em geral os advogados não fazem horas loucas, mas sempre fazem um pouco de hora extra para dar tempo de fazer tudo e eventualmente trabalham de fim de semana, alguns estagiários também fazem hora extra, mas nada demais. Mas eu não consigo deixar de torcer o nariz para isso, não consigo deixar de achar um absurdo que eles tenham apenas por colegas aquelas pessoas com quem passam a maior parte dos dias. Eles não conversam quase nada, mas passam mais tempo com essas pessoas do que com os filhos, ou a pessoa com quem escolheram passar o resto da vida. Eu me sinto sufocada só de pensar em viver assim para sempre.

E vamos falar em promoção? Venhamos e convenhamos, quem você promoveria, eu, que faço meu trabalho o suficiente para ir embora, ou o outro estagiário que faz o trabalho dele e ainda pede mais e fica mais tempo para dar conta de tudo? Eu faço o meu e, se eu achar que não vai dar tempo, quando o advogado for me passar mais digo não, que já tenho muita coisa. Me irrita não poder me dedicar tempo o suficiente para cada processo, me irrita não conhecer todos os processos e que todos eles sejam muito parecidos, que tudo o que eu tenha para fazer seja sempre muito igual. E o trabalho não é exatamente novo, eu não estou aprendendo muito, a maior parte das coisas eu já aprendi, já sei o que fazer, como fazer. Eu queria ver coisas diferentes e fazer peças, poder exercitar meu poder de escrita mesmo, elaborar teses e ver o processo nascer e desenvolver na minha mão. Ali tem tanto processo, tanto processo igual, que eu não vou poder fazer isso. Como vou evoluir profissionalmente assim?

E uma coisa leva a outra. Eu não realmente conheço meus chefes, não sei o que eles pensam e nem o que eles gostam, somos colegas, e assim não crio nenhum tipo de admiração por eles. Por causa disso acabo não me importando com o que eles pensam de mim e não me esforço para agradá-los. Como o trabalho é repetitivo e não é novo, eu não aprendo nada e aí é outro fator desmotivador que me leva a não me esforçar nas tarefas, porque não me acrescentam muito. Eu não me importo em agradar meus chefes e não tenho motivação para me agradar com novos conhecimentos e assuntos diferentes, então simplesmente não me esforço nada. Eu tenho vivido no maior metro-boulot-dodo, como eles mesmos e aí me sinto mais desmotivada ainda com a perspectiva de um futuro assim, e aí vivo cada vez mais assim, talvez até como medida de auto sabotagem, para não ser promovida e viver assim sempre e aí entramos na "crise do quarto ano", mas sobre isso falo depois.

Meu antigo trabalho me estragou para vida, essa é a verdade. Talvez todos esses desgostos acima sejam simplesmente para mascarar que eu estou de luto por ter saído dele. Talvez eu tenha esse sentimento de insatisfação com o novo porque realmente não quero deixar o velho. E pode ser que seja pelas pessoas, em certo nível éramos apenas colegas e não conversávamos quase nada fora do trabalho, mas por outro ângulo éramos amigos, eu me importava com eles, conhecia o gosto de todos, admirava a todos eles e me esforçava para agradá-los. Eu queria fazer um bom trabalho para que eles de alguma forma achassem mais de mim, ficava brava comigo mesma quando errava alguma coisa, porque eu me importava com a opinião deles e com o bom desenvolvimento do trabalho. E eu me importava com o trabalho porque estava sempre aprendendo alguma coisa nova, era muito dinâmico, eu buscava as tarefas, não me importava de ficar até mais tarde e me sentia próxima dos meus superiores o suficiente para poder dizer que tinha preguiça de trabalhar e eles sabiam que mesmo falando isso eu iria me esforçar naquela tarefa. Eu podia fazer piadas (e eles entendiam meu senso de humor) e descontrair de tempos em tempos e se isso me atrasasse, ou nos atrasasse tudo bem, porque eu não me importaria de ficar até mais tarde. O trabalho não era só trabalho, era convivência, era até prazeroso.

