20 de setembro de 2016

Quase nada real


A única coisa que eles tinham em comum era o passado.

Ana tinha 27 anos, formada em direito, pós graduada e a caminho do mestrado. Ela de esquerda, fora temer, corintiana, devoradora de livros e caseira, feminista e inexplicavelmente adorava uma comédia romântica. viciada em séries, classe média baixa... Ana era advogada de um pequeno escritório e optou por ganhar menos ali do que trabalhar mais em um escritório famoso, batalhava para ter uma qualidade de vida boa e morava em um estúdio alugado em um prédio novo, no centro da cidade, porque não era o bairro mais seguro da cidade, mas era central, perto da faculdade, da Paulista, dos fóruns e, por que não?, da família.

Murilo tinha 28 anos, engenheiro, morava com os pais em uma casa nos Jardins, trabalhava em uma multinacional, gastava o salário em festas e viagens com os amigos. Participou das manifestações pelo impeachment da Dilma, são paulino, classe média alta... toda semana estava em Floripa, conhecia alguns famosos, outros nem tanto, ganhava VIP em baladas, contatos nesse mundo é tudo. Não tinha muito tempo para ler, mas estava ligado nas notícias da televisão e de alguns jornais, gostava mesmo de música. Já tinha até atacado de DJ em algumas festas, entre amigos, claro, na merecida diversão do final de semana, depois de todo trabalho duro na empresa. Era difícil manter o estilo de vida dele em São Paulo, mas ele estava fazendo dar certo, sempre acreditando que a vida é curta para perder tempo com questionamentos desnecessários, é melhor simplesmente curtir... era o que ele fazia.

Não que eles fossem necessariamente opostos, mas ainda que eles tivessem passado os primeiros quinze anos de vida juntos, os últimos dez anos os colocaram em lugares bem diferentes, círculos que simplesmente não se misturavam com facilidade, interesses diferentes. Mas será que o futuro poderia ser comum? Será que aquele amor da adolescência ainda existia em algum lugar? E se sim, será que seria forte o suficiente para unir pessoas de mundos tão diferentes?

Ana sentia que havia um abismo entre eles, que nenhum dos dois seria capaz de sobrepor, mas ainda assim, cada vez que o via sentia suas pernas amolecerem e quando se encontravam não parecia haver distância alguma. Murilo sabia exatamente no que estava se metendo, verdade seja dita, ela estava exatamente onde ele achou que ela estaria e mesmo que não entendesse muito bem a graça daquele lugar queria estar ali com ela, porque, por alguma razão, sempre foi Ana que lhe veio a cabeça quando alguém falava de amor.

19 de setembro de 2016

Perto da estrada

6 entre dez fotos em minha pasta de imagens aleatórias são de mulheres sozinhas, a maior parte delas de mulheres caminhando em uma estrada. Essa é uma imagem com a qual me identifico bastante e não tenho certeza do porque. Eu sempre me vi como essa garota independente e forte e acho que em certa medida essas imagens solitárias em minha pasta representam o meu modo de agir no mundo.

Eu tenho amigos, eu vivo muito próxima deles, da minha família, eu quero um amor na minha vida para ter alguém com quem compartilhar ela. Mas eu sempre lidei com as minhas dores, medos e desafios sozinha. Eu não compartilho eles, eu faço terapia e compartilho com a minha terapeuta, mas muito pouco com meus amigos e familiares. Ultimamente tenho me aberto mais, exposto mais minhas fragilidades, tenho tomado consciência de que ser frágil não é demérito algum, pode inclusive ser bem utilizado. Mas eu acho que de certa forma ainda vejo a vida como um desafio que eu devo enfrentar sozinha.

É isso a imagem da mulher caminhando sozinha na estrada, ela deixa tudo para trás, sempre está de mãos vazias, ou quase, sempre sozinha, de costas para câmera, de frente para o mundo. Ela é em alguma medida quem eu sou e, ao mesmo tempo a mulher que eu quero ser. Ela é a mulher que enfrenta sozinha o mundo, e ao mesmo tempo a desapegada que tem a coragem de sair pelo mundo e viver o que ela nem sabe o que.

