30 de dezembro de 2016

O que 2016 te fez?

Quando 2016 começou eu não sabia o que esperar. Eu estava tão perdida em mim mesma, tão confusa sobre meu futuro e meus sentimentos que eu simplesmente me propus alguns objetivos mais atingíveis: andar de skate, viajar, passar na OAB e etc. E mesmo assim esse ano me surpreendeu, tanto positivamente quanto negativamente. Umas duas semanas atrás, no meu baile de formatura, eu comentei sobre isso com as meninas, sobre como, apesar de tudo, 2016 não foi ruim para mim, para minha vida pessoal.

Não me entenda mal, várias coisas ruins e/ou decepcionantes aconteceram esse ano: muitas celebridades admiráveis morreram ou se separaram, teve o impeachment da Dilma, Temer presidente, Trump ganhando eleições nos EUA, Grã Bretanha saindo da União Europeia (o que enfraquece o grupo e aumenta a crise dos refugiados), ataques terroristas na Alemanha, economia do país bem ruim, e outras coisas mais que eu nem sei, porque foram tantos acontecimentos que eu perdi a conta.

Mas em termos de vida pessoal 2016 foi bom. Em fevereiro eu saí de um trabalho que não estava gostando, onde não me sentia bem e fiquei sem trabalhar para estudar para a OAB. Com isso eu acabei finalmente encerrando meu período de luto pela 7, sair do escritório permitiu que a ferida se fechasse, que ela finalmente cicatrizasse. Eu ainda sinto muita saudade, mas a saudade é um imposto que a gente paga pelos momentos felizes, então tudo bem. No fim, eu não passei de primeira na OAB e isso foi um tanto frustrante, mas passei na segunda vez e eu aprendi bastante nos cursinhos para a prova, coisas que serão úteis para a vida, então tudo bem. A prova também me trouxe esse novo "mantra": "tá/vai ficar tudo bem", é uma forma de combater minha ansiedade e tem ajudado... isso e terapia.

Porque eu continuei fazendo terapia e esse ano foi tão bom nesse sentido! Eu cresci muito pessoalmente, eu entendi de onde vem meu medo de arriscar, entendi que tudo bem seguir meu caminho, mesmo não sendo o da minha mãe, que vai ficar tudo bem. Percebi que parte da minha insegurança vem de nunca ter tido alguém que acreditasse cegamente em mim, apoiasse de verdade, mas que agora eu tenho isso nas meninas. Acho importante ter alguém que confie na gente quando a gente não confia. Também passei a me sentir mais confiante, na medida em que passei a não me importar tanto com a opinião dos outros, isso me ajudou a parar de pegar responsabilidades que não são minhas e respirar mais leve. E, sim, acho que além da terapia, a cirurgia de diminuição dos seios ajudou muito na minha autoconfiança, me sinto muito mais confortável com meu corpo, claro que os quilos que perdi ano passado são grande parte disso, mas de forma geral me sentir mais feminina vem da cirurgia.

Além disso, apesar da minha colação ser apenas em janeiro do ano que vem, 2016 foi o ano em que me formei na faculdade! Fim dos cinco anos estudando direito, de uma jornada longa e de um crescimento enorme. Me formo sem nenhuma dependência, média geral 8,0 e uma nota excelente no TCC, com direito a indicação para prêmio, publicação e até a perspectiva de ser publicado em um livro ano que vem. Fazer esse TCC foi incrível, não apenas pelo que aprendi, mas pela confiança que me foi depositada pela minha orientadora, os elogios dela foram a melhor parte do ano, melhor que passar na OAB. Passar na prova foi um alívio, o TCC foi um prazer. Agradar outra pessoa com o meu trabalho... isso não tem preço.
 
