30 de dezembro de 2016

O que 2016 te fez?

Quando 2016 começou eu não sabia o que esperar. Eu estava tão perdida em mim mesma, tão confusa sobre meu futuro e meus sentimentos que eu simplesmente me propus alguns objetivos mais atingíveis: andar de skate, viajar, passar na OAB e etc. E mesmo assim esse ano me surpreendeu, tanto positivamente quanto negativamente. Umas duas semanas atrás, no meu baile de formatura, eu comentei sobre isso com as meninas, sobre como, apesar de tudo, 2016 não foi ruim para mim, para minha vida pessoal.

Não me entenda mal, várias coisas ruins e/ou decepcionantes aconteceram esse ano: muitas celebridades admiráveis morreram ou se separaram, teve o impeachment da Dilma, Temer presidente, Trump ganhando eleições nos EUA, Grã Bretanha saindo da União Europeia (o que enfraquece o grupo e aumenta a crise dos refugiados), ataques terroristas na Alemanha, economia do país bem ruim, e outras coisas mais que eu nem sei, porque foram tantos acontecimentos que eu perdi a conta.

Mas em termos de vida pessoal 2016 foi bom. Em fevereiro eu saí de um trabalho que não estava gostando, onde não me sentia bem e fiquei sem trabalhar para estudar para a OAB. Com isso eu acabei finalmente encerrando meu período de luto pela 7, sair do escritório permitiu que a ferida se fechasse, que ela finalmente cicatrizasse. Eu ainda sinto muita saudade, mas a saudade é um imposto que a gente paga pelos momentos felizes, então tudo bem. No fim, eu não passei de primeira na OAB e isso foi um tanto frustrante, mas passei na segunda vez e eu aprendi bastante nos cursinhos para a prova, coisas que serão úteis para a vida, então tudo bem. A prova também me trouxe esse novo "mantra": "tá/vai ficar tudo bem", é uma forma de combater minha ansiedade e tem ajudado... isso e terapia.

Porque eu continuei fazendo terapia e esse ano foi tão bom nesse sentido! Eu cresci muito pessoalmente, eu entendi de onde vem meu medo de arriscar, entendi que tudo bem seguir meu caminho, mesmo não sendo o da minha mãe, que vai ficar tudo bem. Percebi que parte da minha insegurança vem de nunca ter tido alguém que acreditasse cegamente em mim, apoiasse de verdade, mas que agora eu tenho isso nas meninas. Acho importante ter alguém que confie na gente quando a gente não confia. Também passei a me sentir mais confiante, na medida em que passei a não me importar tanto com a opinião dos outros, isso me ajudou a parar de pegar responsabilidades que não são minhas e respirar mais leve. E, sim, acho que além da terapia, a cirurgia de diminuição dos seios ajudou muito na minha autoconfiança, me sinto muito mais confortável com meu corpo, claro que os quilos que perdi ano passado são grande parte disso, mas de forma geral me sentir mais feminina vem da cirurgia.

Além disso, apesar da minha colação ser apenas em janeiro do ano que vem, 2016 foi o ano em que me formei na faculdade! Fim dos cinco anos estudando direito, de uma jornada longa e de um crescimento enorme. Me formo sem nenhuma dependência, média geral 8,0 e uma nota excelente no TCC, com direito a indicação para prêmio, publicação e até a perspectiva de ser publicado em um livro ano que vem. Fazer esse TCC foi incrível, não apenas pelo que aprendi, mas pela confiança que me foi depositada pela minha orientadora, os elogios dela foram a melhor parte do ano, melhor que passar na OAB. Passar na prova foi um alívio, o TCC foi um prazer. Agradar outra pessoa com o meu trabalho... isso não tem preço.
 
Então acho que mesmo que nesse final de ano eu continue desempregada, um pouco contra a minha vontade (um pouco não), que tenha sido difícil ficar sem salário e dependendo da minha mãe, que eu não tenha ido para o Chile como eu queria muito e esteja gastando minha poupança de uma maneira que eu não queria, esse ano foi bom. Eu não estou mais tão perdida, eu tenho uma direção, que pode mudar a qualquer momento, é verdade, mas é uma direção. Em 2016 eu me desafoguei do desespero em que eu estava em 2015 e isso foi a melhor parte. Nesse fim de ano me sinto mais leve, saudável e disposta a enfrentar o ano que vem aí.

28 de dezembro de 2016

Cenas de um romance



- Não! Esse é meu lugar feliz! – Rodrigo e Paulo riram – isso não é engraçado. Ele vai estragar meu lugar feliz, e eu gosto daqui.
  Os sócios eram pacientes com ela, afinal, ela estava com eles desde o primeiro momento, sete anos trabalhando juntos. Eram amigos, quase família.
- Eu não vou negar que o Gabriel é um pouco difícil de trabalhar – Alice soltou uma risada debochada – Mas ele vai trazer muitos clientes com ele e nós precisamos construir uma área cível decente, só você não está dando conta – disse Rodrigo.
- Eu entendo, vocês precisam de um advogado sênior, um coordenador, para a área cível. Mas o Gabriel? Não existe nenhum outro advogado que possa ocupar essa vaga? - Rodrigo e Paulo riram novamente.
- Alice, faz oito anos desde que vocês trabalharam juntos, tenho certeza de que ele melhorou e se não melhorou pelo menos você já sabe lidar com ele – disse Paulo piscando para ela
- Além do mais, já está tudo certo, ele começa na segunda – Alice abriu a boca pronta para argumentar mais alguma coisa, mas Paulo continuou – e eu espero que você explique para ele como as coisas funcionam aqui e para a Karina como ele gosta das coisas feitas – Alice mordeu o lábio e assentiu
- Sim senhor – respondeu ela sentindo-se levemente enjoada com a perspectiva de encontrar o Gabriel novamente.

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- Não importa a petição, sempre coloca o seu nome, se for de juntada de documento coloca o meu e o seu, se for peça o dos três – Karina assentiu enquanto anotava as diretrizes – As margens são sempre o padrão ABNT – Karina levantou o rosto com o olhar confuso, Alice revirou os olhos enquanto completava – não me pergunte o porquê, mas ele mede, não esquece isso. Ele detesta abreviações no endereçamento da petição, ou no encerramento e os pedidos são em tópicos, sempre em tópicos.
  Era sexta feira e Alice passava as diretrizes gerais para Karina, quanto menos ela lidasse com Gabriel, ou o irritasse, mais tempo ela ficaria no escritório.
- Mas a maioria dessas coisas eu já fazia, você gosta disso – Alice desviou o olhar da tela do computador para a estagiária. Ela tinha razão, claro que Karina tinha razão, Alice sabia disso. Ela havia sido moldada como advogada quando ainda era estagiária de Gabriel, mas isso não era algo que a agradava.
- De qualquer modo, antes de passar qualquer coisa para ele, manda para mim primeiro, eu quero revisar tudo antes de mandar para ele. Karina assentiu em silêncio, mas Alice sabia que ela estava segurando uma risada.

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- Ele não pode ser tão ruim, você trabalhou dois anos para ele! – disse Pedro rindo
  Era segunda de manhã e Pedro e Alice chegavam ao prédio do escritório. Gabriel começaria naquela manhã e ela ainda não se sentia mentalmente preparada para isso.
- Pedro, ele uma vez jogou minha petição no lixo porque eu não coloquei o espaçamento certo entre as linhas – disse Alice enquanto eles passavam pela catraca e imediatamente depois arregalou os olhos – Droga! Eu esqueci de avisar a Karina do espaçamento! Tá vendo? Isso não é trabalho de advogado, é de design gráfico! Sem contar o humor dele, é ridícula a falta de humor dele! – Pedro soltou uma gargalhada e apertou o “dois” enquanto a porta do elevador cheio se fechava.
- Talvez o Gabriel simplesmente não entenda seu sarcasmo! Nem todo mundo tem essa inteligência superior – brincou Pedro. Alice revirou os olhos
- Talvez ele seja um babaca – retrucou
- Bom dia Alice – disse uma voz logo atrás dela.
  Pedro estava ao seu lado e imediatamente virou o rosto em direção ao dono da voz. Alice fechou os olhos e mordeu os lábios balançando a cabeça negativamente. É claro que ele tinha ouvido tudo. Por que melhorar se dá para piorar, não é mesmo?
- Bom dia Gabriel – respondeu ela após um segundo com um sorriso nos lábios e a voz levemente esganiçada – tudo bem?

14 de dezembro de 2016

Virando o jogo


- Xiii - disse Andréia olhando para o canto do bar - aquela não é a ex-mulher do Gabriel?

Na mesma hora os outros três rostos na mesa se viraram para observar. Duas mulheres e um homem.
- É... nem sei se quero ver! É muita humilhação para um cara só - desabafou Pedro desviando o olhar no momento em que Gabriel começava a conversar com a ex-mulher.
- Ai Pedro, tudo bem que quando eles se separaram ele pediu para voltar algumas vezes, mas já faz mais de ano que eles se separaram, ele já superou - relevou Bianca
- Espero que sim Bianca, porque ele pedir para voltar depois de pegar a mulher na cama com o sócio é bem humilhante... Você tá bem Alice? - Andréia deu alguns tapinhas nas costas da amiga que engasgou com a cerveja que bebia. Alice assentiu se recuperando.
- Ele assinou os papéis do divorcio outro dia, faz uns três meses, mais ou menos, e ele ficou bem mal - revelou Pedro.

