23 de dezembro de 2018

Retrospectiva 2018

Eu estou a algum tempo evitando este post. Acho que fico um pouco desconfortável de ter que rever o que fiz ou deixei de fazer em 2018, medo de o saldo final ser negativo de alguma forma. Mas o natal taí e acho que essa é a melhor época para repensar o ano, fechar o balanço para o 2019 que vem aí. Então abri a aba do navegador, cliquei em "nova postagem" e vamos ver o que aparece.

O ano começou comigo ainda tratando o câncer de tireoide que descobri em junho de 2017, parece que já fazem séculos desde que passei por tudo isso, mas foi só em março deste ano que tudo de fato terminou. Eu fiz a iodoterapia, tive que passar pelo período sem hormônio de novo e naquela dieta e foi uma experiência diferente do que a da primeira vez, pois não fiquei tão triste e sensível, fiquei mais combativa. Isso me levou a uma crise no trabalho, porque o meu chefe sempre pisa mais em que está por baixo, ele gosta de chutar cachorro morto, mas eu me mostrei uma fênix, enfrentei ele, fiz o tratamento, voltei ao trabalho saudável, recuperei a sanidade com o equilíbrio dos hormônios e um mês depois ele estava todo feliz achando que eu era a melhor advogada da equipe. Nós ainda temos nossos conflitos, isso nunca vai acabar, mas agora eu estou saudável, não duvido mais de mim mesma como duvidei no fim de 2017 e sinto que todo esse caminho me fortaleceu, estou mais forte para brigar e para me defender de pessoas tóxicas como ele.

O ano foi seguindo e eu comecei a ver uma endocrinologista, para tentar organizar meu cálcio, que, aparentemente, interfere no meu fósforo e no meu ferro. Alô anemia, minha velha amiga. Nada sério, já aceitei essas minha limitações, no começo fiquei bastante frustrada, mas a verdade é que a moça do banco ontem tem razão, tem tanta gente pior, que eu deveria estar é agradecida por ter chegado aqui bem como cheguei.

Com a sanidade, veio aquela velha vontade de me apaixonar e como o destino é sacana colocou logo no meu caminho algumas distrações interessantes. Primeiro veio um colega de trabalho que virou minha cabeça de um jeito que nem sei explicar. Enquanto tentava evoluir com ele, meio desconcertadamente, me aparece o R, que desde 2014 entra e sai da minha vida, sempre lisonjeiro, sempre me fazendo querer muito retribuir a admiração. Fui em um encontro com o R, aquele que adiei por 4 anos! Foi bom, eu gosto dele, mas a verdade é que não consigo retribuir o que ele sente por mim, por mais que eu queira muito, porque ele é um dos caras mais legais que conheço. Continuei minha listinha de coisas que deveria fazer para me aproximar/demonstrar como me sinto ao meu colega, mas nada com muito sucesso. Teve muito ciúmes, teve muito esforço, teve atos falhos e eu me vi me expondo de uma maneira que nunca tinha feito antes. Nesse meio tempo veio meu professor de alemão, por quem o crush foi crescendo de uma maneira meio inesperada, e eu sem saber se ele era gay ou apenas estrangeiro. E, em meio ao colega e ao professor, surgiu um encontro no bom e velho Tinder. Me fez provar mojito e descobrir um bar novo, mas não deu em nada. Eu sabia que estava na defensiva com ele, mas tive discernimento para pensar se queria mais e perceber que não. Foi um passo. Tudo bem. Dias depois, no ápice do crush, outro passo, perguntei para um colega da escola se ele sabia da sexualidade do prof, acontece que ele é gay E estrangeiro. Chateada, mas satisfeita do passo, demonstrei para alguém meu interesse, foi um passo. O colega ainda está aí, um olho nele e outro no mundo, mas aprendi a ter paciência com ele, respeitar o véu da sedução. Eu estou andando devagar, mas voltei a andar um pouco, depois de um tempo parada, isso exige esforço e paciência, não adianta tentar apressar as coisas que dá tilt.

Aliás, outro passo foi em relação a bebida: bebi meu primeiro drink inteiro em 2018. Antes de ontem mesmo. Desde o ano novo eu venho provando coisinhas, apenas golinhos, de vez em quando, com os amigos, depois no encontro do Tinder mais de um golinho, golinhos no plural, não por gosto, por educação, mas valeu a experiência. Então na sexta/sábado o primeiro drink: Sex on the beach. Disseram que é fraquinho e não senti nada, mas fiquei feliz de provar, de fazer um pouco parte deste grupo. Fiquei preocupada também, com alcoolismo, mas conversei com meu irmão e ele me acalmou.

Também já preparei o caminho para ir para a Alemanha em 2019, fui na agência, vi o programa, mudei de ideia sobre como ir (estágio ao invés de faculdade) e defini na minha cabeça uma data. Se tudo der certo vou em outubro, depois de uma viagem por Portugal e Espanha com meus tios e minha mãe. Vamos ver. Sei bem que na vida a gente planeja e a vida faz o que quer, então vou com calma.

Na minha família teve muita briga e discussão por causa dos cuidados com a minha avó, meu sobrinho também ficou doente, mas passa bem, tive momentos difíceis no trabalho, meu professor de português faleceu trazendo alguns questionamentos sobre minha escrita e eu não vivi aquele grande amor em sua plenitude, como sempre quero viver. Mas a verdade é que eu já cheguei a conclusão de que o que a gente leva dessa vida são os momentos bons, então prefiro focar neles. E esse ano eu tive muitos momentos bons. Eu sempre tenho. Eu tô aqui, com planos para o ano que vem, tendo cumprido a maior parte das minha metas de 2018, com saúde, emprego, amigos e sempre trabalhando em mim mesma. O que mais eu poderia pedir?

Engraçado que enquanto 2018 passava me parecia estar voando, mas agora que está no fim me parece que foram 3 anos dentro deste ano, por causa de tudo que aconteceu. Verdade seja dita que eu acho que não tinha tantas expectativas para este ano, mas me surpreendi positivamente. Que venha 2019, com mais aprendizados e surpresas, eu mal posso esperar.    

15 de dezembro de 2018

Querido Professor,

Você se foi e eu não sei como me sentir.

Você foi aquele que fez eu me apaixonar pelas letras, aceitar a gramática e amar a literatura. Foi nas suas aulas que aprendi que amo ler e escrever e que isso é lindo. Mas que não basta apenas escrever, há de se ter técnica. Aprendi também que o teatro é divertido, mas também é trabalhoso. Que a gramática é um meio para um fim e que nossa língua é uma caixinha de surpresas infinita e linda.

Quando penso em você lembro como amo a língua portuguesa e a literatura e ler e escrever. Lembro tudo isso porque foi com você que tudo começou. Obrigada.

Você é um Professor assim mesmo, com P maiúsculo, para que fique clara sua importância em minha vida. Obrigada por ter me apresentado esse grande amor e espero que você siga bem por onde seguir.

Eu aqui tenho para mim que agora você vai seguir os passos de Irene no poema de Manoel Bandeira, mais ou menos assim:

Sílvio preto
Sílvio bom
Sílvio sempre de bom humor.

Imagino Sílvio entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Sílvio. Você não precisa pedir licença

7 de dezembro de 2018

Dear diary,

He makes me feel like I was fifteen again, writing in my diary how good was my day, because I want to be able to hold on to these good moments when they stop happening.

I sat beside him today at lunch. That gave the other girl a not happy face, not happy at all. But I didn't care. I felt bold because I had the guts to sat down beside him. And I really think that when we were picking up our food he stayed by my side on purpose. Then, after lunch he went there to talk a little to the other girl, and I just went there too. I stop beside him again and we stayed like that, talking to her. But again, she was not happy and this time that kind of make me feel good. I guess I am becoming competitive after all... probably just while I am winning. Later we went there again, this time I arrived first, just to talk to her, because when he is not there she is nicer to me. But a little after he arrived, and stopped beside me, sometimes he was really close and it felt really good.

In one of those moments he said that he provoques us because he needs to be fun, to make our day lighter, and that is not his fault that we want to throw him at the wall because of it. I pointed that the "throw at the wall" has a double significance, and he said he knew, it was on purpose. I became shy, couldn't lift my eyes and look at him, just laughed and said something like "uuuh". That is it. I am incapable of flirting. Help me.

But that felt good. The whole day did. Better than the last two, when we had lunch together, just the two of us. Today was a good day.

5 de dezembro de 2018

Mexe comigo

Alguma coisa nele me faz sorrir. Ele é engraçado, é verdade, mas não falo disso. Falo de pensar nele e sorrir. Ele tem um jeito tímido, meio inocente e ao mesmo tempo é tão cheio de experiências... E tem aqueles olhos azuis. Ah os olhos que que cada vez que me encaram parecem me desafiar a alguma coisa. Ainda mais quando ele sorri. Me desafiam a perguntar, a reclamar, a rir, a contra argumentar. Me desafiam a admitir para nós dois que eu quero que alguma coisa aconteça e a fazer alguma coisa a respeito. Nem que seja só descobrir se ele é gay ou só europeu.

O outro me faz suspirar. Suspirar de exasperação, de frustração, de vontade. Ele é gentil e educado, faz parte do charme dele, porque não basta ele ser bonito e inteligente, ele ainda precisava ser gentil e virar um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo. Os olhos dele nunca me dizem nada, mas o corpo dele... só de estar no mesmo lugar que eu, eu já quero estar perto, tocar, quero que me acolha e me sinta.

Eu quero o toque do primeiro também, mas os sentimentos envolvidos com o segundo são diferentes, eu conheço ele melhor, ele me conhece melhor. Não é tão superficial, é um pouco menos só físico. E um sentimento não exclui o outro, cada um aparece em seu momento e cada um mexe de um jeito comigo. Eu só preciso me mexer.

1 de dezembro de 2018

Reflexões sobre você

Eu vejo você enrolando para fazer seu trabalho, puxando assunto, chegando perto e fazendo brincadeiras e eu me derreto. É que você tem um jeito doce e me encanta de uma forma que não consigo fugir.

