9 de julho de 2016

Uma carta ao meu pai

É engraçado que meu pai falava para que eu e meu irmão fizéssemos planos, me lembro dele nos dizendo uma vez para escrever em um livro o que queríamos da vida, como um plano de vida. E eu, que adoro fazer planos, fiz isso, faço isso. Escrevo aqui no blog, faço lista de metas, planejo mentalmente e várias outras coisas. 

Acontece que, como disse meu irmão outro dia, a vida não é linear. Na maioria das vezes não é possível ou mesmo aconselhável seguir o plano de vida porque a vida tem curso próprio. Então passei a ter planos alternativos, porque eu sou muito precavida. 

Foi só recentemente vendo uns papéis do meu pai que entendi porque ele falou em planejamento. Na verdade entre olhar os papeis e entender levei alguns dias, mas acho que cheguei a algum lugar: meu pai não planejou nada. Meu pai perdeu as raízes dele, ou talvez nunca as tenha tido, isso é um tanto nebuloso para mim, e viveu várias vidas em uma só sem chegar a lugar algum no final. Quando ele me falou em planejar já estava velho, provavelmente já estava depressivo, já estava pensando que sua falta de planejamento deixou seus filhos sem herança nenhuma, sem nenhuma garantia de futuro. 

Eu te entendo pai. Deve ser frustrante olhar seus filhos e perceber que você não vai deixar nada para eles, mas esse não é seu caso. Olhando os papéis percebi que você viveu tantas vidas em uma só que, talvez não perceba, mas chegou a algum lugar sim! Você conheceu o mundo, experimentou a vida nas grandes metrópoles desenvolvidas e em desenvolvimento, viveu em povoados, conheceu os objetos de seus estudos em uma viagem arriscada pela América Central, aprendeu 4/5 idiomas, teve 3 filhos que se saíram razoavelmente bem, uma esposa que se não fosse por você talvez fosse outra pessoa, uma primeira esposa que conheceu o amor com você mesmo que não tenha dado certo... 

Você fez muito sem um plano e fique em paz, porque você deixou uma herança intelectual latente na gente. Se não fosse você nenhum de nós teria essa vontade de conhecer o mundo e viver em outros países e, principalmente, de ter um lugar para voltar, de ter a quem chamar de "casa". Sem suas histórias eu certamente não saberia o significado de ter raízes e não valorizaria as minhas. Eu e meu irmão não teríamos essa paixão pelo entendimento da sociedade e das pessoas e essa vontade de saber cada vez mais sobre tudo! 

Você me disse para planejar porque tem medo que eu tenha os mesmos arrependimentos que você, mas por causa de seus ensinamentos eu terei a chance de cometer meus próprios erros. Eu aprendi muito com você, aprendi tudo que sei com você ou por sua causa, e agora aprendi algo mais. Aprendi que planejar é importante, mas às vezes o mais importante é se jogar, sair da zona de conforto. Eu tenho medo de perder a estabilidade, de falhar, mas tenho mais medo ainda de nunca ter uma história para contar para os meus filhos como você tinha para nos contar.

Eu vou tentar não cometer os mesmos erros que você, vou tentar manter raízes e pensar no futuro e possíveis consequências das minhas ações, mas alguns erros que você cometeu devem ser cometidos porque a vida sem erros é chata, ou porque talvez simplesmente não sejam erros. É o que eu quero, eu tenho certeza disso.

2 de julho de 2016

Meu pai

Hoje arrumei alguns papéis do meu pai, papeis da empresa dele que estavam soltos em pastas de arquivo e que ninguém tocava por preguiça de entender. Eu ainda não terminei de arrumar e para falar a verdade eu não realmente entendi tudo. Consegui colocá-los em saquinhos com capas, separando em cada saquinho um assunto, que em geral era o nome que ele tinha dado a pasta. Eu organizei conforme meu senso de praticidade, me livrei de cópias desnecessárias e diminui o volume quase pela metade com isso. 

E é engraçado como alguns traços do meu pai estão tão presentes nesses papéis. Não falo apenas das anotações dele e da ordem desordenada em que ele arrumou tais papéis, mas de coisas como... Comp as cópias, por exemplo. Meu pai sempre tirava dez cópias autenticadas de cada santo documento porque dizia que no Brasil tem muita burocracia e para tudo eles pedem uma cópia autenticada, era uma forma dele se prevenir. Eu joguei a maioria fora, guardei a original e uma ou duas cópias, as outras oito vão para o lixo. Ele provavelmente está me chamando de, no mínimo, desprevenida. Se tivesse que chutar diria que está me chamando de burra.

E vendo a letra dele impressa nos bilhetes, cópias de cartas que ele escreveu e mesmo os gráficos dele me senti um pouquinho mais próxima... Era a cara do meu pai fazer gráficos. Ele até me ensinou gráficos quando me ensinou função na oitava série. Eu não tenho certeza do que meu pai pensaria de mim se ele estivesse vivo. Nós nos dávamos bem, mas acho que também éramos bem parecidos, o que fazia com que a gente também brigasse muito. Acho que ele não teria paciência para meu feminismo, que ele me chamaria de burra a cada conversa sobre política, "você não sabe de nada" ele diria. Acho que se meu pai tivesse vivo ele pensaria o mesmo que sempre pensou de mim: defensora dos fracos e o oprimidos. Esse rótulo que durante tanto tempo eu combati e detestei como se fosse um xingamento, mas que agora acho uma ótima definição de mim.

Acho que se meu pai tivesse vivo as coisas na minha vida não mudariam muito, para ser sincera. Mas eu teria meu pai, e acho que quase nenhum sentimento no mundo pode substituir essa sensação. Porque eu sinto saudades dele, de todas essas coisas e também de saber que independente disso ele teria orgulho de mim, eu sei que sim. Ele sempre teve orgulho de mim, mesmo quando ele me reprovava vementemente, mesmo quando ele perdia a confiança. É, eu sinto saudades do meu pai e mexer nesses papéis e me sentir mais próxima dele do que em anos fez eu me lembrar disso de uma forma boa e ao mesmo tempo doída, como toda saudade.