28 de outubro de 2015

A Onda

Eu lembro quando eu era criança, tinha seis ou sete anos, e estava na escola desde os cinco, ou antes ainda. Eu não tinha muitos amigos, na verdade, eu não tinha nenhum amigo, passei a ter amigos apenas depois dos oito anos, e a escola não era algo que eu amava, mas eu também não odiava. 

Tinha um menino que implicava comigo, e claro que você vai dizer que é porque ele tinha uma quedinha por mim, mas a verdade é que, pensando em retrospecto, ele fazia bullying comigo, foda-se as razões dele, eu me sentia mal e o evitava. Não tenho certeza do peso que esse menino teve no que se passou, mas achei pertinente mencionar.

Bom, eu não me lembro exatamente como foi, lembro apenas que um belo dia eu fiz birra e não quis ir para a escola, minha mãe estava viajando e deixaram que eu fosse com meu tio buscá-la, mas então teve outro dia que eu não quis ir e fiz birra e dizia, como da primeira vez, que queria ficar com a minha mãe. Não lembro se essa foi a última vez, ou se teve mais uma, o que eu me lembro é que minha mãe, muito brava comigo porque precisou faltar no trabalho, me levou a um psicólogo. Eu fiquei muito feliz de não ir a escola, e de ficar com a minha mãe, mesmo que ela estivesse puta comigo, porque eu não estava fazendo birra, eu verdadeiramente sentia que não queria de jeito nenhum ir a escola e queria ficar com a minha mãe. O psicólogo(a) me fez algumas perguntas e depois conversou com a minha mãe e comigo, mas não lembro o que foi dito, sei que no dia seguinte e nos outros fui à escola e o que houve comigo nunca mais voltou a acontecer.

Eu lembrei disso esses dias porque acho que o que tenho sentido esses dias tem muito a ver com isso, eu não posso ter certeza porque não lembro com clareza, mas o sentimento me soa parecido. É uma ânsia horrível que me invade e eu não quero ir ao trabalho, quero ir para casa, queroe chorar e não consigo e quero minha mãe, por mais que eu saiba que minha mãe não é do tipo fofa que vai me consolar. Esse sentimento vem sem razão alguma, e eu sei que uma vez que eu estiver no trabalho não vai ser tão ruim. Mas ele sempre vem, alguns dias mais fortes que outros, e alguns dias mais rápido que outros... Me lembra um pouco o mar. Tem dia que parece o mar revolto, de ressaca, e ele quase me engole, tem dia que é uma marola suave que molha só meus pés. Eu não me afogo nesse mar, eu sempre vou para o trabalho e cumpro com as minhas responsabilidades com um sorriso no rosto, que alguns dias sai com mais dificuldade, e no fim do dia estou feliz.

Não sei de onde vem essa felicidade também, acho que é porque mais um dia passou e deu tudo certo, acho que é porque estou saindo de lá e indo para casa, acho que é porque o trabalho simplesmente não é ruim. E por um breve momento eu quase esqueço a onda que quase me engoliu mais cedo, no começo da tarde, por pior que ela tenha sido. Quase, porque no fundo eu sempre sinto um pouco de medo da intensidade com que ela vai voltar.

26 de outubro de 2015

Have you ever seen the rain?

Não me pergunte por quê, nem que mesma saberia dizer.

Está tudo bem, está tudo caminhando, estou aprendendo e, mais rápido do que eu esperava, estou superando a mudança, acho até que posso estar gostando. Mas não estou tranquila. Não consigo, não deixo esse sentimento bom me dominar, fico com meu coração apertado a espera de alguma coisa que dê errado.

Não sei de onde vem essa expectativa negativa, não sei de onde tirei essa ideia de que algo vai dar errado, é só uma questão de tempo. Cadê aquela confiança no X quando preciso dela? Eu estava tão cheia dela antes de começar e agora parece que ela evaporou!

Talvez minha mãe tenha razão, talvez eu fuja do sucesso. Talvez eu tenha razão, talvez seja só uma questão de tempo até dar errado.

Acho que escutei vezes demais aquela música... Someone told me long ago, there is a calm before the storm...