Alice respirou fundo e se levantou. Ela não conhecia o atual Gabriel muito bem, não gostava do adolescente que ele foi, mas ainda assim soltou o cabelo deixando-o cair sobre os ombros e andou na direção do casal com segurança e um sorriso no rosto, exatamente como havia aprendido na escola de modelos.

- Oi, desculpa interromper, mas, amor, olha, seu pai me mandou uma mensagem um pouco urgente - disse ela chegando muito perto dele e entregando o celular, de maneira que antes de reagir à fala dela ele leu: "estou te fazendo um favor, segue minha deixa e me agradece depois".
Gabriel terminou de ler e encarou Alice ainda um pouco confuso

- Está tudo bem? - Questionou a ex-esposa de Gabriel um pouco confusa
- Ah... sim, é sobre o trabalho, você conhece meu pai - disse ele sem jeito
- Tudo é urgente para o Marcelo quando se trata de trabalho - completou Alice sorrindo - a gente não se conhece né?
- Desculpa! Alice essa é minha ex-mulher, Patrícia. Patrícia essa é a Alice, ela é filha do Marcos, sócio do meu pai nós estamos trabalhando juntos e... - Alice encarou Gabriel sorrindo e segurou em seu braço de maneira carinhosa. Ele não sabia o que mais dizer... que eles estavam namorando? Era esse o plano dela?
- É isso, nós ainda não tivemos aquela conversa sobre como nos chamar ainda - completou Alice
- Ah, muito prazer Alice - disse Patrícia olhando pela primeira vez para Alice e a medindo o corpo todo.
- O prazer é todo meu Patrícia, o Gabriel não tinha me dito que você era tão bonita! - disse Alice

- A gente devia ir, o garçom está levando as bebidas na mesa - disse Gabriel na tentativa de encurtar aquele encontro enquanto Patrícia agradecia com delicadeza - O que foi isso? - questionou ele quando eles já haviam chegado à mesa
- Quando vocês se encontraram você era o cara que implorou para voltar e que estava na pior com o divórcio, quando nós viramos as costas você era o cara que estava com a ruiva maravilhosa e muito legal que até elogia a ex do atual namorado - disse Alice dando os ombros
- Cara, não sei o que rolou, mas parece que a Alice te ajudou a virar o jogo - constatou Pedro rindo
Andréia então sugeriu um brinde à "ganhar o divórcio".

12 de dezembro de 2016

Olhares desencontrados



Seu sorriso solto ao lado dos amigos, seus braços no alto e seu cabelo em um vai e vem... Seu corpo se mexia no ritmo da música. O funk fez ela rebolar e ele deu a sorte de olhar bem nesse momento. Ele nunca gostou muito de funk, mas ficou feliz de escutar a voz da Anita na pista. Ela dançava de olhos fechados, em uma diversão sem preocupação e com um vestido preto que fez ele se arrepender pela milésima vez de nunca ter falado com ela.

A música, a dança, a alegria com os amigos, fizeram ela esquentar, mas lá fora a noite estava fresca. Sentada na beirada de um murinho, descalça e dividindo um copo de água gelada com a amiga ela descansava enquanto observava ele, perto da entrada da festa, conversando com os amigos. Ele fumava um cigarro e dava risada, calça e camisa social, uma roupa que destacava o melhor dele: a bunda e o bíceps.

Noite de formatura, dos dois. Naqueles cinco anos eles nunca se falaram e não nunca se falarão, mas os olhares... Os olhares não puderam ser evitados, não quiseram, não naquela noite. Uma pena que também não foram notados.

A festa tinha sido boa, mas a ressaca veio acompanhada do gosto amargo de quem não conseguiu conquistar o olhar que queria. Ela sonhou com aquela noite, com ele vindo falar com ela e durante aqueles poucos segundos em que o sonho durou eles foram felizes juntos. Ele descontou a frustração no boxe, socando o saco de areia, arrependido de ter perdido as chances que teve. Nenhum dos dois sofreu muito tempo, nenhum dos dois nunca mais viu o outro, ou soube que havia um interesse correspondido. Eles são um daqueles casais que tinha tudo para dar certo, que durariam, que seriam infinitamente felizes enquanto durasse... mas o destino quis diferente.

E eles foram ser felizes separados e com outras pessoas.

10 de dezembro de 2016

Aquele golpe na autoestima

Todo mundo em algum momento se sente mal, invisível ou descartável. Não importa o quão alta seja sua autoestima, todo mundo se sente mal consigo mesmo em algum momento. Esses momentos podem ser mais ou menos frequentes, dependendo da sua autoconfiança, mas eles sempre acontecem.

Ontem fui à uma festa e saí de casa me sentindo bem comigo mesma, me sentindo muito bonita e confiante e voltei me sentindo arrasada, como se eu e ninguém fossem a mesma pessoa. A festa foi legal, eu me diverti dançando com meus amigos, me senti sexy rebolando no funk e livre pulando ao som de uma música antiga do The Killers. Mas na festa estavam muitas outras meninas bonitas, que se encaixam muito mais no padrão de beleza e, mais uma vez, elas foram mais notadas do que eu. Eu não me percebi notada em nenhum momento, ninguém disse que eu estava feia ou lançou olhar reprovador, era só que... ninguém olhou, ninguém notou.

Foi só quando cheguei em casa que a bad bateu e eu me senti mal, no meu sono cansado sonhei com a festa, com ser notada. Acordei com mensagens que brincavam com uma das outras meninas, uma que é sempre percebida, e preferi não responder, mas meu coração não foi capaz de ignorar. Essa noite foi, de certa forma, um golpe na minha autoestima que eu não sentia há tempos. Eu vou me recuperar, acho que já estou me recuperando, mas resiliência e uma autoestima relativamente alta ajudam na cicatrização desse golpe. O que fica é aquele medo de voltar a se sentir assim. Foi como me senti durante boa parte da minha infância e adolescência e para não me sentir mais assim, para construir uma autoestima alta foi preciso um exercício diário, terapia, esforço. O que, pelo visto, não significa que eu esteja imune a golpes.

23 de novembro de 2016

Professores

Ao longo da minha vida alguns professores me marcaram, eu talvez não lembre de todos os que cruzaram meu caminho, mas lembro boa parte deles e principalmente aqueles que me tocaram de alguma forma.

Na quarta série estudei em Ilhabela e lá tive três professoras que se destacaram de alguma forma: Mara, Lúcia e Cláudia. Nenhuma delas me marcou muito, mas a Mara se destaca porque lia livros em sala de aula e montou um teatro com a gente, foi meu primeiro contato com o teatro e cada vez que me lembro daquele ano esse teatro vem a mente. Encenamos um conto escrito por Graciliano Ramos e minha participação foi bem rápida, mas eu gostei muito. A Cláudia se destaca por causa do nosso teatrinho de festa junina, eu tive que falar na frente de todo mundo e me sentia muito feliz com aquilo, mais com a responsabilidade do que com qualquer outra coisa, ela era uma professora brava e nunca chamou minha atenção. Além disso, a letra "e" maiúscula dela tinha uma voltinha diferente que eu copiei e uso até hoje e ela foi a professora que nos forçou a ler "Fernão Capelo Gaivota" e eu não lembro do muito do livro, a não ser a sensação predominante de paz, mas pode ser que fosse por eu morar em Ilhabela, de qualquer modo ficou a sensação boa na memória. A professora Lúcia era nova na escola e nossa sala ficava "testando" ela, não ficava em silêncio nem nada do tipo, foi ela que me ensinou de verdade a fazer conta de divisão. Eu não tinha aprendido direito antes e ela um dia me chamou para ir à lousa, eu disse que não sabia fazer o exercício  e ela disse que eu aprenderia ali. Eu aprendi. Ela era uma pessoa de bom coração e eu me culpo um pouco por não ter feito alguma coisa para meus colegas pararem de "testar" ela.

Na sexta série entrou no Objetivo um professor muito legal de português, o nome dele era Silvio e o que eu mais gostei dele foi que nesse ano ele nos fez escrever uma história de mistério, algo curto e simples. Eu estava começando a descobrir meu amor pela escrita e escrevi uma história de 7 páginas, quando o resto da sala escreveu de 2 e em dupla. Minha nota foi 7, mas foi porque eu fugi do tema, coloquei romance e o mistério estava bem fraco hahaha. Na oitava série ele montou uma peça de teatro com a gente, eu achei super legal de novo, apesar de já sentir mais vergonha na hora de apresentar, e nesse mesmo ano ele nos fez filmar um jornal, podia ser gravado como rádio, mas fizemos um telejornal e eu fiz alguns personagens, uns entrevistados com sotaques diferentes, morri de vergonha na hora que foi exibido, mas ficou tudo bem. Nessa época teve também a Magda, ela já faleceu, apesar de nova, mas ela me marcou porque foi a primeira professora a me deixar de recuperação, e eu só peguei recuperação umas 4 ou cinco vezes ao longo de toda a escola. O Luciano também marcou um pouco porque foi na aula dele que fomos ensinados que as drogas eram ruins e para isso ele passou o filme "Aos 13" e também contou algumas histórias dessas que rolam na internet e que assustam as crianças, mas que me fascinavam pelo drama (interesse de escritora).

