31 de maio de 2017

Maré Alta

Um dia eu estou desesperada atrás de emprego e achando que nunca mais vou encontrar um, que o auge da minha vida foi aos 23 e agora é só ladeira abaixo. No outro estou indecisa com três propostas de emprego e em dúvida de qual escolher, todas com salários bons e pontos positivos próprios. As vezes acho que se existe um ser superior, um deus, uma deusa, um panteão, eles me usam como alívio cômico.

Eu não sou boa em tomar decisões. Quer dizer, talvez até seja, mas sempre que faço uma escolha fico morrendo de medo de ter errado, apavorada com a possibilidade de me arrepender da minha própria escolha. Essa é a coisa sobre ser adulta, vocês faz suas próprias escolhas e se você erra a única culpada é você mesma. Eu escolhi, aceitei um, surgiu outro e eu decidi pular de galho, a mesma coisa com o terceiro, sempre na esperança de estar fazendo a escolha certa, de não me arrepender, de ver os pontos positivos.

Ao mesmo tempo que dá esse medo todo, também dá um frio na barriga gostoso, vontade de ver logo o novo, de encarar a mudança, uma sensação de que finalmente estava tudo indo para o seu devido lugar, que tudo está se encaixando e vai ficar tudo bem. Talvez fique mesmo. A vida tem marés altas e baixas como o mar e talvez a minha maré alta esteja voltando.

24 de maio de 2017

O amor é um negócio difícil

Conversei com a minha psicóloga sobre essa minha identificação com o texto sobre mães tóxicas. Ela não disse nada, questionou como eu me sinto e tentou esclarecer alguns pontos da minha fala que não estavam tão explicados. Mas sabe quando você sente que essa não negação é uma afirmação? Fiquei pensando em todas as vezes que falamos sobre minha rede de apoio, como eu acho ela importante e como ela me conforta, e sempre que falávamos disso ela questionava a força dessa rede de apoio. Ela dizia que essa rede tinha uma falha, ainda que eu não estivesse vendo e eu dizia que ela estava procurando pelo em ovo. E com o tempo eu fui descobrindo que a falha dessa minha rede de apoio é a minha mãe. Uma falha que existe desde de sempre e que agora que eu percebi vejo as diversas consequências dela.

É doloroso culpar minha mãe por problemas afetivos meus, parece que o fato dela ter culpa quer dizer que ela fez as coisas de cabeça pensada, de propósito, quando na verdade a toxidade dela é só uma característica adquirida e que deve machucar a ela tanto quanto a mim, ainda que ela não elabore os sentimentos dela, então não veja assim. Talvez, para ela, isso seja bom, acho que seria doído demais chegar aos 67 anos de idade e descobrir essas falhas que você cometeu por anos a fio, fazendo sofrer pessoas próximas a você... se ela não elabora, não sente essa culpa e a essa altura, para ela, talvez isso seja melhor.

Por outro lado, eu elaboro, eu preciso entender e preciso tentar resolver esses problemas afetivos que me seguram. Meu irmão ajuda, ele tem virado essa fonte de amor "incondicional" que eu não esperava dele. Eu tenho as meninas também que são outra fonte. E agora que eu identifico o problema, ou um deles, talvez seja mais fácil me doar à outros também. Eu não quero reproduzir esse padrão que me criou. Eu quero ser capaz de fazer meus filhos se sentirem plenamente amados e  não terem medo de mim ou dos meus julgamentos. E isso parece algo tão básico, mas é tão complicado.

Amar os pais apesar dos seus defeitos, amar os filhos ensinando certo e errado, amar ao outro sem se perder nele... O ser humano passa a vida buscando amor, carinho, qualquer forma de afeto, mas é tão difícil amar do jeito certo, sem ser tóxico ou se perder.

16 de maio de 2017

Freud explica

Eu estava pensando aqui em qual é meu tipo e o que me atrai em um cara. O corpo é importante para mim, eu gosto de caras malhados, sinto mais atração por eles. Mas não consigo me basear só no físico, quando vejo um físico bom penso se a pessoa é legal, se temos coisas em comum. Preciso ter alguma ligação com a pessoa para me interessar realmente. E aí chegamos em um outro problema meu: como eu desisto da pessoa assim que alguma coisa, qualquer coisa, não me agrada. Eu não peso altos e baixos, vejo só aquele defeito/discordância e fujo. Talvez tenha alguma coisa a ver com esse medo que eu sinto de me contentar em ficar com alguém que seja "menos" do que o que eu mereço. 


Essas reflexões me levaram a pensar que eu nunca, ou pelo menos há muito tempo, não gosto de ninguém de verdade, porque a luz do primeiro defeito eu já acho que a pessoa não vale a pena. Talvez eu esteja errada, mas sinto que quando a gente gosta de alguém, gosta dela mesmo com os defeitos e não desiste quando eles aparecem (tudo em uma medida de proporcionalidade). E eu quero gostar de alguém, de verdade, descobrir como é me sentir assim. Eu também quero que alguém goste de mim, quero me sentir cuidada.


