19 de fevereiro de 2017

Forte como o amor





Gustavo era professor de cursinho, tinha uma didática genial, um amor pela literatura que cativava até seus alunos mais relutantes, ele realmente amava aquilo que fazia e isso é o tipo de coisa que sempre conquista os alunos. Além disso, não o atrapalhava o fato de ele ser bem bonito. As alunas sempre falavam sobre ele nos corredores, seus “olhos castanhos intensos”, “aquelas covinhas”, “e ele é tão inteligente!”... Melissa nunca ligou muito para ele, tinha como regra não se apaixonar por professores, porque foi assim que começou o relacionamento de seus pais e não deu nada certo, era o suficiente para que ela quisesse distância de professores. 

Mas ela não era cega, e quando ele entrou na sala a primeira vez ela sofreu uma perda de memória momentânea... Ele era realmente bonito. Ela logo se recuperou e já no final daquela aula ela estava bem o suficiente para ir tirar dúvidas e discutir opiniões. O tempo passou e a relação entre os dois ficou mais amistosa, ele era simpático e ela curiosa, só. Mas antes do meio do semestre as más línguas corriam dizendo que Melissa e Gustavo tinham um caso. Era comum professores e alunas se entrosarem, elas era maiores de idade, eles não davam nota nem nada, mas ela nem se quer considerava aquela possibilidade, não que ele não pudesse se interessar por ela, ela tinha plena consciência de que isso era possível, ela só achava que esse não era o caso. Então ela ria, ficava levemente lisonjeada e dizia que “esse povo precisa arranjar o que fazer”. 

Foi no final do primeiro semestre que ela percebeu que estava errada. Em uma balada de encerramento de semestre em que os professores e alunos se juntavam para se divertir ela se surpreendeu com a aproximação de Gustavo. Eles se esbarraram e conversaram um pouco entre as batidas da música alta, foi quando ele disse em seu ouvido que ela era linda e Melissa fraquejou.
 Ela estava sozinha há muito tempo, então naquela noite, quando Gustavo lhe chamou de “linda” seu coração derreteu um pouco. Ele era bonito e divertido e seria fácil ficar com ele, mas aquilo não lhe parecia certo, além de não querer repetir a história de seus pais, ela simplesmente não achava aquilo correto porque ele era o professor dela. Assim, ela se afastou dele e no começo do semestre seguinte fingiu que nada havia passado.  

O problema começou aí. Ela não tinha a mínima intenção de se apaixonar por ele, aliás, essa era a última coisa que ela gostaria de sentir por ele, mas ele era um cara apaixonável e era fácil se encantar com ele, ainda mais quando ele dedicava tanta atenção a ela. Eles conversavam ao fim da aula, ele emprestou livros a ela, eles almoçaram juntos, ela sugeriu filmes a ele, eles trocaram mensagens sobre os livros e filmes e quando veio o vestibular e ela foi aprovada até sentiram uma pontinha de tristeza, porque agora eles não fariam mais parte da vida um do outro.
Mas o destino daquele amor já estava traçado e não seria tão simples assim fugir dele.

15 de fevereiro de 2017

O infinito mora ao lado



           

O céu parece infinito da janela de um avião. Tão infinito quanto aqueles dois anos que estavam começando naquela manhã. O que ela sentia não era arrependimento, era medo. Ela olhava pela janela do avião e via o sol nascendo, quase como uma metáfora da sua nova vida que estava começando, e pensava em tudo aquilo que evitou pensar até então: deixar sua família, seus amigos, viver em outro país, não falar a língua, viver sozinha com o namorado... Tudo a apavorava. Se bem que essa última era a menor de suas preocupações, na verdade era quase um conforto.

Ele estava sentado ao lado dela naquele momento e dormia um sono pesado de quem ficou a noite toda jogando vídeo game. Ele parecia tão em paz. O tempo todo ele ficou tranquilo, durante toda a preparação da viagem, quase como se eles não estivessem indo para o Japão passar dois anos, ou mais, trabalhando, e sim uma semana turistando. Esse pensamento lhe irritou um pouco, porque para ele era tão fácil e para ela tão difícil? Ela sabia que não era bem assim, mas preferia pensar que sim, ficar brava com ele era mais simples do que pensar nos seus medos.