No colegial teve alguns professores que marcaram porque eram bonitos, como o Didoné, o Vicentini e o Gasparelo, mas era só isso. Teve também o Tony, um professor de matemática, pai de um amigo meu (na época) que marcou por ser muito bonzinho com a gente, ele tinha uma paciência infinita e eu até que aprendi com ele, sendo que a maior parte da matéria só fui aprender mesmo no cursinho. Teve também a professora Claudiane, que era bem legal e dava interpretação de texto, nessa época eu já sabia que era boa nisso e adorava literatura, matéria que ela também nos deu, então adorava as aulas dela e o estilo feminino, um pouco sexy e divertido.

No cursinho foram quatro os professores que mais me marcaram: Gian, Augusto, Maurício e Bucci. O Gian me marcou muito porque nas suas aulas sempre fazia o link entre a política, história, filosofia e arte, fazendo com que ver a história ficassem mais fácil, eu passei a ser capaz de criar contextos na minha cabeça e isso enriqueceu muito meu raciocínio. Outra coisa que me marcou nele foi que ele estimulava muito nossa reflexão e eu acho que esse é o verdadeiro papel do professor, nos ensinar a pensar. Nesse ponto os outros três me marcaram muito também, o Gugu fez eu entender pela primeira vez o racismo, ainda que não soubesse que era esse o nome, fez eu me decidir definitivamente pelo direito, porque me mostrou algumas das injustiças do mundo em suas aulas de geografia e eu achei que com o direito podia arrumar o mundo. Eu era jovem e inocente. O Maurício me marcou muito porque ele fazia o link entre literatura e artes plásticas, abrindo um pouco mais o meu mundo, além de ter paixão. Ele tinha uma paixão na sala de aula, pelo magistério, pela literatura... ele era um pouco exagerado, tinha um pé no teatro, mas o sentimento que ficou foi a paixão pelo que ele fazia. E o Bucci... O Bucci declamava Machado de Assis. Ele tinha trechos memorizados e quando os falava era quase como se falasse em verso, porque o tom de voz dele mudava, a entonação era perfeita e ele era capaz de fazer isso com qualquer autor ou tipo de texto. Essa paixão dele pela literatura me hipnotizava. E, além disso, ele discutia em sala temas atuais, tecia críticas à conjuntura política, questionava, informava, ele foi outro daqueles professores que abrem seu mundo e depois você não consegue nunca mais fechar.

Na faculdade a primeira professora que me marcou foi a Ana Cláudia, ela tinha um amor pela aula que dava, por dar aula, e ela me ensinou um pouquinho de sociologia jurídica, que foi uma matéria que abriu um pouco meu coração para entender como as pessoas funcionam, despertou em mim o gosto pela sociologia. Depois a Caraciola, que me marcou porque ela foi a professora com mais didática que tivemos, ela dava processo civil e tinha fama de ser brava, o que era verdade, mas dava as melhores aulas, com ela que o direito realmente passou a fazer sentido, aprendemos como ele funcionava e porquê, além disso, ela também adorava a sala de aula. Do Rodrigo eu já falei, o papel dele em abrir meu mundo mais um pouco foi grande, questionador e paciente ele fez eu repensar as estruturas do direito sem condená-las, mas propondo soluções. Assistindo as aulas dele que pensei a primeira vez em dar aula. Depois veio a Solange, com as aulas de sustentabilidade, aulas que me fizeram repensar hábitos, querer buscar uma vida mais saudável, ser mais sustentável de alguma forma. Ela faz a gente sentir que o nosso pouco é muito. E, por fim, tem a minha orientadora, que nunca me deu aula, mas ao me orientar me deu a liberdade para fazer o trabalho que eu queria e as ferramentas para fazer isso bem, ela acredita tanto em mim que faz eu acreditar um pouco mais em mim mesma e isso é tudo o que a gente sonha em um professor.

Profissão: professor(a)


Final de faculdade, chegando a formatura e os professores a serem homenageados na colação de grau foram escolhidos. A democracia decidiu quem seriam eles, mas além de vários outros professores muito especiais, ficou de fora um que eu admiro muito e decidi que deveríamos fazer uma homenagem extraoficial à ele. A sala concordou de pronto, compramos presente, assinamos o cartão e hoje fomos entregar. Ele mal conseguia abrir o presente de emoção.

Ele é um daqueles professores que não te ensinam só a matéria, ensinam você a refletir, a questionar e a se posicionar de maneira racional; e ele respeita sua opinião e tem uma grande paciência com as dúvidas e questionamentos de todos. Ele é professor por vocação, mas também cansa, porque ser professor não é "só dar aula", é, além de tudo, dar aula e abrir o mundo dos alunos. E nessas horas de cansaço ele desacredita, a vida faz a gente ficar cínico, a atual conjuntura faz a gente ficar desanimado e ele não é exceção. Mas nossa homenagem foi um daqueles momentos em que ele voltou a acreditar, mesmo que nunca tenha realmente desacreditado.

Ele disse, no modesto discurso dele, que professor não muda a vida de ninguém, pode enriquecer, marcar um aluno ou outro, mas a decisão de mudar vem do aluno. Eu discordo. Uma vez que um professor tira a gente da caverna ninguém quer voltar. Foram professores como você que me fizeram perceber que o Direito é lugar para mim sim, tem que ser, porque o Direito precisa da gente. Foi assistindo à suas aulas que eu tive certeza do que deveria fazer da minha vida (ou pelo menos aquela certeza que a gente acha que tem aos 25 anos). São professores e professoras que marcaram minha vida que acabaram por influenciar quem eu sou hoje. Aquele professor de português da sexta série fez eu descobrir que amo escrever, foi aquele professor do cursinho que me fez perceber a importância da história, foi aquele outro professor do cursinho que me ensinou o que era racismo. E na faculdade tive professores que me ensinaram sobre justiça, sobre ética e filosofia sem necessariamente terem me dado essas matérias, profissionais nos quais eu me inspiro para encarar o futuro que vem por aí.  

Não sei como demorei tanto tempo para me dar conta de que dar aulas talvez seja minha vocação também.

16 de novembro de 2016

O assédio de cada dia


Fui a um barzinho com minha mãe, minha tia e minha prima. Minha prima tem 17 e quando éramos eu achava que devia dar conselhos para ela, na minha ignorância dei diversos conselhos que hoje considero errados, porque fui iluminada pelo feminismo, então hoje tento desconstruir aquilo que um dia ajudei a construir nela: o pensamento machista.

Nesse bar nós nos sentamos em uma mesa e começamos a conversar sobre como minha prima queria cursar biologia na faculdade, como a mãe dela (minha tia que estava ali) percebeu, com mais de 50 anos, que o chamado dela era para agropecuária, ou algo relacionado a isso, mas que agora já era tarde. Logo percebi que havia um senhor (pelo menos uns 50 anos) atrás da minha tia, ele estava de costas para nós conversando com um amigo no balcão, mas por diversas vezes se virava e encarava nossa mesa. 

Levei um tempo para aceitar que ele encarava mesmo era a mim. Nós nunca realmente acreditamos de primeira que o cara está encarando a gente, sempre pensamos isso, mas nos persuadimos a achar que estamos enganadas e que ele está encarando outra pessoa, como minha mãe, que estava ao meu lado e tem uma idade muito mais próxima da dele. Nesse primeiro momento de acreditar que não era para mim que ele olhava, levantei o olhar da minha tia para ele e assim que meu olhar cruzou com o dele, ele desviou o rosto. Tive certeza que era para mim que ele olhava. Já fiquei com raiva, pô, estou com a minha família e ele vem me secar? Será que não se toca que incomoda? Que quando saímos com a família não estamos paquerando? Que eu tenho metade da idade dele? 

Ele continuou se virando a cada dois minutos para me encarar e o incômodo foi crescendo. Mais uma vez levantei o olhar para encarar a ele e dessa vez com uma cara bem feia, para demonstrar que não estava gostando daquilo. Não adiantou, ele desviou o olhar, mas logo estava me encarando de novo. E ele estava bem atrás da minha tia, quando ele olhava para ela, via ele ao fundo me encarando. O incomodo aumentou um pouco mais. Minha mãe então comentou baixinho que “aquele homem está paquerando você”, aproveitei a deixa e respondi em alto e bom tom: sim, percebi e não estou gostando. Estou com a minha família e o cara fica me encarando? Que folgado! Minha mãe mandou eu falar baixo, ficou constrangida, ela aprendeu que o interesse de homens de um certo nível social é sempre bem quisto. Eu vejo as coisas de uma forma um pouco diferente.