Então acho que mesmo que nesse final de ano eu continue desempregada, um pouco contra a minha vontade (um pouco não), que tenha sido difícil ficar sem salário e dependendo da minha mãe, que eu não tenha ido para o Chile como eu queria muito e esteja gastando minha poupança de uma maneira que eu não queria, esse ano foi bom. Eu não estou mais tão perdida, eu tenho uma direção, que pode mudar a qualquer momento, é verdade, mas é uma direção. Em 2016 eu me desafoguei do desespero em que eu estava em 2015 e isso foi a melhor parte. Nesse fim de ano me sinto mais leve, saudável e disposta a enfrentar o ano que vem aí.

28 de dezembro de 2016

Cenas de um romance



- Não! Esse é meu lugar feliz! – Rodrigo e Paulo riram – isso não é engraçado. Ele vai estragar meu lugar feliz, e eu gosto daqui.
  Os sócios eram pacientes com ela, afinal, ela estava com eles desde o primeiro momento, sete anos trabalhando juntos. Eram amigos, quase família.
- Eu não vou negar que o Gabriel é um pouco difícil de trabalhar – Alice soltou uma risada debochada – Mas ele vai trazer muitos clientes com ele e nós precisamos construir uma área cível decente, só você não está dando conta – disse Rodrigo.
- Eu entendo, vocês precisam de um advogado sênior, um coordenador, para a área cível. Mas o Gabriel? Não existe nenhum outro advogado que possa ocupar essa vaga? - Rodrigo e Paulo riram novamente.
- Alice, faz oito anos desde que vocês trabalharam juntos, tenho certeza de que ele melhorou e se não melhorou pelo menos você já sabe lidar com ele – disse Paulo piscando para ela
- Além do mais, já está tudo certo, ele começa na segunda – Alice abriu a boca pronta para argumentar mais alguma coisa, mas Paulo continuou – e eu espero que você explique para ele como as coisas funcionam aqui e para a Karina como ele gosta das coisas feitas – Alice mordeu o lábio e assentiu
- Sim senhor – respondeu ela sentindo-se levemente enjoada com a perspectiva de encontrar o Gabriel novamente.

- - -
- Não importa a petição, sempre coloca o seu nome, se for de juntada de documento coloca o meu e o seu, se for peça o dos três – Karina assentiu enquanto anotava as diretrizes – As margens são sempre o padrão ABNT – Karina levantou o rosto com o olhar confuso, Alice revirou os olhos enquanto completava – não me pergunte o porquê, mas ele mede, não esquece isso. Ele detesta abreviações no endereçamento da petição, ou no encerramento e os pedidos são em tópicos, sempre em tópicos.
  Era sexta feira e Alice passava as diretrizes gerais para Karina, quanto menos ela lidasse com Gabriel, ou o irritasse, mais tempo ela ficaria no escritório.
- Mas a maioria dessas coisas eu já fazia, você gosta disso – Alice desviou o olhar da tela do computador para a estagiária. Ela tinha razão, claro que Karina tinha razão, Alice sabia disso. Ela havia sido moldada como advogada quando ainda era estagiária de Gabriel, mas isso não era algo que a agradava.
- De qualquer modo, antes de passar qualquer coisa para ele, manda para mim primeiro, eu quero revisar tudo antes de mandar para ele. Karina assentiu em silêncio, mas Alice sabia que ela estava segurando uma risada.

- - -
- Ele não pode ser tão ruim, você trabalhou dois anos para ele! – disse Pedro rindo
  Era segunda de manhã e Pedro e Alice chegavam ao prédio do escritório. Gabriel começaria naquela manhã e ela ainda não se sentia mentalmente preparada para isso.
- Pedro, ele uma vez jogou minha petição no lixo porque eu não coloquei o espaçamento certo entre as linhas – disse Alice enquanto eles passavam pela catraca e imediatamente depois arregalou os olhos – Droga! Eu esqueci de avisar a Karina do espaçamento! Tá vendo? Isso não é trabalho de advogado, é de design gráfico! Sem contar o humor dele, é ridícula a falta de humor dele! – Pedro soltou uma gargalhada e apertou o “dois” enquanto a porta do elevador cheio se fechava.
- Talvez o Gabriel simplesmente não entenda seu sarcasmo! Nem todo mundo tem essa inteligência superior – brincou Pedro. Alice revirou os olhos
- Talvez ele seja um babaca – retrucou
- Bom dia Alice – disse uma voz logo atrás dela.
  Pedro estava ao seu lado e imediatamente virou o rosto em direção ao dono da voz. Alice fechou os olhos e mordeu os lábios balançando a cabeça negativamente. É claro que ele tinha ouvido tudo. Por que melhorar se dá para piorar, não é mesmo?
- Bom dia Gabriel – respondeu ela após um segundo com um sorriso nos lábios e a voz levemente esganiçada – tudo bem?