Eu não sei. Tenho uma amiga que trabalhou lá comigo e disse que seu eu estou insatisfeita porque acho que posso encontrar um outro lugar como lá vou me frustrar enormemente. Claro que eu disse que não era tão ingênua, mas para falar a verdade, talvez eu seja. Porque fico pensando que deve existir sim um lugar onde as pessoas trabalhem e se importem com o trabalho, mas não só com o trabalho, se importem também uns com os outros. Um lugar onde eu possa me sentir a vontade para ser eu mesma e tenha prazer em ir trabalhar porque vou encontrar amigos e fazer algo que me interesse.      

Faz um mês que mudei de trabalho, mas parece uma eternidade e hoje, em meio a esse calor absurdo que fez, até pensei que ainda bem que o verão está chegando, que o inverno vai passar, que vai ficar tudo bem daqui a pouco. Mas foi um sentimento passageiro, logo eu já sentia o inverno de novo e acho que tinha razão, ele vai ser longo, mas muito mais severo do que eu esperava.

17 de setembro de 2015

Me deixa sorrir

É engraçado, vc passa meses trabalhando com as mesmas pessoas, você conversa com elas, dá risadas e faz amizade. Então você sai e, mesmo que mantendo algum tipo de contato, quando você volta para visitar fica um clima meio estranho. Você fala das mudanças na sua vida, conta sua vida nova, mas quem ficou não tem muitas novidades. Quem ficou escuta, olha, sorri, conta um pouco como as coisas estão, mas com receio. 

É quase que um medo de que ao conversar muito, ao falar demais como as coisas estão você vai se sentir mal, vai sentir saudades. Eu já sinto saudades. Eu sinto saudades todos os dias, para falar a verdade, saudade é quase que a única coisa que eu tenho sentido desde que saí e vocês falarem ou não da vida aí não vai aumentar... Acho que isso é impossível de ser feito.

E que nem se fale em me chatear com os relatos, me sentir entediada. Isso não acontece porque, se você quer saber, tudo o que eu tenho mais vontade de escutar é sobre como está a vida aí. Eu vou me sentir mal, vou sentir saudades irremediáveis, mas não vou me chatear, jamais vou me entediar. No máximo vou sentir um pouco de ciúmes e um nó na garganta, e me chame de masoquista, mas eu acho que quero sentir isso. Talvez assim eu sinta que ainda faço parte desse lugar que eu nunca pensei ser tão importante para mim.

Eu não sei o que me prende, não tenho certeza de como me soltar ou de como me sentir bem de novo. Não tenho ideia de como foi que eu me apeguei tanto a esse lugar ou mesmo se quero me desapegar. O que eu queria mesmo era voltar a rir e sorrir como antes. Eu sinto tanta saudade daquele bem estar, daquelas risadas.

15 de setembro de 2015

Leva meu desamor

Ela estava sentada na cama, lençól quase que enrolado no corpo e ele buscava sua roupa no chão e começava a se vestir. Ela só queria que ele fosse embora logo, que ele não fosse embora nunca, que ele apagasse a luz e ficasse ali com ela em silêncio.

Uma vez vestido ele se virou para ela, sentou na cama ao seu lado e durante alguns segundos eles permaneceram em silêncio, olhos nos olhos e o coração acelerado. Depois desses longos segundos ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas ela não deixou, virou o rosto e o empurrou para longe de si. 

Ela não tinha o mínimo interesse no que ele tinha para falar. O que ele poderia dizer que a faria se sentir melhor? Ele provavelmente diria que ela não deveria se sentir culpada, mal sabia ele que ela tinha bem claro na cabeça que aquela culpa não era dela para ser sentida. Ele era comprometido, ele deveria respeitar a esposa, ela... Ela o amava e seu único arrependimento era esse: amar quem não era minimamente digno de seu amor.  

Enquanto o via se afastar sentia vontade de gritar, mas não tinha certeza do que. Em sua memória ainda estava fresca a lembrança da noite proibida que haviam tido juntos, do beijo proibido trocado na noite anterior, semente de toda a culpa que ela sentia. Não por ele, mas por ela mesma. Sentia culpa por se deixar amá-lo e contentar-se com essas migalhas de amor que ele lhe dava.