Não adiantou, o cara não se tocou mesmo depois do que eu falei, e ele estava perto, dava para ter ouvido, o bar era pequeno e até silencioso para um bar. Eu continuei incomodada a cada olhar dele, e esses olhares foram ficando mais longos, mais descarados, passou a virar o corpo e não só a cabeça. Mas eu sou uma pessoa que, por razões desconhecidas, sempre espera a gota d’água para reagir, porque evito conflito com pessoas que não conheço. Então minha prima falou com um pouco daquele exaspero adolescente: “nossa, tá dando aflição em mim o jeito que ele te olha!”. Foi a gota d’água. Levantei a cabeça, olhei brava para ele e perguntei bem alto: “Perdeu alguma coisa?”. Ele se virou de costas para mim de novo, a expressão surpresa, e eu completei “não né? Foi o que eu pensei!”. Minha mãe já me chamava pelo nome querendo que eu parasse, mas eu não parei, não podia. “Ah vai se fuder! Cara folgado!”. Minha mãe me repreendeu baixinho de novo, mas minha prima tinha um sorriso de orelha a orelha e disse entusiasmada: “isso!”, um misto de querer ver o circo pegar fogo e de ver a minha reação me defendendo, então eu soube que tinha feito a coisa certa e aí finalizei: “Quem tem que ter vergonha é ele que está me encarando e não eu que estou me defendendo!”. Minha tia apoiou, mãe solteira, a vida fez dela uma feminista.

15 de novembro de 2016

Trump lá, Temer aqui

Entre segunda e terça fiquei presa em estudos para uma prova, elaboração de um artigo e finalização do meu TCC, logo não dei muita atenção à eleição presidencial que ocorria nos Estados Unidos, ainda que seja a eleição mais importante do mundo. Então hoje acordo e acesso meu Facebook, como todos os dias de manhã, e dou de cara com a notícia do El País me dizendo que Donald Trump foi eleito. Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos e não tem nada que eu possa fazer, não há nada que muitos de nós possa fazer. 

Me assusta que uma pessoa que assedia mulheres, propaga o preconceito contra os latinos e os homossexuais, e, francamente, tem ideias tão sem fundamento quanto construir um muro na fronteira com o México para combater a "epidemia" de heroína no país, receba votos de pessoas o suficiente para se eleger. Não que a Hillary Clinton fossem uma grande candidata, mas ela certamente é mais competente, e tem ideias menos racistas, xenofobistas, machistas. 

Trump nos EUA e Temer aqui, Inglaterra saiu da União Europeia, logo menos é a França e sabe-se lá quem vão ser os próximos primeiros ministros desses países. É uma onda conservadora que vem derrubando tudo, inclusive vários direitos sociais conquistados pelas minorias e o que me desespera é que o que aumenta a força dessa onda é a ignorância. A ignorância de achar que feminismo é coisa de esquerda, quando na verdade é só a louca ideia de igualdade para homens e mulheres. De acharem que racismo é mimimi das pessoas, e não que algo realmente está errado quando os cientistas sociais e os dados mostram que está havendo um genocídio negro no Brasil, pela polícia! Essa ignorância de não aceitar o amor dos outros e ficar ditando regras para que ele aconteça, falando em Deus e no inferno quando o Estado deveria ser laico. 

Hoje a vitória foi "deles", mas, mais uma vez, todos nós saímos perdendo.

2 de novembro de 2016

O primeiro beijo


Uma e meia da manhã. Murilo estava sentado em uma mesa de bar conversando com seus amigos, seu humor estava péssimo e cada coisa que saía da boca de um dos seus amigos lhe fazia querer gritar. Adriana estava ao seu lado, ela parecia bastante contente, feliz por ele estar ali ao lado dela. Murilo se serviu de mais cerveja, Adriana sorria e mexia no cabelo olhando para ele. Ele havia dito que não queria nada com ela, mais de uma vez, ele só tinha cabeça para Ana, o que o desesperava e confortava ao mesmo tempo, mas mesmo assim ela segurou no braço dele, era quase como se ela o abraçasse. Murilo virou a cerveja que tinha colocado no copo, retirou algum dinheiro da carteira e entregou a um dos amigos. Saiu sozinho do bar, sem explicações ou justificativas, e pegou um uber.

Quinze para as duas... da manhã. Ana estava de pijama sentada em seu sofá, caderno em mãos, escrevendo frases desconexas com uma mão e bebendo vinho com a outra, o sono não chegava de jeito nenhum. Não que ela estivesse preocupada em acordar cedo, era madrugada de sábado, mas ela queria que aquele dia acabasse logo. Revirou os olhos imaginando que aquela altura Murilo provavelmente estava em um bar qualquer com seus amigos. Ele lhe chamou para ir, mas ela não gostava dos amigos dele, não gostava de como ela se sentia como um peixe fora d'água com eles, e não foi. Colocou o copo na mesa de centro e olhou o celular: nenhuma mensagem. Não era como se ele devesse alguma mensagem para ela, eles não tinham nada, eram amigos e amigos não mandam mensagens de madrugada.

Murilo desceu do uber. Passou o caminho todo pensando que não deveria fazer aquilo, que estava um pouco bêbado e que ela iria ficar puta, mas não conseguiu se impedir. Tudo bem, ele não tinha nada com a Ana, mas ele gostava para caralho dela, ele sempre gostou, desde que tinha quinze anos. E ela gostava dele, quando eles tinham quinze anos e agora, ele sabia que sim, mas sabia também que ela não tinha coragem de admitir, de aceitar para si mesma. Ele tentou ser paciente, dar espaço, deixar ela dar os passos que precisavam ser dados, mas agora ela tinha chegado na fase de o excluir, dar um gelo, se afastar fugindo do que ela sentia. Ele sabia que era assim porque da última vez foi a mesma coisa. Então ele precisava fazer alguma coisa e quando Adriana abraçou seu braço ele soube disso.

A campainha do apartamento tocou fazendo Ana congelar. Ela morava em um prédio e ninguém entrava sem ser anunciado, então devia ser algum vizinho, mas quem? As duas da manhã? Colocou o caderno de lado e foi atender a porta. Olhou pelo olho mágico e congelou de novo. Como ele entrou no prédio? Foi seu primeiro pensamento, seguido de 'o que que ele está fazendo aqui?'. A campainha soou mais uma vez, ele parecia nervoso, ela se olhou no espelho, mas de pijamas, coque improvisado e pantufas, não tinha muito como improvisar. Também! Eram duas da manhã! Ela abriu a porta sem disfarçar a confusão no olhar, mas não teve tempo de perguntar nada. Murilo foi em sua direção, segurou seu rosto com as mãos e a beijou.

Ana não teve tempo de pensar, de reagir, o que era o plano dele. Se ela tivesse tempo iria fugir. Inicialmente as mãos de Ana se apoiaram no peito dele, como quem vai o empurrar, mas ela nunca encontrou a força para isso. Não que ele a beijasse com força, na verdade o beijo era suave, as mãos dele segurando o rosto dela eram muito mais para apoio do que para segurar e as mãos dela que eram para empurra-lo acabaram ficando ali. Murilo separou o beijo depois de alguns segundos e a encarou em silêncio, as mãos ainda em seu rosto.
- A gente provavelmente devia fechar a porta - disse ela.
Ele apenas sorriu e chutou a porta atrás de si.


23 de outubro de 2016

Seu eu de 15 anos


- Eu não posso mais fazer isso - disse ela se deixando desabar sentada na cama sem coragem de encarar a ele e fixando seu olhar no tapete - a gente continua insistindo nesse namoro que nunca vai dar certo e para quê? Por que a gente ainda insiste? Para agradar meu eu de 15 anos? Para agradar o seu eu de 15 anos?

Ele encostou na parede em frente a ela e escorregou até o chão. Ela ainda encarava o tapete e ele acabou fazendo o mesmo.

- A gente não concorda em nada! Eu acho seus amigos um bando de babacas e você acha os meus amigos chatos. Eu gosto de ficar em casa vendo série quando tenho um tempo livre e você gosta de ir para a balada. Isso para não entrar no mérito política porque somos tão diferentes nisso que nem vale a pena começar.

