30 de março de 2016

Eu acho que começou assim

Ela nunca saía do escritório de óculos, nunca mesmo, mas naquele fim de tarde a correria havia sido tanta que ela se quer se lembrou que estava usando os óculos, ela só queria fazer logo o protocolo e finalizar de uma vez aquele serviço que vinha a atormentando há mais de uma semana. E foi só depois quando ela já estava com a cópia protocolada nas mãos e voltava ao escritório caminhando com tranquilidade pela Av. Paulista, que ela lembrou que estava de óculos. 

Coincidência ou não, foi no mesmo momento em que escutou seu nome ser pronunciado por uma voz estranhamente familiar e sentiu um arrepio correr por toda sua espinha. Com o sangue gelado viu memórias da sua infância invadirem seu pensamento e ela se tornou absolutamente consciente de que não apenas estava de óculos, mas também que seu cabelo estava preso em um coque improvisado pela correria e que seu vestido tinha uma mancha de maionese que ela não havia tido tempo para limpar no almoço.

Dizem que o universo conspira, mas encontrar seu melhor amigo de infância  que segundo o Facebook havia virado um homem bem sucedido, bonito e divertido (não que ela o stalkeasse) depois de 10 anos sem contato quando ela estava naquelas condições não era o universo conspirando, era Deus rindo da sua cara. Ela pensou em fingir que não escutou, mas se deu conta que estava parada no meio da rua e não tinha certeza de a quanto tempo estava assim, então não teve outra alternativa do que se virar com um sorriso no rosto que não parecesse muito amarelo e rezar para não ter nada verde no dente.
   

28 de março de 2016

Freud explica

Não é algo que me veio com facilidade. Eu acho que já sabia em algum lugar de mim mesma, mas somente agora que caiu a ficha, ou pelo menos é isso que me parece.

Eu vivo me apaixonando platonicamente, mas nunca faço nada para ser correspondida e quando sinto que estou sendo minimamente correspondida saio correndo a uma velocidade assustadora. Já passei a odiar alguém que dias antes estava "apaixonada", mas hoje sei que sou assim e me forço a não sair correndo, só não consigo evitar ficar na defensiva, muito na defensiva.  E eu nunca tinha realmente entendido porque sou assim, qual a insegurança que me leva a ter essa atitude, que trauma a motiva, mas ontem, antes de dormir, que é quando todas as grandes ideias aparecem, eu acho que descobri.

Ontem descobri que uma pessoa de quem eu estou começando a gostar não é o santo feminista e razoável que eu achava que era, mas sim alguém que é perigosamente egocêntrico e um tanto feministo (o machista que não reconhece seu machismo). Eu, que já havia elevado a pessoa ao plano do platônico, me senti traída e me achei uma idiota. Eu já devia saber que um homem feminista é tão lenda urbana quanto a meritocracia e eu não vou achar alguém compatível comigo jamais. Imaginei as brigas que eu teria com ele, fantasiei uma vida de decepções com alguém que eu encontrei uma vez na vida e ignorei todas as pessoas que não pensam igual a mim (a maioria das pessoas no mundo) e com quem me dou bem. Ele fingiu ser o que eu queria, para agora eu descobrir que ele não é, é além de tudo um mentiroso. E sim, eu vejo o nível da minha loucura.

Então me deitei na cama com todos esses sentimentos e conflitos internos, estava triste, porque ele me cativou, porque eu sou carente e me deixei levar e agora não era mais o que eu esperava. E foi quando eu percebi o que me barra tanto. Eu espero encontrar alguém com quem eu seja absolutamente compatível, alguém que seja quase uma extensão de mim de tão sincronizados que nós seremos e a vida não é assim.

Eu percebi que crescer vendo meus pais brigarem na minha frente diariamente, ver meu pai desrespeitando minha mãe diariamente, teve um preço, um preço maior do que eu imaginava. É claro que teve, eu achei que teria, eu só não vi que era esse. Eu não tinha me dado conta de que foi vendo as brigas deles que eu comecei a idealizar para mim uma relação diferente, eles não concordavam em nada, então eu e meu potencial parceiro concordaríamos em tudo, eles não respeitava ela, a achava, ou a tratava como se ela fosse, burra, então meu potencial parceiro deveria acima de tudo me respeitar pela minha inteligência. Até hoje o pior xingamento para mim é burra, o que talvez explique em algum nível porque eu gosto tanto de ser a sabe tudo, excelente em tudo. Meu pai diminuía a minha mãe e ela se deixava diminuir, porque mesmo não abaixando a cabeça para ele nunca (e por isso as brigas aconteciam) ela continuava com ele e eu percebi que eu fujo por isso.