25 de outubro de 2015

São Paulo


São Paulo é parte de quem eu sou, e eu sou paulista da gema, Corintiana e bairrista, tenho birra com carioca, happy hour é no barzinho da Augusta, passeio é na Paulista e acho o Centro lindo e poético. Sempre estou louvando a minha cidade, tecendo comparações com as outras, e o sentimento de "estar em casa" em outra cidade só se deu em NY... Acho que pelo ritmo. Então a ideia de morar em qualquer lugar que não fosse São Paulo sempre me soou estranha, eu sempre imaginei que eu não conseguiria, em 2010 eu fugi de Franca e de uma faculdade pública, sem nem tentar, porque não era SP.

Porque Sampa tem luz própria, tem uma vida que pulsa nas suas ruas e avenidas com uma força inigualável, tem variedade, força... Capital gastronômica do mundo, vida cultural agitada e intensa, acho que a cidade com maior poder econômico e político do país, esses dias foi citada pela prefeita de Paris como exemplo em gestão de transporte!

Mas esses tempos de "crise do quarto ano" me deram outra perspectiva. Na faculdade a maior parte dos meus amigos é do interior e uma amiga começou a se questionar esses dias se gostaria de continuar em SP depois de formada. É que o ritmo de vida em São Paulo é muito intenso, porque é caro, é uma das cidades mais caras de se viver no Brasil e, por consequência, se trabalha mais, muito mais. Ela pontuou que na cidade dela, no interior do estado, a vida era mais barata e tinha mais qualidade, que talvez voltar para o interior e trabalhar lá não fosse a pior coisa do mundo, na verdade, talvez seja muito melhor do que viver em São Paulo.

Com isso eu comecei a me questionar, porque a crise que ela vem tendo, eu também tenho. Agora estou trabalhando na iniciativa privada e vejo os advogados entrando as nove da manhã no trabalho e saindo as sete da noite, ou ainda mais tarde. Essa minha amiga trabalhou em dois escritórios onde ela saía às 10h da noite, e em um deles ainda precisava levar trabalho para terminar em casa. Que vida é essa? Isso não é viver, é sobreviver, é você viver em função do trabalho. No último escritório que trabalhei vi três advogadas, amigas, falavam quase que o dia todo dos filhos pequenos, uma das crianças nem idade para escola tinha ainda, e eu ficava imaginando que droga de vida, porque elas trabalhavam dez horas por dia, mal deviam ver os filhos. Fiquei me imaginando naquela situação e fiquei tão incomodada. Eu não quero ter um filho só para conversar sobre ele com as minhas amigas no trabalho, quero ter um filho e curtir a criança, poder ajudar na lição, jantar junto, tomar café da manhã junto.

Eu tenho percebido que um dos pontos mais fortes da minha crise do quarto ano é que o ritmo de vida dos advogados que eu vejo por aí não é o que eu quero para mim. Percebi que eu tinha uma idéia muito fixa do que eu queria para meu futuro e agora essa ideia vem se quebrando diante dos meus olhos. Hoje já não olho com preconceito para concursos, na verdade tenho olhado com os olhos quase brilhando, porque seria uma forma de ter uma qualidade de vida boa. E também venho abrindo o leque para outras cidades.

São Paulo é ótima, eu amo essa cidade e o fato de que ela tem inúmeras possibilidades de coisas a serem vividas, mas quem eu estou enganando? Eu não curto nenhuma dessas possibilidades. Eu adoro saber que tenho vários parques a minha disposição, mas vou sempre no mesmo; amo saber a quantidade de lugares para se passear, mas sempre vou pra Paulista, ou um dos dois Shoppings perto de casa; sou apaixonada pela ideia que tenho inúmeras possibilidades de teatros, cinemas, shows, exposições... mas eu nunca saio a noite. Para dizer a verdade, talvez eu não seja apaixonada por SP, talvez eu seja apaixonada pelas possibilidade de São Paulo.

Claro que na região que eu moro e frequento cada lugar que passo tem uma história para contar, me traz uma memória a mente e eu sempre tive dificuldade de abandonar o passado, então abandonar a cidade não é fácil, mas eu estou ficando mais disposta. Estou considerando porque, se eu fizer isso, sei que não vai ser uma abandono cru e seco, ainda venho visitar, até porque não vou conseguir abandonar a minha família, muito pelo contrário.