Ela levantou um pouco a cabeça e olhou para ele, que sem levantar os olhos do tapete disse:

- Seus amigos fazem eu me sentir meio idiota - ele começou falando muito baixo, mas logo levantou o tom de voz - e meus amigos fazem eu me sentir o cara mais legal do mundo, eu não preciso me esforçar para agradar a eles e seus amigos... eles sabem que você merece alguém melhor - ela abriu a boca para rebater e o defender das próprias acusações, mas ele levantou o rosto e a encarando continuou a falar - mas você precisa sair mais, não gostar muito de balada é normal, mas se deixar você vira uma daquelas pessoas absolutamente antissociais e isoladas do mundo - ela não conseguiu se impedir de dar uma leve risada com isso, ele provavelmente tinha razão - e eu gosto de séries e talvez precise sair um pouco menos porque esses últimos meses me mostraram que tem um mundo muito legal longe das baladas. Você talvez possa me ajudar com isso e eu te ajudo a ser mais social - ele começou a se levantar sem parar de falar - e antes de você me responder eu ainda preciso falar sobre política porque a verdade é que - ele chegou mais perto dela e pegou na sua mão - eu não sei muito sobre o assunto - admitiu ele de modo dramático arrancando mais um sorriso dela - e acho que você não sabe tanto quando mostra por aí também - ele levantou a mão indicando para que ela esperasse antes de se defender daquela acusação gravíssima - mas também acho que podemos aprender juntos sobre o assunto, porque... Porque meu eu de 15 anos estava certo. Ele achava que a gente tinha que ficar juntos porque você era a menina mais incrível que eu conheci e quinze anos depois você ainda é a mulher mais incrível que eu conheci. Eu não posso desistir da gente sem ter a certeza de que eu fiz tudo que eu podia para te fazer feliz, para gente ser feliz junto.

Ana levantou e o abraçou com toda força que possuía, Murilo quase caiu para trás com o peso e a surpresa, mas depois de se recuperar a abraçou com força também.

- Talvez meu eu de quinze anos também tivesse razão - sussurrou ela afrouxando o abbraço para poder olhar nos olhos ele

- O que ela dizia? - perguntou ele intrigado

- Ela achava que a nós tínhamos sido feitos um para o outro

Murilo a apertou contra si novamente, mas dessa vez em um beijo repleto de amor.  

20 de setembro de 2016

Quase nada real


A única coisa que eles tinham em comum era o passado.

Ana tinha 27 anos, formada em direito, pós graduada e a caminho do mestrado. Ela de esquerda, fora temer, corintiana, devoradora de livros e caseira, feminista e inexplicavelmente adorava uma comédia romântica. viciada em séries, classe média baixa... Ana era advogada de um pequeno escritório e optou por ganhar menos ali do que trabalhar mais em um escritório famoso, batalhava para ter uma qualidade de vida boa e morava em um estúdio alugado em um prédio novo, no centro da cidade, porque não era o bairro mais seguro da cidade, mas era central, perto da faculdade, da Paulista, dos fóruns e, por que não?, da família.

Murilo tinha 28 anos, engenheiro, morava com os pais em uma casa nos Jardins, trabalhava em uma multinacional, gastava o salário em festas e viagens com os amigos. Participou das manifestações pelo impeachment da Dilma, são paulino, classe média alta... toda semana estava em Floripa, conhecia alguns famosos, outros nem tanto, ganhava VIP em baladas, contatos nesse mundo é tudo. Não tinha muito tempo para ler, mas estava ligado nas notícias da televisão e de alguns jornais, gostava mesmo de música. Já tinha até atacado de DJ em algumas festas, entre amigos, claro, na merecida diversão do final de semana, depois de todo trabalho duro na empresa. Era difícil manter o estilo de vida dele em São Paulo, mas ele estava fazendo dar certo, sempre acreditando que a vida é curta para perder tempo com questionamentos desnecessários, é melhor simplesmente curtir... era o que ele fazia.

Não que eles fossem necessariamente opostos, mas ainda que eles tivessem passado os primeiros quinze anos de vida juntos, os últimos dez anos os colocaram em lugares bem diferentes, círculos que simplesmente não se misturavam com facilidade, interesses diferentes. Mas será que o futuro poderia ser comum? Será que aquele amor da adolescência ainda existia em algum lugar? E se sim, será que seria forte o suficiente para unir pessoas de mundos tão diferentes?

Ana sentia que havia um abismo entre eles, que nenhum dos dois seria capaz de sobrepor, mas ainda assim, cada vez que o via sentia suas pernas amolecerem e quando se encontravam não parecia haver distância alguma. Murilo sabia exatamente no que estava se metendo, verdade seja dita, ela estava exatamente onde ele achou que ela estaria e mesmo que não entendesse muito bem a graça daquele lugar queria estar ali com ela, porque, por alguma razão, sempre foi Ana que lhe veio a cabeça quando alguém falava de amor.

19 de setembro de 2016

Perto da estrada

6 entre dez fotos em minha pasta de imagens aleatórias são de mulheres sozinhas, a maior parte delas de mulheres caminhando em uma estrada. Essa é uma imagem com a qual me identifico bastante e não tenho certeza do porque. Eu sempre me vi como essa garota independente e forte e acho que em certa medida essas imagens solitárias em minha pasta representam o meu modo de agir no mundo.

Eu tenho amigos, eu vivo muito próxima deles, da minha família, eu quero um amor na minha vida para ter alguém com quem compartilhar ela. Mas eu sempre lidei com as minhas dores, medos e desafios sozinha. Eu não compartilho eles, eu faço terapia e compartilho com a minha terapeuta, mas muito pouco com meus amigos e familiares. Ultimamente tenho me aberto mais, exposto mais minhas fragilidades, tenho tomado consciência de que ser frágil não é demérito algum, pode inclusive ser bem utilizado. Mas eu acho que de certa forma ainda vejo a vida como um desafio que eu devo enfrentar sozinha.

É isso a imagem da mulher caminhando sozinha na estrada, ela deixa tudo para trás, sempre está de mãos vazias, ou quase, sempre sozinha, de costas para câmera, de frente para o mundo. Ela é em alguma medida quem eu sou e, ao mesmo tempo a mulher que eu quero ser. Ela é a mulher que enfrenta sozinha o mundo, e ao mesmo tempo a desapegada que tem a coragem de sair pelo mundo e viver o que ela nem sabe o que.

Eu tenho medo de que um passo errado arruíne meu futuro de forma irreversível, mesmo tendo consciência de que isso seria quase impossível, de que eu decida fazer o que eu quero ou gosto e depois me arrependa e não consiga nunca mais colocar minha vida nos eixos. E ao mesmo tempo, tenho medo de viver essa vida "perfeita", dentro dos padrões e nunca realmente ser feliz com ela, de chegar lá na frente e não ter histórias para contar aos meus netos. E eu não consigo decidir o que é mais importante para mim, se é viver uma vida plena e com muitas histórias para contar, ou uma vida segura e garantir certas comodidades para mim e meus possíveis filhos.

Então eu olho a menina na beira da estrada, tão próxima de mim e ao mesmo tempo tão distante, e sonho com as possibilidades e riscos de pegar essa estrada. 

2 de setembro de 2016

Tá na hora de falar de política


E quase nunca falo aqui de política, geralmente estou um pouco autoabsorvida demais em meus dramas pessoais e acabo por não lembrar de comentar aqui como está a política. Bom, ultimamente tem acontecido muitas coisas, e eu tenho estado um pouco estressada com isso, então talvez seja hora de colocar aqui essas impressões que tenho tido.

