14 de setembro de 2017

Tecnologia

A tecnologia nos aprisiona nela, mas também nos outros e, principalmente, no agora. Queremos respostas instantâneas, eu ligo você atende, eu mando mensagem e você responde. Cada vez que essas ações são frustradas causam mal estar, nos sentimos rejeitados, ou preocupados com o bem estar do outro, quando na verdade, na maioria das vezes, foi apenas o acaso.

Em outros momentos ela nos aprisiona nos levando de onde estamos para distante dali em um "beep". Quantas vezes estamos com os amigos e recebemos mensagens do trabalho, ou de outra pessoa, com problemas, ou histórias que não pertencem aquele momento que estamos vivendo? Deixamos de viver o aqui e somos transportados para o lá sem qualquer aviso prévio ou pedido de licença.

As vezes isso me parece tão invasivo... tão improdutivo... Eu entendo os benefícios, mas ainda é uma praticidade que, mais do que diversas outras, precisamos medir com muito cuidado para não sermos atropelados por elas.

10 de setembro de 2017

Insatisfação

Eu sinto que ao mesmo tempo em que minha vida está absolutamente completa, comigo trabalhando, juntando dinheiro para viajar com a minha mãe, para morar no exterior, fazendo pós, fazendo academia, estudando inglês, alemão e ainda vendo meu sobrinho a cada 15 dias e meus amigos em intervalos de tempo semelhantes, faço terapia e não ando tão cansada quanto na época pesada da faculdade, mas me falta alguma coisa. Eu estou fazendo tudo o que queria fazer quatro meses atrás, meu ambiente de trabalho é legal, meu chefe me deixa um pouco insegura, mas eu sempre entro e saio no horário combinado e acabei de dar um tapa na cara do câncer, mas ainda assim sinto que falta alguma coisa.

Sinto como se tivesse alguma coisa por aí que eu quero e não sei exatamente o que é, ou como se alguma coisa estivesse me incomodando, mas ainda não consegui descobrir o que. Eu costumo focar muito nos meus objetivos e esquecer o trajeto até eles, mas eu estou curtindo o trajeto. Eu estou bem, estou agradecida por estar como estou... mas esse sentimento de insatisfação não me abandona. Eu já nem sei mais se estou sentindo isso por hábito ou porque existe alguma coisa que me incomoda. Talvez seja porque eu quero descobrir logo que curso fazer no exterior e ir logo. Talvez seja aquilo de sempre... minha vontade de gostar de alguém, meu vício em me apaixonar, e o fato de que não tem ninguém na minha vida que poderia me trazer isso no momento.

As possibilidades aparecem e desaparecem tão rápido que nem tenho chance de tentar mergulhar, explorar meus limites como deveria estar fazendo, para no fim derrubar a minha barreira. As cartas também não dizem nada, ou passam mensagens confusas, não falam sobre o assunto, é o mal de se querer prever o futuro, as mensagens nunca são claras e objetivas.

E eu vou vivendo minha rotina, empurrando a insatisfação para o lado e tentando ter paciência, enquanto aguardo pelos próximos capítulos que o destino escreveu para mim.

5 de setembro de 2017

Uma criança nasceu

Eu nem sabia que a mãe estava grávida, então fiquei impactada, mas não surpresa, sabe? Eu já tinha cogitado essa possibilidade, de ela estar grávida, diversas vezes ao longo do último ano, era o passo natural para o relacionamento deles. E ainda assim fiquei triste.... na verdade fiquei nostálgica, pensando em como eu gosto deles dois e como é triste não poder compartilhar desse momento feliz deles, eu queria muito ser amiga deles, mas acho que a vida é assim mesmo e que não era para nós sermos amigos do peito, mas amigos distantes, ou talvez não era para ser Sempre, era para cada um deles fazer parte da minha vida em um momento e tudo bem esse momento ter acabado. Ainda assim fica a nostalgia.

E o sentimento de solidão. Ver a foto do nascimento fez eu me sentir um pouco mais sozinha e eu nem sei porque. Fez eu me questionar se um dia vou ter uma família assim, alguém que me ame, alguém para amar. Eu sinto que tenho feito alguns avanços, mas ao mesmo tempo sinto que não fiz avanços o suficiente e isso me deixa nervosa. Eu sei que preciso de travar algumas coisas para poder viver um relacionamento, mas fico pensando se o processo para isso não poderia ser mais rápido, se eu não poderia fazer algo a mais. Bateu um desespero sabe?

Logo ele passa e eu esqueço, mas a solidão não vai embora, só fica guardada.

27 de agosto de 2017

O que você quer?


Eu sempre quis ser uma daquelas meninas de espírito livre das comédias românticas, aquelas que mudam a vida do mocinho com leveza e desapego. Acontece que eu sou nada desapegada, eu sou prática, eu resolvo problemas, eu me importo com os outros, eu  vivo dilemas sobre mim mesma, dou risada das minhas desgraças e o mistério desaparece logo depois de você me dar "oi", porque vou te contar minha vida toda assim que você deixar.

Eu me decepciono e sigo em frente, me deparo com muros e dou um jeito de derrubá-los, ou de mudar meu caminho, o que for mais vantagem. Dou risada depois de chorar porque não sou capaz de viver na tristeza, mas me preocupo como todo mundo, com todo mundo. Sempre vivi muito ligada nos outros, pelos outros e como os outros esperam, então agora que estou começando a viver por mim não tenho muita certeza do que fazer... vou sobrevivendo.

Mas não quero sobreviver. Quero saber meus gostos, encontrar paixões por coisas e pessoas, me sentir queimar de desejo, alegria, dor. Tenho me deparado muito com a pergunta "o que você quer" e minha resposta é sempre enrolada no meio de uma risada e pensando "essa é a pergunta de um milhão de dólares, não é mesmo?". Mas eu quero saber, comecei a perceber que eu quero descobrir essa resposta, mesmo sem saber direito como, sem ter ideia de por onde começar. 

Eu me conheço, mas ainda quero me entender melhor, me definir para mim mesma, se é que isso é possível. Quero decifrar meus desejos, determinar meus sonhos, traçar metas longas. Quero me descobrir como adulta, porque acho que como adolescente e jovem já me vivi. Quem sou eu agora? O que eu quero?

23 de agosto de 2017

Aquele sorriso de desdém



- Isso tem muito a ver com...

Lá vai ele de novo. Laura revirou os olhos fazendo as amigas rirem enquanto a sala escutava Bruno dar sua opinião sobre estratégia de marketing. Ela não revirou os olhos por ser má pessoa, ela apenas não gostava do tom de voz dele, de quem sabe tanto sobre a matéria que não tira dúvidas, mas sim discute os pontos controvertidos da matéria. E tinha aquele sorriso e aquele olhar também... era como se a expressão dele fosse permanentemente a de alguém que se acha melhor que todo o resto das pessoas naquele cômodo, expressão de quem é bom demais para estar ali, contemplem minha inteligência... Argh!

Ok, ela não era uma má pessoa, mas isso não quer dizer que ela era uma santa. Laura sabia que não era a aluna mais inteligente da sala, nunca foi e estava feliz com isso. Pelo menos até ter que escutar aquele tom de voz condescendente e encarar aquele sorriso recheado de desdém. Talvez ela simplesmente não gostasse do tom de voz dele, talvez ela não gostasse de todo conhecimento que ele claramente tinha e ela não, talvez até ela simplesmente não gostasse dele e ponto, mas ele claramente gostava dela. Pelo menos era isso que parecia para ela, já que toda vez que ela olhava na direção dele o via desviando o olhar desconfortável. 