Eu tenho medo disso, de me ver em uma relação onde eu ame a pessoa tanto que deixe ela me diminuir, que aceite a falta de respeito dela. É por isso que eu corro tão rápido quando sei que sou correspondida. Eu vivo de amores platônicos porque quando eles acontecem na minha cabeça, onde eu os controlo, eu sou livre, o amor é o ideal, sem brigas, discordâncias, com muito respeito, na minha cabeça minha relação não me poda nem um pouquinho, pelo contrário, as asas da minha independência estão presentes e eu sou incentivada a levantar voo pelo meu parceiro ideal. E eu, que conto com traços de personalidade masculinos onde a força e a independência são tão fortes tenho uma baita dificuldade para me deixar podar. Porque numa relação de verdade tem poda não tem? Qualquer relação tem, porque você pensar no outro já é uma forma de se podar, você vai deixar de fazer alguma coisa porque o outro não está a fim, o que muda é o que você está disposto a deixar de fazer por causa da outra pessoa.

Eu não sei se minha mãe deixou de fazer alguma coisa por causa do meu pai, eu não sei se eu seria capaz de "deixar" acontecer comigo o que aconteceu com ela, nem se passaria por alguma situação minimamente igual. Mas acho que é disso que eu tenho medo.   

Meritocracia

Hoje em dia falamos (eu e acho que a esquerda de forma geral) que tal pessoa acredita na meritocracia como se fosse o mesmo que dizer que ela acredita no coelhinho da páscoa. É um mito. Algo que foi repetido tantas vezes que durante muito tempo pareceu real, mas que hoje começa a ser desconstruído. Mas pera, será que essa desconstrução vem de hoje mesmo?

Ontem minha prima me contou de um amigo em comum que ainda precisa fazer muita desconstrução, mas que não reconhece isso e como exemplo ela mencionou que ele acredita na meritocracia, pois ele é "um exemplo" dela. Ele vem de uma família pobre do interior próximo de São Paulo e se toma como exemplo na hora de falar que "quem quer consegue", que "tem muita gente que não se esforça, por isso não dá certo", e outras cositas más. Eu entendo o pensamento dele, é o pensamento de muita gente, era o meu e eu ainda tenho resquícios dele. Mas isso não quer dizer que está correto (nem errado).

Minha mãe é a terceira filha dos 12 que meus avós tiveram, cresceu em uma cidadezinha do interior do estado de São Paulo que a gente brinca que nem tem placa na estrada, de tão pequena que é, e foi uma das sete que cursou faculdade. Minha mãe veio para a capital trabalhar, morou com amigos, dividiu uma quitinete com mais 2 irmãos e uma amiga, trabalhava de manhã e de tarde, fazia faculdade de noite, chegava em casa e ainda arrumava a bagunça dos colegas de quarto. Minha mãe morou no centro da cidade, em Santo Amaro, em Interlagos e por último (antes de casar) no Cambuci, que foi quando meus avós vieram com os sete filhos mais novos para São Paulo (porque minha mãe foi até a Secretaria da Fazenda Estadual pedir ao secretário para transferir meu avô para SP). Em Fernando Prestes a família morava em uma casa de 3 quartos, em São Paulo, com alguns a menos, devido a ordem natural das coisas (casamento, independência financeira em virtude da idade e etc...) eles moraram em uma casa de dois quartos, a maior parte dos filhos trabalhando e ajudando em casa, além de estudando. Os filhos foram crescendo, alguns casaram, alguns fizeram faculdade, um deles morreu, alguns não tiveram filhos, outros tiveram solteiros, alguns se separaram, meu avô morreu e a vida foi seguindo.

Hoje minha mãe é formada em 3 faculdades, se aposentou em 2 cargos que ela levou com muito custo durante 30 anos, 30 dos quais enquanto criava três filhos (porque ela criou o meu meio irmão também). Minha mãe vive falando que trabalhava das sete da manhã as onze da noite e, por mais que eu e meu irmão façamos graça, nós sabemos que é verdade. Ela dava aula em três escolas, de manhã, de tarde e de noite, comia marmita no transporte público, ou na carona com as colegas, me deixava com a minha avó, com a empregada, com meu irmão... eu lembro de não a ter tão presente na minha primeira infância e não tinha meu pai também porque ele morava em outra cidade tentando alcançar a meritocracia à sua forma. Todo final de semana nós viajávamos 4 horas de ida e 4 de volta, sem trânsito, para visitá-lo.