Você me encara e sorri com os olhos e eu esqueço que nós nem gostamos do mesmo tipo de música ou comida. Você senta do meu lado e me toca e eu esqueço que as suas opiniões são completamente diferentes das minhas em assuntos essenciais. Você me provoca pelas minhas ideias feministas, mas depois emite opiniões absolutamente coerentes com essas ideias e consegue me fazer esquecer que eu as vezes detesto sua forma de ver o mundo.

E em meio a esse esquecimento todo eu fico com medo de te olhar e ver sinais que estão apenas na minha cabeça. E aí vejo você sorrindo para outra do jeito que acho que sorri para mim e sinto uma dorzinha aqui dentro. É que sou mimada e quando quero alguma coisa, ou alguém, quero logo, quero por inteiro.

As vezes a vida nos levo por caminhos que só ela conhece e eu tinha certeza que você era um deles. Achava que você era o meu destino e que iríamos acontecer uma hora ou outra. Agora já não tenho tanta certeza disso. Não sei se fomos feito um para o outro, não perco mais o sono por sua causa e não acho que você é o cara mais incrível da minha vida. Mas ainda perco o ar quando você chega perto de mim, fico querendo te tocar e acho que nós seríamos bons juntos. Eu poderia aprender a ser mais que amiga com você e talvez você aprendesse a ser mais homem comigo.

Não sei ainda como você conseguiu, mas foi você que despertou uma mulher em mim, alguém que quer ser sexy, seduzir e ser seduzida. Eu sinto vontade de agir e me debato com medo do resultado dessa atitude. E ainda assim, quando te olho com mais atenção, vejo que você, que tem um conhecimento de mundo que me dá nos nervos e a inteligência de um homem adulto bem sucedido, é também um menino perdido tentando achar seu caminho, morrendo de medo de levar um não.

Eu também tenho medo e aí ficamos nesse silêncio tão barulhento. Mas eu sou otimista, acho que, nem que seja no último minuto, eu vou te falar alguma coisa. E aí vai ser nosso maior crescimento. Mesmo que venha o não. Mas eu sempre sonho que vai vir o sim.

7 de novembro de 2018

Fogo

Minha irritação é fogo.

Minha irritação queima, arde e incendeia até eu não poder mais contê-la.

Eu que já me achava incapaz de de arder por alguma coisa fico rendida quando irritada.

É um fogo que me consome, não consigo pensar, o sentimento é mais forte e impetuoso do que meu racional.

É o único momento em que o racional é vencido. E isso é bom. Isso é algo que me coloca em cena sem que eu pense a respeito, sem que eu tenha tempo de temer.

É a irritação que me leva ao ato falho, é a irritação que me leva a dizer o que penso, é a irritação que me fez lutar pelo que acho certo, pelos meus direitos.

Eu sou de um signo de fogo no fim das contas e o fogo deve arder. Quando estou irritada esse fogo que trago no peito arde e ao invés de me sentir mal por isso me sinto em paz. Me sinto no caminho de fazer as coisas acontecerem, me sinto como se tivesse em minhas mãos todo poder do mundo, mais que isso, todo o poder sobre minha vida e meu destino. Quando eu me irrito eu sou a dona de mim mesma e ninguém consegue me parar. É o único momento em que eu não sou influenciável, volúvel ou apaziguadora, não, eu deixo de ser responsiva e me torno ativa.

Eu gosto desse sentimento, eu gosto de arder e eu tinha esquecido como é bom sentir esse fogo no peito, essa vontade de mudar tudo, de abraçar o mundo não importa as consequências. Talvez seja a posição do sol que está me deixando assim, talvez seja o momento de vida, o fim do ano, o estresse do trabalho, mas já fazia um tempo que não sentia esse fogo arder e lembrei como é se sentir com poder sobre si mesma. É inspirador. Dá vontade de voar. Sorrir.

30 de outubro de 2018

O meu querer

Eu não quero que isso acabe então evito escrever o fim. E enquanto escrevo me questiono o quão real escrever o torna. Escrevo com medo de estar certa, não querendo jogar toalha nesse calor bom que aquece meu coração. Quanto será que estou fujindo dos meus sentimentos com cada palavra digitada? Porque não sei se escrevo para encerrar pois acabou, ou só porque estou cansada e me auto-sabotando de novo.

É que você não me ajuda, não demonstra nada e eu acho que estou carente, só queria um carinho e um elogio. Você não me dá isso e eu não sei se é seu jeito ou é falta de querer. Você tem alguma ideia do meu querer? Essa é a grande questão, né? Eu nunca deixo claro, eu nunca te mostro nada, e reclamo que você também não o faz. Talvez você seja simplesmente tão covarde quanto eu.

E enquanto escrevo o que era para ser a minha despedida do meu querer percebo que não tenho esse direito. Não tenho o direito de desistir antes de deixar cristalino para você o que eu senti. O que eu sinto. O meu querer.

28 de outubro de 2018

A luz que vem depois será muito mais brilhante

Tem gente soltando fogos de artifício e gritando nas ruas em comemoração ao novo presidente do Brasil, um cara machista, homofóbico e racista. Tem pessoas comemorando como se fosse jogo de futebol a vitória de um cara que diz que bandido bom é bandido morto, que passou 28 anos como deputado federal e só aprovou 2 projetos, que ganhou as eleições na base da fakenews e discurso de ódio.

Eu sinto pena. Pena desse povo que pensa que com ele as coisas serão melhores e a economia vai deslanchar. Eu sinto medo. Medo de que ele tire meus direitos, de que seus discursos de ódio incitem pessoas a serem violentas comigo, com meus amigos e até com os desconhecidos. Eu sinto que as coisas ainda vão piorar antes de melhorar e eu espero estar errada.

Espero que ele não piore a situação, espero que ele ouça seus conselheiros e ministros, espero que ele cuide da educação e da saúde, que respeite as instituições, que não ignore a democracia. Eu gostaria que ele fosse o presidente que as pessoas que votaram nele acham que ele vai ser, mas só aquelas que votaram esperando mudança e um futuro melhor.

Dói meu coração imaginar quão ruim pode ser esse governo, dói imaginar a possibilidade dele fechar o congresso ou acabar com o STF, dói imaginar a possibilidade de uma ditadura militar, dói tanto que me vem uma bola na garganta. Mas agora não podemos fazer mais nada. Agora só nos resta torcer e esperar a escuridão passar.  


14 de outubro de 2018

Uma cena qualquer


  Se alguém perguntasse o que levou a cena seguinte, ela não teria a menor ideia do que responder. Ela sabia que ele tinha dito algo e que ela retrucou quase em tom de desafio, mas do que eles falavam mesmo? Tudo o que ela conseguia se concentrar naquele momento era no sorriso dele, nos olhos... Ele trazia um sorriso divertido como resposta ao que ela havia dito, mas também a olhava como se ela houvesse cruzado uma linha que não deveria, ele se sentia desafiado e estava satisfeito por isso.  

  Era a desculpa que ele precisava para se aproximar, ele a puxou pela cintura sem esforço nenhum, ela não tinha a menor vontade de lutar contra aquele movimento, não quando ele ficava cada vez mais perto e seu perfume cada vez mais forte. A respiração dela acelerou, reflexo de seu coração que martelava cada vez mais rápido, cada vez mais forte contra o peito. Quando seus corpos se encostaram ele pausou por um segundo, sorriso ainda no rosto, mas agora uma expressão vitoriosa, de quem sabe que tem o que quer bem na palma das mãos. 

  Ela era completamente dele naquele momento e nunca esteve tão tranquila ao se ver tão vulnerável. Logo ela, tão independente e auto suficiente, tão provocadora, tão forte e desafiadora. Mas ele não estava sorrindo vitorioso por ter conquistado essa mulher tão impossível. Ele sorria vitorioso porque estava prestes a beijar a garota que lhe tirava o sono há mais de seis meses, aquela que ele achava que só poderia ter nos seus sonhos mais ousados. E mesmo depois que seus lábios se encostaram, que toda a cena se desenrolou como é esperado que se desenrole, ele ainda sorria.

 

4 de outubro de 2018

Desvarios

She demands attention. There is nothing wrong with that. It's who she is. She always find a way of having the attention she wants, usually from everybody, for her. It's fine. But it's not who I am.

I don't demand attention. I exist and if you want to give me your attention, that is fine. If you don't want, then that is your loss. Because I will not run around asking for your attention, telling stories e making jokes to impress you and grow your ego. I am not a puppy, honey. I am a grown woman with high self steam and other options. Too busy to give my attention to someone who don't try to give me theirs.
- - -
She said the veil is important. I can't feel that yet, but I can try to live with it for a while. Cause it is not so bad. The chills, butterflies, jokes... if I bring the veil down I will lose that too and I don't think I am ready to lose that just yet.

30 de setembro de 2018

Quatro anos

Quatro anos de enrolação, de banho maria, de desculpas e enrrolos.

Durante quatro anos fugi de um encontro, mas hoje disse sim e marcamos. Não dei tempo para o pensamento, fui no impulso, no completar a lista, no tentar, nos só ver no que vai dar. E fui. Fomos. Nos vimos, conversamos, rimos, comemos e bebemos, e você me levou para casa. Deu risada no caminho, disse que nem a Madonna teria demorado tanto para aceitar sair com você, mas que eu enrolei quatro anos. Ri. Respondi que então deveria desistir de me convencer a ir na festa. Mas você não desistiu. Sugeriu de nos vermos de novo, sutilmente. Neguei também sutilmente, mas você tirou o véu dizendo que estava tentando me chamar para sair de novo e eu estava negando na cara de pau. Respondi que tentei ser discreta, mas que tirando o véu assim ficava difícil. Mudamos de assunto. Chegamos. Te dei um beijo no rosto, saí e ainda não respondi a mensagem que você me enviou um pouco depois.

Não foi ruim, sabe? Mas não sei. Parte de mim grita que não tem química, que é tudo diferente e eu deveria tirar o véu e dizer logo que é amizade. Outra parte quer manter esse véu paradinho aí, porque acha que talvez tenha mais coisa para acontecer se eu deixar. Eu não sei se quero deixar. Você parece ser aquilo que eu deveria querer, aquilo que pode me fazer feliz. É transparência. É estabilidade, carinho e cuidado. Mas eu sou fogo. Eu sou intensa, carinho e cuidado me podam e estabilidade depois de um tempo me irrita. Eu preciso de movimento e, mesmo com medo, quero aventura. Você me traz segurança e conforto. O conforto me segura e eu tenho asas.