Desde que acabou a ditadura militar o Brasil teve três presidentes, todos eleitos para 4 anos e reeleitos para mais 4: Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Roussef. Inegável que todos fizeram coisas boas e ruins, que o FHC fez bem para economia, que o Lula tirou o país do mapa da miséria, que a Dilma expandiu o Bolsa Família, o Prouni e eu não vou entrar nessa questão aqui. Não quero discutir os méritos e deméritos de cada um deles porque para mim não importa muito nesse momento.
Foi no primeiro governo da Dilma que tivemos as manifestações de junho de 2013, onde saímos às ruas primeiramente porque a passagem de ônibus em diversas cidades do país tinha aumentado e depois, diante da repressão absurda que as manifestações sofreram, elas cresceram muito e milhares saíram às ruas no país inteiro gritando por tudo quanto é coisa que andava engasgada na garganta deles. Eu estava lá. Eu me orgulho um pouco disso, porque é um orgulho exercer a democracia, mas me envergonho também, porque aqueles movimentos não tinham um objetivo muito fixo e hoje sinto que se você vai se manifestar por algo precisa deixar claro pelo que.
Claro que essas manifestações foram influenciadas pela primavera árabe da época, mas, de qualquer modo, desde aquele mês de junho a insatisfação social começou a tomar as ruas no Brasil, a população passou a reclamar mais em voz alta e as pessoas começaram a tomar posições sobre o governo. É preciso entender também atualmente passamos por um momento social de radicalismo à direita, isso é quase mundial, a sociedade vive em um movimento pendular e agora estamos em uma das pontas do pêndulo, que ao meu ver é a direita. Nos EUA o Trump é forte candidato a presidência, ele que é racista, xenofobista e machista declarado. Na Europa tem o xenofobismo se espalhando loucamente, por causa da grande quantidade de refugiados políticos de países como a Síria (que está em guerra civil) ou mesmo da África, tentando fugir da miséria do continente.
No Brasil a coisa não está muito diferente. A votação para o segundo mandato da presidente Dilma (PT) foi bastante acirrada contra o Aécio, que é do PSDB, mas ela ganhou. A classe alta e classe média alta, bem como uma grande parte despolitizada da população (que muitas vezes acha que é classe média alta, mas não é) começou a pedir o impeachment da presidenta. Eduardo Cunha, que era presidente da câmara dos deputados antes de ser afastado por causa das acusações de corrupção, resolveu aceitar um desses pedidos e agora, depois de todo o trâmite no congresso, ela oficialmente perdeu o posto e quem assumiu foi o vice: Michel Temer.
Tem muita gente dizendo que o que aconteceu aqui foi golpe. Eu concordo com essas pessoas. O impeachment está previsto em lei, na Constituição, mas por crime de responsabilidade e a Dilma não cometeu crime de responsabilidade. Ela estava ingovernável, porque desde que assumiu o segundo mandado perdeu apoio da maior parte dos deputados e senadores do congresso, então certamente não conseguiria governar, Michel Temer e Eduardo Cunha que antes eram da base aliada romperam com o governo e se articularam política e socialmente para que ela sofresse o impedimento e ele assumisse. Existem áudios de whatsapp e outras provas que mostram que o PMDB (partido de Cunha e Temer) deu dinheiro ao MBL, um grupo que organizou manifestações gigantes no país inteiro pedindo a saída de Dilma. A mídia (jornais como Estadão e Folha, emissoras como Globo e Record e revistas como Istoé e Veja) incentivou publicando matérias bastante tendenciosas, noticiando diuturnamente estas manifestações a favor da saída da presidenta e mencionando au passant as contra a saída dela. E os rumores que correm são de que o judiciário e o legislativo se uniram para tirar a Dilma porque assim as investigações de corrupção no executivo e legislativo iriam ser contidas, algo como, vamos dar a eles (população) um bode espiatório (a presidente e o partido dela) e assim nos salvar. Enfim, foram muitos poderes articulados pedindo e conquistando a saída de uma presidente democraticamente eleita, e essa saída se deu de uma forma ilegal, contra a qual ela lutou muito e ainda luta. E agora, de forma bem resumida vocês entendem porque o nosso atual presidente é o Temer.
Eu lembro quando a Dilma ganhou a reeleição, meu chefe comentou comigo que achava que ela não terminaria o mandato, e eu, igualmente fatalista, falei que também achava que não. Ele disse que era provável que dessem um jeito para que o Temer assumisse, porque ele era a cara da classe média que não queria a Dilma e eu concordei, porque lembrei que ele também não era do partido opositor, o que faria com que os que não gostam do PSDB concordassem. E nós ainda fizemos uma aposta, falamos que ela não chegaria a completar se quer o segundo ano de mandato. Dito e feito.
Outra coisa que eu acho interessante lembrar é que ela foi nossa primeira presidente mulher, ela não fez muitas coisas pelas mulheres, mas não sei se posso segurar isso contra ela, porque não dependia só dela, dependia também do congresso e nosso congresso, formado majoritariamente por homens, não passaria muitas propostas feministas nem que ela quisesse. Por essa mesma razão eu acho que o golpe, além de tudo, foi machista, pelo modo que ela era retratada pela mídia, pelo que as pessoas a chamavam nas ruas, e porque se ser mulher e chefe no mundo já é difícil, imagina ser presidente de um país machista, racista, homofóbico e etc...
E por mais que eu não ache que ela fosse fazer um governo brilhante, eu estou temerosa quanto ao que vem aí, porque para mim a Dilma significava 4 anos de estagnação e talvez até retrocesso econômico, mas o Temer representa 2 anos de retrocesso em direitos sociais, no mínimo estagnação econômica. Por isso eu preferia a Dilma. Ele mal assumiu e acabou com o ministério dos direitos humanos, transformando-o em secretaria sob o comando do ministério da justiça, cujo ministro é o antigo secretário de segurança pública de SP, um cara absolutamente reacionário que mandava a PM descer o cacete nas manifestações. Além disso, o Temer nomeou só ministros homens, brancos, cuja idade média deve ser entre 50 e 60 anos e todos de classe média alta.
Minha linha do tempo no Facebook é uma bolha de ideologia de esquerda, então evito dar muita credibilidade a ela, mas tem muita gente ali comparando 2016 e 1964 e eu tenho muito medo de eles estarem certo. Tenho mais medo ainda porque, como mencionei ali em cima, todos os países estão ruins, de forma geral, a população mundial anda reacionária. Eu tento racionalizar, dizer que esse povo do facebook exagera muito, que mesmo na ditadura militar as pessoas sobreviveram, porque é só você ficar na sua... mas é difícil. Eu sei que se eu ficar na minha vou me envergonhar depois, se eu abaixar a cabeça vou sentir vergonha de mim mesma, porque a omissão é uma forma de aceitação e, por conseguinte, eu estaria ajudando a oprimir os mais corajosos que eu: aqueles que não concordam e fazem alguma coisa. Por outro lado, eu sou burguesa, não nasci com essa fibra de resistência, de levar porrada e continuar de pé, se eu me manifestar e levar cacetete vou me arrepender também, vou me doer. Fico sem saber qual é o pior. E sair do país... não sei se essa é uma possibilidade, não sei se faria diferença, ou se seria certo.
Não sei o que fazer.

29 de agosto de 2016

Recapitulando

Semana passada na terapia falei que sentia que tinha uma mudança acontecendo em mim e minha psicóloga concordou, falou que ela também vinha percebendo isso, que era bom, e fez aquelas perguntas retóricas cujas respostas devem vir com o tempo, mais algumas sessões e o dia a dia: o que será que está mudando? Onde a gente vai chegar com essa mudança? Quanto tempo esse processo vai levar? E eu ariana que sou, impaciente e curiosa como mais ninguém, devolvi as perguntas para ela, mas realmente querendo respostas. Afinal, preciso saber, me preparar, descobrir e, tudo o que eu quero, eu preciso agora!

Claro que ela não me respondeu. Ela nunca responde essas minhas perguntas de quem não tem paciência para esperar pra ver. Ao invés disso ela riu do meu desespero e me disse para pensar no assunto e depois dizer para ela, porque ela também não sabia, mas seria um bom exercício para eu olhar de onde eu vim e tentar descobrir para onde estou indo. Então, naturalmente, eu me coloco a escrever em busca dessas respostas, porque é no papel que eu me sinto, é no papel que eu me entendo.

Eu comecei a terapia buscando ajuda para lidar/resolver a minha dificuldade de me relacionar romanticamente. E no processo de entendimento disso acabamos nos deparando com várias outras coisas que parecem não ter nada a ver, mas provavelmente tem tudo, porque são assuntos recorrentes, são elas: o fato de eu estar bastante perdida profissionalmente, sem saber que direção dar ao meu futuro; a minha mania de controle sobre o que eu puder controlar e as vezes sobre o que eu não posso; minha insegurança que eu sempre soube existir, mas nunca consegui identificar onde estava; meu constante ignorar meus sentimentos; e algumas outras coisas que não lembro agora.

Eu confesso que olhando esses pontos percebo algumas das mudanças que já aconteceram, e isso é bastante animador... Deveria fazer esse tipo de retrospectiva sempre! 

Algo que venho notando bastante é uma maior coragem de me expor frente à pessoas que antes me intimidavam. Hoje eu tiro mais dúvidas com os professores, exponho mais minhas opiniões e antes essa exposição me apavorava o suficiente para que eu simplesmente não o fizesse. Eu tenho medo de ser contrariada, do julgamento dos outros a partir das minhas dúvidas, de que pensem pouco de mim. Ao longo da terapia venho percebendo tudo isso. Venho percebendo que mesmo tendo minhas inseguranças físicas, minha maior insegurança é a intelectual, tenho medo de não ser inteligente o suficiente porque minha inteligência é algo que posso controlar, minha beleza, não. Claro que isso em uma análise bem rasa, e mesmo isso vem mudando. Hoje tenho confiança suficiente em mim mesma para ultrapassar algumas dessas inseguranças em determinadas situações e essa confiança em mim mesma vem aumentando, de forma que as situações logo serão mais frequentes... Eu espero.

Outra coisa muito importante é que venho descobrindo quem sou eu por baixo da máscara social e do que é feita a máscara. Hoje reconheço que parte substancial dela é a risada, eu uso a brincadeira para sair de situações desconfortáveis e também como forma de apresentação. E eu faço isso, acho, que um pouco para esconder essa minha insegurança. Ultimamente tenho me empoderado bastante, o suficiente para que eu tenha essa coragem de me expor que antes não tinha, para que o sarcasmo já não se faça tão necessário. Isso é crescimento pessoal. É se aceitar o suficiente para retirar a máscara social e se impor ao mundo. 

Parte desse processo envolve aceitar erros pessoais, lembrar que está tudo bem, ou vai ficar, que na vida o certo e o errado são coisas bastante relativas. E perceber tudo isso traz uma paz muito boa, porque diminui a pressão para que eu dê apenas passos certos, eu fico mais livre para viver meu futuro. Tenho sentido uma vontade muito grande de dar aulas, de moldar a mente da geração de advogados e profissionais do mundo jurídico que vem por aí. Quando eu entrei no curso de direito queria mudar o mundo, salvar pessoas, e dar aula é uma forma de fazer isso. E eu acho que é uma forma também de conciliar a mudança do mundo com o direito, com a minha personalidade, com escrever e pesquisar e uma vida com uma rotina diferente daquela que vemos nos escritórios. É uma ideia, uma direção a ser explorada, mas sem pressão de que seja a certa, a vida admite mudanças de direção.