Foi então que surgiu aquela vontadezinha, sabe? Aquela que a gente lê nos livros e vê nos filmes e acha bobagem, que na vida real não acontece... Isso, essa mesma, a vontade de arrancar aquele sorriso da cara dele... Ah que vontade! De fazer ele perder a fala, esquecer o que sabe e sorrir de verdade, ou não sorrir nada, tanta coisa boa para fazer com a boca ao invés de dar aquele sorriso de desdém, não é mesmo?

12 de agosto de 2017

Obrigada.

É estranho como todo mundo ficou muito preocupado comigo, com meu câncer. Eu mesma não me preocupei tanto, não sei se foi meu senso prático, ou minha racionalidade, mas não fiquei com medo de morrer. Tudo bem, confesso que em um dia da TPM chorei e pedi à Deusa para me ajudar, mas foi só. De resto eu estava muito bem, muito confiante e tranquila.

O resto do mundo não. Minha mãe estava chorando por qualquer coisa, minha avó só ficou sabendo depois da cirurgia para não se preocupar e a palavra câncer não foi mencionada, uma tia tem feito minhas comidas favoritas o tempo todo, a outra pediu para os guias espirituais da religião dela acompanharem minha cirurgia e me mandou mensagens diárias para saber como eu estava, assim como a filha dela, minha prima. Ainda tem mais uma prima que mandou mensagem tentando tranquilizar minha mãe, a mãe dela veio de Itu para passar o dia comigo e minha mãe no hospital, uma outra tia (sim, tenho muitas) passou a manhã toda ao lado da minha mãe enquanto eu operava e no outro dia estava lá cedinho de novo para acompanhar minha alta e ter certeza que nós teríamos carona para voltar. No trabalho que eu entrei há dois meses me fizeram um cartão com votos de boa cirurgia e dizendo que sentiriam saudade nessa semana que ficarei fora. Minhas amigas também mandaram mensagem, meu amigo vem em casa me visitar semana que vem... Meu irmão marcou uma consulta em uma hora com um cirurgião, foi nas consultas, acompanhou a cirurgia e visitou no hospital de noite...

Foi uma enxurrada de amor. Desde que todo mundo ficou sabendo recebi uma enxurrada de amor por algo que nem me preocupava tanto, mas que tendo esse amor todo ao meu redor ficou muito mais fácil de lidar. É estranho porque não estou acostumada com todo esse amor, toda essa demonstração, eu só sei agradecer a cada mensagem e também acho que isso é tudo que posso fazer, porque acima de tudo eu sou grata de ter tanta gente ao meu redor que se preocupa comigo... na verdade, todo mundo que está ao meu redor demonstrou preocupação então, o que mais posso fazer?

4 de agosto de 2017

Covarde

"Não seja covarde, ainda mais na sua idade, é muito feito" - meu chefe.

Ele me disse isso porque eu disse que não sabia se conseguiria escrever sobre determinado tema, a resposta dele foi essa. E eu nem fiquei chateada, brava ou nada. Eu simplesmente dei uma risadinha enquanto pensava silenciosamente sobre como essa frase se aplica a outros pontos da minha vida. Chega a ser ridícula a velocidade com a qual pensei que essa "reprimenda" se aplicava também a minha escrita de forma geral e não apenas àquele artigo que ele me pediu.

Eu vivo com medo de não escrever uma boa história totalmente minha e por isso nem começo. Covardia. Nem se quer tentar é pura covardia. E eu sei que tem muita gente aí pior que eu, e na verdade nem sei porque exijo tanto dos meus escritos. Meus escritos deveriam ser colocados no papel por mim, para me agradar, e não para agradar os outros. Mas mesmo assim não escrevo por medo da opinião dos outros e acabo fazendo autocríticas severas demais. No fundo não passa de covardia.

Medo do que os outros vão achar, de não dar certo aquela história, de desistir, de terminar e não dar em nada, de perder tempo, de me jogar de cabeça em uma história que não vai me levar ou ser levada a lugar algum. De não ser tão boa quanto eu penso.

E as páginas vão ficando em branco enquanto choro minhas pitangas por aqui. Covarde.

2 de agosto de 2017

História de bairro

Eu sou capaz de criar uma história completa na minha cabeça com apenas um olhar para alguém. A pessoa não precisa me olhar, basta um olhar meu para ela e não necessariamente eu farei parte dessa história.

Eu crio uma história de vida para a velhinha que eu encontro pelas ruas do meu bairro, a pobre viúva cujo filho único só vem visita-la nos fins de semana. Ele é casado, a mulher está tentando engravidar e eles moram fora da cidade, em cotia, então não dá para ir sempre ver a mãe. Eles já tentaram leva-la para casa deles, mas ela não quer deixar o apartamento onde viveu a vida toda com o marido... tantas lembranças. Então ela vai ficando ali, andando sozinha pelo bairro enquanto ainda pode andar, se perdendo frequentemente e cada vez mais voltando para casa sem saber porque saiu em primeiro lugar. A memória não é mais uma boa amiga para ela, mas os ouvidos dos passantes ainda ocupam seu tempo e ajudam a acalmar sua solidão.

Passantes como aquela jovem loira que eu encontrava sempre no ponto de ônibus. Ela trabalhava em uma escola na vila mariana, era professora primária. Veio de uma família boa e adora crianças, nunca ligou muito para dinheiro, mas sua mãe quase enfartou quando soube que ela seria professora. Que futuro tem professora no Brasil? Mas a moça terminou a faculdade, arranjou emprego em uma escola particular perto de casa e adora seus alunos. O salário é ingrato, as vezes o arrependimento bate, normalmente junto com o cansaço, mas ela não desiste não, vai começar a pós graduação... sabe que não conseguiria viver sem aqueles mini-sorrisos na sua vida.

Sorriso aberto que nem o do velho. Ele trabalha meio sem trabalhar, passeia e adestra cachorros, é um amor pelos bichinhos que dá até gosto de ver, são seus companheiros. Tem uns amigos pelo bairro, mas mora só com seu fiel escudeiro, recém adotado, ainda não é muito educado, mas está aprendendo. E o velho te conta todas as suas peripécias quando cruza com você na rua, as dele e as do cachorro, sempre com um sorriso orgulhoso no rosto, que nem pai quando vê o filho aprender algo novo. É cheio de vida e alegria, sempre andando bem acompanhado, falante e nada solitário.

São histórias que eu possivelmente nunca vou saber se são verdadeiras, mas que me ajudam a passar o tempo, exercer a imaginação. É como se pensando as histórias dos outros ficasse mais fácil escrever a minha... as minhas.

25 de julho de 2017

Aqui e agora.

Eu estou acostumada a viver em função do futuro, é o que eu sempre fiz, o que eu sei fazer melhor. Quando criança vivia esperando meu aniversário, as férias, o fim de semana... conforme fui crescendo passei a ter desejos mais concretos e vivia esperando por coisas mais específicas, como a aprovação na escola, que aquele garoto me notasse, que eu ganhasse algo específico de presente... até que comecei a sonhar com o futuro se verdade. O futuro lá adiante, onde eu seria uma adulta, dona de mim e vivendo coisas incríveis. Eu fazia histórias sobre isso, contava para as minhas amigas que diziam que eu era sonhadora, como se fosse ruim, mas secretamente elas sonhavam junto comigo.