Quatro anos de enrolação e, mesmo hoje, não cheguei a nenhuma conclusão.  

6 de setembro de 2018

Tenta

Cada paixão, amor, crush, traz um sintoma diferente.

Tem gente que faz barulho, vira nossa cabeça, dá falta de ar e insegurança. Nós ficamos nos sentindo bobos, mãos geladas e coração acelerado. Não sabemos o que pensar, como agir. É um misto de borboletas no estômago e joelhos moles. São amores agitados, paixões fortes e um movimento de montanha russa que fascina e assusta.

E tem gente que chega de mansinho, dá segurança e aquece nosso coração. Nós fechamos os olhos quando recebemos mensagem porque sabemos que uma mensagem já gira nosso mundo, um girar gostoso, lento, sonhador. É um amor com cuidado, um passeio no parque, uma sensação de paz que nos abraça e envolve.

São reações diferentes. Opostas e complementares. Quando acontecem ao mesmo tempo parece ser impossível a escolha. Mas o coração sabe. Uma hora escolhe e é preciso confiar no tempo dele. E enquanto confia... descobre, diverte, explora, a vida é curta demais para deixar pra lá os amores que aparecem.

4 de setembro de 2018

The noise in my head has a name

The first time I looked at you I thought you were right. Not right for me, no, I started to think that a little later, somewhere between your second week and the moment you said I should rethink my concepts. The first time I saw you I thought that you were right like someone of our age who works with what we work. You were, are, exactly what I would expect of someone like us, and yet, it surprised me.

I think the interest came later, after a little bit of tease, when the jokes of the others with me and you stopped. Suggestions, right? They can break through our walls like it was nothing and make us want things we know we should not. And you did not make it easy to dislike you. You came with your good humor and jokes and questions and "tips" and when I saw I was already addicted to you like a junkie.

I fall in love easily, you see? And when I did, I started to fear your feelings. I have never showed my feelings to you, but boy, did I feared yours?! I am afraid you don't like me the same way, I am afraid I will make myself a fool or that you will like me back and I will be completely out of my comfort zone. I fear everything and than some.

So I look at my cards. They told me what was going to happen in other occasions, so, why not now? But the thing with the cards is that they show half and the other half is up to my interpretation. In this case, I think they tell me you and I can be something, because they show me love in my near future when I asked about you.

And if it's in the cards, it's destiny. And if it's destiny, it's unchangeable, unstoppable... right? I have felt so many times that I was at the point where I could change destiny, but I never did. I sticked with what was meant to happen instead. And now, I feel like I am at the point where if I don't do anything, destiny will walk right through me and I will miss my window. It's like I would change destiny by not acting now. Does this even make sense? Is this even possible?

So now I feel this pressure from nowhere to act upon a feeling with any idea what so ever of the outcome. Because you don't give me clues enough. Thank you, by the way, I blame my mess on you.

2 de setembro de 2018

Outro você

Existe alguma coisa de muito admirável e corajoso nele, o jeito como ele assume os próprios sentimentos sem joguinhos ou vergonha. Há uma carência nele e eu sei disso, e talvez isso até justifique o modo de agir, mas eu, nem nos meus momentos mais carentes, tive coragem de assumir para mim e para o outro como me sentia. Então quando o vejo vindo falar comigo, se arriscando e se expondo, eu o admiro.

E esse jeito dele de assumir os sentimentos dele para mim faz eu me sentir absurdamente segura, querida, interessante, traz uma paz inenarrável. Eu gosto de me sentir assim, gostos porque me sinto querida, gosto porque ele deixa claro que o ritmo da nossa relação quem vai ditar sou eu. Ele me traz segurança porque me entrega o controle. Eu sei que aqui quem tem o controle sou eu e isso me aquece o coração. Me deixa ser eu mesma, me deixa ser sincera, me tira um peso das costas. Eu não preciso tentar impressionar, ele já estava impressionado desde o início. Eu não preciso ficar insegura querendo descobrir nas entrelinhas se sou correspondida, porque ele colocou as cartas dele na mesa desde o início.

Talvez exista algo de gostoso no flerte, no início dos relacionamentos casuais e talvez isso seja maravilhoso para boa parte das pessoas. Mas a mim me deixa tensa. Eu sou insegura demais, a cada dúvida imagino que fui preterida, que perdi tempo e energia, que fracassei. Com ele eu nunca me sinto assim. Eu me sinto especial, confortável. Não é isso que devemos procurar no nosso par? Minha vida toda ouvi minha mãe me dizer para só casar com alguém que me tratasse como uma princesa, ele faz isso. Ele é o que deveria ser certo para mim, mas então porque eu sinto que não é?

24 de agosto de 2018

Você

Eu fico procurando significados ocultos nas suas palavras, nas suas brincadeiras. Fico imaginando se você quis dizer algo ao usar aquela palavra. Talvez eu não esteja vendo alguma coisa. Talvez eu esteja querendo ver demais.

Você não tem ideia do quanto eu penso em você. Li uma vez que a paixão nos faz ficar obsecados pela pessoa que desejamos, então o que estou fazendo é absolutamente normal. Exceto que eu reluto em chamar de paixão. Para mim, paixão precisa ser correspondida para receber esse nome, se não é só crush, é só gostar, é só paixonite... é platônico. Eu realmente não sei se o que gosto é real ou é o reflexo na parede da minha caverna.

Você brinca comigo, vem pedir ajuda, conselhos, vive dando dicas de como devo fazer as coisas, fica do meu lado. Mas repara mais em outra pessoa. Pelo menos comenta mais. Conversa e conta coisas que não me conta, parece não ligar para conversar comigo fora do nosso ambiente. E eu fico confusa, fico sem saber como você se sente. Fico sem saber como devo me sentir. Porque eu não quero estar sozinha nesse sentimento, eu não quero gostar. Eu quero corresponder, quero paixão, quero amor.

E nós podíamos ser bons juntos. Podíamos nos divertir e até se completar. Sei disso com tanta certeza que até me sinto idiota. Você sente também? Você percebe que nos temos grandes chances de dar certo?

13 de agosto de 2018

Carta de dia dos pais

Eu descobri ontem que você chorou quando você ficou sabendo que estava com câncer de novo. Me doeu o coração saber disso. Doeu porque eu não sabia da sua angústia e não pude te consolar. Talvez eu nem fosse capaz disso naquela época, mas ontem eu era e queria ter podido te consolar.

Ontem senti, pela primeira vez no dia dos pais, vontade de que você estivesse aqui. Me perguntei como seria nossa relação hoje se você estivesse vivo, se nós brigaríamos mais ou menos, se você estaria feliz comigo. Fiquei pensando que eu queria ter demonstrado mais como você era importante para mim, ter demonstrado mais meu amor por você, ter sido mais carinhosa.

Você deve saber o quão importante foi, e ainda é, para mim, até porque minha mãe vive dizendo que eu sou igualzinha você e acho que isso já diz tudo. Mas eu queria ter podido demonstrar mais, fazer com que você sentisse isso, escutasse isso de mim, e não apenas lesse nas entrelinhas.

Eu sei que nem sempre penso em você, vivo minha vida sem dar muita atenção à saudade, mas ela está aqui e sempre vai estar. Você me deu tudo o que podia dar em termos de amor, carinho e proteção e eu serei não apenas eternamente grata por isso, mas também resultado disso.

Obrigada pai, por ser meu pai.

7 de agosto de 2018

Como sempre

"É assim que você briga com a sua namorada?"
Uma pergunta. Uma palavra.
E toda a confiança que enchia meu peito é reduzida à pó.
"Não tem briga".
A resposta não me ajuda.
Dou risada, brinco.
Mas meu peito quer gritar.
A angústia já se instalou.
Será que as pessoas têm sinas?
Se tiver, essa é a minha:
Amar sem ser nunca correspondida.
E mesmo conhecendo a dor, ela não para de doer.
Não há certezas, é verdade.
Mas eu nunca precisei disso para sofrer.

2 de agosto de 2018

Irrational

I am afraid this feeling will end in nothingness. I am afraid of not being loved back and having put all this energies and all those thoughts in something that will never happen. But this pain I know so well I can say it's an old friend. It's the other possibility I fear the most.

I terrified of him loving me back. I am so scared of being loved back that it freezes me. I have no idea of what to do with being loved back. I have barely ever being kissed. And I don't know how to admit to anyone that when it comes to a love relationship I have absolutely no clue of how to act, or what to do. I can barely admit that to my therapist, and she is pretty much the only one who an help me get thru this.

How can I show how much I like someone if I am afraid the feeling is mutual? I should feel thrilled, but I feel discomfort. Platonic I can deal with, I know, I will feel pain, low self esteem, eat a lot of chocolate and after a while it will all be ok. But the alternative? Trusting someone else with my well being, with my feelings and frailties, with my one and only heart? That sound so scary. And I want to feel that in the same measure I want to run away from it.

30 de julho de 2018

Amor solitário

Eu não sei se a vida que me dá amores solitários, ou eu que corro atrás deles.

Te olho e não consigo definir o que você espera de mim, se você espera algo. Acho que eu fico projetando meus sentimentos, fico querendo que você me deseje, me admire, pense em mim quando naos estamos juntos, fique se perguntando se eu estou olhando aquele movimento seu, o mais singelo deles. Porque eu faço tudo isso. Eu passei por cima de alguns julgamentos meus para continuar a sonhar com você e não tenho a menor ideia do que posso esperar de volta.

Eu gosto de sonhar com você. Sou assim. Essa história é velha. Sonhar com alguém e viver esse sonho só na minha cabeça é o que eu sempre faço. Mas com você eu queria mais. Me vem aquela vontade forte de ultrapassar meus limites. Eu estou mais forte, inquieta, querendo me sentir desconfortável apenas para ver o que vai acontecer depois. Mas ainda me falta coragem. Me falta incentivo seu.