Outra coisa que estou aprendendo nesse processo de aceitar erros e me tornar mais segura é que não há necessidade de controlar tudo. Que eu posso escolher aquilo pelo qual quero me responsabilizar e não preciso me estressar pelos outros, controlar os outros. Todo mundo erra e cada um tem suas responsabilidades, como vão lidar com elas não cabe a mim dizer. E preciso confessar que isso também é bastante libertador.

Tudo isso junto faz com que o sentir seja muito mais fácil. Porque não há um certo e um errado no que eu sinto, se estiver fora do padrão... Bom, paciência, eu nunca fui muito padronizada. 

Claro que ainda tem coisas que preciso evoluir, como por exemplo minha dependência da opinião alheia, que é mais forte do que eu gostaria, ou meu medo de me dedicar aquilo que eu quero, a quem eu gosto, mas o tempo, disposição e mais algumas sessões resolvem isso.

21 de agosto de 2016

Corpo

Eu tinha dez anos e estava passando o dia na casa de uma amiga e depois faríamos uma noite do pijama. Éramos 5 garotas: Sofia, Helena, Isadora, Valéria e eu. Durante a tarde, em meio aquele calor de dezembro do litoral paulista, decidimos brincar com água para refrescar. Colocamos nossos biquínis e fomos para o quintal brincar com a mangueira, mas a mangueira era pouco, então decidimos, sempre seguindo a líder do grupo e dona da casa, que íamos discretamente invadir o quintal do vizinho e brincar no pequeno lado artificial dele, porque era a coisa mais parecida com uma piscina que nós tínhamos.

Claro que o pequeno lago era apenas grande o suficiente para caber a nos cinco sentadas e que quando a gente ficava de pé a água gelada batia em nossos joelhos, mas aos dez anos você não precisa de muito mais que isso para se divertir. Então, em algum momento da tarde alguma delas sugeriu uma brincadeira que eu desconhecia até então, mas que a maioria dos adultos faz o tempo todo: vamos fazer uma competição para ver quem tem o corpo mais bonito?

A brincadeira era bem simples: primeiro a gente escolhia uma parte do corpo, como a bunda, depois cada uma de nós levantava e se fazia observar e aí todas decidíamos quem tinha a bunda mais bonita, então se seguia outra parte do corpo e eventualmente o corpo como um todo. Eu não lembro se cheguei a ganhar alguma categoria, mas lembro que a Helena ganhou a de melhor bunda e que nessa categoria foi comentado que a bunda da Valéria parecia uma bola de futebol (e pelo tom isso não era algo bom) e que a minha era caída.

Você percebe? Já se passaram 15 anos dessa brincadeira infeliz e eu ainda me lembro com vários detalhes, sabe por que? Porque foi a primeira vez que eu senti vergonha do meu corpo. Eu tinha dez anos! DEZ fucking ANOS! E não, não culpo nenhuma delas por fazer eu sentir vergonha do meu corpo, culpo a sociedade que fez com que meninas de dez anos achassem uma boa ideia fazer uma competição para ver quem tem o melhor corpo. Como se o corpo de cada uma fosse um artigo de beleza cuja forma pudesse ser considerada certa ou errada.

O pior é que desde então eu me senti mal com o meu próprio corpo diversas vezes. Eu escutei piadas do meu irmão e do meu pai por estar acima do peso, fui repreendida pela minha mãe inúmeras vezes porque estava comendo besteiras e iria "virar uma bola". Me senti mal de usar biquíni na praia (e eu ia muito à praia) porque achava que as pessoas iam me olhar e comentar que eu não deveria usar biquíni, pois tinha a bunda caída, ou estava gorda, ou tinha o peito grande demais e o biquíni ficaria vulgar. Eu passei quase quinze anos nessa neura. Quase quinze anos ficando feliz quando subia na balança e via que estava mantendo meu peso, então poderia comer aquele salgadinho. Quase quinze anos ficando feliz por escutar "você emagreceu?" mesmo se não fosse verdade. Quase quinze anos sentindo uma culpa absurda por tomar refrigerante, comer salgadinho ou não fazer exercícios e não porque isso não era algo saudável, mas porque eu ia virar uma bola.

Cheguei a ficar um ano sem me pesar, o que foi bastante libertador, mas fez eu engordar 3 quilos e depois eu me senti mal com meu próprio corpo: estava mais gorda. Em umas férias, uns dois anos atrás, engordei mais uns cinco quilos e não fiquei muito mal com isso, mas ainda fiquei com vergonha de usar biquíni na praia, de usar roupas justas ou algumas calças jeans. Eu tenho 25 anos, 1,73m e hoje estou pesando 72 quilos, porque perdi seis quilos ano passado. Perdi seis quilos devido à ansiedade que me fez parar de comer como eu gosto, eu não tinha fome, passava longos períodos de tempo sem comer e quando comia era por obrigação, eu nunca tinha me sentido mal daquela forma. Mas fiquei feliz de perder seis quilos e estar agora no, que eu considero, meu peso ideal. Isso é loucura.

Hoje estou feliz com meu próprio corpo, mas não sei se um dia vou conseguir tirar de mim esse padrão de beleza que me foi injetado a vida toda, eu ainda tento manter esse peso, ou perder mais peso, porque acho que se engordar vou ficar feia. Isso não é legal, isso é quase terrorismo mental comigo mesma. Por isso é tão importante tentar desconstruir, tentar sair desse padrão de pensamento, para não reproduzir e fazer as outras pessoas ao meu redor se sentirem mal com os próprios corpos, com elas mesmas, porque eu me senti e ainda me sinto, as vezes, assim, e não desejo isso à ninguém.

20 de agosto de 2016

Adoção

Eu não sei exatamente quando que comecei a me imaginar mãe, mas desde então eu sempre visualizei isso acontecendo através da adoção, durante muito tempo as duas ideias eram indissociáveis para mim e eu estava bem com isso. Então eu fiz um exame de rotina na ginecologista, um ultrassom pélvico e quando saiu o resultado fui ler antes da consulta de retorno e vi que o laudo dizia que eu tinha alguns cistos no útero. Por um momento ali eu fiquei muito triste, porque eu nunca tinha me imaginado grávida, mas eu sabia que tinha aquela opção, eu nunca fiz questão de dar à luz, mas eu tinha essa opção e com o resultado do exame, na minha cabeça, eu não teria mais. Entenda, não fiquei triste porque achei que não poderia ser mãe, eu sabia que podia, e eu ainda seria, mas fiquei triste por não ter mais a opção de gerar a vida eu mesma. 

Quando finalmente passei na consulta e a médica leu meus exames disse que aquilo era comum e não significava nada (e não apareceu em mais nenhum outro exame), o que me deixou um pouco aliviada, mas só um pouco... Acontece que a partir daquele exame eu me peguei me questionando como seria que eu teria um filho ou filha. A ideia de gerar uma vida é linda. Um ser humano crescerá dentro de você durante alguns meses e ele vem quase que do nada e você cria ele, você dá a vida a ele e isso é um laço lindo, que ninguém pode tirar de você. Mas então eu passo por uma esquina qualquer da cidade e vejo crianças abandonadas, sozinhas, sem cuidados dos pais e minha garganta fecha, meu peito vira um pontinho de tão apertado, tudo que aquela criança precisa é de amor. Ela teve alguém que a gerou e deu vida à ela, mas ela não deu mais nadam qualquer que seja a razão. Aquela criança na esquina só precisa de amor e isso vai mudar a vida toda dela. É uma coisa tão boba e que muita gente pode dar e eu me vejo incapaz de escolher gerar uma vida para amar quando tem tantas outras por aí que só precisam de amor. E eu sei que se eu adotar vou amar aquele ser humaninho com todas as minhas forças, que eu poderia mudar a vida de uma pessoa assim.

Na minha família eu tenho muitos vínculos apenas afetivos, alguns tios, algumas tias, alguns primos e alguns amigos que amo como se fossem família. Então tem meu irmão mais velho, que apesar dos laços de sangue não faz parte nenhuma da minha vida. E meu pai, que quase não falava com os pais dele. Acho que por isso nunca dei muita importância ao sobrenome, ou ao sangue, mas sem perceber valorizava mais os laços afetivos. Talvez por isso eu nunca tenha parado para pensar na possibilidade de engravidar, ter um filho, para mim, é apenas ter uma criança em minha vida, que eu cuidarei e orientarei até a vida adulta e amarei para sempre. De onde vem essa criança não faz muita diferença para mim, o importante é que nós nos amaremos incondicionalmente e nos completaremos de alguma forma e a ideia de me completar assim e completar alguém assim me aquece o coração.