Eu tenho medo de que um passo errado arruíne meu futuro de forma irreversível, mesmo tendo consciência de que isso seria quase impossível, de que eu decida fazer o que eu quero ou gosto e depois me arrependa e não consiga nunca mais colocar minha vida nos eixos. E ao mesmo tempo, tenho medo de viver essa vida "perfeita", dentro dos padrões e nunca realmente ser feliz com ela, de chegar lá na frente e não ter histórias para contar aos meus netos. E eu não consigo decidir o que é mais importante para mim, se é viver uma vida plena e com muitas histórias para contar, ou uma vida segura e garantir certas comodidades para mim e meus possíveis filhos.

Então eu olho a menina na beira da estrada, tão próxima de mim e ao mesmo tempo tão distante, e sonho com as possibilidades e riscos de pegar essa estrada. 

2 de setembro de 2016

Tá na hora de falar de política


E quase nunca falo aqui de política, geralmente estou um pouco autoabsorvida demais em meus dramas pessoais e acabo por não lembrar de comentar aqui como está a política. Bom, ultimamente tem acontecido muitas coisas, e eu tenho estado um pouco estressada com isso, então talvez seja hora de colocar aqui essas impressões que tenho tido.

Desde que acabou a ditadura militar o Brasil teve três presidentes, todos eleitos para 4 anos e reeleitos para mais 4: Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Roussef. Inegável que todos fizeram coisas boas e ruins, que o FHC fez bem para economia, que o Lula tirou o país do mapa da miséria, que a Dilma expandiu o Bolsa Família, o Prouni e eu não vou entrar nessa questão aqui. Não quero discutir os méritos e deméritos de cada um deles porque para mim não importa muito nesse momento.
Foi no primeiro governo da Dilma que tivemos as manifestações de junho de 2013, onde saímos às ruas primeiramente porque a passagem de ônibus em diversas cidades do país tinha aumentado e depois, diante da repressão absurda que as manifestações sofreram, elas cresceram muito e milhares saíram às ruas no país inteiro gritando por tudo quanto é coisa que andava engasgada na garganta deles. Eu estava lá. Eu me orgulho um pouco disso, porque é um orgulho exercer a democracia, mas me envergonho também, porque aqueles movimentos não tinham um objetivo muito fixo e hoje sinto que se você vai se manifestar por algo precisa deixar claro pelo que.
Claro que essas manifestações foram influenciadas pela primavera árabe da época, mas, de qualquer modo, desde aquele mês de junho a insatisfação social começou a tomar as ruas no Brasil, a população passou a reclamar mais em voz alta e as pessoas começaram a tomar posições sobre o governo. É preciso entender também atualmente passamos por um momento social de radicalismo à direita, isso é quase mundial, a sociedade vive em um movimento pendular e agora estamos em uma das pontas do pêndulo, que ao meu ver é a direita. Nos EUA o Trump é forte candidato a presidência, ele que é racista, xenofobista e machista declarado. Na Europa tem o xenofobismo se espalhando loucamente, por causa da grande quantidade de refugiados políticos de países como a Síria (que está em guerra civil) ou mesmo da África, tentando fugir da miséria do continente.
No Brasil a coisa não está muito diferente. A votação para o segundo mandato da presidente Dilma (PT) foi bastante acirrada contra o Aécio, que é do PSDB, mas ela ganhou. A classe alta e classe média alta, bem como uma grande parte despolitizada da população (que muitas vezes acha que é classe média alta, mas não é) começou a pedir o impeachment da presidenta. Eduardo Cunha, que era presidente da câmara dos deputados antes de ser afastado por causa das acusações de corrupção, resolveu aceitar um desses pedidos e agora, depois de todo o trâmite no congresso, ela oficialmente perdeu o posto e quem assumiu foi o vice: Michel Temer.