Eu não sei se você é legal ou está me dando mole. Você me agrada de leve, aos poucos e de um jeito que fico em dúvida se é educação ou flerte. Eu já sou péssima nisso, me ajuda. Fico nessa de buscar sinais e ler o que não está escrito. Só escreve. Escreve logo e deixa eu ler. Bem claro e objetivo. Eu sei que você é prolixo, mas só dessa vez tenta ser objetivo. Eu preciso saber se devo continuar sonhando ou se não vale minha energia porque nós não vamos sair da minha cabeça

29 de junho de 2018

Seu toque, sua boca

Sinto sua barba tocando no meu rosto, seus sussurros ao pé do meu ouvido. Minhas costas estão contra a parede e suas mãos no meu corpo. Você segura minha mão, beija meu pescoço, meu suspiro te incentiva, meu coração está batendo tão rápido que parece que vai sair do meu peito. Você desliza a outra mão pelo meu ombro e vai descendo pelo braço, chega mais perto, o tempo parece parar enquanto você beija minha clavícula. Eu fico sem reação nos seus braços. Você pode fazer o que quiser comigo ali, entre suas mãos e seus beijos. E você sabe disso.

Sabe que cada suspiro é um pedido para que você não pare. Sabe porque minha pele se arrepia e meu corpo reage sozinho. Eu não tenho controle nenhum. Estou nas suas mãos e tudo o que eu quero é continuar ali. Sentir seus lábios tocarem minha orelha, meu pescoço, meu rosto, minha boca. Sentir suas mãos deslizando por baixo da minha saia como quem já sabe o caminho, mas gosta de apreciar a vista. Tudo o que eu quero é o fim desse momento, mas quero lento, quero com calma, quero com gosto.

27 de junho de 2018

Amigos

Eu gosto das pessoas que vem para somar
Que te fazem dar risadas até doer a barriga e
Que te trazem o desejo de escrever poesia sobre a leveza dos dias.

Eu gosto daqueles que te desafiam a mudar
Que te levam à lugares diferentes e
Que te fazem passar vergonha sem se importar.

Eu gosto dos que vão e vêm, mas que sempre vêm e trazem com eles aquele gostinho de quero mais.

21 de junho de 2018

Qual a chance?

As vezes eu me pergunto qual a chance de alguém se apaixonar por mim. Eu que não sou toda delicada, que falo alto e, por vezes, falo muito. Que me apaixono antes de realmente conhecer a pessoa, que sou meio antisocial e não bebo. Eu que não tenho corpo de capa de revista e cujo cabelo possui vontade própria. Que não me encaixo em nada nesse modelo de mulher que eu acho que merece amor, mas que mesmo assim desejo muito conhecer esse sentimento.

Como faz para a rejeição não doer? Como faz para não se sentir diminuída diante da preferência do @ por outra pessoa? Será que existe alguém por aí que gostaria de mim do jeitinho que eu sou? Porque eu quero mudar para me encaixar no meu modelo, tentar isso. Mas ao mesmo tempo gostaria de me sentir amada exatamente pelo que sou.

Será que alguém vai me amar enquanto eu falar pelos cotovelos? Enquanto eu preferir sair e comer bem do que fingir que sou fitness? Enquanto eu for mandona do jeito que sou e ficar com a voz aguda quando ficar irritada? Será que eu posso esperar encantar alguém assim? Quando paro para sentir sinto que nunca ninguém vai gostar de mim pelo que sou. E dói. Dói ver outra pessoa sendo preferida por quem despertava meu interesse. Dói não me encaixar nesse modelo que eu mesma criei e ver outras pessoas que se encaixam levar aquilo que eu queria. E dói essa incerteza de não saber se eu estou certa em me sentir doída

19 de junho de 2018

I didn't expect him at all

We have absolutely nothing in common. Lie. We have one thing in common and it is the fact that we were friends in the past. That is it. But still... when I heard his voice calling my name my heart raced so fast that I couldn't breathe. It was like my body wasn't responding to me anymore. It was responding to him and only him. I turned to look at him, respond the calling, and my stomach went crazy fool of butterflies, giving me a cold chill that I have never felt. Until this day I have no idea of how he did that. I was half prepared, I knew he would be there, he had confirmed in the event, but I did not expect to see him, to listen to his voice, to be hugged... I didn't expect him at all.

17 de junho de 2018

Eu não quero ser o crush de alguém.

Ser o crush significa ser uma das opções, ser alguém por quem a outra pessoa sente algo sim, mas não forte o bastante para deixar todo o resto de lado. Ser crush significa ficar, significa algo passageiro, rápido, sem muito significado. Ser crush não é ser especial, é ser uma quentinha, um interesse, um atração... E tudo bem ser tudo isso, não tenho nada contra os crushs por aí, mas eu quero mais.

Eu quero ser a primeira opção de alguém, quero ser aquela pessoa por quem a outra não tem dúvidas do que sente, quer ficar com ela e só com ela, quer dizer "eu te amo" e construir uma vida. Eu quero me sentir especial para alguém mais do que eu mesma. Quero me sentir boba e ainda assim ter coragem de dizer o que quero porque confio no outro. Quero não me torturar querendo saber se a pessoa gosta de mim ou não, porque ela tem tanta certeza de como se sente em relação a mim que não consegue disfarçar, não quer disfarçar.

Eu quero um amor. Um amor de certezas e planos para o futuro, um amor de olhares significativos e discussões bobas, de mãos dadas e conversas longas. Eu não quero sentir ciúmes, não quero brigar por olhares trocados, não quero ter dúvidas e medo de confiar. Quero sentir vergonha de falar e dizer mesmo assim, porque não tenho medo do seu julgamento.

Eu quero alguém que me diga o que sente mesmo com medo, porque esse sentimento não cabe mais nele(a) e quero me sentir assim também, assustada e com medo de não ser correspondida, mas transbordando de um amor que precisa ser correspondido. E é.

31 de maio de 2018

Viver sozinha

As vezes parece que eu parei no tempo, que nada na minha vida está realmente mudando, como se todo mundo estivesse vivendo vidas agitadas, com momentos divertidos, fazendo algumas loucuras e até mesmo sofrendo e eu não. Eu não vivi loucuras, não sofri exaustivamente... eu sou meio morna, nunca fui muito afeita a grandes paixões e acho que isso tem feito eu me sentir meio parada.

Quando paro para pensar e racionalizar percebo que na verdade o que estou sentindo deve ser só uma reação a não ter uma vida de filme/livro/série. A vida real é morna, a vida real não te dá tempo de só viver aventuras e loucuras e fazer grandes besteiras, porque as consequências estão logo ali, e, diferente dos filmes, pode não ficar tudo bem por um bom tempo, as vezes nunca. Até as grandes tristezas são romantizadas nos filmes, mas na vida real não é bom, dói, faz nós vermos tudo cinza e chorar e não sentir vontade de sair da cama, mas ser obrigada a fazer isso, porque na vida real não dá para só chorar umas horinhas com um pote de sorvete, na vida real você precisa trabalhar, estudar, dar atenção à família, amigos, namorado/a, pet. As vezes parece que viver a vida real faz com que não tenha tempo de viver a vida de verdade.

Dito isto, acho que também tenho sentido falta de um amor, não daqueles que sempre senti, mas um amor correspondido, alguém com quem planejar momentos e compartilhar alegrias, aquele tipo de amor que todo mundo parece estar vivendo, mas eu não, sabe deus o porquê. As vezes me pergunto se um dia vou viver isso, vou ter isso, ou vou só continuar vivendo como estou. Não me leve a mal, minha vida até que é legal, a parte de ser morna, mas as vezes parece incompleta, como se faltasse viver uma parte dela. Talvez isso se dê porque t.o.d.o.m.u.n.d.o. age como se ter um namorado fosse me fazer mais feliz, fosse ser o objetivo da minha vida, fosse algo que eu preciso ter para ser feliz, caso contrário não seria possível. Eu acreditei nisso por muito tempo, me achando a própria Cinderela, mas agora... agora acho que não. Acho que posso ser feliz sozinha, mas não tenho conseguido me sentir completa assim, faz sentido?

25 de maio de 2018

Já é um passo

Eu tinha esquecido como é bom gostar de alguém. Não que esteja gostando agora, nem conheço o menino, é só interesse, mas me fez lembrar como é bom gostar de alguém. O frio na barriga, a vontade de impressionar, as olhadas furtivas, o querer saber se é correspondido.... É tudo tão cheio de magia.

E, conversando sobre a possibilidade de gostar desse menino, me apontaram o fato de que eu tenho um poder de sedução. Talvez todos tenham, mas eu nunca notei o meu. Para mim, sedução é sensualidade estavam diretamente ligados e como eu sou mais estilo clássico do que sensual, achava (inconscientemente) que não tinha nada que pudesse interessar os outros. Nunca me vi como uma pessoa desejável sexualmente e talvez isso tenha a ver com minhas concepções de sexualidade/sensualidade. Então me apontaram situações em que meu poder de sedução apareceu e eu não reparei, apontaram a possibilidade de seduzir e não ser sensual, apontaram que eu sou divertida... e eu lembrei que sou mesmo. Lembrei que até hoje, um ano depois, quando cruzo com o bonitinho do parque, ele me olha meio abobado, ele ficou sem fala quando falei com ele! Ele, que é um cara com um corpo incrível, que eu sempre achei que não teria interesse em mim, tentou me cumprimentar na rua outro dia, enquanto eu desviava o olhar e fingia que não vi, porque não sei dar fora.
Eu encantei um cara que eu tinha certeza que was way out of my league. Se isso não demonstra que eu tenho algo especial, não sei o que pode demonstrar.

Essa lembrança me deixou um pouco mais confortável em meio às minhas tantas outras inseguranças. Me deixou um pouco mais esperançosa, achando que, talvez, esse é seja o início de alguma mudança em mim e na minha vida. Sinto que ainda tenho um caminho longo a percorrer, mas que, cada vez mais, estou achando o caminho certo.

19 de maio de 2018

6 de maio de 2018

Receita de vida?

Eu sinto que estou voltando a mim mesma aos poucos. Primeiro meus sentimentos foram se amenizando, já não estava tão cansada, tão depressiva, sensível ou irritada. Agora ajustei meus hormônios de novo e me sinto mais disposta, mais sonhadora, voltei a pensar em histórias para escrever, voltei a sentir vontade de viver histórias e até a fica um pouco impaciente e ansiosa com meus planos, quando antes eles só me davam medo.

