14 de junho de 2017

4 de junho de 2017

Respirar

Eu sinto que tem muita coisa acontecendo de uma vez só e eu não estou tendo tempo de absorver e sentir tudo.

Recebi três propostas de emprego no espaço de umas duas semanas, uma seguida da outra e fui desistindo de uma pela outra, seja por ser vaga efetiva, ou pela proximidade de casa, e agora vou começar a trabalhar amanhã. Sinto que estou menos ansiosa do que eu geralmente fico, mas pode ser por causa das outras coisas que tem acontecido, em todo caso, calma eu não me sinto. Como sempre, eu estou com medo de falhar, do meu novo chefe não gostar de mim. Esse é sempre meu maior medo, mal de quem nunca teve aprovação suficiente em casa, nós buscamos fora e morremos de medo de não conseguir. Professores, chefes, irmão mais velho, família extendida... eu não posso falhar. Mas já estou aprendendo e talvez esse seja um dos fatores da minha calma, aceitar que falhar é humano e tudo bem se acontecer, sobreviveremos, afinal, sobrevivemos até aqui, não?

Outra coisa que ocupa meus pensamentos e eu ainda estou digerindo foi o surto de coragem relatado no post anterior. Ainda não sei o que fazer. Estou em território desconhecido e não tenho certeza se quero avançar ou recuar, por um lado que ver no que pode dar, por outro não tenho certeza de que quero fazer isso hahaha. Eu estava esperando o dia de hoje para tomar alguma decisão, estava esperando o dia em que marquei me encontrar com um menino que conheci no Tinder para ver o que eu sentiria então, mas não adiantou.

O menino é legal, parece ser gente boa, mas é um pouco passivo... talvez eu que tenha uma personalidade forte demais, mas senti que dominei a conversa toda e ele não achou espaço para se encaixar. Por um lado foi culpa minha, deveria ter dado espaço para ele, por outro, acho que ele deveria achar sozinho esse espaço, eu fiz silêncios. Além do mais, ele não me atraiu fisicamente nem um pouco e não achei que rolou uma química. Ainda estou falando com outro carinha do Tinder que é legal, mas não sei se ele vai me atrair, meio que quero esperar para ver.

É tragicômico como eu me sinto mais confortável em sair com caras que não me atraem e como tenho dificuldade de falar com os que me atraem. Eu demorei muito para ter coragem de falar com o mocinho do parque e, quando tive, a conversa não foi a melhor do mundo, mas ele me atrai. Em compensação o menino de hoje é bem legal e poderíamos ser amigos, mas só isso porque ele não me atrai e a conversa acabou sendo levemente esquisita por isso. É como se o que eu busco intelectualmente não fosse compatível com o que eu busco fisicamente.

Sinto que esses eventos testam minha coragem, minha ansiedade, não tenho certeza de como estou passando por eles, aliás, sinto que estou passando por eles por isso, por não estar parando para processar muito. É esquisito, quando você vive muito dentro da sua cabeça parece que o lado de fora te sufoca um pouco quando acontece. Só que as coisas ainda estão acontecendo e se eu parar para respirar... bom tenho medo da minha ansiedade se tocar, então seguro o ar um pouco mais e enfrento o lado de fora até as coisas acalmarem, depois eu respiro, depois eu processo.

2 de junho de 2017

4 mensagens

Meu celular insiste em lembrar que eu tenho quatro mensagens não lidas de uma conversa no Whatsapp. Eu não sei se quero ler essas mensagens, ainda estou processando o que levou a elas.

Eu estava na quarta volta do parque, era a última e eu me sentei no banco pensando no que eu faria a partir dali. Eu podia ir embora, mas podia também dar um jeito de ir falar com aquele cara que durante os últimos meses via por ali, que eu achava estar de olho em mim, que tentava chamar a minha atenção quando começava a fazer um exercício cada vez que eu passava, que eu olhava também e até tentava sorrir, algo inédito. Eu não queria começar a trabalhar e nunca mais ver ele sem, pelo menos, ter tentado falar com ele antes.