O tempo foi passando e eu virei adulta. Eu sou uma advogada recém-formada, cursando pós-graduação e trabalhando em um pequeno escritório no centro da cidade. Eu estou vivendo coisas legais, mas não estou vivendo aqueles sonhos que tinha. Estou muito mais em um esquema metrô-boulot-dodo, transporte-trabalho-cama. Acho que no fundo é isso que acontece com todo mundo que trabalha em horário fixo, ou com todo mundo que trabalha at all, mas sinto que estou fazendo nada da minha vida.

Meu grande sonho no momento é conseguir ir morar em outro país, mas é um plano a longo prazo, para o qual preciso juntar dinheiro. Ele está em ação, estou juntando dinheiro, trabalhando no meu inglês, no meu alemão, depois de operar a garganta vou fazer um coaching ou orientação vocacional e não tem muito mais o que fazer nesse sentido. Eu agora precisava fazer aquilo que minha psicóloga vive dizendo: aproveitar o caminho.

É um desafio para mim. Viver no presente. Uma coisa bastante nova, mas acho que agora é a hora. E nesse meio tempo vou aproveitando para descobrir hobbies novos, me descobrir um pouco.

9 de julho de 2017

O medo da palavra

É engraçado, quando você tem uma doença séria e conta para os outros, seus amigos, família, pessoas próximas, você imediatamente precisa emendar com um "Mas é só operar" ou "O tratamento é simples", para pessoa mudar a expressão de pena e/ou preocupação dela. O nódulo que eu tenho na tireóide é câncer, um tipo comum e de tratamento simples, mas essa palavra, "câncer", quando pronunciada faz as pessoas se assustarem, pensarem no pior e aí eu emendo falando que vou fazer a cirurgia para tirar e vai ficar tudo bem.

Na minha família só minha mãe e meu irmão sabem, não contei para mais ninguém porque não queria assustar eles. Mas como já vinha contando para as meninas sobre o assunto, precisei contar para elas o resultado do exame, fui estratégica, contei o nome científico da coisa, carcinoma papilífero. Elas ficaram achando que era algo simples e sem seriedade, como eu queria, não quero elas preocupadas. Mas ao mesmo tempo... Eu estou preocupada.

Eu falo com tranquilidade do assunto e o médico disse que ninguém morre desse câncer, mas é aquela coisa, né? A palavra... já estou fazendo os exames pré operatórios e vou tirar a tireóide, vou precisar fazer radioiodoterapia (tomar um comprimido de iodo no hospital), depois vou precisar tomar hormônio pelo resto da vida. Não é esse lado prático das coisas que me assusta, esse lado eu entendo e não tenho medo. Me assusta saber que meu corpo me traiu, não que eu o trate bem, mas ele cresceu um negócio ruim para mim, será que eu não deveria tomar isso como um sinal para mudar alguns hábitos? Até porque, se eu vou tirar a tireóide, a tendência é que minha pré disposição para engordar piore, logo agora que eu estava tão feliz com meu corpo, vou precisar me alimentar melhor, fazer exercício, tomar cuidado com meu corpo para sempre, algo que eu nunca realmente fiz direito.

Minha psicóloga falou para eu pensar sobre esse nódulo, sentir um pouco. Eu não queria fazer isso porque tenho tendência de surtar com besteiras, mas como ela pediu... Eu estou com medo de fazer a laringoscopia e descobrir que o câncer invadiu minhas cordas vocais, ou de na cirurgia ter minhas cordas vocais danificadas, mesmo sabendo que a chance é muito pequena para ambos os casos, estou com medo de depois engordar e nunca mais me sentir feliz com meu corpo, estou com medo de ficar dois ou três dias no hospital para tomar o iodo e não ter absolutamente nada para fazer, estou com medo de que de alguma forma eu tenha causado isso em mim mesma, mesmo sabendo que cientificamente no há razão para esse câncer e lá no fundo, sem razão nenhuma de existir, escondido e quase sufocado, tem um medinho de que os exames estejam errados e tudo seja mais sério do que parece e possa morrer.

4 de julho de 2017

Não é nada

Algumas semanas atrás senti um carocinho estranho na minha garganta e fui no pronto socorro ver. Quando fui atendida já tinha bastante certeza que o problema era minha tireóide, mas não sabia exatamente o que. O médico me encaminhou para o endocrinologista, mas já pediu alguns exames de sangue e um ultrassom da tireoide, que era meu objetivo quando cheguei lá. Eu não queria marcar uma consulta com um endocrinologista só para ele pedir os exames, demoraria mais, indo no PS eu já saio de lá com os exames e aí sim vou no especialista.

Exames em mãos, o endocrinologista confirmou a suspeita do PS, era um nódulo de tamanho considerável e ele queria fazer a punção (biópsia) antes de recomendar a cirurgia, para saber se era maligno ou não, ainda que pelo tamanho ele recomendasse a cirurgia para remover de qualquer jeito. Fiz a punção e marquei retorno, mas não vou.

Ontem vi o laudo da punção e não preciso ser médica para saber que carcinoma é o nome que eles dão para aqueles nódulos que são malignos, os cânceres. Depois de um Google para confirmar minhas suspeitas enviei mensagem para meu irmão e ele me retornou uma hora depois pedindo meus outros exames, mandando eu marcar um exame para o mesmo dia e também uma consulta para dali a dois dias. Ele ainda me enviou dois artigos sobre o assunto e reforçou a seguinte mensagem: é câncer? É. Mas, apesar do susto que a palavra dá, é um tipo bastante comum, 80% dos casos de câncer na tireóide são do mesmo tipo que o meu, e a taxa de sucesso no tratamento é 97%, se não me engano, sendo que apenas 1% dos pacientes tem reincidência. Isso significa que eu tenho um câncer comunzão, fácil de tratar e com quase certeza de que vai ficar tudo bem.

Ainda assim assusta um pouco, dá medo de ser a exceção das estatísticas. Me anima saber que desde que notei esse nódulo já fiquei sabendo de 3 outras mulheres que tiveram a mesma coisa e passam bem e tudo mais (esse problema dá mais em mulheres, razões desconhecidas, pelo menos por mim). Minha mãe está bem assustada e acho que meu irmão também porque ele foi bastante rápido nas medidas que ele tomou, de marcar o médico, pedir o exame e até me ligar para dizer que vai fixar tudo bem.

Vou amanhã no médico e meu lado racional está tranquilo, mas meu lado emocional está torcendo com todas as forças para que ele confirme que vai ficar tudo bem, porque morre de medo de que não fique.

1 de julho de 2017

E quando tudo parece dar certo?

Insatisfação faz parte da natureza humana. Dito isso preciso completar dizendo que estou insatisfeita. Eu sei, eu reclamo de tudo, estou ciente desse defeito já apontado por amigos rindo da minha cara, mas aqui posso falar com sinceridade o que sinto, então vamos lá.