Eu sei que tem muita gente, talvez a maioria das pessoas, que teve toda uma vida difícil, acredito que cada um vive as dificuldades que lhe cabem, que o universo não lhe dá um peso maior do que o que você pode carregar, mas isso não significa que não posso sentir o peso que eu carrego. Tenho 27 anos e já vivi mais coisa do que a maior parte das pessoas que conheço, por isso tenho muito orgulho de mim, de todo meu crescimento e de simplesmente ter sobrevivido sem grandes cicatrizes.

Mas ao mesmo tempo em que me acho uma grande sobrevivente não me acho uma grande... vivente? Eu não sinto que eu vivi muitas experiências incríveis, que desfrutei da vida como ela foi feita para ser desfrutada. Vivi ótimos momentos, com pessoas maravilhosas e amo ter podido ter isso, mas não arrisquei muito... não arrisquei nada, eu nunca arrisco. Não falo de viver a vida perigosamente, com aventuras cheias de adrenalina, tem umas coisas legais de fazer e outras não e não acho que isso determina se você está vivendo a vida ou não. Falo de se arriscar emocionalmente, eu fiz poucos amigos ao longe desses 27 anos, amigos leais e incríveis, com quem posso sempre contar, mas não fiz amizade com ninguém que pudesse me convencer a fazer coisas que eu não faria normalmente. Eu nunca arrisquei emocionalmente, sempre vivo muito do lado seguro da vida e acho que isso é saudável, mas não é muito divertido, né?

Acho que é isso que espero ao ir para o exterior, viver uma vida mais solta, sem tanto medo do julgamento dos outros... eu ainda vou ser eu, como bem diz minha psicóloga, até eu ir talves consiga ser um eu menos medroso.

11 de abril de 2018

Talvez já tenha falado sobre isso...

... mas as vezes, com a minha família, sinto que estou gritando em silêncio. Como se berrasse e ninguém escutasse uma palavra do que digo.


Hoje tive uma discussão com a minha mãe. Informei a ela sobre um processo e repeti o que o advogado falou sobre o caso, sou da mesma opinião que ele, mas o fato de eu ser filha dela e advogada deveria ser uma razão a mais para ela acreditar em mim, considerar minha opinião. Não. Ela não se conformou com a notícia e depois de tentar explicar algumas vezes o que significava ela simplesmente me fechou, parou de escutar e disse que não queria mais discutir, que iria falar com o advogado amanhã. Ela sempre faz isso quando brigamos, tento mostrar outro lado da questão para ela, propor outro ponto de vista e em um misto de não querer ver, porque não é a visão dela e porque quem está falando sou eu, ela encerra a discussão fechando os ouvidos.

Até hoje não tinha percebido como ter minha opinião ignorada me feria. Isso me deixa tão puta! Não é escutar uma opinião e depois se decidir por outra coisa, é simplesmente nunca levar nem em consideração essa opinião.

Me dar conta disso me fez pensar. Pensar em como me sinto desconfortável ao dar minha opinião em público ou para "autoridades", em fazer perguntas na frente da sala ou apresentar minhas ideias. Fiquei pensando se esse medo de parecer idiota na frente de pessoas que respeito e admiro não tem a ver com meus pais terem feito eu me sentir assim ao longo do meu crescimento. Eles sempre desmereceram minhas opiniões, principalmente quando não concordavam, eles diziam que eu era muito criança e não sabia de nada... minha mãe até hoje faz isso, de certa forma.

E não ter voz me incomoda, incomoda muito, eu nunca tinha percebido quanto. 

25 de março de 2018

The other shoe

Agora que a iodoterapia já passou não tem mais nada no meu caminho, nenhuma grande preocupação e eu fico inquieta com isso. Fico achando que quando eu menos esperar vai aparecer alguma coisa para me surpreender negativamente, como se as coisas nunca pudessem ficar bem na minha vida. É fato que não importa meus planos, a vida acontece como ela quer e ela sempre me surpreende de uma forma um pouco negativa, então fico com medo de qual vai ser o próximo desafio.

Eu ainda estou esperando o resultado dos exames pós tratamento, ainda estou tomando o cálcio e tentando acertar a dosagem do hormônio, meu paladar está esquisito desde que tomei o iodo e eu meu trabalho é algo que nunca tomo por garantido, porque o temperamento do meu chefe me impede de me sentir confortável. E ao mesmo tempo em que essas coisas não me impedem em nada em seguir em frente, sinto como se esses resultados dos exames e o meu chefe fossem impeditivos de desfrutar a vida.

É verdade que eu ainda não me recuperei totalmente da falta de hormônios, acho que ainda vai levar mais um mês para eu me sentir eu mesma de novo, mas ao mesmo tempo acho que a falta de hormônios dessa vez foi mais suportável e que ser feliz é possível. Estou com medo do resultado dos exames, não vou mentir. Medo de ainda não estar curada, de precisar fazer mais algum tratamento. Tenho medo de nunca mais ter meu paladar normal de volta também. E tenho medo do futuro. Agora não tem mais nada no caminho do meu futuro, nada me segurando, estou empregada, estou saudável (espero), estou pronta para fazer mais do que apenas juntar dinheiro. O IELTS está chegando, dá medo de não tirar uma nota boa, mas tenho esperanças de ir bem e depois poder estudar francês, me dedicar mais ao alemão, me inscrever nas faculdades... partir.

Esse futuro que por tanto tempo me pareceu tão inatingível está chegando e mesmo já tendo um plano traçado eu estou me sentindo um pouco perdida, meio que esperando a próxima notícia ruim que vai me impedir de seguir nessa viagem.

18 de março de 2018

Finitude


Meu tio morreu essa semana. Ele não era meu tio de sangue, era marido da minha tia, mas era meu tio. Aliás, era mais que isso, era pai dos meus primos e foi essa a primeira coisa que eu pensei quando soube que ele morreu. O pai dos meus primos morreu, o marido da minha tia... eu já estive nesse lugar. E, de repente, me veio à memória o dia que meu pai morreu, o velório, o enterro e como nós passamos por aquilo tudo em um misto de reconhecimento e suspensão, como se você estivesse vivendo aquilo, mas não realmente absorvendo tudo. Lembro das pessoas me falando para ser forte pela minha mãe, lembro de dormir e esperar que quando acordasse estivesse tudo bem de novo e lembro de como apenas realmente senti o que aconteceu dois dias depois quando sentei no computador e escrevi sobre aquilo.

Eu não chorei com a morte do meu tio, soltei uma lágrima ou outra, mas também não pude ir ao velório, por causa do trabalho. Fiz questão de falar com cada primo e com a minha tia, dizer a cada um deles algo único e que eu gostaria de ter escutado ao invés de ouvir que eu tenho que ser forte. Falei do cansaço físico que a gente sente, falei que a dor passa, que tudo bem se apoiar nos outros, que ele está bem e quem sofre somos nós, mas a vida continua e a gente sobrevive. A relação deles com o pai era diferente da minha, mas eu falei mesmo assim e acho que em alguma coisa consegui ajudar.

É engraçado né? Como as vezes a vida nos choca com a sua finitude, no último ano fui chocada duas vezes, com a morte inesperada do meu tio e ficando doente... acho que ainda estou com medo dessa finitude, medo dos resultados finais dos meus exames... E o ser humano consegue ser tão complexo: chocada com a finitude da vida e ansiosa com o trabalho ao mesmo tempo. Medo de um chefe babaca ocupando o mesmo espaço de preocupação de ainda ter câncer. Talvez seja porque meu câncer é meio café com leite, mas que é paradoxal, isso não posso negar.

12 de março de 2018

A gente dá um jeito.

Talvez a depressão só venha bem no finalzinho mesmo, quando já acabou e eu já estou voltando a tomar meus remédios, porque no momento é isso que tenho sentido.

Uma vontade imensa de chorar, uma sensação de querer fazer alguma coisa e ao mesmo tempo não querer sair da cama, um sentimento de desolação cada vez que penso em voltar ao trabalho ou em enfrentar a vida de forma geral. Vontade de chorar. Só chorar. Eu nem sei dizer de onde vem essa vontade, mas de repente ela enche meu peito e transborda para meus olhos, minha voz. E não tem um padrão, é só uma onda que vem e me domina, com um filme, uma frase no livro que estou lendo, uma mensagem, uma lembrança....

Hoje me deu uma saudade do meu pai, uma vontade de ter ele aqui comigo e eu sei que a simples presença dele não ia mudar nada, mas eu queria ele aqui e o simples lembrar dele de repente me dá uma saudade, uma vontade de chorar, uma sensação de que se ele estivesse aqui estaria tudo bem, que ele saberia me apoiar e me confortar de um jeito que minha mãe nunca soube. Ele nunca teve problema em me dar razão e as vezes tudo que eu quero é ter razão, mesmo quando não tenho. Minha tia disse que ele olha por mim e se preocupa e eu queria dizer que não precisa, que eu sou forte e vou ficar bem e geralmente é exatamente o que eu faria, mas esses dias... esses dias não sei se vou ficar bem, não sei se sou forte. Tenho medo de que esse ciclo que estou vivendo no trabalho nunca acabe, que eu nunca possa me sentir de novo plenamente feliz... e se eu for uma dessas pessoas que nunca é realmente feliz?

Deve ser essa depressão falando. O tal demônio do meio dia que chegou de novo, mas que com sorte e meus hormônios regulados irá embora. Eu só preciso focar, preciso respirar fundo e achar minha força, ela está ali, eu sou uma das pessoas mais fortes que a gente conhece, eu só preciso lembrar disso e continuar a andar. Só andar. O resto a gente dá um jeito.

4 de março de 2018

R.E.S.P.E.I.T.O. - Parte 2

Eu comecei falando do meu primeiro trabalho ruim porque quando saí de lá achei que estaria preparada para o próximo ruim, afinal, eu havia vivido uma experiência com um chefe ruim e sobrevivi. Mas acontece que a vida nunca é tão simples, né amigos?

