30 de janeiro de 2017

Os paralelos da vida

Eu não tenho uma relação com a minha mãe como a da Rory com a Lorelai, nossa relação é muito mais parecida com a da Lorelai e da Emily, e tudo bem. Eu não esperava que rolassem muitas semelhanças entre nós, primeiro porque temos dez anos nos separando, estamos em países diferentes e a minha vida é real. Mas todo personagem é no mínimo baseado na vida real e consideradas as diferenças eu me encontro em um lugar muito semelhante a Rory quando a série acabou (antes de ser continuada pela Netflix), o que me levou a repensar um pouquinho minha vida.

Eu acabei de me formar e estou vendo meus amigos darem certo, serem contratados e começando a trabalhar, ou estudando para outras coisas e eu estou aqui meio perdida. Eu não consegui um emprego ainda e isso aumenta um pouco a sensação de estar perdida. Eu sei que uma fase da minha vida se acabou e outra está começando, mas não teve uma linearidade, teve um ruptura. Isso não é necessariamente ruim, mas abre espaço para que eu faça planos demais sem embasamento algum, porque meus pés se recusam a ficar só no chão, e ao mesmo tempo repensar minha escolha pelo Direito. Vendo a Rory feliz com jornalismo, um curso que eu tinha muita vontade de fazer, eu fico um pouco balançada, não me arrependo do Direito, mas fico querendo correr dele para o jornalismo. 

Minha melhor amiga, ou pelo menos uma das minhas três melhores amigas, está indo para o Japão e vai ficar por lá por pelo menos dois anos. Isso dá um medo! Eu sei que com as tecnologias de hoje fica muito mais fácil manter contato, já fizemos isso por um ano com uma outra de nós quatro, mas ainda assim dá medo. Medo de perder ela na loucura que é a vida, de que ela me perca nessa loucura, e eu nunca tive uma irmã, mas essas três meninas são para mim definitivamente o mais parecido com uma irmã que existe.

É um pouco assustador crescer, seguir nossos caminhos e escolhas, por mais que esteja fazendo isso há algum tempo mais ou menos sozinha, parece que está mais perto, mais sério, mais real. Eu tenho o apoio da minha família, a paciência deles, mas sabe quando você sente que está ali? Na beira do precipício, prestes a dar um passo no escuro e não tem certeza do que existe lá embaixo, ou do que pode acontecer? Então.

26 de janeiro de 2017

Na Paulista

Vai vendo a burguesinha. Ontem marquei de encontrar uns amigos em uma hamburgueria na Oscar Freire. Mas como burguesa pobre que sou, saí mais cedo de casa e peguei um ônibus para ir à Paulista, onde iria descer, recarregar meu Bilhete Único e seguir a pé para a Hamburgueria. Qual a minha surpresa quando no ponto antes da Paulista percebi trânsito?! Descolada que sou já imaginei que, por ser feriado, a Paulista estava fechada para carros. Desci do ônibus sentindo um misto de chateação, por não ter lembrado disso mais cedo e, portanto, não ter desfrutado disso, e de alegria, por saber que agora iria caminhar pela Paulista Aberta, em um fim de tarde de verão delicioso.


Andando pela rua com um sorriso nos lábios e o celular na mão fui tirando algumas fotos, tentando guardar aquele momento. Por alguma razão eu sentia uma alegria imensa de estar ali. Eu estava andando no meio da rua, vestindo meu vestido favorito e um Keds. Eu estava me sentindo bonita, confortável, segura. Olhava para os lados e via todo tipo de gente, homens adultos andando de Skate, crianças correndo, meninas com o mini cruiser, meninos de patins, famílias de bicicleta... havia todo tipo de gente praticando todo tipo de esporte. Eu vi muito mais deficientes físicos passeando com suas cadeiras de rodas do que estou acostumada, porque nunca vejo nenhum e naquela hora passeando vi uns quatro. Haviam casais homossexuais de homens e mulheres, famílias com pais heterossexuais, mães e filhos/filhas, em algumas famílias tínhamos três gerações de mãos dadas.


Eu ia andando e observando essa pluralidade, tão típica de São Paulo, com um sorriso no rosto, porque é ao mesmo tempo tão raro encontrar tantas tribos diferentes em harmonia, apenas se divertindo, aproveitando as bandas que fazem shows de graça nas calçadas. Bandas com sons e composições tão diferentes, mas sempre com uma parte do público em comum: os moradores de rua. Cada apresentação contava com um público cercando os músicos, gente de pé ou sentada no chão, que passava e resolvia parar para escutar a arte e em cada púbico sempre havia moradores de rua que se empolgavam, dançavam, cantavam ou mesmo só sentavam e escutavam. Isso era o mais bonito. E era, é bonito, porque são pessoas que só tem acesso a qualquer tipo de cultura ou mesmo cidadania nesses eventos gratuitos. É quando todos são iguais, quando eles tem direito à música, à rua tanto quanto qualquer outro. E aqueles músicos percebem isso também, gostam também dessa igualdade momentânea, de proporcionar essa felicidade para todo mundo. 