Sinto que meus planos estou finalmente entrando em ação, que eu estou trabalhando, podendo juntar dinheiro para ir para o Canadá, ou Alemanha, ou qualquer outro lugar; que eu vou poder fazer aquelas aulas de inglês que eu queria; que eu tenho um emprego ótimo, saio no horário, tenho chefes bacanas, colegas legais e um ritmo de trabalho saudável; sinto que agora posso começar a pensar em fazer aquela aula de luta que eu queria; que estou aos poucos caminhando em direção aos meus sonhos. Esses sentimentos são tão fortes quanto era a minha insatisfação de estar parada e sem perspectiva de emprego há um mês e meio atrás. E eu estou feliz, não pensem que não estou, porque eu estou.

Mas sinto também que não me sinto completa realizando o trabalho que estou realizando. Quando eu estou fazendo sinto como se estivesse cumprindo uma obrigação, não acho legal, acho que estou fazendo o que preciso fazer e daqui a pouco termino e/ou dá meu horário e eu vou para casa. Eu acho o Direito legal, ler e pesquisar sobre ele, mas vivenciar o dia a dia como advogada não tem me agradado muito. É burocrático, ainda mais que estou trabalhando com estratégia e consultivo. Não é justo. Não sinto que estou sendo de grande ajuda para a sociedade, ou mesmo para meus clientes. Sinto um pouco de falta de por a mão na massa e resolver os problemas mais fisicamente. Talvez fosse isso que eu gostasse em ser estagiária, ver a minha ajuda fisicamente. Eu via como ajudava meu chefe indo aos lugares, arrumando a bagunça, realizando minhas tarefas. Agora, ainda que eu saiba que estou ajudando, até por ser essa minha função, não sinto que estou ajudando tanto... é esquisito e difícil de explicar. Talvez eu realmente deva fazer o coaching, é uma das coisas que estou pensando sério.

Sinto também falta de escrever. De simplesmente sentar na frente do computador com uma história e botar ela para fora. Tem uma história nascendo na minha mente, tenho medo de a deixar tempo demais ali e ela apodrecer como as outras. Eu só preciso do impulso, alguém me dá um pezinho?

14 de junho de 2017

4 de junho de 2017

Respirar

Eu sinto que tem muita coisa acontecendo de uma vez só e eu não estou tendo tempo de absorver e sentir tudo.

Recebi três propostas de emprego no espaço de umas duas semanas, uma seguida da outra e fui desistindo de uma pela outra, seja por ser vaga efetiva, ou pela proximidade de casa, e agora vou começar a trabalhar amanhã. Sinto que estou menos ansiosa do que eu geralmente fico, mas pode ser por causa das outras coisas que tem acontecido, em todo caso, calma eu não me sinto. Como sempre, eu estou com medo de falhar, do meu novo chefe não gostar de mim. Esse é sempre meu maior medo, mal de quem nunca teve aprovação suficiente em casa, nós buscamos fora e morremos de medo de não conseguir. Professores, chefes, irmão mais velho, família extendida... eu não posso falhar. Mas já estou aprendendo e talvez esse seja um dos fatores da minha calma, aceitar que falhar é humano e tudo bem se acontecer, sobreviveremos, afinal, sobrevivemos até aqui, não?

Outra coisa que ocupa meus pensamentos e eu ainda estou digerindo foi o surto de coragem relatado no post anterior. Ainda não sei o que fazer. Estou em território desconhecido e não tenho certeza se quero avançar ou recuar, por um lado que ver no que pode dar, por outro não tenho certeza de que quero fazer isso hahaha. Eu estava esperando o dia de hoje para tomar alguma decisão, estava esperando o dia em que marquei me encontrar com um menino que conheci no Tinder para ver o que eu sentiria então, mas não adiantou.

O menino é legal, parece ser gente boa, mas é um pouco passivo... talvez eu que tenha uma personalidade forte demais, mas senti que dominei a conversa toda e ele não achou espaço para se encaixar. Por um lado foi culpa minha, deveria ter dado espaço para ele, por outro, acho que ele deveria achar sozinho esse espaço, eu fiz silêncios. Além do mais, ele não me atraiu fisicamente nem um pouco e não achei que rolou uma química. Ainda estou falando com outro carinha do Tinder que é legal, mas não sei se ele vai me atrair, meio que quero esperar para ver.

É tragicômico como eu me sinto mais confortável em sair com caras que não me atraem e como tenho dificuldade de falar com os que me atraem. Eu demorei muito para ter coragem de falar com o mocinho do parque e, quando tive, a conversa não foi a melhor do mundo, mas ele me atrai. Em compensação o menino de hoje é bem legal e poderíamos ser amigos, mas só isso porque ele não me atrai e a conversa acabou sendo levemente esquisita por isso. É como se o que eu busco intelectualmente não fosse compatível com o que eu busco fisicamente.

Sinto que esses eventos testam minha coragem, minha ansiedade, não tenho certeza de como estou passando por eles, aliás, sinto que estou passando por eles por isso, por não estar parando para processar muito. É esquisito, quando você vive muito dentro da sua cabeça parece que o lado de fora te sufoca um pouco quando acontece. Só que as coisas ainda estão acontecendo e se eu parar para respirar... bom tenho medo da minha ansiedade se tocar, então seguro o ar um pouco mais e enfrento o lado de fora até as coisas acalmarem, depois eu respiro, depois eu processo.

2 de junho de 2017

4 mensagens

Meu celular insiste em lembrar que eu tenho quatro mensagens não lidas de uma conversa no Whatsapp. Eu não sei se quero ler essas mensagens, ainda estou processando o que levou a elas.

Eu estava na quarta volta do parque, era a última e eu me sentei no banco pensando no que eu faria a partir dali. Eu podia ir embora, mas podia também dar um jeito de ir falar com aquele cara que durante os últimos meses via por ali, que eu achava estar de olho em mim, que tentava chamar a minha atenção quando começava a fazer um exercício cada vez que eu passava, que eu olhava também e até tentava sorrir, algo inédito. Eu não queria começar a trabalhar e nunca mais ver ele sem, pelo menos, ter tentado falar com ele antes.

Acredite, isso tem mais a ver comigo do que com ele. Tem a ver com ter passado por isso antes, inúmeras vezes na verdade, cada vez que via alguém que despertava meu interesse. Eu sempre olhava de longe, desviava o olhar quando me olhavam, ficava na minha cabeça imaginando como seria aquela pessoa, seu nome, sua história, nossa possível relação se eu apenas tivesse a coragem de ir me apresentar. E isso quase aconteceu muitas vezes, mas no fim eu parava de ver a pessoa e nossa relação ficava só na minha cabeça, me assombrando nos meus momentos de solidão e carência.

Eu precisava falar com ele por mim, para depois não me sentir uma covarde, para dizer para mim mesma que eu fiz algo que me enchia de medo e sobrevivi. Eu já tinha quase falado com ele outras vezes, mas sempre acovardava em cima da hora. Hoje não. Hoje eu levantei quando vi que ele não passava para ir embora e fui em direção ao banco em que ele sempre ficava, ele não estava ali, então passei reto, lavei meu rosto no bebedouro e quando voltei o vi sentado no banco. Eu não tinha certeza do que falar ou fazer, e de certa forma aquilo era tão surreal para mim que parecia que está a vendo a cena de fora dela. Mas mesmo assim fui até ele em um passo decidido e perguntei se podia sentar ali, ele me olhou com uma expressão tão surpresa que era quase um susto e disse que sim. Eu perguntei o nome dele, Daniel, e disse o meu. Depois olhei para frente me sentindo um pouco adormecida e disse algo como: então é isso, eu vim falar com você, eu quebrei essa minha barreira. Depois olhei para ele e o vi confuso, completei dizendo que era tímida e a conversa seguiu daí.