2016. Minha mãe é viúva, aposentada, tem um filho médico, uma quase advogada. O filho está casandinho, eu e minha mãe moramos em casa própria em um bairro central, a maior parte da família (vó, tios, primos...) está bem, somos todos classe média, nem alta nem baixa, classe média média mesmo. Sofremos com as recessões da economia, com a atual crise política, minha mãe xinga Dilma quando ela passa na TV, eu fui na passeata pró governo, mas sobrevivemos. Classe média. Você vê? Você consegue entender porque a meritocracia é um mito para mim?

Eu não estou dizendo que minha vida foi ruim, que nossa olha como a vida da minha mãe foi difícil. Se foi ou não quem sabe é ela, porque só quem carrega o peso sabe como é para ele, mas não dá para negar que ela batalhou. E eu sempre tive muito orgulho da minha mãe por isso, porque ela é batalhadora, ela ainda é, com seus 65 anos. Mas nós somos classe média. Ela era classe média lá trás, quando ela era criança e quem sustentava a casa era só meu avô com o salário da coletoria dele e ela é classe média agora com a aposentadoria dela de professora e eu e meu irmão vamos ser classe média com nossos salários de médico e advogada. Se a meritocracia fosse real não seria assim, se a meritocracia fosse real toda a batalha da minha mãe para crescer na vida teria resultados muito maiores dos que teve.

De novo, eu não estou reclamando da minha vida, eu tive e tenho uma vida boa graças a essa batalha toda dos meus pais e sei que muita gente aí não teve ou tem metade do que eu, mas se a meritocracia fosse real todos nós que crescemos vendo nossos pais chegarem tarde da noite em casa, depois do trabalho cansados, ou nem vimos, pois já estávamos na cama e quando acordávamos não víamos também porque eles já tinham saído para trabalhar, estaríamos ricos. Nós não seríamos classe média ou classe baixa, nós seríamos classe alta que nem as cinco maiores família do país, os 50% mais pobres do mundo não concentrariam apenas 1% da renda do planeta e talvez o capitalismo já tivesse sido substituído por outro sistema mais igualitário.

Entendeu porque eu acho que a meritocracia é um mito? Se não escute Faroeste Caboclo, Renato Russo era muito melhor do que eu com as palavras e explica nessa música um pouco do que eu quis dizer com esse texto.

17 de março de 2016

A história é agora

Com os recentes acontecimentos no país eu tive, pela segunda vez na minha vida, a sensação de que eu estava presenciando algo que entraria para a história.

A primeira vez que tive essa sensação foi quando participei das manifestações em junho de 2013, era tanta gente na rua que eu tive certeza que estava participando de algo histórico. Na época não elaborei muito o que senti, não digo emocionalmente, mas racionalmente, eu só fui nas manifestações, me senti bem por isso e gritei contra a corrupção. Hoje reconheço que apesar de ter me sentido bem e politicamente ativa não foi algo muito politizado da minha parte, eu não sei quase nada de política agora, que dirá a dois anos e meio atrás?

Hoje, com os atuais acontecimentos políticos percebo que não adianta gritar contra a corrupção e pedir impeachment se o vice e toda a linha sucessória é tão corrupta, ou mais, do que a presidente. Não adianta sair às ruas bradando o hino com orgulho se você se quer sabe as regras do jogo. É preciso pensar no que se quer antes de sair às ruas achando que se é politizado. Talvez os mais politizados não saiam as ruas, pois sabem que as coisas são muito mais complicadas do que parecem, porque pensam no assunto e tomam cuidado antes de gritar o que querem, porque sabem que as consequências daquele desejo podem não ser bem as que nós queremos.

Eu sempre achei que meu maior ato de rebeldia era não pensar como as pessoas à minha volta, como a maioria, e achava que isso bastava. Hoje eu me vejo nessa posição, hoje eu sei que estou contra a corrente, com um grupo muito menor de pessoas que não querem o "golpe" (impeachment da presidente Dilma, já que não há base legal para tanto), eu quero a democracia, respeito à constituição, reforma política. Quero representantes no governo, pois esse governo não me representa. Tenho orgulho de não sair às ruas pedindo o impeachment, ou a renúncia, porque acho que as pessoas que fazem isso simplesmente não estudaram o tanto que deviam.