Em um mundo em que Trump é presidente dos Estados Unidos e João Dória apaga os grafites e a cor de São Paulo, essa tarde na Paulista foi bastante encorajadora.


25 de janeiro de 2017

Menina de branco


A banda tocava Johnny Cash, ele cantava e tocava a guitarra principal. Era mais um desses fins de tarde em que a banda se junta em uma esquina e toca um pouco de rock/country/o que der vontade. Eles se divertiam, ganhavam uns trocos e ainda viam os sorrisos nos rostos daqueles que passavam, daqueles que paravam para ver e daqueles que que moravam ali na rua mesmo e só conseguiam se divertir quando uma banda assim tocava de graça. Esses últimos eram os que mais davam satisfação de agradar.

Naquele fim de tarde um menino, já bastante bêbado sentou-se em frente a banda e ao público e começou a tocar a gaita que trazia no bolso. Ele achava que tocava e a banda deixava ele achar. Um colega morador de rua dividia a pinga com o tocador de gaita e mais outro senhor de rua que dançava com toda a vontade e todo à vontade. Os três se divertiam em frente a banda e divertiam o público que parava para assistir o show. Victor observava os artistas à sua frente e não conseguia não sorrir entre um acorde e um verso. Um sorriso de quem gosta de proporcionar aquilo e também de quem gosta do que vê, de quem acha graça.

Foi rindo deles que ele viu ela. Seu cabelo cacheado caindo pelos ombros, o riso solto e o vestido esvoaçando com o vento. Ele a viu chegando de longe, quase em câmera lenta, atraída pela música. Ela trazia um sorriso nos lábios que virou riso assim que viu os três dançarinos embriagados. Ela estava no fundo, atrás de alguns observadores, mas ele pode jurar que seus olhos se cruzaram enquanto os dois riam. Ela, dos dançarinos, ele, de si mesmo. Por entre um acorde e outro achar que estava apaixonado por uma menina de vestido branco e olhos sonhadores que havia visto entre seu público por alguns segundos. Ela se demorou um pouco mais, filmou os dançarinos e o gaitista extra, filmou a banda e encostou-se ao poste com um sorriso nos lábios enquanto via o show.

Ele podia jurar que, ali parada, ela o observava também, sonhou que aquele sorriso dela era para ele e ao fim da segunda música, que ela escutou, ele anunciou uma pausa. Era sua chance, ele iria correr, se apresentar e logo menos ela estaria tão apaixonada por ele quanto ele já estava por ela. Ele se levantou e olhou para o poste, mas ela já não estava ali. Victor olhou ao redor a procurando, ela não devia estar longe, ela tinha que esperar ele poder fazer ela se apaixonar! Mas já era tarde. Ela tinha o passo leve e descia a rua cada vez mais rápido, sozinha com seu vestido branco esvoaçando ao vento. Ele pensou em correr até ela, mas o momento já havia passado e outras pessoas pediam sua atenção.

Ele nunca ia saber e talvez nem significasse nada, mas o sorriso dela era para ele.           

11 de janeiro de 2017

Formatura

Eu achei que a ficha ia cair no dia da colação, mas quando cheguei em casa depois da cerimônia não tinha sentido que um ciclo havia se encerrado ainda, então achei que devia fazer aquilo que sempre me ajuda a superar as fases da vida: escrever.

Imaginei que sentiria várias coisas nesse dia, a começar pela falta do meu pai, mas, para falar a verdade, ele nem passou na minha cabeça, talvez porque ele nunca ia nessas cerimônias de qualquer jeito. Em compensação, meu irmão fez questão de ir e isso encheu meu coração de calor. Quando vi ele entrando no auditório fiquei agradecida por ele estar lá, orgulhosa de que meu irmão estava lá, feliz. Minha mãe atrasou e chegou com as minhas tias e minha avó no meio da cerimônia, o que me estressou bastante, mas de forma geral eu sinto um enorme agradecimento, não por ela ter comparecido, mas porque sem ela eu jamais teria feito aquela faculdade e não estaria ali me formando.

Eu sinto que com meu diploma vem algum tipo de responsabilidade de honrá-lo, e a ideia de não seguir essa carreira, ao mesmo tempo que me passa a sensação de liberdade, me passa a sensação de que eu não estou cumprindo o legado que me foi passado. Eu sou parte da elite intelectual do país, eu deveria sair na rua com meu diploma de Direito, uma área tão essencial para a democracia, e fazer justiça nos quatro cantos desse país. Deveria trabalhar em prol dos direitos humanos, participar de resistências e revoluções, mas eu só tenho pensado em arrumar um emprego que me sustente, sustente meu estilo de vida burguês e me possibilite, quem sabe, sair do país mais tarde. Não me parece justo. Sinto como se eu mal tivesse recebido o diploma e já estivesse disposta a jogá-lo no lixo.

