28 de novembro de 2017

Meter o louco


Meu irmão disse uma coisa outro dia que ficou grudada na minha cabeça: "as vezes a gente tem que meter o louco, se não não vai". O que ele quis dizer é que quando a gente teoriza demais, pensa demais nas consequências, acaba dando tempo pro medo chegar e uma vez que ele bate na porta você acaba por desistir daquilo. No contexto esse pensamento me pareceu um pouco exagerado e um pouco certo, ele disse isso para o meu tio que acabara de explicar que queria ter filhos, mas casou tarde, não se planejaram, ficaram velhos e agora acham que estão velhos demais e que não dá. Meu irmão, por outro lado, engravidou a namorada por acidente e agora está com uma família bonita há quase três anos, vida corrida, stress e no fim do dia feliz.

Mas não preciso radicalizar e aplicar o pensamento à ter filhos, posso pensar em coisas menores, como empregos, amores, rotinas. Eu sempre penso tanto no futuro, me planejo, quero fazer tudo certinho, vivo com o pensamento lá na frente e acabo não aproveitando tanto a vida. Eu fico tão presa a minha cabeça, ao que os outros vão pensar, ao certo e errado, ao melhor jeito de fazer tudo e acabou dando tempo para o medo entrar e me travar. As vezes a gente precisa meter o louco... as vezes eu preciso meter o louco.

Hoje fiquei pensando nisso e fiquei pensando se não é essa minha lição de vida com o câncer, todo mundo tira uma dessas lições de períodos difíceis, né? Como se ter uma doença grave fosse sinônimo de reflexão filosófica e principiológica da vida. Talvez a minha seja que de tanto querer me planejar e fazer as coisas do jeito certo e pensar no futuro acabo por ficar bitolada demais. Eu nunca faço nada do que eu quero porque fico pensando nos reflexos que aquilo pode ter no meu futuro, mas a vida é curta demais para se viver em função do amanhã, principalmente porque eu posso não estar aqui. Eu tirava notas boas para entrar em uma faculdade boa; eu fiz três anos de cursinho querendo usp porque sabia que o mercado de trabalho lá na frente seria mais fácil assim; eu estudei na faculdade e não peguei dp porque assim tinha mais chances de ter empregos melhores no futuro; eu comecei a estagiar cedo porque queria dinheiro e guardar dinheiro para o futuro e ter melhores experiências para quando me formasse conseguisse melhores empregos; eu estudei línguas porque gosto, mas também porque sabia que poderia ser um diferencial no meu currículo lá na frente; eu comecei a pós porque quem sabe eu lá na frente desista de morar fora e queria voltar ao Brasil e advogar, precisava da vantagem competitiva... e por aí vai.

Agora estou numa fixação por trabalhar em navio cruzeiro e disse para mim mesma que é porque é uma forma de ganhar muito dinheiro em pouco tempo, mas no meu coração o que eu quero mesmo é meter o louco, conhecer outros lugares, juntar uma grana e viver uma experiência diferente.

Claro que meter o louco de vez em quando é diferente de ser irresponsável toda vida, mas é a consciência de que um erro aqui e agora não vai arruinar minha vida nos próximos 50 anos... vai ficar tudo bem.   

7 de novembro de 2017

Coragem de que?

Outro dia li um texto sobre como a música Evidências é amada por ser exatamente o oposto das músicas de hoje. As músicas de hoje negam o amor, pregam amores, paixões, independência e autossuficiência. Evidências é uma declaração de amor, é o grito daquilo que te sufoca o peito, é o não ter medo de ser ridículo por amar demais, a glorificação da declaração de amor piegas e sincera, sem medo de ser feliz. Pelo menos a conclusão do texto era algo nesse sentido.

Fiquei pensando que o autor tem razão, hoje temos vergonha de amar e não ser amado de volta, medo da rejeição e um orgulho maior do que antigamente. É quase como se tivéssemos medo de nos jogar de cabeça e nos machucar. Eu entendo. Sou a encarnação viva desse presente. Medrosa desde sempre e de tudo. Mas esse medo de se machucar priva a gente de tanta coisa boa, né? Se eu não me jogar de cabeça nunca vou ter histórias para contar, nunca vou vou viver coisas boas por medo das ruins.

Para viver a vida é preciso dar a cara a tapa e se jogar. Demonstrar amor não é sinal de fraqueza, mas sim de força, de saber o que se quer da vida. Quem acha o contrário que está errado. Afinal, outra pílula de sabedoria que vi na internet cai bem aqui: "se você tem medo do amor, tem coragem de que?".

Claro que vai doer quando não der certo, quando nos frustrarmos, mas dói mais não tentar né? Passar a vida sonhando e não realizando, imaginando como é, como seria. É preciso dar a cara a tapa, enfrentar de peito aberto e não ter medo de se frustrar, de entristecer. A dor é passageira e na vida, os momentos tristes vão acontecer quer a gente queira quer não, por isso precisamos fazer todos os momentos felizes possíveis acontecer.