Acredite, isso tem mais a ver comigo do que com ele. Tem a ver com ter passado por isso antes, inúmeras vezes na verdade, cada vez que via alguém que despertava meu interesse. Eu sempre olhava de longe, desviava o olhar quando me olhavam, ficava na minha cabeça imaginando como seria aquela pessoa, seu nome, sua história, nossa possível relação se eu apenas tivesse a coragem de ir me apresentar. E isso quase aconteceu muitas vezes, mas no fim eu parava de ver a pessoa e nossa relação ficava só na minha cabeça, me assombrando nos meus momentos de solidão e carência.

Eu precisava falar com ele por mim, para depois não me sentir uma covarde, para dizer para mim mesma que eu fiz algo que me enchia de medo e sobrevivi. Eu já tinha quase falado com ele outras vezes, mas sempre acovardava em cima da hora. Hoje não. Hoje eu levantei quando vi que ele não passava para ir embora e fui em direção ao banco em que ele sempre ficava, ele não estava ali, então passei reto, lavei meu rosto no bebedouro e quando voltei o vi sentado no banco. Eu não tinha certeza do que falar ou fazer, e de certa forma aquilo era tão surreal para mim que parecia que está a vendo a cena de fora dela. Mas mesmo assim fui até ele em um passo decidido e perguntei se podia sentar ali, ele me olhou com uma expressão tão surpresa que era quase um susto e disse que sim. Eu perguntei o nome dele, Daniel, e disse o meu. Depois olhei para frente me sentindo um pouco adormecida e disse algo como: então é isso, eu vim falar com você, eu quebrei essa minha barreira. Depois olhei para ele e o vi confuso, completei dizendo que era tímida e a conversa seguiu daí.

Não foi uma conversa legal como eu queria, mas foi mais fácil do que eu esperava. Ele ajudou. Eu falei que decidi falar com ele porque depois iria começar a trabalhar e não teria mais a oportunidade. Ele perguntou do meu emprego, depois perguntei do dele, ele é atleta, e aí falamos um pouco disso, do parque, de fazer uma luta. Ele repetiu algumas vezes que estava feliz de eu ter ido falar com ele e eu só sorri e concordei. Então ele perguntou se eu já tinha terminado, disse que sim, e fomos juntos parte do caminho. Achei engraçado ele agir como se não soubesse o caminho que eu fazia para ir para casa, já tínhamos feito ele juntos outras vezes, mas deixei. Ele também estava tímido, ainda tentava impressionar um pouco, enquanto eu só fui sincera. Ele também me parece ser una pessoa bastante simples, mas respeitador. Disse que nunca falou comigo porque as vezes a pessoa não gosta, prefere não ser incomodada enquanto se exercita, ou algo assim, eu agradeci, e disse que eu realmente não gosto. Além disso, em um determinado momento ele tocou no meu braço e pediu desculpa. Achei isso meio fofo. Mas achei também que eu não sei se sou do tipo de pessoa que se acomoda com o que é simples. Velhos hábitos. Não preciso me acomodar, não preciso pensar nisso, na verdade, pelo menos não agora.

E então, já perto de casa ele me perguntou como faria para continuar falando comigo e eu passei meu número. Dei um beijo no rosto dele de despedida e ele me puxou para um abraço, me apertou contra ele. Separei, falamos mais alguma coisa e ele disse tchau de novo e me puxou de novo para um abraço, dessa vez roçando o rosto dele contra o meu quando separou o abraço. Eu sei que ele jogou verde ali, se eu virasse o rosto era um beijo. Eu não virei. Disse que também estava feliz por termos nos falado e ia indo quando ele segurou minha mão e repetiu que foi bom me conhecer, sorri, retribuí, puxei minha mão e fui almoçar. Uma hora depois vieram as mensagens.

Eu não sei porque não o beijei. Eu acho ele gostoso, apesar de ele não ser gato. O corpo dele me comove o suficiente para passar por cima disso. Mas não sei se consigo ficar com alguém assim por ficar, com alguém que eu não sinta como um "igual intelectual". Eu não sei se responder essas mensagens dele seria dar esperança a ele de algo que não vai acontecer. Ou se vai ser como meu primeiro beijo, algo que vou fazer só por fazer e depois me sentir arrependida.

No momento eu só sei que eu fui e falei com ele e isso é uma vitória sem tamanho para mim, então eu vou saboreá-la por algum tempo e quando terminar penso no que vou fazer.