Não me leve a mal, eu aprendi coisas incríveis na faculdade, foram alguns dos melhores anos da minha vida, como o clichê sempre disse que seria, mas os estágios me mostraram que fazer justiça é burocrático, é custoso e demorado. Foi na faculdade de direito que eu entendi porque as injustiças se perpetuam e, ao mesmo tempo, o valor da justiça, o peso. E eu sei que se pessoas como eu abandonarem o direito ele nunca vai mudar. E eu quero que ele mude. Mas não sei se estou disposta a ser parte dessa mudança.

Eu me formei, eu tenho muito orgulho do meu diploma e vou carregar os conhecimentos adquiridos sempre comigo, se não na pasta para encontrar o próximo cliente, no coração.

8 de janeiro de 2017

Afinal, o que é um sonho?


"Sonhos sempre serão sonhos, pois mesmo quando os realizamos, ao realizar transformamos em realidade e a realidade acaba com a magia de qualquer sonho" - Professor Dutra

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Essa frase do meu professor ficou forte em mim principalmente porque acho que vivi algo do tipo: eu sempre quis ver um show da dupla Sandy&Júnior, era louca por eles quando criança e então, na pré adolescência, quando já não me importava mais com eles e quando gostar deles era "mico", porque eles "eram coisa de criança", eu tive a oportunidade de ver um show dele, curto, mas ainda assim. Eu lembro que estava muito perto do palco e com uma prima e uma amiga que achavam engraçado zoar os artistas que elas não gostavam muito, entre eles a dupla. Elas chamaram a Sandy de baixinha, o que ela deve ser mesmo, mas lá estava eu, rindo das zoações com a dupla, com aqueles que foram meus ídolos, enquanto eles cantavam as músicas que fizeram minha infância. Depois que o show acabou e eu já estava no carro de volta para casa me dei conta de que havia realizado um sonho de infância e que eu não só não percebi quando o realizei, como ainda não desfrutei e até hoje isso dói um pouco. Então quando meu professor de literatura do primeiro colegial falou essa frase eu a guardei.

Eu coloquei essa frase aqui porque hoje, numa dessas correntes da internet, havia uma pergunta sobre se eu já realizei algum sonho e eu travei. Eu não soube o que responder e comecei a me questionar sobre o que é um sonho, afinal?

Quando eu era pequena minha amigas falavam que eu era muito sonhadora, acho que minha mãe também falou isso algumas vezes e quando vi eu me definia assim, elas me definem assim até hoje e eu também, mas por quê? Sonhar é querer uma coisa durante muito tempo? Como ver um show dos seus artistas favoritos? Ou precisa ser algo muito grande e quase impossível como casar com o Brad Pitt, ou ser uma cantora nível Beyoncé? Com o tempo eu fui parando de fazer sonhos do tipo ~ ser adotada pela Angelina Jolie mesmo não sendo orfã ~ e passei a ter alguns objetivos de vida mais palpáveis como me formar na faculdade, ter uma família e uma condição social favorável, mas isso se configura sonho?

Minha mãe sempre quis reformar minha casa, desde que ela comprou, há 20 anos atrás, ela também sempre quis conhecer o nordeste e viajar de cruzeiro. São coisas que eu já a ouvi falando mais de uma vez, que ela vem tentando fazer, ou surgem em uma conversa do tipo "com que gastar dinheiro". Ela tem 65 anos e ao mesmo tempo que essas coisas que ela sempre quis são pequenas, são algo que ela sempre quis e por alguma razão nunca fez, então será que eu posso dizer que esses são os sonhos dela? Eu tenho para mim que sim, que são os sonhos dela agora, que talvez quando criança fossem outros, mas agora são esses. E eu quero pensar assim por um simples motivo: esses sonhos simples são sonhos que eu posso ajudar a realizar. 

Então talvez ~ namorar o Chris Hemsworth ~ não seja um sonho, seja uma fantasia, enquanto assistir aquele show, que quis durante muito tempo, mas nunca deu certo, é um sonho. Eu vi um show da dupla Sandy&Júnior. Eu realizei um sonho. Eu vi a neve, viajei para o exterior, conheci algumas cidades do nordeste e comprei um iPhone, passei a noite em claro e várias outras coisinhas, pequenos sonhos realizados e tem muitos mais, que eu vou realizando aos poucos. Porque eu prefiro pensar que sonhos são coisas possíveis que eu quero muito que aconteçam, com todo meu coração, assim todo mundo pode um dia realizar um sonho.



