24 de fevereiro de 2018

Falar na terapia

Ontem eu estava fazendo a prova para um novo trabalho e no meio da resposta de uma questão, que eu não tinha ideia do que responder, olhei pela janela e comecei a pensar que.... "o que eu estou fazendo com a minha vida? Porque eu estou aqui? Eu nem quero ser advogada". É meio bizarro que eu estava ali tentando entrar em um emprego e pensando que ele é longe, deve ser um trabalho intenso, é um escritório bem típico, formato físico eu digo, e eu nem gosto desse formato. Além disso, as pessoas, elas devem ser advogadas típicas e a verdade é que eu acho advocacia algo chato.

Então no dia seguinte comecei a perceber
uma série de pequenos erros de atenção no trabalho, por enquanto não é nada que vá prejudicar um cliente, mas poderia ser e comecei a me questionar sobre o porquê, será que eu sou simplesmente má advogada? Não sirvo para a profissão? Sou fisicamente incapaz de ter atenção ao meu trabalho? Ou será que é porque eu não me importo tanto já que não vejo um propósito nele além de receber salário?

Desde que me formei, até antes, eu comecei a ter dúvidas sobre o que quero da minha vida, se advogar era mesmo meu sonho. Esses questionamentos foram motivados por uma experiência prévia de má chefe, e parte de mim acreditou que na verdade eu talvez goste do direito, mas esteja assustada porque não tive uma boa chefe no escritório que trabalhei e eu sou extremamente influenciável pelos meus chefes. Mas agora começo a pensar que eu realmente talvez não sirva para a advocacia. Esses detalhes formais do trabalho me estressam. Prazos, recolhimento dos valores corretos, verificação dos contratos para garantir que uma cláusula bate com a outra, correção da digitação, acentos.... cumprimento dos requisitos dos órgãos burocráticos e as vezes ainda assim não conseguir o que você quer, falta de informação disponível por telefone ou online nesses mesmos órgãos, uma quantidade surreal de pequenos detalhes de procedimento que podem ser até o que faz a máquina da Justiça funcionar, mas que me confundem e eu acabo errando, esquecendo alguma coisa, falhando.

Talvez seja a ansiedade da falta de hormônios novamente, mas eu tenho achado, com um pouco mais de convicção ultimamente, que não nasci para isso. Tenho achado tudo isso chato, difícil de conviver com. Tenho achado que meu eu de 19 anos não imaginava que ser advogada era assim, ela imaginava que era como nos filmes. Eu acho que mesmo quando minhas amigas falam sobre o dia a dia acho até legal, mas quando elas contam um ou outro causo, uma vitória em um caso... mas quando elas falam sobre o dia a dia parece chato, um pouco inútil. O glamour que a menina de 19 anos via no trabalho sumiu e o que eu vejo é só um sistema meio quebrado tentando ajudar a consertar a vida das pessoas, mas falhando miseravelmente quando analisada a grande escala.

Eu vi um filme que diz que o estímulo para o crescimento é se sentir desconfortável e fazer algo sobre isso. Ir para o exterior, tentar uma nova faculdade é a minha resposta a esse estímulo que estou sentindo?

18 de fevereiro de 2018

Uma fração de segundo.

No momento em que ela entrou na sala eu soube. Quer dizer, soube é uma palavra forte, implica ter certeza de algo e eu não tinha certeza, mas já desconfiava o suficiente para ser capaz de apostar toda minha herança nisso. Eu sei que parece loucura, mas é quase magnético, quando ela está por perto uma força me impulsiona na direção dela, eu não posso evitar. E no momento em que ela entrou na sala, com o cabelo curto, liso, tingido de preto e maquiagem pesada como ela jamais ousaria usar no castelo, uma força me atingiu em cheio e eu não consegui mais desviar minha atenção dela e do novo modelo "garota rebelde". Eu prefiro a princesa inocente, mas poderia me acostumar com a mini saia preta e o delineador.

Eu a conheço desde os 10 anos e nós nunca fomos amigas, acho que gostamos muito mais de brigar uma com a outra do que de trocar confidências, ela me deixa maluca e foi por me sentir assim por ela que percebi que sou lésbica. Não foi algo difícil, aceitar minha sexualidade para mim mesma, foi orgânico e acho que foi quando minha mãe soube também. Eu tinha doze anos e meu pai tinha acabado de ser eleito primeiro ministro pela primeira vez, minha mãe foi me colocar para dormir depois do baile de posse e me perguntou se eu tinha gostado, depois perguntou se eu gostava da Sofia. Fiquei em silêncio um minuto e respondi com outra pergunta: como sei quando gosto de alguém? Minha mãe me respondeu que a gente sabe que gosta de alguém quando a coisa mais importante para nós é fazer essa pessoa feliz. Então eu soube ali que eu amava a Sofia e, mesmo nunca tendo respondido para minha mãe se gostava dela ou não, acho que ela provavelmente também soube.

E é claro que já fiquei com outras garotas, tenho 19 anos, saí em capas de jornais por isso e mesmo minha sexualidade já não sendo algo recente ou chocante como no primeiro momento, ainda tenho recebo xingamentos no Facebook ou no Instagram... E eventualmente alguém me liga me xingando e eu preciso bloquear o número. Ainda não é fácil ser uma garota lésbica e quando me dei conta disso também me dei conta de que a Sofia jamais se assumiria. Eu não posso ter cem por cento de certeza de que ela seja lésbica, mas o jeito que ela me olha as vezes me deixa maluca e eu posso jurar que ela quer me beijar ou algo assim, mas, mesmo que ela seja, ela nunca vai se assumir. Ela é a princesa, filha mais velha e única mulher, ela vai ser rainha daqui a uns 20 anos, ou menos, se a mãe dela resolver se aposentar mais cedo, e rainhas não são lésbicas. Rainhas casam com príncipes encantados, geralmente segundos filhos de outros reinos, ou no mínimo, se casam com algum nobre rico e homem, hétero, cis. Talvez ele até jogue futebol, ou lacrosse, e fale coisas como "minha princesa".  Sério, porque ainda tem mulher que gosta de homem? Nada contra, tenho até amigos que são, é só que eles poderiam ser mais discretos.