14 de dezembro de 2016

Virando o jogo


- Xiii - disse Andréia olhando para o canto do bar - aquela não é a ex-mulher do Gabriel?

Na mesma hora os outros três rostos na mesa se viraram para observar. Duas mulheres e um homem.
- É... nem sei se quero ver! É muita humilhação para um cara só - desabafou Pedro desviando o olhar no momento em que Gabriel começava a conversar com a ex-mulher.
- Ai Pedro, tudo bem que quando eles se separaram ele pediu para voltar algumas vezes, mas já faz mais de ano que eles se separaram, ele já superou - relevou Bianca
- Espero que sim Bianca, porque ele pedir para voltar depois de pegar a mulher na cama com o sócio é bem humilhante... Você tá bem Alice? - Andréia deu alguns tapinhas nas costas da amiga que engasgou com a cerveja que bebia. Alice assentiu se recuperando.
- Ele assinou os papéis do divorcio outro dia, faz uns três meses, mais ou menos, e ele ficou bem mal - revelou Pedro.

Alice respirou fundo e se levantou. Ela não conhecia o atual Gabriel muito bem, não gostava do adolescente que ele foi, mas ainda assim soltou o cabelo deixando-o cair sobre os ombros e andou na direção do casal com segurança e um sorriso no rosto, exatamente como havia aprendido na escola de modelos.

- Oi, desculpa interromper, mas, amor, olha, seu pai me mandou uma mensagem um pouco urgente - disse ela chegando muito perto dele e entregando o celular, de maneira que antes de reagir à fala dela ele leu: "estou te fazendo um favor, segue minha deixa e me agradece depois".
Gabriel terminou de ler e encarou Alice ainda um pouco confuso

- Está tudo bem? - Questionou a ex-esposa de Gabriel um pouco confusa
- Ah... sim, é sobre o trabalho, você conhece meu pai - disse ele sem jeito
- Tudo é urgente para o Marcelo quando se trata de trabalho - completou Alice sorrindo - a gente não se conhece né?
- Desculpa! Alice essa é minha ex-mulher, Patrícia. Patrícia essa é a Alice, ela é filha do Marcos, sócio do meu pai nós estamos trabalhando juntos e... - Alice encarou Gabriel sorrindo e segurou em seu braço de maneira carinhosa. Ele não sabia o que mais dizer... que eles estavam namorando? Era esse o plano dela?
- É isso, nós ainda não tivemos aquela conversa sobre como nos chamar ainda - completou Alice
- Ah, muito prazer Alice - disse Patrícia olhando pela primeira vez para Alice e a medindo o corpo todo.
- O prazer é todo meu Patrícia, o Gabriel não tinha me dito que você era tão bonita! - disse Alice

- A gente devia ir, o garçom está levando as bebidas na mesa - disse Gabriel na tentativa de encurtar aquele encontro enquanto Patrícia agradecia com delicadeza - O que foi isso? - questionou ele quando eles já haviam chegado à mesa
- Quando vocês se encontraram você era o cara que implorou para voltar e que estava na pior com o divórcio, quando nós viramos as costas você era o cara que estava com a ruiva maravilhosa e muito legal que até elogia a ex do atual namorado - disse Alice dando os ombros
- Cara, não sei o que rolou, mas parece que a Alice te ajudou a virar o jogo - constatou Pedro rindo
Andréia então sugeriu um brinde à "ganhar o divórcio".