Tem muita gente dizendo que o que aconteceu aqui foi golpe. Eu concordo com essas pessoas. O impeachment está previsto em lei, na Constituição, mas por crime de responsabilidade e a Dilma não cometeu crime de responsabilidade. Ela estava ingovernável, porque desde que assumiu o segundo mandado perdeu apoio da maior parte dos deputados e senadores do congresso, então certamente não conseguiria governar, Michel Temer e Eduardo Cunha que antes eram da base aliada romperam com o governo e se articularam política e socialmente para que ela sofresse o impedimento e ele assumisse. Existem áudios de whatsapp e outras provas que mostram que o PMDB (partido de Cunha e Temer) deu dinheiro ao MBL, um grupo que organizou manifestações gigantes no país inteiro pedindo a saída de Dilma. A mídia (jornais como Estadão e Folha, emissoras como Globo e Record e revistas como Istoé e Veja) incentivou publicando matérias bastante tendenciosas, noticiando diuturnamente estas manifestações a favor da saída da presidenta e mencionando au passant as contra a saída dela. E os rumores que correm são de que o judiciário e o legislativo se uniram para tirar a Dilma porque assim as investigações de corrupção no executivo e legislativo iriam ser contidas, algo como, vamos dar a eles (população) um bode espiatório (a presidente e o partido dela) e assim nos salvar. Enfim, foram muitos poderes articulados pedindo e conquistando a saída de uma presidente democraticamente eleita, e essa saída se deu de uma forma ilegal, contra a qual ela lutou muito e ainda luta. E agora, de forma bem resumida vocês entendem porque o nosso atual presidente é o Temer.
Eu lembro quando a Dilma ganhou a reeleição, meu chefe comentou comigo que achava que ela não terminaria o mandato, e eu, igualmente fatalista, falei que também achava que não. Ele disse que era provável que dessem um jeito para que o Temer assumisse, porque ele era a cara da classe média que não queria a Dilma e eu concordei, porque lembrei que ele também não era do partido opositor, o que faria com que os que não gostam do PSDB concordassem. E nós ainda fizemos uma aposta, falamos que ela não chegaria a completar se quer o segundo ano de mandato. Dito e feito.
Outra coisa que eu acho interessante lembrar é que ela foi nossa primeira presidente mulher, ela não fez muitas coisas pelas mulheres, mas não sei se posso segurar isso contra ela, porque não dependia só dela, dependia também do congresso e nosso congresso, formado majoritariamente por homens, não passaria muitas propostas feministas nem que ela quisesse. Por essa mesma razão eu acho que o golpe, além de tudo, foi machista, pelo modo que ela era retratada pela mídia, pelo que as pessoas a chamavam nas ruas, e porque se ser mulher e chefe no mundo já é difícil, imagina ser presidente de um país machista, racista, homofóbico e etc...
E por mais que eu não ache que ela fosse fazer um governo brilhante, eu estou temerosa quanto ao que vem aí, porque para mim a Dilma significava 4 anos de estagnação e talvez até retrocesso econômico, mas o Temer representa 2 anos de retrocesso em direitos sociais, no mínimo estagnação econômica. Por isso eu preferia a Dilma. Ele mal assumiu e acabou com o ministério dos direitos humanos, transformando-o em secretaria sob o comando do ministério da justiça, cujo ministro é o antigo secretário de segurança pública de SP, um cara absolutamente reacionário que mandava a PM descer o cacete nas manifestações. Além disso, o Temer nomeou só ministros homens, brancos, cuja idade média deve ser entre 50 e 60 anos e todos de classe média alta.
Minha linha do tempo no Facebook é uma bolha de ideologia de esquerda, então evito dar muita credibilidade a ela, mas tem muita gente ali comparando 2016 e 1964 e eu tenho muito medo de eles estarem certo. Tenho mais medo ainda porque, como mencionei ali em cima, todos os países estão ruins, de forma geral, a população mundial anda reacionária. Eu tento racionalizar, dizer que esse povo do facebook exagera muito, que mesmo na ditadura militar as pessoas sobreviveram, porque é só você ficar na sua... mas é difícil. Eu sei que se eu ficar na minha vou me envergonhar depois, se eu abaixar a cabeça vou sentir vergonha de mim mesma, porque a omissão é uma forma de aceitação e, por conseguinte, eu estaria ajudando a oprimir os mais corajosos que eu: aqueles que não concordam e fazem alguma coisa. Por outro lado, eu sou burguesa, não nasci com essa fibra de resistência, de levar porrada e continuar de pé, se eu me manifestar e levar cacetete vou me arrepender também, vou me doer. Fico sem saber qual é o pior. E sair do país... não sei se essa é uma possibilidade, não sei se faria diferença, ou se seria certo.
Não sei o que fazer.