15 de fevereiro de 2017

O infinito mora ao lado



           

O céu parece infinito da janela de um avião. Tão infinito quanto aqueles dois anos que estavam começando naquela manhã. O que ela sentia não era arrependimento, era medo. Ela olhava pela janela do avião e via o sol nascendo, quase como uma metáfora da sua nova vida que estava começando, e pensava em tudo aquilo que evitou pensar até então: deixar sua família, seus amigos, viver em outro país, não falar a língua, viver sozinha com o namorado... Tudo a apavorava. Se bem que essa última era a menor de suas preocupações, na verdade era quase um conforto.

Ele estava sentado ao lado dela naquele momento e dormia um sono pesado de quem ficou a noite toda jogando vídeo game. Ele parecia tão em paz. O tempo todo ele ficou tranquilo, durante toda a preparação da viagem, quase como se eles não estivessem indo para o Japão passar dois anos, ou mais, trabalhando, e sim uma semana turistando. Esse pensamento lhe irritou um pouco, porque para ele era tão fácil e para ela tão difícil? Ela sabia que não era bem assim, mas preferia pensar que sim, ficar brava com ele era mais simples do que pensar nos seus medos.

E ao mesmo tempo havia a ansiedade e a animação de estar se mudando para outro país, viver experiências inéditas, conhecer lugares diferentes e pessoas novas. Mesmo sabendo tudo que poderia dar errado ela ainda sentia aquela ponta de animação. Era como se o medo e a animação disputassem espaço em seu coração e cada hora um saía vencedor. Ela sabia que passaria por apertos, sabia que em algum momento a saudade chegaria a doer fisicamente, que haveriam ligações de madrugada para as amigas, conversas chorosas com a mãe e gritos com o namorado, porque era nele que ela poderia descontar seu stress, já que ele estaria ali ao seu lado. Ele resolveu vir junto, agora tinha que aguentar... Mas que bom que ele estava ali.

Que bom que eles estavam indo, quem bom que existe Whatsapp, Skype, Facetime, Facebook, que bom que ela já tinha um pedacinho de família lá, esperando para lhe dar amor assim que ela chegasse e que bom que foram feitas promessas de visitas, nem que fosse uma horinha para abraçar e ser abraçada, chorar e sorrir, isso já seria o suficiente. Que bom que ela teve a coragem de arrumar a mala e entrar no avião, de olhar pela janela e poder ver aquele céu infinito.

Ela não percebia, nunca confiou muito na própria força, mas trazia dentro do peito um leão que a ajudava a sobreviver a todas as dificuldades, essa (de passar dois anos no Japão) era só mais uma e logo viraria apenas uma história engraçadinha para se contar nos finais de semana com as amigas no Guarujá.

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