12 de dezembro de 2016

Olhares desencontrados



Seu sorriso solto ao lado dos amigos, seus braços no alto e seu cabelo em um vai e vem... Seu corpo se mexia no ritmo da música. O funk fez ela rebolar e ele deu a sorte de olhar bem nesse momento. Ele nunca gostou muito de funk, mas ficou feliz de escutar a voz da Anita na pista. Ela dançava de olhos fechados, em uma diversão sem preocupação e com um vestido preto que fez ele se arrepender pela milésima vez de nunca ter falado com ela.

A música, a dança, a alegria com os amigos, fizeram ela esquentar, mas lá fora a noite estava fresca. Sentada na beirada de um murinho, descalça e dividindo um copo de água gelada com a amiga ela descansava enquanto observava ele, perto da entrada da festa, conversando com os amigos. Ele fumava um cigarro e dava risada, calça e camisa social, uma roupa que destacava o melhor dele: a bunda e o bíceps.

Noite de formatura, dos dois. Naqueles cinco anos eles nunca se falaram e não nunca se falarão, mas os olhares... Os olhares não puderam ser evitados, não quiseram, não naquela noite. Uma pena que também não foram notados.

A festa tinha sido boa, mas a ressaca veio acompanhada do gosto amargo de quem não conseguiu conquistar o olhar que queria. Ela sonhou com aquela noite, com ele vindo falar com ela e durante aqueles poucos segundos em que o sonho durou eles foram felizes juntos. Ele descontou a frustração no boxe, socando o saco de areia, arrependido de ter perdido as chances que teve. Nenhum dos dois sofreu muito tempo, nenhum dos dois nunca mais viu o outro, ou soube que havia um interesse correspondido. Eles são um daqueles casais que tinha tudo para dar certo, que durariam, que seriam infinitamente felizes enquanto durasse... mas o destino quis diferente.

E eles foram ser felizes separados e com outras pessoas.

10 de dezembro de 2016

Aquele golpe na autoestima

Todo mundo em algum momento se sente mal, invisível ou descartável. Não importa o quão alta seja sua autoestima, todo mundo se sente mal consigo mesmo em algum momento. Esses momentos podem ser mais ou menos frequentes, dependendo da sua autoconfiança, mas eles sempre acontecem.

Ontem fui à uma festa e saí de casa me sentindo bem comigo mesma, me sentindo muito bonita e confiante e voltei me sentindo arrasada, como se eu e ninguém fossem a mesma pessoa. A festa foi legal, eu me diverti dançando com meus amigos, me senti sexy rebolando no funk e livre pulando ao som de uma música antiga do The Killers. Mas na festa estavam muitas outras meninas bonitas, que se encaixam muito mais no padrão de beleza e, mais uma vez, elas foram mais notadas do que eu. Eu não me percebi notada em nenhum momento, ninguém disse que eu estava feia ou lançou olhar reprovador, era só que... ninguém olhou, ninguém notou.

Foi só quando cheguei em casa que a bad bateu e eu me senti mal, no meu sono cansado sonhei com a festa, com ser notada. Acordei com mensagens que brincavam com uma das outras meninas, uma que é sempre percebida, e preferi não responder, mas meu coração não foi capaz de ignorar. Essa noite foi, de certa forma, um golpe na minha autoestima que eu não sentia há tempos. Eu vou me recuperar, acho que já estou me recuperando, mas resiliência e uma autoestima relativamente alta ajudam na cicatrização desse golpe. O que fica é aquele medo de voltar a se sentir assim. Foi como me senti durante boa parte da minha infância e adolescência e para não me sentir mais assim, para construir uma autoestima alta foi preciso um exercício diário, terapia, esforço. O que, pelo visto, não significa que eu esteja imune a golpes.