2 de agosto de 2017

História de bairro

Eu sou capaz de criar uma história completa na minha cabeça com apenas um olhar para alguém. A pessoa não precisa me olhar, basta um olhar meu para ela e não necessariamente eu farei parte dessa história.

Eu crio uma história de vida para a velhinha que eu encontro pelas ruas do meu bairro, a pobre viúva cujo filho único só vem visita-la nos fins de semana. Ele é casado, a mulher está tentando engravidar e eles moram fora da cidade, em cotia, então não dá para ir sempre ver a mãe. Eles já tentaram leva-la para casa deles, mas ela não quer deixar o apartamento onde viveu a vida toda com o marido... tantas lembranças. Então ela vai ficando ali, andando sozinha pelo bairro enquanto ainda pode andar, se perdendo frequentemente e cada vez mais voltando para casa sem saber porque saiu em primeiro lugar. A memória não é mais uma boa amiga para ela, mas os ouvidos dos passantes ainda ocupam seu tempo e ajudam a acalmar sua solidão.

Passantes como aquela jovem loira que eu encontrava sempre no ponto de ônibus. Ela trabalhava em uma escola na vila mariana, era professora primária. Veio de uma família boa e adora crianças, nunca ligou muito para dinheiro, mas sua mãe quase enfartou quando soube que ela seria professora. Que futuro tem professora no Brasil? Mas a moça terminou a faculdade, arranjou emprego em uma escola particular perto de casa e adora seus alunos. O salário é ingrato, as vezes o arrependimento bate, normalmente junto com o cansaço, mas ela não desiste não, vai começar a pós graduação... sabe que não conseguiria viver sem aqueles mini-sorrisos na sua vida.

Sorriso aberto que nem o do velho. Ele trabalha meio sem trabalhar, passeia e adestra cachorros, é um amor pelos bichinhos que dá até gosto de ver, são seus companheiros. Tem uns amigos pelo bairro, mas mora só com seu fiel escudeiro, recém adotado, ainda não é muito educado, mas está aprendendo. E o velho te conta todas as suas peripécias quando cruza com você na rua, as dele e as do cachorro, sempre com um sorriso orgulhoso no rosto, que nem pai quando vê o filho aprender algo novo. É cheio de vida e alegria, sempre andando bem acompanhado, falante e nada solitário.

São histórias que eu possivelmente nunca vou saber se são verdadeiras, mas que me ajudam a passar o tempo, exercer a imaginação. É como se pensando as histórias dos outros ficasse mais fácil escrever a minha... as minhas.

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