11 de janeiro de 2017

Formatura

Eu achei que a ficha ia cair no dia da colação, mas quando cheguei em casa depois da cerimônia não tinha sentido que um ciclo havia se encerrado ainda, então achei que devia fazer aquilo que sempre me ajuda a superar as fases da vida: escrever.

Imaginei que sentiria várias coisas nesse dia, a começar pela falta do meu pai, mas, para falar a verdade, ele nem passou na minha cabeça, talvez porque ele nunca ia nessas cerimônias de qualquer jeito. Em compensação, meu irmão fez questão de ir e isso encheu meu coração de calor. Quando vi ele entrando no auditório fiquei agradecida por ele estar lá, orgulhosa de que meu irmão estava lá, feliz. Minha mãe atrasou e chegou com as minhas tias e minha avó no meio da cerimônia, o que me estressou bastante, mas de forma geral eu sinto um enorme agradecimento, não por ela ter comparecido, mas porque sem ela eu jamais teria feito aquela faculdade e não estaria ali me formando.

Eu sinto que com meu diploma vem algum tipo de responsabilidade de honrá-lo, e a ideia de não seguir essa carreira, ao mesmo tempo que me passa a sensação de liberdade, me passa a sensação de que eu não estou cumprindo o legado que me foi passado. Eu sou parte da elite intelectual do país, eu deveria sair na rua com meu diploma de Direito, uma área tão essencial para a democracia, e fazer justiça nos quatro cantos desse país. Deveria trabalhar em prol dos direitos humanos, participar de resistências e revoluções, mas eu só tenho pensado em arrumar um emprego que me sustente, sustente meu estilo de vida burguês e me possibilite, quem sabe, sair do país mais tarde. Não me parece justo. Sinto como se eu mal tivesse recebido o diploma e já estivesse disposta a jogá-lo no lixo.

Não me leve a mal, eu aprendi coisas incríveis na faculdade, foram alguns dos melhores anos da minha vida, como o clichê sempre disse que seria, mas os estágios me mostraram que fazer justiça é burocrático, é custoso e demorado. Foi na faculdade de direito que eu entendi porque as injustiças se perpetuam e, ao mesmo tempo, o valor da justiça, o peso. E eu sei que se pessoas como eu abandonarem o direito ele nunca vai mudar. E eu quero que ele mude. Mas não sei se estou disposta a ser parte dessa mudança.

Eu me formei, eu tenho muito orgulho do meu diploma e vou carregar os conhecimentos adquiridos sempre comigo, se não na pasta para encontrar o próximo cliente, no coração.

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