Por outro lado, eles estão nas ruas gritando o que querem, por mais que eu discorde deles sei que a voz deles será ouvida, a minha não, pois meu ato de rebeldia fica só na minha cabeça. Isso também não me parece muito inteligente, porque é no silêncio dos oprimidos que a opressão se propaga.

No atual momento do país, em que multidões bradam nas ruas pela saída da presidente, com ameaças de greve geral (vãs ou não), pessoas buzinando no trânsito e batendo panelas em casa contra os pronunciamentos oficiais e, principalmente, considerando que a presidente está ingovernável, pois não consegue ver aprovada nenhuma de suas medidas aprovadas pelo congresso, entendo que seria melhor ela renunciar.

Dilma, miga, o que eles estão fazendo não é certo, não é digno ou legítimo, mas eu não acho que seja uma situação que você possa sustentar por muito mais tempo. Não é saudável para o país em termos econômicos e internacionais, não é saudável para você como pessoa com sentimentos e não é vergonha nenhuma renunciar, você já aguentou muito mais do que deveria e é necessário reconhecer quando você já não representa a maioria, ou quando você já não tem mais por onde fazer para representar (uma vez que você não consegue governar).

8 de março de 2016

8 de março


Hoje é dia internacional da mulher. 

Teoricamente hoje é um dia para celebrarmos as nossas conquistas e vitórias, mas quais mesmo? Celebrarmos as conquistas de direitos que no papel nos garantem igualdade de sexos, mas na prática não são seguidos? 


Talvez eu deva celebrar o fato de que agora não sou mais considerada incapaz caso não seja casada, ou que se eu for estuprada meu estuprador não se livra da pena se casando comigo, talvez a vitória seja mesmo poder votar! Mas sabe, quando eu tirava uma boa nota na escola minha mãe não celebrava muito, ela me dizia que eu não fiz mais do que a minha obrigação e sabe? Sabe os direitos conquistados até agora? Por mais que a gente tenha lutado muito para conseguir conquistar todos eles, quem nos deu esses direitos não fez mais do que a sua obrigação. Porque a “concessão” desses direitos às mulheres foi só o nosso reconhecimento como cidadãs e simplesmente nos permitiu ocupar um espaço que já era nosso por direito e que até então nos estava sendo negado.


Na verdade ainda é negado, né? Nossa igualdade ainda é um pouco fictícia e a cada dia é posta à prova. Isso não parece algo muito digno de celebração para mim. Recebo flores e parabéns, mas por quê? Por ser mulher? Por não ser considerada assim caso não use maquiagem ou me depile? Por receber menos que os homens? Ser assediada na rua independente da minha roupa? Não poder andar sozinha, ir à uma festa e muito menos viajar? Ter medo do trauma do estupro e da dor que nos é infringida no pós estupro? Por sofrer violência doméstica? Por morrer pelo simples fato de ser mulher? Não me parecem motivos muito bons para celebrar. 


Quer me dar flores? Tudo bem, só não esqueça de repensar suas atitudes no resto do ano. Não adianta celebrar o gênero feminino hoje e no resto do ano nos tratar como cidadãs de segunda classe.

Falar ao mundo

Vem crescendo em mim a vontade de militar, de expor para os outros os meus pensamentos e ideias, mas eu ainda tenho um pouco de vergonha, ainda não tenho certeza do que falar. Não é fácil sair por aí e dar a cara a tapa, vai ter vezes em que vou estar errada e precisarei admitir isso, e nós sabemos o tamanho do meu orgulho. Pior do que o orgulho, por falar a um público precisarei ter cuidado ao me expor, para não ser mal interpretada, para não propagar pensamentos errôneos, afinal, eu serei uma formadora de opinião.

Mas por outro lado essa minha vontade vem crescendo porque eu acho que não seria tão ruim nisso, porque acho que tem tanta gente falando coisas das quais discordo que se eu não me manifestar estarei sendo conivente com eles e porque em um mundo onde todo mundo acha que tem direito a dar sua opinião e em que as pessoas quase sempre acreditam piamente estar certas há um clima de incentivo geral a falar o que se pensa e eu provavelmente o farei com mais cuidado e humildade do que algumas pessoas por aí.

Eu estou sentindo crescer em mim novamente aquela vontade que eu tinha quando mais nova, a vontade fazer a diferença, de ajudar o próximo, de mudar o mundo, ou pelo menos de tentar fazer isso. É uma vontade boa, uma vontade que faz com que eu me sinta uma pessoa quase que nova, quase porque eu trago comigo a experiência e os conhecimentos adquiridos com o tempo.