Não foi uma conversa legal como eu queria, mas foi mais fácil do que eu esperava. Ele ajudou. Eu falei que decidi falar com ele porque depois iria começar a trabalhar e não teria mais a oportunidade. Ele perguntou do meu emprego, depois perguntei do dele, ele é atleta, e aí falamos um pouco disso, do parque, de fazer uma luta. Ele repetiu algumas vezes que estava feliz de eu ter ido falar com ele e eu só sorri e concordei. Então ele perguntou se eu já tinha terminado, disse que sim, e fomos juntos parte do caminho. Achei engraçado ele agir como se não soubesse o caminho que eu fazia para ir para casa, já tínhamos feito ele juntos outras vezes, mas deixei. Ele também estava tímido, ainda tentava impressionar um pouco, enquanto eu só fui sincera. Ele também me parece ser una pessoa bastante simples, mas respeitador. Disse que nunca falou comigo porque as vezes a pessoa não gosta, prefere não ser incomodada enquanto se exercita, ou algo assim, eu agradeci, e disse que eu realmente não gosto. Além disso, em um determinado momento ele tocou no meu braço e pediu desculpa. Achei isso meio fofo. Mas achei também que eu não sei se sou do tipo de pessoa que se acomoda com o que é simples. Velhos hábitos. Não preciso me acomodar, não preciso pensar nisso, na verdade, pelo menos não agora.

E então, já perto de casa ele me perguntou como faria para continuar falando comigo e eu passei meu número. Dei um beijo no rosto dele de despedida e ele me puxou para um abraço, me apertou contra ele. Separei, falamos mais alguma coisa e ele disse tchau de novo e me puxou de novo para um abraço, dessa vez roçando o rosto dele contra o meu quando separou o abraço. Eu sei que ele jogou verde ali, se eu virasse o rosto era um beijo. Eu não virei. Disse que também estava feliz por termos nos falado e ia indo quando ele segurou minha mão e repetiu que foi bom me conhecer, sorri, retribuí, puxei minha mão e fui almoçar. Uma hora depois vieram as mensagens.

Eu não sei porque não o beijei. Eu acho ele gostoso, apesar de ele não ser gato. O corpo dele me comove o suficiente para passar por cima disso. Mas não sei se consigo ficar com alguém assim por ficar, com alguém que eu não sinta como um "igual intelectual". Eu não sei se responder essas mensagens dele seria dar esperança a ele de algo que não vai acontecer. Ou se vai ser como meu primeiro beijo, algo que vou fazer só por fazer e depois me sentir arrependida.

No momento eu só sei que eu fui e falei com ele e isso é uma vitória sem tamanho para mim, então eu vou saboreá-la por algum tempo e quando terminar penso no que vou fazer.

31 de maio de 2017

Maré Alta

Um dia eu estou desesperada atrás de emprego e achando que nunca mais vou encontrar um, que o auge da minha vida foi aos 23 e agora é só ladeira abaixo. No outro estou indecisa com três propostas de emprego e em dúvida de qual escolher, todas com salários bons e pontos positivos próprios. As vezes acho que se existe um ser superior, um deus, uma deusa, um panteão, eles me usam como alívio cômico.

Eu não sou boa em tomar decisões. Quer dizer, talvez até seja, mas sempre que faço uma escolha fico morrendo de medo de ter errado, apavorada com a possibilidade de me arrepender da minha própria escolha. Essa é a coisa sobre ser adulta, vocês faz suas próprias escolhas e se você erra a única culpada é você mesma. Eu escolhi, aceitei um, surgiu outro e eu decidi pular de galho, a mesma coisa com o terceiro, sempre na esperança de estar fazendo a escolha certa, de não me arrepender, de ver os pontos positivos.

Ao mesmo tempo que dá esse medo todo, também dá um frio na barriga gostoso, vontade de ver logo o novo, de encarar a mudança, uma sensação de que finalmente estava tudo indo para o seu devido lugar, que tudo está se encaixando e vai ficar tudo bem. Talvez fique mesmo. A vida tem marés altas e baixas como o mar e talvez a minha maré alta esteja voltando.

24 de maio de 2017

O amor é um negócio difícil

Conversei com a minha psicóloga sobre essa minha identificação com o texto sobre mães tóxicas. Ela não disse nada, questionou como eu me sinto e tentou esclarecer alguns pontos da minha fala que não estavam tão explicados. Mas sabe quando você sente que essa não negação é uma afirmação? Fiquei pensando em todas as vezes que falamos sobre minha rede de apoio, como eu acho ela importante e como ela me conforta, e sempre que falávamos disso ela questionava a força dessa rede de apoio. Ela dizia que essa rede tinha uma falha, ainda que eu não estivesse vendo e eu dizia que ela estava procurando pelo em ovo. E com o tempo eu fui descobrindo que a falha dessa minha rede de apoio é a minha mãe. Uma falha que existe desde de sempre e que agora que eu percebi vejo as diversas consequências dela.

É doloroso culpar minha mãe por problemas afetivos meus, parece que o fato dela ter culpa quer dizer que ela fez as coisas de cabeça pensada, de propósito, quando na verdade a toxidade dela é só uma característica adquirida e que deve machucar a ela tanto quanto a mim, ainda que ela não elabore os sentimentos dela, então não veja assim. Talvez, para ela, isso seja bom, acho que seria doído demais chegar aos 67 anos de idade e descobrir essas falhas que você cometeu por anos a fio, fazendo sofrer pessoas próximas a você... se ela não elabora, não sente essa culpa e a essa altura, para ela, talvez isso seja melhor.

Por outro lado, eu elaboro, eu preciso entender e preciso tentar resolver esses problemas afetivos que me seguram. Meu irmão ajuda, ele tem virado essa fonte de amor "incondicional" que eu não esperava dele. Eu tenho as meninas também que são outra fonte. E agora que eu identifico o problema, ou um deles, talvez seja mais fácil me doar à outros também. Eu não quero reproduzir esse padrão que me criou. Eu quero ser capaz de fazer meus filhos se sentirem plenamente amados e  não terem medo de mim ou dos meus julgamentos. E isso parece algo tão básico, mas é tão complicado.

Amar os pais apesar dos seus defeitos, amar os filhos ensinando certo e errado, amar ao outro sem se perder nele... O ser humano passa a vida buscando amor, carinho, qualquer forma de afeto, mas é tão difícil amar do jeito certo, sem ser tóxico ou se perder.

16 de maio de 2017

Freud explica

Eu estava pensando aqui em qual é meu tipo e o que me atrai em um cara. O corpo é importante para mim, eu gosto de caras malhados, sinto mais atração por eles. Mas não consigo me basear só no físico, quando vejo um físico bom penso se a pessoa é legal, se temos coisas em comum. Preciso ter alguma ligação com a pessoa para me interessar realmente. E aí chegamos em um outro problema meu: como eu desisto da pessoa assim que alguma coisa, qualquer coisa, não me agrada. Eu não peso altos e baixos, vejo só aquele defeito/discordância e fujo. Talvez tenha alguma coisa a ver com esse medo que eu sinto de me contentar em ficar com alguém que seja "menos" do que o que eu mereço. 