Então ela entrou na sala e me olhou, eu tive aquela sensação de que estava presa a ela por um magnetismo ridículo e inexplicável, e então pensei que se ela for a Sofia, pelo menos enquanto ela finge não ser, talvez a gente possa ser alguma coisa. A Sofia nunca vai se assumir, mas a menina que entrou na sala talvez possa, sem que ninguém saiba, sem que isso possa provocar uma guerra civil ou levar a uma abdicação antecipada. Talvez enquanto essa menina que entrou existir eu tenha uma chance de ficar com o que me parece ser o amor da minha vida, pelo menos por essa fração de segundo que é o que vai durar nossa história... se ela acontecer.  

2 de fevereiro de 2018

Rascunho

Todo mundo sabe quem eu sou. Não que eu seja a Beyoncé ou a Angelina Jolie, mas as pessoas sabem quem sou eu, pelo menos as do meu país. Vira e mexe eu apareço em revistas, as vezes uma matéria, as vezes uma foto no editorial de moda, as vezes um paparazzi e de vez em quando uma capa, mas essa última só de vez em quando, não fica bem para mim sair sempre em capas de revistas, pode parecer exibicionismo.  Deus livre Dellávia de uma princesa exibicionista. Palavras da minha mãe.

E eu não estou reclamando, gosto de quem eu sou, de ser princesa e de saber que um dia serei a rainha de Dellávia, como é minha mãe, como foi minha avó e tantas outras mulheres antes dela. Gosto de saber que eu posso fazer a diferença no mundo e na vida de tantas pessoas e desde criança tenho sido preparada para isso, para ser uma boa rainha. Morro de medo de não conseguir, mas mal posso esperar para tentar.

Até lá, eu sou uma princesa. E quando digo que não sou a Beyoncé ou a Angelina Jolie, quero dizer que não canto, danço ou atuo, não desfilo, não escrevi nenhum livro (ainda, toda rainha aposentada acaba escrevendo um livro, quem sabe?), ou abri uma empresa e não governo ainda. Minha vida se resume a ser uma princesa e tudo que uma princesa tem é o futuro, até lá precisamos resguardar nossa imagem e garantir que ela não atrapalhe ou ofusque nosso futuro governo.  O problema é que com a realeza vem a notoriedade, como eu disse, todo mundo sabe quem eu sou, e todo mundo tem uma opinião sobre quem eu deveria ser e se eles decidirem que não gostam de mim pode ser que eles não gostem de me ter como rainha, pode ser que eles nem queiram tentar, ou que logo no início do meu reinado eles já decidam que sou uma má rainha. E eu sou filha única, então se eles, meu povo, não gostarem de mim, eu preciso renunciar e quem assume como rei é meu tio.

Meu tio é um babaca.

Então, sem pressão, mas eu não posso sair da linha, nunca pude, sério, meus dois seguranças tem autorização para me segurar fisicamente caso eu vá fazer alguma coisa estúpida. E agora eu estou indo para a faculdade. Adivinha quem não vai aproveitar nada? Isso mesmo. Eu.  

1 de fevereiro de 2018

Espelho, espelho meu

É muito difícil observar alguém sofrendo como você já sofreu, pelas mesmas coisas. Cada momento de aflição para a pessoa é um momento em que você relembra seu próprio sofrimento. Você tenta aconselhar, tenta ajudar, deixar a pessoa mais calma, que ela pelo menos saiba que não está sozinha, mas ao mesmo tempo você sabe que ela não vai escutar, porque você não escutou, porque você achou que não iria acontecer com você, que aquela era a realidade da pessoa que te falava e então... então você vive essa realidade e não percebe que tentaram te avisar. Pelo menos até que a ficha caia e você perceba que está no mesmo barco que aqueles que tentaram te ajudar.

A menina nova do meu trabalho tem sofrido com o chefe, as reclamações dela são tão familiares aos meus ouvidos que me fazem suspirar de pena e contenção. A vontade de levantar do meu lugar e ir falar tudo o que penso é grande, mas respiro fundo, digo para ela fazer o mesmo, que ele não vai mudar, que as reclamações dele não querem dizer que você seja ruim no seu trabalho, é só que ele é controlador, porque é inseguro. Diz que quer que sejamos autônomos, mas monitora até a fonte dos nossos e-mails. Diz que quer pró-atividade, mas tudo deve passar pelo crivo dele antes de acontecer. Não é algo que nós possamos entender, temos apenas que aceitar e fazer como ele quer, porque ele que paga o salário. E racionalmente falando parece bem simples, não é mesmo?

Mas ela está no escritório há duas semanas e teve crises de choro, noites em claro e até estômago ruim por causa da pressão dele nela, das revisões, das críticas e "padronização". E eu? Eu estou com os hormônios regulados, tendo duas semanas mais calmas, enquanto o foco está nela, e sofrendo por antecipação por saber que dia 05/02 paro com os hormônios de novo, e ficarei mal de novo e levarei o que ele diz para o pessoal, e sofrerei e não sei como vou lidar com isso agora.