Eu ainda não tenho certeza do que fazer, como vou virar uma “formadora de opinião”, mas perder o medo de ser uma já é um passo importante, reconhecer os riscos também, logo logo eu descubro o método.

4 de março de 2016

Tem alguém novo chegando aí


Você está sentindo? Eu estou, sinto que tem alguém novo chegando aí. Ela está vindo a passos lentos, como quem passeia sem preocupação, mas vem na minha direção e logo logo ela vai chegar.

Será que ela é a menina que se permite amar em voz alta? A mulher que aceita ser amada? Talvez ela seja alguém que escreva mais para o mundo e menos para si mesma, ou, quem sabe, ela seja aquela pessoa que tem mais atitudes do que palavras.

Ela não me parece muito centrada, acho que ela ainda está muito confusa sobre a vida, tentando digerir o passado, viver o presente e assim tomara que ela consiga se definir sobre o futuro.

Ela me parece mais ser uma pessoa leve, que se deixa levar, dando continuação ao que as outras construíram até aqui... Ela parece feliz. Está sorrindo e observando a paisagem, parece despreocupada e colorida. Eu gosto de cores.

Tem uma menina chegando aí e eu estou me aprontando para recebê-la. 

3 de março de 2016

Espelho

Eu olho para frente, vejo meu reflexo no espelho. Acho que meu reflexo envelheceu, parece mais velho do que sou e muito mais velho do que me sinto. A vida está só começando para mim, mas as cobranças são grandes, principalmente as que vem de mim mesma. Eu olho ao redor e, mesmo sendo um pouquinho mais velha que algumas, vejo apenas pessoas que como eu estão perdidas, ou no mínimo insatiafeitas com o que a vida tem a oferecer. É uma geração que anda questionando várias coisas e o modo de vida atual é uma delas. Bate um calor no peito quando lembro disso, quando vejo que não estou só, mas ele vai embora rápido porque meu modo de lidar com a confusão é um pouco mais implosivo que o dos outros.

Eu pedi demissão de um emprego que amava porque não tinha chance de efetivação, pedi demissão do seguinte após dois meses porque não estava aprendendo nada e minha visão estava embaçada pelo luto de sair do emprego anterior, e agora pedi demissão desse último emprego porque apesar da minha chefinha ser um amor, a chefona não era e eu não só não estava contente com o que vinha fazendo como estava desconfortável com o clima geral do lugar, depois vieram outros fatores práticos como conciliar a faculdade, o tcc, a oab, o cursinho e o estágio. Parte de mim confessa que talvez eu também me sentisse um pouco pressionada por trabalhar com a esposa do meu antigo chefe, era outra pressão auto imposta e ocupa uma parte muito pequena das minhas razões, mas eu acho que ela estava lá.

E agora eu encaro meu reflexo sem ter ideia alguma de quem sou. Eu não sei que está refletido no espelho porque desde que comecei a trabalhar o trabalho sempre ocupou grande parte de mim, sempre fui dedicada, sempre gostei de falar do assunto, sempre gostei de me dar bem com as pessoas e se eu me destacasse nas minhas funções gostava ainda mais. A sensação de sucesso me inebriava e agora... Na vida nós precisamos de definições para nós mesmos e essas definições partem, principalmente, dos grupos dos quais participamos e agora eu não tenho mais um desses grupos que me definia.

Eu me olho no espelho e me sinto vazia, é uma sensação estranha, um misto de leveza com tristeza. Não sei se eu que venho me pressionando sobre estar "sem fazer nada", ou se não trabalhar não me faz bem, é só que é estranho não ter "nada" com que se preocupar. Eu sinto como se estivesse me faltando alguma coisa, mas eu não sinto falta das partes ruins de trabalhar, eu mal me lembro delas, eu sinto falta das relações interpessoais do trabalho, acho que mais do que qualquer coisa eu sinto falta delas. Talvez eu seja um ser muito mais social do que eu pensava.

Eu me olho no espelho, observo meu reflexo com cuidado, parece que falta alguma coisa nele, falta alguma coisa em mim, mas acho que devo ficar um pouco mais sem essa coisa, porque ao mesmo tempo que eu acho que gostava dessa coisa, acho que ficar sem ela me dá um pouco mais de serenidade e é disso que eu preciso agora.