Depois eu tive/estou tendo uma experiência pior, mais frustrante e desgastante. Por isso disse que acredito que na vida vivemos experiências até aprendermos com elas. Eu precisava aprender algumas coisas e viver essas experiências me ajudaram a enxergar a necessidade desses aprendizados. Eu sou muito dependente da opinião dos outros e passar por chefes que não se importam minimamente comigo e sempre diminuem meu trabalho me ajudou a perceber isso. Me ajudou a perceber que preciso mudar e me deu um empurrão. Só o tempo irá dizer o quanto realmente aprendi e mudei, mas pelo menos agora vi o problema e com esse chefe mudei de postura. Parei de tentar agradá-lo e decidi me impor um pouco mais, em que pese o risco dessa decisão (ser mandada embora) me sinto satisfeita, pois estou respeitando o meu limite e tentando não aceitar ser tratada de modo inferior ao que acho digno, mesmo que isso o desagrade.

Tenho medo de não conseguir enxergar a situação de novo caso ela se repita, ou de que não conseguiria seguir com essa determinação se não contasse com o apoio da minha mãe. Além disso, quando saí do meu primeiro trabalho ruim achei que houvesse aprendido a não querer agradar chefe e depois me encontrei sofrendo por não agradá-lo. É muito difícil me desvincular, muito difícil mudar, é uma característica minha e agir assim é natural... mas também é dolorido e por isso estou tentando mudar, vamos ver o que o tempo vai me mostrar sobre o sucesso dessa empreitada.

3 de março de 2018

R.E.S.P.E.I.T.O.

Eu acredito que na vida as coisas acontecem para que possamos evoluir e enquanto não realmente aprendermos a lição que precisamos vamos continuar passando por aquilo.

Eu tive uma chefe ruim, ela me pressionava e exigia de mim coisas que não faziam sentido, que eu cumpria porque ela era a chefe. Ela nunca me tratou bem, nunca deu um sorriso e nunca dava "bom dia" ou "tchau". Fui operada e ela nunca me perguntou como eu estava quando voltei. Ela não era minha chefe direta, mas era a chefe da minha chefe e eu não gostava do clima que ela instalava no escritório, como se cada um fosse descartável, como se ela soubesse que falávamos mal dela pelas costas e quisesse fazer jus a isso. Então comecei a buscar outros lugares para trabalhar, recebi uma oferta de estágio, aceitei e no mesmo dia repensei, não porque quisesse continuar, mas porque não sabia se deveria continuar estagiando naquele momento. Decidi dar um tempo. Tenho a sorte de ter podido fazer isso.

Fiquei um ano sem trabalhar, me dediquei à faculdade, passei na OAB, entreguei meu TCC, me formei e recebi um prêmio pelo meu TCC. Fiquei um pouco desesperada por não ter dinheiro, preocupada por não achar trabalho e aí vieram 3 ofertas ao mesmo tempo, muito semelhantes, atividades diferentes e perspectivas diferentes. Fui aceitando cada uma até a outra chegar, logo no dia seguinte, e então, me decidi pela última. É um lugar perto da minha casa, o que significa menos trânsito, o chefe é amigo de uma professora querida, o que significa que ele deve ser legal, o escritório é pequeno e faz um pouco de tudo, o que significa que vou aprender bastante e, por fim, o salário é uma média boa para o momento econômico do país e para minha organização financeira.

No começo parecia um sonho, mas depois de uns dois meses as coisas começaram a mudar. Eu descobri que estava com câncer, que precisaria operar, fazer tratamento, era um stress que não estav pronta para lidar, acho que ninguém está. Avisei meu chefe, dei a ele uma escolha, eu iria embora se minha necessidade de disponibilidade para saúde fosse atrapalhar no escritório. Ele disse que não, que estava tudo bem, eu fiquei. Eu operei, eu fiz o preparo para o tratamento e isso me deixou ansiosa, um tanto depressiva, um tanto estressada e no fim não pude fazer o tratamento. Tinha um novo nódulo e eu precisava operar de novo. Fiz mais exames, outra operação e tudo isso trabalhando, achando que estava dando meu melhor e lutando todos os dias para ir trabalhar porque aquele lugar havia virado a fonte da minha ansiedade.

Meu chefe, que deveria ser legal, é extremamente inseguro, exige que as coisas sejam feitas do jeito dele, me cobra coisas que estão absolutamente fora do meu controle, fala palavras de baixo calão, grita, pressiona, exige pró-atividade, mas se fazemos alguma coisa sem consultá-lo ele briga... Ninguém no escritório sabe lidar com ele, ninguém sabe dançar ao som de sua música, porque toda hora ele muda de música. Eu fui tentando agradar, entrei querendo ter com ele a relação que tinha com meus primeiros chefes, de respeito e amizade e em um primeiro momento achei que seria assim, mas logo isso foi se mostrando mais difícil e eu cada vez mais fui me afundando na areia movediça que é tentar agradá-lo.

Então, logo após minha segunda cirurgia, em que eu voltei a trabalhar 10 dias antes de expirar meu atestado, o que significa que fiquei 4 dias de repouso e 2 deles eram fim de semana, levei um chamada monumental. Ele não exigiu essa minha volta, mas se quer perguntou como eu estava quando me viu, já me questionou sobre um e-mail, antes mesmo do "bom dia". Mais tarde me chamou à sala dele e fechou a porta, ficamos uns 30 minutos ali. Eu chorei. Chorei de frustração, porque até então havia feito tudo em meu poder para tentar agradá-lo e não foi possível, ele estava ali falando que eu não era boa o suficiente, que eu havia demonstrado ser uma coisa quando entrei no escritório, mas agora estava me mostrando outra (e ele parecia bastante decepcionado por isso). Ele me disse para repensar minha postura no trabalho e ver o que eu queria, indicando que se as coisas não mudassem eu poderia perder o emprego.

Aquilo me deixou mal a semana toda. Não que perder o emprego fosse tão devastador, era muito mais o fato de eu ter tentado tanto agradar e falhado, eu me sentia incapaz, chorei no sofá da minha psicóloga questionando se eu era a pessoa mais incompetente do mundo. Eu nunca tinha chorado naquele sofá antes e já fazia terapia a quase três anos. Foi quando uma ficha caiu, ela ajudou que a ficha caísse e meus hormônios já estavam voltando ao normal: eu não era, eu não sou, incompetente, ele é. Ele é um péssimo líder e foi extremamente antiprofissional em me dar aquela bronca naquele dia.

Veio o recesso e fiquei 20 dias longe do escritório. Recontei a história e episódios do escritório para colegas e amigos e todos concordavam em como ele era um grande babaca. Ninguém se quer piscou para chegar nessa conclusão. Voltei ao trabalho decidida a não mais viver tentando agradá-lo, mas sim a fazer meu melhor e se fosse o suficiente ótimo, mas se não fosse não era incompetência minha, era simplesmente porque nada nunca seria. O tempo foi passando, comecei o preparo para o tratamento de novo, ele parecia melhor comigo também, acho que estava distraído exigindo o que a menina da comunicação não poderia dar (mesmo que quando ele tivesse contratado ela, ele soubesse disso). Ela chorava quase todo dia, nós, que já estávamos mais acostumados a consolávamos e tentávamos ensinar a lidar com isso. Não com ele, mas com o que ele fala, o jeito que ele fala, para que ela não sentisse o que a gente sentiu: que nós éramos incompetentes. Não adiantou, ela é mais sensível e sentiu isso mais rápido.

Por fim essa semana, na sexta feira, faltando 5 dias para meu tratamento veio aquela situação de novo, a que ele exige demais de mim e questiona minhas ações e muda a direção que ele deu antes, como se nunca a tivesse dado. 20 minutos de bronca na reunião semanal, fala grossa e analogia com palavras de baixo calão, esquecimento que foi imputado a mim, afinal, eu falei uma coisa para ele na terça feira e era meu dever relembrá-lo na sexta... Ele deu a direta que de deveria entrar mais cedo e sair mais tarde para cumprir tudo que eu tenho para fazer, já que vou faltar 4 dias por causa do meu tratamento e ele não se programou para essa minha falta porque esqueceu meu aviso. Afinal, nós estamos com dois estagiários a menos do que quando eu entrei, o que significa que a estagiária dos outros sou eu e que eu não tenho ajuda de ninguém para nada, nada mais justo do que eu me matar de trabalhar para fazer ele cumprir os prazos que ele prometeu aos clientes sem me consultar. No fim da sexta feira ele não estava no escritório e mandei mensagem dizendo que não. Que não tinha condições de sair mais tarde ou ir ao escritório no fim de semana, mas que levaria um contrato para casa para revisar. As outras colegas ficaram preocupadas quando disse que possivelmente segunda feira não terei emprego. Ele deve ter ficado puto com a minha mensagem.

Mas sabe de um coisa? Eu espero que ele tenha ficado muito puto. Eu espero que ele me chame para conversar. É totalmente irracional, mas eu espero que na segunda ele me chame para conversar. Adoraria manter meu salário e talvez até seja os hormônios falando, mas eu já estou farta e hoje entendi porquê: eu estou farta de ser desrespeitada. Ninguém na minha vida me trata com falta de respeito. Ninguém. Eu nunca admiti isso de ninguém e sempre inspirei atitude respeitosas em todo mundo. Eu não tenho problemas com pessoas diretas, objetivas, secas, mas falta de respeito é o fim. Então é, eu espero que ele fique puto porque já faz meses que eu estou puta por não ser respeitada, por ele não respeitar ninguém. Espero que ele fique puto e me chame para conversar e eu vou dizer tudo que está engasgado na minha garganta. Quero ver se o machão que intimida uma equipe inteira de mulheres com famílias para criar e dependentes daquele emprego é macho o suficiente para escutar a menininha aqui que não tem medo dele e nem nada a perder.

As outras colegas se preocuparam comigo, mas eu não estou preocupada. Isso não é uma atitude impulsiva ou com consequências viscerais, não vai ser esse erro que vai arruinar minha vida. A raiva pode ser um sentimento libertador.  