E ao mesmo tempo havia a ansiedade e a animação de estar se mudando para outro país, viver experiências inéditas, conhecer lugares diferentes e pessoas novas. Mesmo sabendo tudo que poderia dar errado ela ainda sentia aquela ponta de animação. Era como se o medo e a animação disputassem espaço em seu coração e cada hora um saía vencedor. Ela sabia que passaria por apertos, sabia que em algum momento a saudade chegaria a doer fisicamente, que haveriam ligações de madrugada para as amigas, conversas chorosas com a mãe e gritos com o namorado, porque era nele que ela poderia descontar seu stress, já que ele estaria ali ao seu lado. Ele resolveu vir junto, agora tinha que aguentar... Mas que bom que ele estava ali.

Que bom que eles estavam indo, quem bom que existe Whatsapp, Skype, Facetime, Facebook, que bom que ela já tinha um pedacinho de família lá, esperando para lhe dar amor assim que ela chegasse e que bom que foram feitas promessas de visitas, nem que fosse uma horinha para abraçar e ser abraçada, chorar e sorrir, isso já seria o suficiente. Que bom que ela teve a coragem de arrumar a mala e entrar no avião, de olhar pela janela e poder ver aquele céu infinito.

Ela não percebia, nunca confiou muito na própria força, mas trazia dentro do peito um leão que a ajudava a sobreviver a todas as dificuldades, essa (de passar dois anos no Japão) era só mais uma e logo viraria apenas uma história engraçadinha para se contar nos finais de semana com as amigas no Guarujá.

14 de fevereiro de 2017

Algumas histórias para contar


Acabei de ler um livro sobre os sonhos que temos quando adolescentes e como nunca, ou quase nunca os realizamos. Eu sei que muitas vezes isso se dá porque conforme o tempo passa mudamos de opiniões e nossos sonhos vão se adequando a nova realidade, mas eu, apegada ao passado como sou, fiquei pensando se ainda existe em mim aquela menina de 13 anos que queria ser atriz e escritora.

Eu tenho me autosabotado na escrita dia após dia. Eu tenho medo de encarar a página em branco do Word, então já nem abro novos documentos. E não é um medo da escrita em geral, só da escrita que eu mais quero: os romances. Eu escrevo bem, eu sei disso, já me disseram isso por diversas vezes, mas cada vez que vou começar uma história entro em crise com a minha criatividade. A escrita é boa, mas será que a história a ser contada também é? Eu tenho medo de escrever uma história igual à centenas de histórias por aí, eu complico demais a história e aí não consigo colocar no papel, eu monto a história na minha cabeça sem nenhum clímax (essa é a mais comum!) ou ainda, eu simplesmente fico com preguiça de colocar minha história no papel. Preguiça que esconde o medo de mais uma vez abrir um documento do Word, começar a história e nunca terminar, porque no meio dela comecei achar ruim, ou chata. Eu fico sentada na minha cadeira, lembrando das palavras do livro do Stephen King sobre a escrita, palavras que reforçam a necessidade de disciplina e foco, e fico esperando que em algum momento mágico eu vou encontrar essas coisas e terminar meu livro, nem que seja um bem ruim, mas completo. Mas mesmo enquanto escrevo isso já me apavoro com a ideia de escrever um livro ruim, eu não quero escrever um livro ruim, as críticas negativas, se eu achá-las pertinentes, vão me matar. O que é surreal é que eu sei que jamais vou concordar com as críticas que virão, porque se eu mostrar alguma coisa para o mundo vai ser algo no qual eu confie.... eu não sei qual é meu problema. De onde vem esse medo da reação do público?!?!?!

E eu vou me sabotando assim, ficando sem seguir meus sonhos, me distraindo com as histórias dos outros enquanto as minhas se acumulam na minha cabeça e no meu coração.