Li um artigo essa semana um pouco assustador, era sobre mães tóxicas e como a falta de amor e/ou excesso de projeção delas nos traz problemas afetivos. Esses problemas, sentimentos de vazio, nos levam a buscar o amor incondicional em outros lugares e a, eventualmente, nunca amar incondicionalmente. Fiquei assustada. Fiquei pensando se meus problemas com a minha mãe se encaixam nisso, se eu não consigo amar incondicionalmente porque nunca fui amada assim por ela, e por isso qualquer defeito me faz perder o interesse; se meu medo de ficar com alguém "menor" do que eu vem de alguma necessidade de busca da perfeição na esperança de obter esse amor incondicional dela. 


Eu sei que nossa relação é bastante complexa e eu não sinto raiva dela por nunca ter sentido esse amor incondicional dela, ou mesmo do meu pai, eu só queria entender se isso que me causou essa... falha emocional, essa minha dificuldade em me relacionar.

9 de maio de 2017

Simbiótico


Semana passada na terapia falei sobre minha mãe. Esse, na verdade, tem sido um tema mais ou menos recorrente e, pelo que tenho observado, isso provavelmente se deve ao fato de que muito de mim vem dela, direta ou indiretamente, ela influenciou muito a construção da minha personalidade, seja porque sou parecida com ela nisso, ou porque fiz questão de ser o oposto dela naquilo. Em todo caso, uma das coisas que ficaram na minha cabeça dessa última sessão foi que o meu relacionamento com a minha mãe é simbiótico.

É difícil explicar usando outra palavra, mas acho que podemos dizer que ela me prende emocionalmente de certa maneira e domina um pouco minha vida, e antes eu estava bem com isso, mas já faz algum tempo que isso vem me incomodando, e eu venho querendo romper. É como se até aqui eu fosse parte dela e agora não quero mais ser, quero ser eu. Mas não é fácil sair desse ciclo, porque ao mesmo tempo que eu quero sair, eu acho confortável ficar. E acho que para ela também não é fácil, ela tem dificuldade em me ver como um ser humano independente, não parte dela.

A manipulação emocional que ela faz não é consciente, minha mãe não elabora tanto as coisas, mas ela faz, ela faz o que ela sente, ela não pensa no por quê ou nas consequências, ela só faz. Agora ela quer que eu preste concurso e eu tenho dito a ela que não, mesmo que esteja estudando para isso, eu só não quero a pressão que ela vai trazer se eu obedecer a ela. Em todo caso ela veio me dizer que não quer que eu perca três anos da minha vida esperando por um emprego, como eu fiz com o vestibular. Acho que isso seria gashlighting se ela tivesse alguma consciência do que fez. Eu falei que perdi aqueles três anos porque estava tentando entrar na faculdade que ela queria, fiz três anos de cursinho porque essa era a vontade dela. Ela respondeu que não, que logo depois do primeiro ano me disse que era melhor fazer logo uma faculdade paga e esquecer a USP.

Eu me senti desolada, porque ela provavelmente não fez isso consciente, acho bastante possível, inclusive, que na cabeça dela tenha sido isso que ocorreu. Na minha foi só dor. Porque ela jogou nas minhas costas uma culpa que ela não quer carregar, na esperança de que? Parecer a salvação de mim mesma? Para que eu não cometa o mesmo erro de antes ela vai me ajudar a prestar concurso? A negação daquele fato do passado me atingiu em cheio, foi perverso. Me jogando a culpa pelos três anos de cursinho é quase como se ela estivesse negando e me impedindo de sentir qualquer arrependimento por eles... ainda que eu não sinta... mais ou menos.

Ela não é uma má pessoa, ela é uma pessoa boa na verdade, ela só é extremamente manipuladora emocionalmente e eu talvez só esteja percebendo isso agora porque estou emocionalmente mais forte.

1 de maio de 2017

Esse nó na garganta

Depois de tanto tempo desempregada é inevitável sentir um pouco de desânimo comigo mesma. Na verdade, o que a gente sente mesmo é que somos fracassados. No meu caso sinto isso com mais intensidade ainda cada vez que caio na cilada de me comparar com meu irmão.


Ele entrou em medicina na USP com dois anos de cursinho, se formou, fez pesquisa em Harvard, passou um ano no exército, na Amazônia, depois voltou, arranjou empregos com facilidade, porque ele é super extrovertido, e agora está bem, sempre trabalhando, mas bem. 

Eu fiz três anos de cursinho para entrar na USP em direito e não passei, fiz Mackenzie. Todos meus amigos passaram de primeira na OAB, eu tive que prestar duas vezes. Me formei faz cinco meses e até agora não consegui um emprego. Eu sei que tenho vitórias a comemorar, mas nesses momentos eu simplesmente sinto que sou a filha que não deu certo... nem se quer colocar uma das minhas histórias no papel eu consigo. 


E volta aquela vontade de se encolher em posição fetal na cama, chorando e pedindo pela minha mãe.