Essas reflexões me levaram a pensar que eu nunca, ou pelo menos há muito tempo, não gosto de ninguém de verdade, porque a luz do primeiro defeito eu já acho que a pessoa não vale a pena. Talvez eu esteja errada, mas sinto que quando a gente gosta de alguém, gosta dela mesmo com os defeitos e não desiste quando eles aparecem (tudo em uma medida de proporcionalidade). E eu quero gostar de alguém, de verdade, descobrir como é me sentir assim. Eu também quero que alguém goste de mim, quero me sentir cuidada.


Li um artigo essa semana um pouco assustador, era sobre mães tóxicas e como a falta de amor e/ou excesso de projeção delas nos traz problemas afetivos. Esses problemas, sentimentos de vazio, nos levam a buscar o amor incondicional em outros lugares e a, eventualmente, nunca amar incondicionalmente. Fiquei assustada. Fiquei pensando se meus problemas com a minha mãe se encaixam nisso, se eu não consigo amar incondicionalmente porque nunca fui amada assim por ela, e por isso qualquer defeito me faz perder o interesse; se meu medo de ficar com alguém "menor" do que eu vem de alguma necessidade de busca da perfeição na esperança de obter esse amor incondicional dela. 


Eu sei que nossa relação é bastante complexa e eu não sinto raiva dela por nunca ter sentido esse amor incondicional dela, ou mesmo do meu pai, eu só queria entender se isso que me causou essa... falha emocional, essa minha dificuldade em me relacionar.

9 de maio de 2017

Simbiótico


Semana passada na terapia falei sobre minha mãe. Esse, na verdade, tem sido um tema mais ou menos recorrente e, pelo que tenho observado, isso provavelmente se deve ao fato de que muito de mim vem dela, direta ou indiretamente, ela influenciou muito a construção da minha personalidade, seja porque sou parecida com ela nisso, ou porque fiz questão de ser o oposto dela naquilo. Em todo caso, uma das coisas que ficaram na minha cabeça dessa última sessão foi que o meu relacionamento com a minha mãe é simbiótico.

É difícil explicar usando outra palavra, mas acho que podemos dizer que ela me prende emocionalmente de certa maneira e domina um pouco minha vida, e antes eu estava bem com isso, mas já faz algum tempo que isso vem me incomodando, e eu venho querendo romper. É como se até aqui eu fosse parte dela e agora não quero mais ser, quero ser eu. Mas não é fácil sair desse ciclo, porque ao mesmo tempo que eu quero sair, eu acho confortável ficar. E acho que para ela também não é fácil, ela tem dificuldade em me ver como um ser humano independente, não parte dela.

A manipulação emocional que ela faz não é consciente, minha mãe não elabora tanto as coisas, mas ela faz, ela faz o que ela sente, ela não pensa no por quê ou nas consequências, ela só faz. Agora ela quer que eu preste concurso e eu tenho dito a ela que não, mesmo que esteja estudando para isso, eu só não quero a pressão que ela vai trazer se eu obedecer a ela. Em todo caso ela veio me dizer que não quer que eu perca três anos da minha vida esperando por um emprego, como eu fiz com o vestibular. Acho que isso seria gashlighting se ela tivesse alguma consciência do que fez. Eu falei que perdi aqueles três anos porque estava tentando entrar na faculdade que ela queria, fiz três anos de cursinho porque essa era a vontade dela. Ela respondeu que não, que logo depois do primeiro ano me disse que era melhor fazer logo uma faculdade paga e esquecer a USP.

Eu me senti desolada, porque ela provavelmente não fez isso consciente, acho bastante possível, inclusive, que na cabeça dela tenha sido isso que ocorreu. Na minha foi só dor. Porque ela jogou nas minhas costas uma culpa que ela não quer carregar, na esperança de que? Parecer a salvação de mim mesma? Para que eu não cometa o mesmo erro de antes ela vai me ajudar a prestar concurso? A negação daquele fato do passado me atingiu em cheio, foi perverso. Me jogando a culpa pelos três anos de cursinho é quase como se ela estivesse negando e me impedindo de sentir qualquer arrependimento por eles... ainda que eu não sinta... mais ou menos.

Ela não é uma má pessoa, ela é uma pessoa boa na verdade, ela só é extremamente manipuladora emocionalmente e eu talvez só esteja percebendo isso agora porque estou emocionalmente mais forte.

1 de maio de 2017

Esse nó na garganta

Depois de tanto tempo desempregada é inevitável sentir um pouco de desânimo comigo mesma. Na verdade, o que a gente sente mesmo é que somos fracassados. No meu caso sinto isso com mais intensidade ainda cada vez que caio na cilada de me comparar com meu irmão.


Ele entrou em medicina na USP com dois anos de cursinho, se formou, fez pesquisa em Harvard, passou um ano no exército, na Amazônia, depois voltou, arranjou empregos com facilidade, porque ele é super extrovertido, e agora está bem, sempre trabalhando, mas bem. 

Eu fiz três anos de cursinho para entrar na USP em direito e não passei, fiz Mackenzie. Todos meus amigos passaram de primeira na OAB, eu tive que prestar duas vezes. Me formei faz cinco meses e até agora não consegui um emprego. Eu sei que tenho vitórias a comemorar, mas nesses momentos eu simplesmente sinto que sou a filha que não deu certo... nem se quer colocar uma das minhas histórias no papel eu consigo. 


E volta aquela vontade de se encolher em posição fetal na cama, chorando e pedindo pela minha mãe.

29 de abril de 2017

Mais uma da série "Ansiedades da Vida"

Cada noite que eu deito minha cabeça no travesseiro meu peito se enche de angústia, eu consigo esconder esse medo o dia todo, mas de noite ele me invade. É o medo de nunca conseguir melhorar, não conseguir viver meus sonhos, ou meus planos mais simples... Medo de não achar um bom emprego como advogada, algo que pague razoavelmente e cujo local de trabalho seja saudável; medo de não conseguir juntar dinheiro para tentar a vida no Canadá; medo de nunca viver nenhuma aventura emocionante como passar um tempo perdida na índia ou na América central... Medo da minha vida não dar certo e do ponto dela ter sido a faculdade.


Eu sei que não faz sentido esses meus medos; que provavelmente vai ficar tudo mais ou menos bem; que eu tenho uma rede de apoio e estou melhor do que muita gente por aí... Mas quando eu deito para dormir eu ainda quero chorar de desespero em posição fetal enquanto chamo pela minha mãe. 


É, talvez pensar no assunto me leve de volta aquele sentimento que me preenchia no final de 2015, sentada no chão da livraria depois da faculdade e antes do trabalho. É bizarro que já faz um ano e meio, né? Parece que foi ontem. E ao mesmo tempo que desde então aconteceram coisas boas como passar na OAB, me formar, ganhar o Prêmio TCC e entrar na Pós eu ainda sinto que, pelo menos de certa forma, desde que saí da 7 minha vida não deu mais certo. Deve ser até pecado sentir isso, porque o universo me deu coisas boas e mesmo sendo muito agradecida por elas ainda sinto que falta algo, ainda sinto que as coisas não estão boas.