Ele saiu do quarto apagando a luz e em silêncio, ela ainda escutou quando ele fechou a porta do apartamento, só então se deitou novamente para tentar dormir um pouco. A manhã estava chegando e levaria essa noite embora, com sorte levaria também seu desamor.

12 de setembro de 2015

E se eu interpretei tudo errado?

 Eu li de novo e nessa nova leitura interpretei tudo de forma diferente. Agora acho que não vou ser chamada, vou simplesmente mudar de ideia e deixar essa história para trás e eu não quero isso. Não quero abandonar esse desejo de voltar. Era um lugar onde eu me sentia em casa, eu podia ser eu mesma e aqui não posso. Sabe quando você deposita todas as suas esperanças em alguma coisa? Eu não queria fazer isso, mas foi o que eu fiz e agora estou mal de novo pensando que essa vontade de voltar vai ser só uma vontade mesmo e me dói o peito pensar nisso. 

A ideia de ficar onde estou me... Me enoja um pouco. É um sentimento estranho e eu não sei de onde vem já que eu acho todos ali simpáticos, mas se assemelha muito ao que eu sentia quando pensava em estudar em Franca. Eu não mudei de ideia quanto a isso. Mas esse enjoo veio também quando eu vi que iria estudar no Mackenzie e eu gosto da minha faculdade...

Eu sei. Um dia de cada vez e eu vou conseguir passar por todos eles. Mas eu tenho pressa, eu quero saber agora o que vai acontecer. Se minha vida fosse um livro ou uma série eu estaria all over the internet procurando spoilers.

Ai que angústia! Que impaciência! 

10 de setembro de 2015

Eu sonho longe

Eu olho as cartas e mesmo, sabendo que eu não devo tirar para mim mesma, eu tiro. Eu tiro e quando não mistra um futuro que me agrada, que me faz sonhar e ficar satisfeita eu choro. Choro e fico com raiva porque mentiram para mim, porque eu não vou ter o que tanto faz meus olhos brilharem quando me sinto insatisfeita com meu atual trabalho. E é choro de tristeza, coisa rara em mim. Choro de amargura por não ser tão querida, tão respeitada quanto queria. 

Então eu tiro de novo, uns dias depois. E mesmo sabendo que pode não dar certo, que posso quebrar ainda mais meu coração, eu deposito todas as minhas esperanças naquilo. E quando aparece que meu futuro vai ser do jeito que eu quero... Ah eu fico parecendo uma criança que ganhou o melhor presente do mundo de natal. Eu fico feliz, meus dias ficam mais leves, meu humor mais agradável e meus pensamentos? Meus pensamentos estão lá no futuro imaginando como vai ser quando eu estiver lá, eu sonho longe e sonho alto.

E eu sonho sem base nenhuma. 

Vamos ser realistas aqui: eu não acredito em Deus, mas acredito no destino e na minha cabeça as cartas me mostram meu futuro por me mostrarem meu destino. Tenho plena consciência de quão tosco isso é, de que as cartas são só um monte de imagens que eu interpreto como eu "quero", mas é tão boa a felicidade e o alívio que eu sinto quando elas me mostram que vai dar tudo certo. É tão bom ficar nessa bolha de alegria! Eu sei que não é racional, mas eu acredito nas cartas. E sei que não é racional eu ter essa vontade tão grande em voltar a trabalhar com meus ex chefes, até porque, eu estou gostando de onde estou, mas eu sinto isso e não vou reprimir. 

Sei que o futuro está ali na esquina e logo eu chego ali e talvez quando eu chegue eu já tenha mudado de vontade, meus sonhos sejam outros, ou eu simplesmente fique arrazada porque as cartas "mentiram" para mim e o futuro que eu sonhava não é o que eu vou encontrar. Mas enquanto isso eu vou sonhando, quase uma obsessão, um escape, um jeito de lidar com a realidade