Então comecei a abrir minha mente para outras ideias: concurso público, inclusive em cidades do litoral e interior próximo (no máximo Sorocaba, porque não sou obrigada a viver muito longe do mar, e restrinjo ao estado, porque ainda não quero cortar o cordão umbilical); magistério, porque dar aulas em faculdades pode ser algo interessante, a vida acadêmica pode ser algo bem legal, ainda que eu não tenha certeza sobre exercê-la só; trabalhar em empresas, porque eu não sei, só trabalhei em empresa pública, mas acho que é diferente do que trabalhar em escritório e acho que pode ser um diferente bom; realmente tentar o jornalismo e/ou o teatro, porque acho que seria uma boa forma de dinamizar minha vida e talvez ser uma válvula de escape, não necessariamente não remunerada; e a última ideia, e mais hipotética do que as outras, é a de ir morar em outro país e quem sabe não voltar. Quem sabe? Ir para estudar e melhorar minha vida acadêmica e me deixar ficar após o Master, dependendo de como for lá.

No momento tudo faz parte dos planos das ideias, mas é tão bom ter ideias! E é tão bom estar disposta e seguir todas elas e trabalhar em direção a elas! É um peso que eu tirei do meu peito.   
 

15 de outubro de 2015

Confiança

Uma amiga minha me disse: "Nossa, mas você confia nele mesmo, né?" e mais uma vez uma pessoa de fora me mostrou como eu me sentia. Não tinha consciência do quanto eu confiava nele até escutar aquela frase e perceber que ela tinha razão. E eu não sei quando foi que comecei a confiar assim nele, acho que ganhei isso com o tempo, talvez tenha vindo junto com a amizade e a admiração, só sei que um dia minha amiga disse essa frase e eu soube que era real.

Ele insistiu um bocado para que eu fizesse a entrevista, durante quase um ano ele sugeriu para mim que a fizesse e eu neguei, disse não, não era minha área e de repente... ok! Eu faço. Porque se ele insistiu tanto talvez ele tenha razão, talvez ele deva saber melhor, talvez ele veja algo que eu não estou vendo, porque, afinal, ele está vendo de fora. Ele a conhece, ele me conhece, talvez seja mais que uma sugestão de "olha, tem uma oportunidade aqui", talvez seja algo mais premeditado da parte dele. Mas veja, tudo isso são conjecturas, eu não sei se é realmente assim, eu estou dando um salto no escuro, de venda, e braços abertos, só porque ele disse que eu devia fazer isso.

Confiança, isso é confiança. É eu fazer uma coisa sem questionar os motivos dele porque eu confio nele. Eu fui sincera com ela, sei que pode não dar certo e o fato de eu ter sido honesta me desonera de qualquer culpa futura por abandono precoce. Pelo menos eu vou ter tentado, o que consola a mim, e vou ter sido sincera, o que deveria consolar a eles, ou pelo menos evitar surpresas. É engraçado, eu nem se quer perguntei porque ele sugeriu que eu fosse, mas eu fui, vamos ver como é, porque, de verdade, o que eu teria a perder?   

Hoje, agora, sinto como se a despedida da CET tivesse me feito mais forte, sinto como se agora eu estivesse realmente pronta para mudar, começar algo novo. É como se o escritório tivesse sido meu rebound sex e agora eu estivesse pronta para me apaixonar de novo. Foi triste me despedir deles, talvez eu até sinta saudades, mas a função deles mesmo foi me desintoxicar na CET, sanar meu período de luto e talvez me preparar um pouco para o que está por vir.

Eu sempre acho que o fato de eu passar um ano novo diferente significa que passarei um ano diferente... talvez eu tenha alguma razão. O ano nem acabou e tanta coisa já aconteceu!

Papéis

Eu descobri recentemente o meu apego aos papéis, era algo bastante óbvio, mas eu não via, precisei ajuda para enxergar e uma vez que o fiz foi como se algo tivesse entrado no eixo na minha vida. De repente tudo fazia mais sentido e ao me dar conta do que se passava eu decidi enfrentar o problema.

Sim, porque por mais que eu sempre tenha gostado de desempenhar papéis e fizesse de tudo para cumprir bem o meu (independente de qual fosse e onde fosse) isso acabou virando um problema quando eu passei a achar que eu era só aquele papel. Eu acho que o fato de eu o  desempenhar bem acabava encobrindo alguma insegurança minha, que eu nem sabia que estava lá, e quando o papel terminava, ou mudava, eu ficava com a sensação de não pertencer àquele grupo, procurava um novo papel para desempenhar em em outro lugar.

"Eu não sou o meu papel" virou quase um mantra nessa última semana e é incrível como fiquei mais leve com ele. Envolve certa dificuldade, a de confiar em mim mesma, mas eu vou tentando, porque em contra partida tenho mais convicção de mim mesma. Nunca foi só o papel, tinha eu também e nisso existe algo substancial.