Então é, eu tento ser otimista, tento não pensar nisso durante o dia, tento focar no aqui e agora, mas de antes de dormir minhas defesas caem e o medo me domina por um tempo. Vai passar. Vai melhorar. Vai ficar tudo bem. Sempre fica. Ontem ficou, hoje vai ficar também.

12 de abril de 2017

Alguns sonhos precisam morrer

Hoje eu assisti ao último episódio de uma série que acompanhei durante aproximadamente 8 anos e com o episódio final veio um turbilhão de sentimentos que me pegou de surpresa e me arrebatou de um jeito que acho que só a escrita salva. É sempre difícil passar os sentimentos para palavras, primeiro porque é preciso definir o que eu estou sentindo, depois porque achar as palavras certas nunca é uma tarefa fácil.

A série era adolescente, grandes amores, pessoas com poderes, jovens que salvam o mundo e sentimentos de lealdade inquebráveis. E na televisão isso é sempre bonito, é um sonho, na verdade, mas como disse um professor meu de literatura quando eu tinha 16 anos, os sonhos são são lindos, mas mesmo que se realizem perdem a magia. Nesse contexto, um sentimento que me vem é que eu cresci vendo essas séries, lendo essas histórias e não vivendo absolutamente nada disso. Primeiro porque não é da minha índole, segundo porque na vida real eu não tenho poderes, não salvo o mundo, os vínculos de lealdade são fortes, mas quando postos a prova não é por causa de um vilão que quer destruir o mundo, mas porque alguém errou e isso nem sempre é fácil perdoar e esquecer. Eu sempre quis viver essas histórias e hoje fui atingida com a realidade, eu já sabia dela, mas ainda doeu.

A única maneira de viver essas grandes histórias agora seria escrevendo elas, mas sempre que penso em alguma coisa me autosaboto, fico em branco, não escrevo.  E depois me sinto incompetente por não ser capaz de escrever o que quero, fico com raiva por sempre desistir, por nunca achar uma ideia nova, boa, que me dê vontade de seguir. É como se eu esperasse que uma lâmpada se acendesse na minha cabeça e a ideia surgisse pronta, para eu só colocar no papel e publicar.

Outro sentimento que me veio foi o da desesperança com meus sonhos mais reais. Quando criança e até hoje se formos ser sinceras, eu sempre quis ser atriz, viver esses romances épicos nem que fosse na televisão, mas hoje me dei conta que isso é outra coisa que não vai acontecer. Essas histórias são adolescentes e com 26 anos eu já estou velha demais para interpretar esses papéis. Então me bate um desespero porque estou mais perto dos 30 do que dos 20 e não fiz nada do que queria, não sou uma grande estrela, não vive histórias épicas, se quer tenho um emprego nesse momento e o tempo está passando. Eu, pelos padrões da sociedade, estou ficando velha e esses meus sonhos são para adolescentes.

Não me leve a mal, eu tenho planos de vida bastante concretos como arranjar um emprego, viajar, ter filhos, fazer um mestrado ou outra faculdade, mas hoje fui obrigada a perceber que nunca vou ser aquilo que eu sonhava em ser quando criança, nunca vou vier as histórias dos meus sonhos... eu se que consigo escrevê-las. Então do meio para o fim do episódio eu só fiz chorar.

5 de abril de 2017

Disciplina e propósito

É engraçado como na vida a gente passa por inúmeras "épocas", momentos, fases, como você preferir chamar. Eu estava muito desanimada com meu desemprego, principalmente por estar mandando semanalmente, para não dizer diariamente, um sem número de currículos e não receber respostas, ou não passar na entrevista (e só saber porque eles nunca mais entram em contato com você). Então decidi que precisava um atividade paralela, pensei em algumas opções, como trabalhar de correspondente, fazendo visitas à fóruns e tirando fotos de processos, mas descobri que esse tipo de trabalho pode ser um tanto problemático, com pagamentos baixos e calotes sendo bastante comuns. Foi quando fiquei ainda mais desanimada.

Um amigo meu está só estudando para concurso e eu me lembrei dele. A simples ideia de parar toda sua vida para se dedicar aos estudos a fim de entrar em algo hiperconcorrido me dava vontade de correr, mas com o incentivo dele acabei me convencendo a comprar a apostila e estudar um pouco, pelo menos enquanto não encontro um emprego. É uma forma de colocar um plano B em ação sem tirar o plano A de campo. Eu sei que concurseiro que se preze coloca o concurso em primeiro lugar, mas eu fiz três anos de cursinho, eu não queria passar por aquilo de novo, sentir aquele desespero de não passar na prova, a simples ideia de se dedicar tanto à alguma coisa me assusta muito!

O que eu não esperava era que começar a estudar fosse me dar um senso de propósito. Eu já estava fazendo um cursinho online de inglês, mas era meramente para não ficar o dia todo sem fazer nada e eu nem estava sentindo que estava adquirindo muito conhecimento. Estudar para o concurso tem um objetivo e é um objetivo próximo, minha psicóloga bem diz que eu sou movida é metas auto ou heteroimpostas. Eu comecei a vislumbrar a possibilidade de passar e a desejar isso com vontade, me mover para isso de uma maneira voluntária que eu nunca achei possível.

Eu me organizei essa semana, estudando um pouco todos os dia, tenho uma meta diária, também tenho feito os exercícios do alemão e não simplesmente deixando para a véspera da aula, além de enviar currículos, fazer exercícios físicos e as leituras prévias para as aulas da pós. Eu ainda tenho conseguido me disciplinar para acordar cedo e cumprir essas metas. Eu sei, faz uma semana que estou nisso e pode ser que amanhã venha tudo por água à baixo, mas nessa semana me senti produtiva como não me sentia a meses, como se agora houvesse um propósito em acordar cedo.

Pode ser que eu não passe no concurso e sei que isso vai me deixar bastante triste, mas pelo menos estou vendo que sou capaz de me disciplinar para realizar atividades que eu quero, coisa que achava impossível até semana passada.

24 de março de 2017

O que é demais também faz mal

Amor demais também faz mal, sufoca.

Eu amo minha família, amo meus amigos, amo mesmo, mas às vezes eles me fazem mal. Hoje minha mãe estava estressada e descontou em mim seu nervosismo, como eu já fiz tantas vezes com ela e venho me policiando para não repetir, ela disse algumas palavras bastante duras, que machucaram. O amor incondicional nos permite esse tipo de interação, mas isso não quer dizer que quando o machucado ocorre ele não doa, pelo contrário, ele pode até doer mais. Ela quer o melhor para mim e às vezes coloca isso de forma bem brusca e sem tato.

Além disso é bastante comum eu escutar julgamentos sobre o que faço ou deixo de fazer, se saio sempre dizem que estou saindo demais, se saio menos dizem que preciso sair mais. Se ajudo minha avó minhas tias fiscalizam e julgam tudo o que faço, geralmente não contentes comigo porque o amor pela mãe é maior, mas se não ajudo, é porque sou desnaturada. Mesmo com a minha mãe é assim. A impressão que tenho é aquela típica de adolescente rebelde: nada do que eu faço nunca está bom.Mas eu sei que elas não fazem por mal, elas só querem meu bem, só não sabem direito o que é esse "bem".