24 de fevereiro de 2018

Falar na terapia

Ontem eu estava fazendo a prova para um novo trabalho e no meio da resposta de uma questão, que eu não tinha ideia do que responder, olhei pela janela e comecei a pensar que.... "o que eu estou fazendo com a minha vida? Porque eu estou aqui? Eu nem quero ser advogada". É meio bizarro que eu estava ali tentando entrar em um emprego e pensando que ele é longe, deve ser um trabalho intenso, é um escritório bem típico, formato físico eu digo, e eu nem gosto desse formato. Além disso, as pessoas, elas devem ser advogadas típicas e a verdade é que eu acho advocacia algo chato.

Então no dia seguinte comecei a perceber
uma série de pequenos erros de atenção no trabalho, por enquanto não é nada que vá prejudicar um cliente, mas poderia ser e comecei a me questionar sobre o porquê, será que eu sou simplesmente má advogada? Não sirvo para a profissão? Sou fisicamente incapaz de ter atenção ao meu trabalho? Ou será que é porque eu não me importo tanto já que não vejo um propósito nele além de receber salário?

Desde que me formei, até antes, eu comecei a ter dúvidas sobre o que quero da minha vida, se advogar era mesmo meu sonho. Esses questionamentos foram motivados por uma experiência prévia de má chefe, e parte de mim acreditou que na verdade eu talvez goste do direito, mas esteja assustada porque não tive uma boa chefe no escritório que trabalhei e eu sou extremamente influenciável pelos meus chefes. Mas agora começo a pensar que eu realmente talvez não sirva para a advocacia. Esses detalhes formais do trabalho me estressam. Prazos, recolhimento dos valores corretos, verificação dos contratos para garantir que uma cláusula bate com a outra, correção da digitação, acentos.... cumprimento dos requisitos dos órgãos burocráticos e as vezes ainda assim não conseguir o que você quer, falta de informação disponível por telefone ou online nesses mesmos órgãos, uma quantidade surreal de pequenos detalhes de procedimento que podem ser até o que faz a máquina da Justiça funcionar, mas que me confundem e eu acabo errando, esquecendo alguma coisa, falhando.

Talvez seja a ansiedade da falta de hormônios novamente, mas eu tenho achado, com um pouco mais de convicção ultimamente, que não nasci para isso. Tenho achado tudo isso chato, difícil de conviver com. Tenho achado que meu eu de 19 anos não imaginava que ser advogada era assim, ela imaginava que era como nos filmes. Eu acho que mesmo quando minhas amigas falam sobre o dia a dia acho até legal, mas quando elas contam um ou outro causo, uma vitória em um caso... mas quando elas falam sobre o dia a dia parece chato, um pouco inútil. O glamour que a menina de 19 anos via no trabalho sumiu e o que eu vejo é só um sistema meio quebrado tentando ajudar a consertar a vida das pessoas, mas falhando miseravelmente quando analisada a grande escala.

Eu vi um filme que diz que o estímulo para o crescimento é se sentir desconfortável e fazer algo sobre isso. Ir para o exterior, tentar uma nova faculdade é a minha resposta a esse estímulo que estou sentindo?

18 de fevereiro de 2018

Uma fração de segundo.

No momento em que ela entrou na sala eu soube. Quer dizer, soube é uma palavra forte, implica ter certeza de algo e eu não tinha certeza, mas já desconfiava o suficiente para ser capaz de apostar toda minha herança nisso. Eu sei que parece loucura, mas é quase magnético, quando ela está por perto uma força me impulsiona na direção dela, eu não posso evitar. E no momento em que ela entrou na sala, com o cabelo curto, liso, tingido de preto e maquiagem pesada como ela jamais ousaria usar no castelo, uma força me atingiu em cheio e eu não consegui mais desviar minha atenção dela e do novo modelo "garota rebelde". Eu prefiro a princesa inocente, mas poderia me acostumar com a mini saia preta e o delineador.

Eu a conheço desde os 10 anos e nós nunca fomos amigas, acho que gostamos muito mais de brigar uma com a outra do que de trocar confidências, ela me deixa maluca e foi por me sentir assim por ela que percebi que sou lésbica. Não foi algo difícil, aceitar minha sexualidade para mim mesma, foi orgânico e acho que foi quando minha mãe soube também. Eu tinha doze anos e meu pai tinha acabado de ser eleito primeiro ministro pela primeira vez, minha mãe foi me colocar para dormir depois do baile de posse e me perguntou se eu tinha gostado, depois perguntou se eu gostava da Sofia. Fiquei em silêncio um minuto e respondi com outra pergunta: como sei quando gosto de alguém? Minha mãe me respondeu que a gente sabe que gosta de alguém quando a coisa mais importante para nós é fazer essa pessoa feliz. Então eu soube ali que eu amava a Sofia e, mesmo nunca tendo respondido para minha mãe se gostava dela ou não, acho que ela provavelmente também soube.

E é claro que já fiquei com outras garotas, tenho 19 anos, saí em capas de jornais por isso e mesmo minha sexualidade já não sendo algo recente ou chocante como no primeiro momento, ainda tenho recebo xingamentos no Facebook ou no Instagram... E eventualmente alguém me liga me xingando e eu preciso bloquear o número. Ainda não é fácil ser uma garota lésbica e quando me dei conta disso também me dei conta de que a Sofia jamais se assumiria. Eu não posso ter cem por cento de certeza de que ela seja lésbica, mas o jeito que ela me olha as vezes me deixa maluca e eu posso jurar que ela quer me beijar ou algo assim, mas, mesmo que ela seja, ela nunca vai se assumir. Ela é a princesa, filha mais velha e única mulher, ela vai ser rainha daqui a uns 20 anos, ou menos, se a mãe dela resolver se aposentar mais cedo, e rainhas não são lésbicas. Rainhas casam com príncipes encantados, geralmente segundos filhos de outros reinos, ou no mínimo, se casam com algum nobre rico e homem, hétero, cis. Talvez ele até jogue futebol, ou lacrosse, e fale coisas como "minha princesa".  Sério, porque ainda tem mulher que gosta de homem? Nada contra, tenho até amigos que são, é só que eles poderiam ser mais discretos.

Então ela entrou na sala e me olhou, eu tive aquela sensação de que estava presa a ela por um magnetismo ridículo e inexplicável, e então pensei que se ela for a Sofia, pelo menos enquanto ela finge não ser, talvez a gente possa ser alguma coisa. A Sofia nunca vai se assumir, mas a menina que entrou na sala talvez possa, sem que ninguém saiba, sem que isso possa provocar uma guerra civil ou levar a uma abdicação antecipada. Talvez enquanto essa menina que entrou existir eu tenha uma chance de ficar com o que me parece ser o amor da minha vida, pelo menos por essa fração de segundo que é o que vai durar nossa história... se ela acontecer.  

2 de fevereiro de 2018

Rascunho

Todo mundo sabe quem eu sou. Não que eu seja a Beyoncé ou a Angelina Jolie, mas as pessoas sabem quem sou eu, pelo menos as do meu país. Vira e mexe eu apareço em revistas, as vezes uma matéria, as vezes uma foto no editorial de moda, as vezes um paparazzi e de vez em quando uma capa, mas essa última só de vez em quando, não fica bem para mim sair sempre em capas de revistas, pode parecer exibicionismo.  Deus livre Dellávia de uma princesa exibicionista. Palavras da minha mãe.

E eu não estou reclamando, gosto de quem eu sou, de ser princesa e de saber que um dia serei a rainha de Dellávia, como é minha mãe, como foi minha avó e tantas outras mulheres antes dela. Gosto de saber que eu posso fazer a diferença no mundo e na vida de tantas pessoas e desde criança tenho sido preparada para isso, para ser uma boa rainha. Morro de medo de não conseguir, mas mal posso esperar para tentar.

Até lá, eu sou uma princesa. E quando digo que não sou a Beyoncé ou a Angelina Jolie, quero dizer que não canto, danço ou atuo, não desfilo, não escrevi nenhum livro (ainda, toda rainha aposentada acaba escrevendo um livro, quem sabe?), ou abri uma empresa e não governo ainda. Minha vida se resume a ser uma princesa e tudo que uma princesa tem é o futuro, até lá precisamos resguardar nossa imagem e garantir que ela não atrapalhe ou ofusque nosso futuro governo.  O problema é que com a realeza vem a notoriedade, como eu disse, todo mundo sabe quem eu sou, e todo mundo tem uma opinião sobre quem eu deveria ser e se eles decidirem que não gostam de mim pode ser que eles não gostem de me ter como rainha, pode ser que eles nem queiram tentar, ou que logo no início do meu reinado eles já decidam que sou uma má rainha. E eu sou filha única, então se eles, meu povo, não gostarem de mim, eu preciso renunciar e quem assume como rei é meu tio.

Meu tio é um babaca.

Então, sem pressão, mas eu não posso sair da linha, nunca pude, sério, meus dois seguranças tem autorização para me segurar fisicamente caso eu vá fazer alguma coisa estúpida. E agora eu estou indo para a faculdade. Adivinha quem não vai aproveitar nada? Isso mesmo. Eu.  

1 de fevereiro de 2018

Espelho, espelho meu

É muito difícil observar alguém sofrendo como você já sofreu, pelas mesmas coisas. Cada momento de aflição para a pessoa é um momento em que você relembra seu próprio sofrimento. Você tenta aconselhar, tenta ajudar, deixar a pessoa mais calma, que ela pelo menos saiba que não está sozinha, mas ao mesmo tempo você sabe que ela não vai escutar, porque você não escutou, porque você achou que não iria acontecer com você, que aquela era a realidade da pessoa que te falava e então... então você vive essa realidade e não percebe que tentaram te avisar. Pelo menos até que a ficha caia e você perceba que está no mesmo barco que aqueles que tentaram te ajudar.

A menina nova do meu trabalho tem sofrido com o chefe, as reclamações dela são tão familiares aos meus ouvidos que me fazem suspirar de pena e contenção. A vontade de levantar do meu lugar e ir falar tudo o que penso é grande, mas respiro fundo, digo para ela fazer o mesmo, que ele não vai mudar, que as reclamações dele não querem dizer que você seja ruim no seu trabalho, é só que ele é controlador, porque é inseguro. Diz que quer que sejamos autônomos, mas monitora até a fonte dos nossos e-mails. Diz que quer pró-atividade, mas tudo deve passar pelo crivo dele antes de acontecer. Não é algo que nós possamos entender, temos apenas que aceitar e fazer como ele quer, porque ele que paga o salário. E racionalmente falando parece bem simples, não é mesmo?