6 de janeiro de 2017

Laura e Miguel

-Você já encontrou o Miguel?- perguntou sua mãe fingindo um tom casual.


Miguel. Esse não era o nome de um anjo? 


-Algumas vezes, o necessário para ter uma filha com ele - retrucou Laura com sarcasmo, sua mãe revirou os olhos - não mãe, não desde que ele se mudou para o Rio.


-Então você não falou com ele depois que ele voltou? - Laura abriu a boca para falar, mas sua mãe continuou - ele falou para você que estava voltando? Ele deve ter falado pelo menos para a Sofia! 


-Sim, ele avisou, mas eu não o encontrei, apenas nos falamos por telefone - respondeu Laura, mais para que sua mãe parasse com o questionário do que qualquer outra coisa.


-Ele é um menino lindo, uma pena que seja tão irresponsável. Talvez se vocês tivesse se casado ele seria mais adulto - Laura revirou os olhos. Oito anos das mesmas ladainhas, quem disse que o tempo muda as coisas? - Mas ele sabe ser charmoso, não sabe?


-Uma das razões pelas quais eu engravidei da Sofia, mãe - retrucou Laura em um tom ácido, sua mãe ignorou seu comentário deliberadamente

-Quando ele chegou hoje trouxe flores! Flores! Fazia anos que eu não ganhava flores!


-Espera, o Miguel está aqui? - perguntou Laura sentindo seu coração pular uma batida.


-Sim, eu não acabei de te dizer que ele voltou para São Paulo? - respondeu sua mãe em um tom impaciente.


-Você não disse que ele estava AQUI!

 

-Mas é claro que sim, eu não poderia deixar de convidar ele para a festa! Isso seria falta de educação! 


-Eu preciso ir no banheiro - disse Laura sem dar tempo para sua mãe responder.


Ela seguiu pelo corredor até entrar em seu antigo quarto e fechou a porta ao passar, mesmo sabendo que ninguém entraria ali. Seguiu para o banheiro e fechou a porta mais uma vez. Ela não queria usar o banheiro, só queria um minuto sem escutar a voz de sua mãe, sem escutar seus monólogos sobre o Miguel e, principalmente, Laura precisava de um minuto sozinha antes de se encontrar com ele. Um minuto para se preparar para encontrar aquele homem que tinha uma resposta para todas as suas tiradas, que quando sorria fazia ela se sentir a mulher mais especial do mundo, que sabia perfeitamente o efeito que tinha sobre ela e que por isso se deliciava brincando com seu charme. Miguel podia ser um nome de anjo, mas aquele Miguel não tinha nada de angelical.


3 de janeiro de 2017

365 chances

Hoje ao descer do ônibus, quando estava voltando de uma entrevista de emprego, começou a tocar uma música no meu celular. Eu se quer lembro qual era a música, mas lembro perfeitamente do sentimento que me invadiu. Eu me senti feliz.

 Eu desci do ônibus me sentindo feliz, sentindo que tudo daria certo, que mesmo se não fosse o emprego daquela entrevista, eu acharei um emprego bom para mim. Eu vou começar a pagar as minhas contas quando isso acontecer, minhas despesas e algumas coisas que minha mãe paga para mim.Se eu conseguir um emprego logo vou juntar dinheiro para uma viagem com a minha mãe, e outra sozinha, e para meu intercâmbio... apesar de que agora já não sei como ele vai ser direito, se mestrado ou um semestre fora na especialização.

E também quero fazer uma atividade física, o certo seria natação, mas está na hora de eu parar de adiar a minha aula de luta, que eu quero fazer desde pequena. E vou fazer minha tatuagem de flor de lótus esse ano, agora consigo visualizar ela melhor: o contorno, com uns desenhos nas pétalas, uns pontilhados caindo dela e no fundo aquarela azul, rosa e amarela. Quero fazer na costela, mais perto do seio, mudei de ideia de fazer nas costas, ainda não tenho certeza do porque, mas parece certo onde eu quero colocá-la agora.

Talvez eu compre um patins, talvez eu ande mais de skate e bicicleta, deixe de ser tão preguiçosa. Estou já me organizando para comer uma fruta por dia, e quero comer mais salada também, escrever mais, ler mais, fazer mais exercícios, comer menos salgadinhos e fazer mais coisas com as próprias mãos: comidas, bloquinhos, utilidades quaisquer. Quero que em 2017 eu leia mais livros em inglês para melhorar minha escrita nessa língua e se for o caso até fazer umas aulinhas, pois quero também fazer o IELTS e tentar algumas bolsas de estudos por aí com ele. Quero ainda continuar a terapia, manter meu peso, entrar menos no Facebook e passear mais com a minha cachorra.

São muitos planos, a maior parte pequenos, mas se eu conseguir realizar todos eles terei tido um ano com uma qualidade de vida melhor do que os outros e no fim é isso que a gente quer, né?