Meu irmão sempre tem dicas ótimas de como eu deveria me portar, o que deveria fazer, como falar, tudo baseado nas experiências dele, uma pessoa absolutamente diferente de mim, mas o amor que ele me tem faz com que ele se sinta na obrigação de dar tais dicas. Ele quer que eu seja feliz, e eu entendo isso, mas ele esquece que feliz é um termo relativo e o caminho de cada um é diferente.

Minhas amigas agora não podem escutar eu falar um nome masculino que já ficam esperando um desfecho romântico, querem de todas as formas que eu tenha algum envolvimento do tipo e esperam ansiosas, sentadas na primeira fila, fazendo aquelas gracinhas de tia chata que não tem graça nenhuma e só cansam. Elas não querem ser chatas, só esperam que eu encontre um amor, como elas encontraram, elas só esquecem que eu sou tenho uma bagagem diferente, um tempo diferente e um gosto diferente.

Todos me amam e eu amo à todos, mas as vezes sinto como se ser quem eu sou fossem um grande problema para todos e ninguém pudesse aceitar isso, sempre buscando meios de me mudar um pouco. Isso faz com que eu me sinta desconfortável perto deles, como se eu tivesse que me policiar sobre o que eu digo, ou o que eu faço, porque pode ressaltar aquilo que eles querem mudar e trazer aqueles comentários desagradáveis sobre mim. Então para respirar bem eu preciso estar sozinha, me isolar um pouco, porque essas interações me sugam a energia e a auto-estima. Eu não quero me sentir assim, desgostosa comigo mesma, então me afasto daqueles que eu amo, porque o amor deles, talvez por ser demais, me faz mal.

15 de março de 2017

Medo de que?


A gente vive na expectativa de ser feliz, de que dias melhores virão, talvez até de que exista um sentido maior em tudo isso. E eu não me assusto muito com meus fracassos... quer dizer, tenho medo do futuro, já sabemos que sou bem medrosa, mas, de vez em quando, me deparo com a possibilidade de outras pessoas viverem suas vidas infelizes, ou pior, se conformando com suas realidades e isso me pegou de jeito.

Minha mãe não é uma fonte confiável, na verdade ela tira muita coisa da cabeça dela e assume como realidade sem ser, mas ela assumiu que meu irmão não ama a esposa dela. Ela disse que acha que eles só estão juntos porque tem uma criança no meio, que ela é apaixonada por ele, mas que ele não ama ela, apenas está ali tentando fazer o casamento funcionar. Eu sei que além de tudo ele é o filho favorito, que ela pode, e provavelmente está, viajando, mas e se não estiver? A ideia de ela estar certa me partiu o coração, me apavorou de uma forma que eu não sabia ser possível. A mera possibilidade de meu irmão ser infeliz me dá vontade de chorar. Por um lado, isso mostra o quanto eu o amo de verdade, as vezes o amor fraternal é testado gente. Por outro lado me mostra o quanto eu talvez ainda precise amadurecer.

Eu fico triste com a possibilidade de vida sobrevivida do meu irmão e também com a ideia de ele terminar com a esposa dele e ter que dividir a guarda do filho. A primeira é realmente triste e talvez eu deva conversar com ele, porque pode ser que o medo dele seja a segunda coisa. No caso da segunda coisa... Términos acontecem, hoje em dia eu tenho muita dificuldade em acreditar em um amor tão longo quanto o dos nossos avós, acredito em vários amores de verdade, se for um só é lindo, mas se for mais de um tudo bem, vai ser lindo também. A guarda dos filhos pode ser trabalhada, é doído, mas será que vale a pena? Sobreviver sua vida dessa forma? Se a separação for feita em paz é possível os filhos ficarem bem, hoje em dia isso é até comum e não é melhor assim? Talvez com os pais mais felizes, os filhos fiquem mais felizes.

Meus pais passaram a vida toda juntos e brigavam muito, mas se amavam. Já eu não sei se poderia viver assim, nesse campo de batalha. Eu preciso de discussões, mas preciso mais de risadas, paz. Em todo caso eles viviam assim e não apenas sobreviviam, entende? Eles tinham uma atitude ativa perante a vida deles e não passiva. Eu não gosto da passividade. E eu sei que isso é paradoxal, já que eu sou bastante passiva. Eu preciso ser mais ativa. Eu preciso conversar com meu irmão.

19 de fevereiro de 2017

Forte como o amor





Gustavo era professor de cursinho, tinha uma didática genial, um amor pela literatura que cativava até seus alunos mais relutantes, ele realmente amava aquilo que fazia e isso é o tipo de coisa que sempre conquista os alunos. Além disso, não o atrapalhava o fato de ele ser bem bonito. As alunas sempre falavam sobre ele nos corredores, seus “olhos castanhos intensos”, “aquelas covinhas”, “e ele é tão inteligente!”... Melissa nunca ligou muito para ele, tinha como regra não se apaixonar por professores, porque foi assim que começou o relacionamento de seus pais e não deu nada certo, era o suficiente para que ela quisesse distância de professores. 

Mas ela não era cega, e quando ele entrou na sala a primeira vez ela sofreu uma perda de memória momentânea... Ele era realmente bonito. Ela logo se recuperou e já no final daquela aula ela estava bem o suficiente para ir tirar dúvidas e discutir opiniões. O tempo passou e a relação entre os dois ficou mais amistosa, ele era simpático e ela curiosa, só. Mas antes do meio do semestre as más línguas corriam dizendo que Melissa e Gustavo tinham um caso. Era comum professores e alunas se entrosarem, elas era maiores de idade, eles não davam nota nem nada, mas ela nem se quer considerava aquela possibilidade, não que ele não pudesse se interessar por ela, ela tinha plena consciência de que isso era possível, ela só achava que esse não era o caso. Então ela ria, ficava levemente lisonjeada e dizia que “esse povo precisa arranjar o que fazer”. 

Foi no final do primeiro semestre que ela percebeu que estava errada. Em uma balada de encerramento de semestre em que os professores e alunos se juntavam para se divertir ela se surpreendeu com a aproximação de Gustavo. Eles se esbarraram e conversaram um pouco entre as batidas da música alta, foi quando ele disse em seu ouvido que ela era linda e Melissa fraquejou.
 Ela estava sozinha há muito tempo, então naquela noite, quando Gustavo lhe chamou de “linda” seu coração derreteu um pouco. Ele era bonito e divertido e seria fácil ficar com ele, mas aquilo não lhe parecia certo, além de não querer repetir a história de seus pais, ela simplesmente não achava aquilo correto porque ele era o professor dela. Assim, ela se afastou dele e no começo do semestre seguinte fingiu que nada havia passado.  

O problema começou aí. Ela não tinha a mínima intenção de se apaixonar por ele, aliás, essa era a última coisa que ela gostaria de sentir por ele, mas ele era um cara apaixonável e era fácil se encantar com ele, ainda mais quando ele dedicava tanta atenção a ela. Eles conversavam ao fim da aula, ele emprestou livros a ela, eles almoçaram juntos, ela sugeriu filmes a ele, eles trocaram mensagens sobre os livros e filmes e quando veio o vestibular e ela foi aprovada até sentiram uma pontinha de tristeza, porque agora eles não fariam mais parte da vida um do outro.
Mas o destino daquele amor já estava traçado e não seria tão simples assim fugir dele.