18 de setembro de 2015

O verão está chegando

O verão está chegando, mas parece que o inverno vai ser longo.

Eu queria estar feliz, queria estar sentindo aquele clima bom de caminhar na Av. Paulista no fim da tarde e sentir uma paz inenarrável no meu peito, sentir vontade de sorrir para os prédios e me imaginar em um filme, caminhando livre, leve e solta pelo maior ponto turístico da minha cidade. Essa Avenida é um lugar no qual eu sempre me senti em casa, que às vezes me enjoava a paisagem, mas no qual eu nunca me senti acuada.

Bom... as coisas mudaram.

Eu não me sinto acuada, mas se no meu tempo livre eu puder ir para outro lugar, ou pelo menos para um ponto mais distante do meu trabalho eu agradeceria, só para não ter que lembrar dele quando eu não quero. Outro dia eu fui visitar meu antigo trabalho e cada canto daquele centrão me dava tristeza e saudade, eu nunca pensei que fosse sentir falta daquele lugar que muitas vezes me deu nos nervos e o qual eu nunca realmente apreciei até trabalhar ali. Ah! Que saudade do centro!

De novo, eu vivo repetindo isso para mim mesma e para os outros: não é que eu não goste do meu novo trabalho, é só que... é só que não é o meu antigo. Eu acho as pessoas ali legais, elas são simpáticas, educadas, boas pessoas, o trabalho não é algo que eu deteste ou que eu não entenda e as horas são absolutamente normais, nunca fiz hora extra e nem nunca precisei me matar para dar conta. Eles não exigem nada demais de mim, nunca me destrataram ou deram motivos para não gostar deles, aliás comparando a algumas experiências de alguns amigos eu até acho que tive muita sorte e que estou reclamando de barriga cheia.

Mas por outro lado eles não entendem muito bem meu senso de humor, não há muito espaço para piadas ou amizades, é como se fossem todos colegas e só, simpáticos e educados, mas sem grande interesse na sua vida, pelo menos não mais do que o necessário. São todos muito focados no trabalho, até porque tem bastante trabalho e as conversas e brincadeiras não podem atrapalhar isso, ou algo poderia dar errado, o escritório poderia perder clientes, dinheiro e você certamente perderia seu emprego. Em geral os advogados não fazem horas loucas, mas sempre fazem um pouco de hora extra para dar tempo de fazer tudo e eventualmente trabalham de fim de semana, alguns estagiários também fazem hora extra, mas nada demais. Mas eu não consigo deixar de torcer o nariz para isso, não consigo deixar de achar um absurdo que eles tenham apenas por colegas aquelas pessoas com quem passam a maior parte dos dias. Eles não conversam quase nada, mas passam mais tempo com essas pessoas do que com os filhos, ou a pessoa com quem escolheram passar o resto da vida. Eu me sinto sufocada só de pensar em viver assim para sempre.

E vamos falar em promoção? Venhamos e convenhamos, quem você promoveria, eu, que faço meu trabalho o suficiente para ir embora, ou o outro estagiário que faz o trabalho dele e ainda pede mais e fica mais tempo para dar conta de tudo? Eu faço o meu e, se eu achar que não vai dar tempo, quando o advogado for me passar mais digo não, que já tenho muita coisa. Me irrita não poder me dedicar tempo o suficiente para cada processo, me irrita não conhecer todos os processos e que todos eles sejam muito parecidos, que tudo o que eu tenha para fazer seja sempre muito igual. E o trabalho não é exatamente novo, eu não estou aprendendo muito, a maior parte das coisas eu já aprendi, já sei o que fazer, como fazer. Eu queria ver coisas diferentes e fazer peças, poder exercitar meu poder de escrita mesmo, elaborar teses e ver o processo nascer e desenvolver na minha mão. Ali tem tanto processo, tanto processo igual, que eu não vou poder fazer isso. Como vou evoluir profissionalmente assim?

E uma coisa leva a outra. Eu não realmente conheço meus chefes, não sei o que eles pensam e nem o que eles gostam, somos colegas, e assim não crio nenhum tipo de admiração por eles. Por causa disso acabo não me importando com o que eles pensam de mim e não me esforço para agradá-los. Como o trabalho é repetitivo e não é novo, eu não aprendo nada e aí é outro fator desmotivador que me leva a não me esforçar nas tarefas, porque não me acrescentam muito. Eu não me importo em agradar meus chefes e não tenho motivação para me agradar com novos conhecimentos e assuntos diferentes, então simplesmente não me esforço nada. Eu tenho vivido no maior metro-boulot-dodo, como eles mesmos e aí me sinto mais desmotivada ainda com a perspectiva de um futuro assim, e aí vivo cada vez mais assim, talvez até como medida de auto sabotagem, para não ser promovida e viver assim sempre e aí entramos na "crise do quarto ano", mas sobre isso falo depois.

Meu antigo trabalho me estragou para vida, essa é a verdade. Talvez todos esses desgostos acima sejam simplesmente para mascarar que eu estou de luto por ter saído dele. Talvez eu tenha esse sentimento de insatisfação com o novo porque realmente não quero deixar o velho. E pode ser que seja pelas pessoas, em certo nível éramos apenas colegas e não conversávamos quase nada fora do trabalho, mas por outro ângulo éramos amigos, eu me importava com eles, conhecia o gosto de todos, admirava a todos eles e me esforçava para agradá-los. Eu queria fazer um bom trabalho para que eles de alguma forma achassem mais de mim, ficava brava comigo mesma quando errava alguma coisa, porque eu me importava com a opinião deles e com o bom desenvolvimento do trabalho. E eu me importava com o trabalho porque estava sempre aprendendo alguma coisa nova, era muito dinâmico, eu buscava as tarefas, não me importava de ficar até mais tarde e me sentia próxima dos meus superiores o suficiente para poder dizer que tinha preguiça de trabalhar e eles sabiam que mesmo falando isso eu iria me esforçar naquela tarefa. Eu podia fazer piadas (e eles entendiam meu senso de humor) e descontrair de tempos em tempos e se isso me atrasasse, ou nos atrasasse tudo bem, porque eu não me importaria de ficar até mais tarde. O trabalho não era só trabalho, era convivência, era até prazeroso.

Eu não sei. Tenho uma amiga que trabalhou lá comigo e disse que seu eu estou insatisfeita porque acho que posso encontrar um outro lugar como lá vou me frustrar enormemente. Claro que eu disse que não era tão ingênua, mas para falar a verdade, talvez eu seja. Porque fico pensando que deve existir sim um lugar onde as pessoas trabalhem e se importem com o trabalho, mas não só com o trabalho, se importem também uns com os outros. Um lugar onde eu possa me sentir a vontade para ser eu mesma e tenha prazer em ir trabalhar porque vou encontrar amigos e fazer algo que me interesse.      

Faz um mês que mudei de trabalho, mas parece uma eternidade e hoje, em meio a esse calor absurdo que fez, até pensei que ainda bem que o verão está chegando, que o inverno vai passar, que vai ficar tudo bem daqui a pouco. Mas foi um sentimento passageiro, logo eu já sentia o inverno de novo e acho que tinha razão, ele vai ser longo, mas muito mais severo do que eu esperava.

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