Mas ela está no escritório há duas semanas e teve crises de choro, noites em claro e até estômago ruim por causa da pressão dele nela, das revisões, das críticas e "padronização". E eu? Eu estou com os hormônios regulados, tendo duas semanas mais calmas, enquanto o foco está nela, e sofrendo por antecipação por saber que dia 05/02 paro com os hormônios de novo, e ficarei mal de novo e levarei o que ele diz para o pessoal, e sofrerei e não sei como vou lidar com isso agora. 

31 de janeiro de 2018

Histórias para contar

Eu quero escrever um romance real, nada de mocinha hiperfragilizada, quero uma heroína forte e vulnerável como qualquer mulher por aí. Quero personagens diversos e empoderados, negros, gays, bissexuais, mulheres... E Deus me livre de clichês! Quero uma história bem contada que faça as pessoas se identificarem e rirem, e chorarem e pensarem que aquela história elas gostariam de viver, aquela história elas poderiam viver.

Quero escrever uma história que faça as pessoas se sentirem como eu quando leio um livro que amo, o problema é que leio tantos livros, cada um de um contando uma história e me trazendo sentimentos diferentes dos outros. As vezes acho que quero juntar tudo de uma vez... Mas não da, o livro explode.

Preciso começar simples. Uma menina e um menino. E entre tantos personagens da minha cabeça não consigo escolher um deles. A princesa ou a advogada? O professor ou o engenheiro? Eles ficam juntos no final? Eles se separam? Quem são os amigos? Quem é a família? Como se conheceram? Desde quando se amam? Porque não ficam logo juntos?

Preciso sentar um dia, colocar todas as minhas histórias no papel, personagens principais e resumo, e escolher uma para escrever. Assim, tudo esses personagens de mim, deparo suas histórias e crio um fio da meada para cada história. O problema é que quando sai da minha cabeça e vira trabalho fica chato e eu enjoo.

28 de janeiro de 2018

Paciência

Eu acho que esse ano será um longo exercício de paciência. Eu programei uma linha do tempo para ele que já não está sendo seguida... é aquela história, a gente planeja as coisas, então vem a vida e faz o que quer. Mas sinto que apesar de ter meus planos bagunçados alguma coisa vai acontecer, sabe quando você tem aquele pressentimento de alguma coisa vai acontecer? Eu estou sentindo isso. As vezes esses pressentimentos não são nada, mas as vezes eles têm uma razão de ser, ainda não aprendi a distinguir eles. Em todo caso, é começo de ano e até o fim tanta coisa pode acontecer, ano passado foi assim, o inesperado atravessando meus planos e ainda assim a vida dando certo, sinto que esse ano vai ser assim. Sinto que esse ano vai ser bom, mesmo já tendo que replanejar algumas coisas. Eu quero aproveitar mais esse ano, aproveitar mais a vida, sabe? A alegria do dia a dia, ir mais ao museu, ao teatro, passear ao ar livre, aprender alguma coisa nova e acho que vou conseguir, em um ritmo lento, com paciência e tentando manter o equilíbrio, acho que consigo.

Mas isso eu digo agora, com os hormônios regulados e o psicológico em paz. Quero ver em 20 ou 30 dias quando estiver sem o hormônio a um tempo... paciência. No momento quero muitas coisas, mas para os próximos dois meses meu objetivo imediato é sobreviver.

9 de janeiro de 2018

Escreve qualquer coisa

Uma das coisas que me propus a fazer esse ano é escrever mais, qualquer coisa que seja, mas mais. Eu gosto de escrever, gosto de pensar em histórias e mergulhar nelas, mas sempre acabo me perdendo em algum lugar entre o mergulho na criação e as batidas nas teclas do computador, que acabam por nunca sair. Eu quero colocar no papel todas essas histórias que tenho em mim, umas mais fantasiosas, outras realistas... minha imaginação viaja entre o possível e o impossível com facilidade, mas meus dedos travam.

Já fazem anos desde que escrevi minha última história completa, acho que uns sete anos. É muito tempo. Desde então tenho escrito meus pensamentos e sentimentos aqui e em alguns caderninhos, tenho feito diários de viagem, tenho escrito peças jurídicas no trabalho e tentado uma ou outra vez começar uma nova história. Mas nunca sai. Eu já falei disso aqui. Eu complico demais a história, eu fico sem um clímax, não consigo pensar no final, então nem começo... e as vezes fico com preguiça de colocar colocar no papel aquilo que está na minha mente, afinal, qual o propósito? Ninguém vai ler; é apenas mais uma história batida; tem tantas outras coisas para fazer;....eu nem vou terminar mesmo.

Esse é o pensamento que vem me assombrando ultimamente: eu nem vou terminar mesmo, vou acabar desistindo em algum lugar próximo a página vinte e ficar ´para sempre apenas imaginando o que poderia ter sido, que deveria ter insistido. Vou até tentar prosseguir algumas vezes, mas a essência da história já vai ter se perdido em mim, então vou desistir de novo, e de novo e... 

Então me propus que esse ano vou escrever mais. Eu quero escolher uma entra as histórias que rodeiam minha mente e tentar colocar essa no papel, não para alguém ver, mas para expulsar de mim essa história, tirar esses personagens e a vida deles da minha mente, deixar ela mais leve. São tantas histórias para contar, presas aqui dentro, me assombrando, pedindo para ser organizadas no papel que eu preciso fazer isso, preciso expulsar essas histórias de mim, umazinha que seja já vai me aliviar espaço. E de quebra eu ainda posso dizer para aqueles que me cobram que sim, escrevi alguma coisa.

2 de janeiro de 2018

Viver


A verdade é que 2017 começou de um jeito e terminou de outro completamente inesperado.

Provavelmente muito disso tem a ver com o câncer, que acabou sendo um acontecimento inesperado na minha vida. Ele não me obrigou a mexer nos meus planos, mas mexeu muito comigo, a preparação para a radioiodo (ficar sem o hormônio), fazer duas cirurgias... isso alterou muito meu psicológico. Não apenas o que eu quero chamar de episódio depressivo resultado da abstinência de hormônio, do qual eu sinto que só agora estou me recuperando, mas também o estresse de saber que precisaria operar de novo, cuidar de novo da cicatriz, me preparar de novo para a radioiodo. O prognóstico é bom, não morrerei disso, mas ainda assim, saber que a doença foi tirada e cresceu em dois meses em outro lugar é assustador.

No meio disso tudo teve meu trabalho, que conquistei um pouquinho antes de descobrir o nódulo na tireoide e no começo parecia ótimo, perfeito: perto de casa, ambiente agradável, cumpre com os horários e paga uma média salarial boa. O que mais eu poderia desejar? Bom, com o tempo descobri que um chefe com mais habilidade para a posição e alguma empatia seria de bom grado. No turbilhão da falta de hormônio acabei voltando a ter episódios de ansiedade, como quando trabalhava no último escritório, cometi erros bobos de falta de atenção que resultaram em chamadas de atenção e isso até parece justo, mas deixa de ser quando observamos como e quando foi feita essa chamada. Desconsiderar meus hormônios e dizer que mudei desde que entrei no escritório não parece justo se você considerar que desde que entrei descobri um câncer e passei por duas cirurgias. Eu sei que vida pessoal não deveria impactar na qualidade do meu trabalho, mas a verdade é que certas coisas não estão no nosso controle. Além da minha situação de saúde eu estava me sentindo extremamente pressionada porque a reação do meu chefe à qualquer erro meu, ou à coisas que não são erros meus e não estão na minha esfera de poder, mas que "dão errado" é gritar, exigir resultados sem querer saber dos meios, é ameaçar, como quando eu voltei depois da segunda cirurgia, na qual faltei apenas 3 dias e voltei ao trabalho porque sabia que ele precisava de mim. Ele me chamou na sala dele e chamou a atenção para um erro meu, uma data errada em um documento, o cliente notou e questionou se estava certo. Eu errei a data e ele me disse que mudei desde que entrei, que se reusava culpar os hormônios, porque se não teria que me mandar para casa e me chamar de volta apenas quando "isso tudo" já tivesse terminado, o escritório tem vinte anos e não pode perder a reputação, eu deveria repensar meu comportamento no trabalho e decidir o que quero da vida.

Por outro lado, isso foi bom, serviu para me tirar da bolha da ansiedade, fez eu ver que não importa o meu esforço, ele vai criticar quando algo der errado, minha culpa ou não. Então eu vou apenas fazer meu melhor, ficar em stand by quando ele falar e priorizar minha saúde. Eu não vou mais me sentir culpada de faltar, não vou mais me sentir culpada por perder duas horas e meia de trabalho em um dia porque preciso ir ao médico e não tinha um horário melhor e não vou mais me sentir culpada de não alcançar as expectativas dele, porque 1) elas são surreais e 2) a única pessoa a quem eu devo satisfazer aqui é a mim mesma. Acho que eu sempre busco a aprovação externa porque não encontro ela em casa (eu já falei sobre isso com a Flora? Deveria) e isso acaba me colocando em um looping de buscar a aprovação de quem eu não preciso, não devo querer, e depois fico me sentindo mal de não ter. Chega.

Então nesse fim de ciclo e início de ano percebo que 2017 não trouxe muitas conquistas pessoais, mas me trouxe provas pelas quais eu ainda estou passando. Todo mundo me fala que fui forte, que enfrentei a doença com um força invejável... eu não me sinto forte. Eu sinto que fiz o que tinha que fazer para sobreviver. Acho que é isso que faço, sobrevivo. Eu sempre fui boa nisso. Sobrevivo ao câncer, sobrevivo ao meu mau chefe, sobrevivo. As vezes vem uma recompensa e eu fico sem entender de onde ela veio, qual seu mérito.

Talvez por isso o que eu quero de 2018 é simples: conquistas. Conquistas que estejam nos meus planos, conquistas que sejam mais que sobreviver, que sejam viver. Eu quero arriscar e aproveitar a vida porque se 2017 me mostrou alguma coisa é que a vida é curta demais para eu me perder em medos e sobrevivência, a vida foi feita para ser aproveitada, vivida.