Eu ainda não tenho certeza se um dia vou engravidar, mas eu tenho certeza de que um dia adotarei uma criança. Talvez até esse dia muita coisa mude, talvez não. Mas por enquanto essa decisão é só minha e eu estou em paz com ela

8 de agosto de 2016

5ª Série

Ahh a quinta série! Época de caminhar pela vida de peito aberto, coração leve e sonhos de toda uma vida pela frente.

Verdade seja dita não muita coisa mudou em mim, acho que ser sonhadora é uma qualidade e um defeito que nunca perderei, ainda que viva entre tapas e beijos comigo mesma por isso. O coração leve também sempre me acompanhou, pousa aqui e ali, quando vazio fica murcho, logo encontra um colírio e volta a bater, não precisa muito, um rosto mais simpático, uma piada bem pensada, ou alguns livros bem lidos. Mas o peito aberto... esse nunca tive. Não tenho certeza de quando construí esse muro de concreto ao redor do meu coração, se foi aos poucos, com tempo e paciência, ou se ele sempre esteve ali. Um muro de desconfianças, que sempre teve muito mais de inseguranças do que eu admitiria, um muro que só agora começo a entender que é bem trabalhado, complexo e que para desconstruir não basta uma marretada, precisa tirar tijolo por tijolo, entender porque estava ali, saber onde colocar o tijolo agora, se não ele volta para o lugar.

Eu aprendi bastante sobre mim mesma, sinto que estou evoluindo, talvez em um passo mais lento do que eu gostaria, mas estou indo. Estou mais confiante, mais do que isso, estou mais confortável comigo mesma, meu corpo, meu jeito, meus gostos. Essa deve ser a raiz para o sucesso, estar confortável na própria pele, e entre o feminismo e a terapia eu tenho me achado. Mas ainda tem obstáculos, tem minha mãe que nunca realmente aceitou a filha que tem e diariamente faz comentários sobre isso ou aquilo que eu deveria mudar. Tem meu irmão, que protetor, acha que é só dar a mão para ele e enfrentar o mundo que passa. Tem minha avó que não quer que eu mude nunca, nunquinha. Tem pessoas de todos os lados ao redor de mim que esperam coisas de mim, esperam comportamentos, palavras, decisões que eu simplesmente não posso mais dar para satisfazer a vontade deles. Porque agora estou confortável comigo mesma e isso me dá a confiança que eu preciso para defender minhas posições e vontades, para seguir só e sem aprovação se for o caso, não por birra como antes, mas por estar certa do que faço, quero, digo, penso.

E esse conforto me faz ter um pouquinho mais de coragem para abrir meu coração, para me permitir assumir meus sentimentos, alegrias, tristezas, inseguranças e amores. É um processo lento, provavelmente já falei isso diversas vezes aqui ao longo dos anos, mas o que é essa esperança em mim mesma se não um pouco do meu peito se abrindo? As cartas, depois de muito tempo, mostraram algo que pode ser a luz no fim desse túnel (porque ainda tem e terão outros), pode ser má interpretação minha? Pode. Pode ser coincidência e na verdade nem dá para ver o futuro em cartas? Sim, pode também. Mas pode ser verdade? Pode, e é nisso que prefiro acreditar.

6 de agosto de 2016

Responsabilidades

Um dia desses conversando com a minha psicóloga ela apontou algo que eu já tinha reparado, mas acho que nunca realmente dei atenção: eu pego responsabilidades para mim, algumas me são jogadas no colo, outras eu vou atrás buscar, mas de uma maneira ou outra elas acabam se tornando minhas quando na verdade não são. Eu as abraço porque alguém precisa fazer aquelas coisas, se não eu, quem? Acabo achando que é minha obrigação tomar conta, que se eu não fizer ninguém vai fazer, ou não vai fazer direito, então é melhor eu simplesmente me responsabilizar por aquilo, já que uma hora ou outra eu vou acabar tendo que arrumar aquilo. Mas não é bem assim né?

Quando viajei para o Peru e fiquei o mês todo quase sem nenhum contato com a minha família percebi que eles se viraram bem sem mim, que todos sobreviveram e a única coisa que se passou foi a saudade. Os 40 dias no Canadá me mostraram a mesma coisa, conversei mais com a minha família, minha mãe, minha avó, meus amigos, mas todos sobreviveram e ficaram bem sem mim, com saudades, mas bem. Se todos sobreviveram sem mim, essa minha ideia de que se eu não estiver por perto para me responsabilizar por eles vai dar algo errado é falsa, é enganação.

Minha psicóloga não criticou o fato de eu abraçar essas responsabilidades, ela disse que se eu faço isso porque quero e estou feliz assim, então tudo bem, mas que eu tenho que pensar se isso é algo que eu quero, gosto, ou se é uma coisa que eu faço e na verdade não gosto, ou não me faz bem. E eu comecei a me questionar sobre isso, porque se por um lado eu gosto de me sentir útil e ajudar os outros e me mostrar útil para os outros, eu também detesto ter que tomar conta da minha mãe como uma babá, ou ser a que sempre toma conta da minha avó quando ela tem 10 filhos e 20 netos para revezarem comigo. 

Minha mãe me criou para tomar conta do meu irmão, depois, quando meu pai morreu, todo mundo me disse queneu teria que tomar conta da minha mãe dali por diante e a verdade é que eu acho que acreditei nisso tudo. Eu gosto de tomar conta sim, mas também gosto de não ser a responsável sempre, porque a responsável sempre é chata, boring. Eu quero poder viver a minha vida sem ter que tomar conta dos outros 24h por dia e se tiver, como no caso de filhos ou responsabilidades de verdade e não apenas as que eu me dou, quero ter alguém para dividir o fardo comigo. 

Então eu venho me decidindo me liberar desse stress um pouco, ser meio cuzona de vem em quando não vai matar ninguém, dizer não quando me jogarem as responsabilidades no colo é um direito meu e acho que talvez eu deva começar a exercê-lo.

9 de julho de 2016

Uma carta ao meu pai

É engraçado que meu pai falava para que eu e meu irmão fizéssemos planos, me lembro dele nos dizendo uma vez para escrever em um livro o que queríamos da vida, como um plano de vida. E eu, que adoro fazer planos, fiz isso, faço isso. Escrevo aqui no blog, faço lista de metas, planejo mentalmente e várias outras coisas. 

Acontece que, como disse meu irmão outro dia, a vida não é linear. Na maioria das vezes não é possível ou mesmo aconselhável seguir o plano de vida porque a vida tem curso próprio. Então passei a ter planos alternativos, porque eu sou muito precavida. 

Foi só recentemente vendo uns papéis do meu pai que entendi porque ele falou em planejamento. Na verdade entre olhar os papeis e entender levei alguns dias, mas acho que cheguei a algum lugar: meu pai não planejou nada. Meu pai perdeu as raízes dele, ou talvez nunca as tenha tido, isso é um tanto nebuloso para mim, e viveu várias vidas em uma só sem chegar a lugar algum no final. Quando ele me falou em planejar já estava velho, provavelmente já estava depressivo, já estava pensando que sua falta de planejamento deixou seus filhos sem herança nenhuma, sem nenhuma garantia de futuro. 

Eu te entendo pai. Deve ser frustrante olhar seus filhos e perceber que você não vai deixar nada para eles, mas esse não é seu caso. Olhando os papéis percebi que você viveu tantas vidas em uma só que, talvez não perceba, mas chegou a algum lugar sim! Você conheceu o mundo, experimentou a vida nas grandes metrópoles desenvolvidas e em desenvolvimento, viveu em povoados, conheceu os objetos de seus estudos em uma viagem arriscada pela América Central, aprendeu 4/5 idiomas, teve 3 filhos que se saíram razoavelmente bem, uma esposa que se não fosse por você talvez fosse outra pessoa, uma primeira esposa que conheceu o amor com você mesmo que não tenha dado certo... 

Você fez muito sem um plano e fique em paz, porque você deixou uma herança intelectual latente na gente. Se não fosse você nenhum de nós teria essa vontade de conhecer o mundo e viver em outros países e, principalmente, de ter um lugar para voltar, de ter a quem chamar de "casa". Sem suas histórias eu certamente não saberia o significado de ter raízes e não valorizaria as minhas. Eu e meu irmão não teríamos essa paixão pelo entendimento da sociedade e das pessoas e essa vontade de saber cada vez mais sobre tudo! 

Você me disse para planejar porque tem medo que eu tenha os mesmos arrependimentos que você, mas por causa de seus ensinamentos eu terei a chance de cometer meus próprios erros. Eu aprendi muito com você, aprendi tudo que sei com você ou por sua causa, e agora aprendi algo mais. Aprendi que planejar é importante, mas às vezes o mais importante é se jogar, sair da zona de conforto. Eu tenho medo de perder a estabilidade, de falhar, mas tenho mais medo ainda de nunca ter uma história para contar para os meus filhos como você tinha para nos contar.

Eu vou tentar não cometer os mesmos erros que você, vou tentar manter raízes e pensar no futuro e possíveis consequências das minhas ações, mas alguns erros que você cometeu devem ser cometidos porque a vida sem erros é chata, ou porque talvez simplesmente não sejam erros. É o que eu quero, eu tenho certeza disso.